quinta-feira, 26 de junho de 2008

Outros Silêncios

Mulheres cujos sorrisos escondem silêncios debaixo do olhar, abaixo do sangue, no dentro da pele. Filhos que adormecem por entre o silêncio dos dedos das suas mães. O silêncio do olhar quando enfrenta a rendição. O silêncio em chamas dos incêndios. O silêncio aceso nos olhos de dois inimigos frente a frente. As imperfeições e as impurezas do silêncio pairando no ar. O que resta do silêncio que deixamos por entre as dobras dos lençóis. O silêncio dos insectos nas crostas do verão. O silêncio sussurrando a sua solidão. O silêncio de uma mordaça de aço. O silêncio como sombra que o peito vai recolhendo. O silêncio enquanto lugar da mentira. O silêncio à voz da neve, ao ouvido das águas. O silêncio por entre as hortências junto às ruínas. O silêncio dos namorados aquando do reconhecimento dos cheiros. O silêncio dos frutos desfeitos depois da queda. O silêncio maduro do irremediável. O silêncio do Inverno que te arrefece o peito e faz morada no mais secreto das memórias. O silêncio das coisas sem nome. O silêncio desfeito em cacos. O silêncio que o espelho reflecte em certas manhãs. O silêncio da idade quando se acende nos corpos. O silêncio nocturno das cidades quando os camiões do lixo dobram o fim da rua. O silêncio das palavras nos teus lábios de água. O silêncio de partires sem te despedires do coração. O silêncio líquido das lágrimas que percorrem o abismo da tua ausência. O silêncio em cinzas sobre a terra queimada. O silêncio vivo no coração da alegria. A delicadeza do silêncio no passar do cisne. O táctil silêncio da escrita braille. O silêncio misterioso do nascimento e da morte das nuvens. O silêncio do povo ante o rei decapitado. O silêncio subserviente do povo perante o novo rei. O silêncio vítreo nos olhos do enforcado. O silêncio caindo as mãos, maduro, em polpa. O silêncio quase parado das procissões fúnebres. O silêncio extasiado diante do Belo e do Intemporal. A anatomia do silêncio quando ao comprido aguradando a dissecação. O contrato de silêncio entre os talheres e a toalha de renda branca em ocasiões especiais. O silêncio arrastado dos fantasmas quando pela manhã recolhem aos seus quartos. O silêncio como raiz de todos os medos. O silêncio dos sonhos de um surdo. O silêncio quando no teu peito vêm sossegar os pássaros. O silêncio percorrido dedo a dedo na linha da tua pele. O silêncio debruado a silêncios. O silêncio articulado das grandes engrenagens e dos planetas. Uma máquina de calcular silêncios. O silêncio gasto de tanto ver-se de um velho fabricante de espelhos. O silêncio oculto dos sentimentos desconhecidos. O secreto silêncio das secretas. O silêncio fóssil dos coleccionadores de fósseis. O silêncio calculado das negociações com terroristas. O silêncio maior da morte. O silêncio por vezes discutível de deus. O silêncio dos cretinos que discursam, discursam, discursam. O preciso silêncio das mãos arrancando os caules à terra. O silêncio dos oráculos fazendo seus cálculos. O redondo silêncio das coroas de flores. O pesado silêncio de velhos soldadinhos de chumbo. O silêncio enquanto pó sobre a mesa lá de casa. O doméstico e domesticado silêncio das mulheres.

1 comentário:

Anónimo disse...

Olá
Boa tarde, vim ter aqui por acaso,pk te li no blog, Fundamentalidades, fiquei curiosa e cá estou.Adorei o meu silencio de te ler.Ah és lindo.
Beijinhos de uma kota.