sábado, 18 de outubro de 2008

Silence Music Box - X-Wife - «Ping Pong»

Lisboa Uterina

lisboa
hoje
de repente
lavada a pente
num dilúvio que não lembra a muita gente
parecia
(e por pouco não perecia)
rompidamente de águas
uterina


pedro t neves

Cine-Silêncio - «Le silence de Lorna», de Jean e Luc Dardenne

E entretanto por cá...

... aparecem uns professores deliciados a remar no vazio enquanto cantam a «Grândola Vila Morena» com versos em loas ao computador Magalhães!!! Juro-vos, estive a ponto de deixar de esboçar o mais leve esforço futuro para congeminação de uma qualquer ficção literária. Por outras palavras, estive a ponto de desistir de puxar pela cabeça para criar ficção. É que perante cenas como estas acabo tristemente por chegar à conclusão de que a minha capacidade de fantasiar o mundo e o real é afinal um zero retumbante. E só um, só um, só um mesmo daqueles 'cantores' é que se revoltou e indignou com a abjecta cena? Não sei porquê lembro-me do romance do John Steinbeck, «Ratos e Homens»...

E eles a Dallas

Obama e McCain continuam a divertir o mundo com os seus pseudo-debates estudados ao milímetro -- era capaz de garantir que não há uma partícula de caspa que caia do cabelo de um deles sem que isso tenha sido previamente decidio ou combinado pelos respectivos staff. O mais extraordinário é que neste interim propagandístico a coisa, dita campanha, vai rolando (esbanjando) milhões de dólares, enriquecendo sabe-se lá quem, tal como se fosse um negócio (mais uma negociata), que outra coisa não é, tal como os dois negoceiam quem irá amanhã gerir os destinos do mundo. Um não será certamente diferente do outro, e a eleição de um ou de outro em nada irá mudar os destinos do mundo, moldados que estão ao status quo diplomático-internacional feito à sua medida, desejos e desmandos. Por outras palavras, saiam quando saírem dos 'iraques' em que estão atolados até ao pescoço, certo será que os EUA, de Barack ou do senhor John, irão continuar a intervir militarmente pelo globo onde e quando o entenderem ou quando a economia de guerra o pedir; pelo menos até que, daqui por mais uns anos, potências emergentes como a China ou a Índia cresçam o suficiente para começar a inverter as regras do jogo internacional; é esperar para ver, basta olhar para o passado e percepcionar a lei dos grandes ciclos de dominação histórica a funcionar no mapa do tempo. No mais, acho interessantíssimo a quantidade de portugueses que entretanto viraram politólogos encartados, opinando quase diariamente sobre o evoluir das sondagens e dos debates, quase nenhum se atrevendo a dizer do quão triste é todo aquele espectáculo teatral que, vai-se a ver, o mais certo é vir a acabar com a mesma patranha da anterior eleição presidencial, que reelegeu o cowboy Bush júnior burlando o pacífista-benemérito-ecologicamente-bem-comportado Al Gore na contagem dos votos. E na altura alguém reclamou? Ninguém. O mundo civilizado do concerto das nações ofendeu-se com a rasteira anti-democrática? Na... O que espanta é que enquanto tudo isto decorre o futuro do mundo vai ficando mais e mais negro, ou seja, nenhum daqueles cavalheiros fala do que realmente importa: por exemplo, da fome em África e no mundo; por exemplo, da chacina amazónica; por exemplo, do degelo glaciar; por exemplo, da emissão de gases poluentes, etc. Pois, milhões e milhões de almas, que mais parecem fantoches com bandeirinhas na mão, preferem (agora) debater a vida de um anónimo Joe Plummer, parecem mais interessadas no divórcio da Madonna, parecem mais interessados em ouvir dois títeres (sabe-se lá nas mãos de quem) que o mais que sabem, na presente crise, é pedir aos cidadãos que confiem neles! Confiar neles? Então não foram eles que puseram isto no estado em que está? Já não sei, talvez o modelo indiano venha melhorar as coisas, um dia... Fantochada total esta novela a la Dallas ranch: só falta mesmo a estorieta de um qualquer blow job na família de um dos candidatos para animar a coisa até daqui a três semanas. Vão ver que ainda há-de aparecer, era capaz de apostar.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

E agora para um momento poético - Durs Grünbein

Após uma última ronda por Florença, ao terminar
de autocarro uma mega-excursão pela Europa
um velho japonês sofreu uma convulsão, tão repentina
que a suspeita recaiu sobre a comida: ouriço do mar com esparguete envenenado.

Os olhos tinham-lhe saltado das órbitas, na testa
corria um suor frio, as mãos estremeciam como sobre arame electrificado,
e ele balbuciava sem parar... «Berlim»... «Paris»... «Estocolmo»... «Madrid».

Só dias mais tarde se confirmou o diagnóstico. Um relatório
referia-se a colapso devido a choque cultural.
Se alguns sucumbem a uma insolação, o homem do Japão foi vítima
do invulgar Síndroma-Stendhal em terceiro grau, consequência

das muitas Torres Eiffel, Catedrais de S. Pedro, Prados...

Ó tu, turista e viajante em grupo, venhas de onde vieres,
não esqueças nunca o japonês que se sentiu mal. Lembra-te
quando vires prospectos e vídeos sobre férias

que poderás nunca mais regressar da terra desconhecida.

Durs Grünbein, «Aos Queridos Mortos», Angelus Novus

Histórias Fulminantes 96

A respeito das mais diversas questões era um homem que tinha o princípio de nunca partir do princípio. Era um bom princípio, mas partir do meio também não se revelou alternativa credível; ou era considerado batota ou privava-o de todos os dados relevantes para uma correcta apreciação do mundo à sua volta. Concluiu, por conseguinte, que era melhor partir do princípio mesmo que esse não fosse o melhor princípio, senão o melhor para chegar a um bom fim.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Silence Music Box - The Go Find - «New Year»

Silence Music Box - Santogold - «Lights Out»

Silence Music Box - Rogue Wave - «Publish My Love»

Deer Hirst, dear CCB


No Museu de Arte Contemporânea de Denver, USA, uma exposição do polémico Damien Hirst, onde, entre outras obras, se pode apreciar este 'estimulante', literariamente pensando, «Saint Sebastian, Exquisite Pain», de 2007. E isto faz-me pensar, e ter saudades, dos tempos em que o CCB ainda trazia até nós grandes exposições, dignas dos grandes museus internacionais... Deu nisto a Colecção Berardo; houve quem na altura tivesse avisado, agora xarope!

Silence Music Box - Arsenal - «Estupendo»

Silence Music Box - Kings Of Leon - «Sex On Fire»

Do livro «O'Neillianas com a Devida Vânia»

in café veritas

diz a marquesa
ao chiado
esticando o dedo muito tesa
sobremesa, sobremesa
soufflé, soufflé!

diz o pedinte
chiando
esticando a mão com delicadeza
sob a mesa, sob a mesa
sofrê, sofrê!

Pedro Teixeira Neves

Histórias Fulminantes 95

Passando na rua frente a um espelho um homem viu nele reflectido um pássaro. Quando se voltou para observá-lo sem reflexos percebeu que, nessa fracção de segundos, ele desaparecera do céu. Desiludido, voltou-se de novo para o espelho e nesse momento o espelho nada reflectia.

O Problema de Deus

b. era grande, gordo
desajeitado com o corpo e com
as mãos

organista toda uma vida na mesma igreja

teve um filho
esse filho fez-se músico
teve um neto
esse neto fez-se músico

nunca, ninguém
tanto --
-- o coração de deus

deus esperou

esperou que ele fizesse o seu trabalho
deixou-o tocar e compor e
ter um filho e
um neto
depois levou-o

deus, às vezes dá tempo
outras

Frederico Mira George, «Caixa Negra», Ed. Quasi

Rawi Hage


Ainda não vos disse, mas terminei há dias um dos melhores, senão o melhor livro do ano: «Como a Raiva ao Vento» (no original, de 2006, «De Niro's Game»), de Rawi Hage, Editora Civilização.

Da Carochinha

E então estes tipos dos bancos que andaram durante meses a alardear lucros fenomenais estão agora a ser ajudados pelo Estado... E então os grandes gestores são afinal umas nulidades... E então o Governo vem agora com uma série de medidas com vista a aligeirar o aperto do cinto dos cidadãos... e então o cidadão pergunta: bom, se o fazem agora não o poderiam ter feito antes? pelos vistos era só uma questão de vontade... ou de falta dela?

1 de Abril, hoje? Como o tempo passa!

Leio nos jornais que Pedro Santana Lopes se vai recandidatar a presidente da CMLisboa.

E, vasta audiência, o endereço net da associação de estranho nome abaixo citada é

http://quarta-parede.blogspot.com

terça-feira, 14 de outubro de 2008

A pedido da Quarta Parede...

... escrevi o texto que no blog da dita associação se pode ler acerca do estado da imprensa cultural em Portugal. É o que poderão ler clicando em http://www.box.net/shared/7ljrzcnkoj.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Jerusalém às Tábuas no CCB


JERUSALÉM é a terceira incursão que O Bando, com direcção de João Brites, faz pela obra de Gonçalo M. Tavares. Este caminho começou por ser trilhado em 2005, juntamente com o Grupo de Teatro As Avozinhas, da Associação de Idosos de Palmela, criando, no contexto do Festival Internacional de Artes de Rua, o espectáculo OS HENRIQUES, a partir d’ «O Senhor Henri». A esta experiência seguiu-se uma outra na Escola Superior de Teatro e Cinema, onde Brites trabalhou o livro «Um Homem: Klaus Klump» com os seus alunos.


De 23 de Outubro a 2 de Novembro

Centro Cultural de Belém

De repente a velha máquina de escrever despertou-me a atenção e duvido que um pc tenha a mesma beleza















segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Fico curioso e com vontade de lá estar


Possidónio Cachapa em homenagem a Urbano Tavares Rodrigues


17 de Outubro, Cinema Londres (2), 18h

20 de Outubro, Culturgest (Grande Auditório), 23 h

DocLisboa - 6º Festival Internacional de Documentário

Cardoso Pires lembrado no CCB a 26 próximo


Leituras:

Das 14h30 às 16h15 - Sala Almada Negreiros – entrada livre até máximo da sua lotação

14h30: António Mega Ferreira

14h45: Inês Pedrosa

15h15: José Eduardo Agualusa

15h45: Mário de Carvalho

16h15: Lídia Jorge


Conferência:

17h15- Sala Almada Negreiros – entrada livre até máximo da sua lotação

João Lobo Antunes – “Memória e auto-ficção”


Filme:

18h30 - Sala Almada Negreiros – entrada livre até máximo da sua lotação

«O Delfim» - Realização Fernando Lopes

2002, 83’(Argumento de Vasco Pulido Valente, com Rogério Samora e Alexandra Lencastre)


Exposição:

Ilustrações de João Abel Manta para «O Dinossauro Excelentíssimo», (1972)

Foyer da Sala Almada Negreiros

Entrada Livre

MEC e eu armado em patriota ofendido ou não há pachorra para esta gente que há-de levar a presunção para a cova

Ouço o desaparecido MEC na TSF, à conversa com um Carlos Vaz Marques sempre de sorriso nas perguntas, e pasmo ante o pedantismo do entrevistado. Provavelmente será defeito meu, provavelmente todos terão achado o máximo as já habituais tiradas do Miguel, sempre muito directo, cheio de humor, sempre muito crítico para com o Portugal que o viu nascer. MEC está cada vez mais parecido com o Saramago, atira à esquerda e à direita, contra tudo e contra todos, e depois diz-se um conservador light, com a diferença de que o nosso Nobel se vai revelando também um comunista light. Eu não gosto destes génios ("sábio", no seu dizer de quem entrou nos cinquenta) que transpiram arrogância e se dizem melhores entre os melhores - MEC referiu, por exemplo, que tem uma arca cheia de coisas por publicar, segundo ele não publicadas porque, justamente, não são boas o suficiente... Em que ficamos? É ou não é genial o rapaz do laçarote? Disse depois que tem prioridades e não lê os escritores portugueses. Atenção, não lê, mas garante que não presta, tudo! À excepção de Agustina. Não lê, porque ainda lhe faltam os russos e alguns ingleses... Epá, ó Miguel, aos cinquenta anos já era tempo de acordar, isso é o mesmo que dizer que o nosso teatro não presta para nada, que os nossos músicos ou os nossos artistas plásticos não prestam para nada; mas alguém acredita nisso? É espantoso que um homem com esta idade (para mais, um "sábio") perca tempo e brio a dizer estas banalidades e com tamanha falta de originalidade, porque não deve haver um só português que não diga mal do seu país, como não haverá um albanês que o faça, um chinês que o faça, um húngaro que o faça, um italiano, etc. So fucking british!

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

O Problema do Autor

«En el poema, el autor entra a machete en una selva de señales confusas, nada sabe; más bien, obedece un impulso que nace en su interior y que lo obliga a avanzar casi a tientas. Se reconoce a veces en esas señales que vienen de otros mundos y siente un terror abisal de ser devorado por aquellas fuerzas impalpables.»

Blog Cantarola

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Leituras Interessantes


O Problema dos Domingos

«O padeiro desloca-se a Oliveiras diariamente às 9 horas, exceptuando o Domingo.»

Site da aldeia Oliveiras

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

O Tremoço


Sabia que no século XVIII a água de cozer tremoços era indicada como protector solar para o rosto e o pescoço? Sabia que tremoços eram o alimento preferido dos filósofos gregos? Sabia que nas antigas comédias romanas os tremoços eram utilizados para simbolizar o dinheiro? Sabia que os tremoços são aconselhados para combater o colesterol? Estas e outras curiosidades sobre os tremoços podem ser encontradas no mais recente volume «B.I. do Tremoço», da autoria de Paulo Moreiras, integrado na colecção «Bilhete de Identidade», do Instituto de Estudos de Literatura Tradicional (IELT) e publicado pela editora Apenas Livros. Eu recomendo, porque há poucas coisas assim e ainda menos gente a fazê-las, sobretudo bem, como o Paulo. Para encomendar: Apenas Livros Tel/fax: 21 758 22 85

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

O Problema dos Domingos

«Duas pessoas que mal conheço (o tipo do café e a rapariga da caixa do supermercado) mais um amigo próximo repetem-me hoje igual pergunta: se vou ver a Madonna? Não, not my cup of tea. Meia Lisboa estará por esta altura na Bela Vista. Morro de chatice nos domingos; julgo que deviam ser abolidos.»

Blog Cruel Vitória

sábado, 20 de setembro de 2008

O Problema do Autor

«Penso que seria um mau escritor se fosse "feliz": escritores felizes não têm nada para contar.»

Jorgen Brouwers, «Vermelho Decantado», Teorema

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Início de um novo conto

Não há-de ser nada, hoje em dia os bons casamentos começam e terminam com lágrimas, e bons, bons são-no todos apenas no dia do casório,
que linda que está a noiva,
que casal tão bonito,
e o primeiro filho, é para quando?,
já têm casa?,
e a lua-de-mel, onde vai ser? Caraíbas? Antilhas? Brasil? Pipa?
Pipinha, nesses dias eu era a Pipinha, e, sim, de facto, fomos para Pipa, as fotografias estão para aí algures metidas num armário ou numas gavetas, em três ou quatro volumosos álbuns, uns cartapácios cheios de lembranças de um suposto amor e falsas alegrias, o parvalhão tinha comprado de propósito uma máquina digital nova, cheia de mariquices e outras merdas, e andava armado em fotógrafo, artista, sabem?, durante os meses de ilusão gastou-me uma fortuna em porcarias para a máquina, lentes especiais, objectivas, filtros, eu sei lá que mais...

O Problema dos Domingos

«Era Domingo. Chance estava no jardim. (...) Horas mais tarde, enquanto via televisão, Chance ouviu sons de luta vindos dos andares superiores da casa. Deixou o quarto e, escondido por trás da enorme escultura do salão, viu os homens a carregar o corpo do velho. Com a morte deste, alguém teria de decidir o que iria acontecer à casa, à nova criada e ao próprio Chance.»
Jerzy Kosinski, «Chance», Livros de Areia

O Problema dos Domingos

«eu de calças de malha e meias pela casa aos fins-de-semana, uma fita desbotada a segurar-me o cabelo como uma gaze para que a cabeça não abrisse, o Afonso sem rosto no sofá, as pernas cruzadas, o tronco e logo o jornal, aos domingos não se barbeia e a cara fica-lhe da cor das notícias...»

«Amores Finitos», António Machado, Edições Quasi

terça-feira, 16 de setembro de 2008

O Problema de Deus

"Crer num único Deus parece-me de uma miséria. Havendo tantos deuses, crer num só é um excesso de economia".

Jorge L. Borges, Borges Verbal, Pilar Bravo e Mario Paoletti, A&A, via blog quandooreierasabao

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Outros Silêncios

«O silêncio que não se ouve. Apenas se vê. A esfera vazia e ainda assim, preenchida pela ausência de luz. Fechado entre os seus dedos, o silêncio conhecia a textura de uma prece antiga. Uma reza sem palavras oriunda do cume das montanhas cegas, que iluminam a alma dos mortais. Adormecia assim, a contemplar o silêncio cujas raízes nasciam-lhe dos dedos.»

Beatriz Hierro Lopes, blog Atthestillpoint

O Problema do Autor

«Ser sem explicar. Ser sem si mesmo. Ser como o poeta sem seu próprio destino. Ser assim desaparecido e escrever apenas mais um poema, um último primeiro verso na solidão de ser apenas um.»

António Quadros Ferro, blog Cadernos

O Problema do Jornalismo

Dizer e escrever aos quatro ventos que são muito bons certos romances que não se leram mas que todos dão como adquiridos serem pérolas da literatura. É o que acontece, por exemplo, com a recente edição de «Os Detectives Selvagens», de Roberto Bolaño. Eu gostava apenas de ter tempo para o ler. Até lá, calo-me.

domingo, 14 de setembro de 2008

Histórias Fulminantes 94

Acordou em sobressalto, lavado em suores. Tinha tido um pesadelo: estava preso, preso, sufocava, não conseguia libertar-se. Tentou então levantar-se e foi quando percebeu que não conseguia desunir as mãos. Olhando sobre a barriga, com um estremecimento de morte observou que os nós dos seus dedos estavam entrelaçados uns nos outros. Nesse momento, antes de desmaiar, um dos nós desceu-lhe à garganta. Quando voltou a acordar estava preso a uma cama de hospital.

Play Station 2

Play Station 2

- Queres jogar este?
- Ok. Pode ser.
- Mas sabes jogar?
- Sim, sei.
- De certeza?
- Sei, é fácil. É só matar, não é?

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Histórias Fulminantes 93

Compareceram todos os companheiros de ofício: as maiúsculas e as minúsculas, todos os pontos - de interrogação, de exclamação, o ponto e vírgula e os dois pontos -, o travessão e o hífen, o acento circunflexo e o til, as aspas (ao baixo e ao alto), a vírgula, e, coisa que surpreendeu alguns, porque não se davam com ela por aí além, marcaram também presença o cardinal e o trema. O discurso de despedida coube, muito naturalmente, ao ponto final. Depois, fez-se parágrafo, e todos se foram embora chorando as melhores lembranças da letra morta.

O Problema do Autor

«Onde floresce
Onde floresce
Onde floresce o terror puro

Poeta,
é o teu lugar»


Reinaldo Arenas, «O Engenho»

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

De uma ida ao Porto e de um projecto em curso











Mais um início de conto

O general Gilles Boyard faleceu num domingo, que era o dia que escolhera para descanso desde que achara que precisava de descomprimir. Militar de carreira, já com mais de três décadas e inúmeras medalhas e louvores no currículo, era um homem tão temido quanto destemido. Aqueles que o temiam – e pode dizer-se que eram todos quantos o conheciam –, os que tinham o azar de prestar serviço militar sob o seu comando, só de o ver à distância ficavam a tremer que nem varas verdes, na perspetiva de que por um qualquer motivo ele viesse dirigir-lhes palavra. Aqueles a quem calhava dirigir-lhes a palavra, não raro chegavam a liquefazer-se em águas pelas pernas abaixo tentando apenas disfarçar a vergonha como podiam, apenas dizendo «sim, meu general, com certeza meu general», fosse o que fosse que o velho militar lhes ordenasse ou motivo pelo qual os repreendesse. ...

O Problema do Autor

«Escrever só para mim. Esquecer os outros. Deitar fora a exaltação estética. Ao escrever-me, faço-me com o que não sou.»

Pedro Paixão, «Quase gosto da vida que tenho», Quetzal Editores

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

O Problema de Deus - 4

X: Por que acreditas em Deus?
Y: Porque neste mundo, casado, com filhos, com pai, com mãe, sinto-me sempre sozinho.
X: Precisas de amigos?

Paulo R. Ferreira, blog zeromaisquatro