terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Há dias pude fotografar os originais de Luiz Pacheco, aí estão com a «foto» do pseudónimo Delfim da Costa em primeiro lugar








Silence Arts News


Evelina Oliveira nasceu em 1961. A artista tem desenvolvido o seu trabalho de pintura em duas linhas diferentes mas complementares, num equilíbrio bem gerido e sabiamente mantido. A primeira linha, é um projecto já com 10 anos de duração que apresenta uma pintura mais conceptual, com preocupações que ultrapassam a simples esfera artística e que se cruzam com os domínios da biologia, da afinidade ou da diferença entre as diversas possibilidades de vida. Uma outra faceta, aquela em que Evelina Oliveira investe a sua criatividade intuitiva, deriva de uma pesquisa íntima e pessoal, de uma busca de memórias, de uma atitude introspectiva. Estas obras, agora patentes ao público na São Mamede de Lisboa, conduzem-nos a referências múltiplas do nosso imaginário infanto-juvenil, apresentando um carácter muito mais figurativo e até narrativo. É a partir deste domínio que igualmente têm surgido ilustrações para obras literárias infanto-juvenis, designadamente a conhecida obra «Rosa, Minha Irmã Rosa», da escritora Alice Vieira, bem como muitas outras ao sabor de circunstâncias e convites em que a artista se vê envolvida. «Imaginary Friends» reporta a perguntas figuradas. Evelina Oliveira dirige-se a si mesma, questiona-se sobre o envolvimento com o seu próprio trabalho analisando os fundamentos de uma permanente e intrínseca dualidade, interrogando-se sobre a necessidade e vitalidade dessa dualidade. Para ver na Galeria São Mamede, à R. da Escola Politécnica, 167, em Lisboa, nos dias úteis, entre as 10 e as 20h00, aos sábados, das 11 às 19h00.

Outros Silêncios

«A relação pessoal com o silêncio pode ser algo de muito ruidoso. O silêncio é cada vez mais uma ideia romântica na medida da impossibilidade de ser alcançado na sua forma absoluta: no limite, podemos ambicionar o silêncio acústico, traduzido numa sensação de quietude ambiental na paisagem sonora que nos rodeia, mas nunca o silêncio físico.»

Jorge Mantas, «Textos Pretextos»

Lisboa por aí...


Porque é que isto me traz à cabeça estas histórias de caixas gerais, bêcêpês e a modesta reforma de Paulo Teixeira Pinto e outros que tais...

«Era filho de um funcionário que em Petersburgo fizera, em vários ministérios e departamentos, a carreira que leva os homens a uma posição em que, embora se perceba claramente que não servem para desempenhar qualquer cargo importante, não podem em todo o caso, devido ao longo serviço passado e à sua categoria, ser demitidos e por isso obtêm cargos fictícios inventados e salários nada fictícios de milhares, de seis a dez, com os quais vivem até avançada idade.»

«A Morte de Ivan Ilitch», de Lev Tolstoi

Histórias Fulminantes 67

Encontraram-no afogado na grande fonte do jardim municipal. Ou como titulou um dos jornais na manhã seguinte, ficou «Retido na Fonte». Dias antes soubera-se que burlara o Estado em complicados esquemas de falsas retenções na fonte. Pela boca morre o peixe.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Silence Music News - Joe Jackson, novo álbum a 28 de Janeiro


Histórias Fulminantes 66

O senhor K. era um homem triste. Aproveitando ter sido o primeiro a chegar ao local do crime e apercebendo-se de que a vítima morrera com um sorriso nos lábios, roubou-lho! Era a oportunidade pela qual esperara a vida inteira. Quando a Polícia chegou deparou-se com dois crimes, tendo as suas primeiras suspeitas recaído sobre o senhor K. que, em declarações para os autos, sorria sem que os agentes percebessem bem porquê.

Lisboa por aí...


Silence Music Box, Chk Chk Chk, «Myth Takes»


sábado, 19 de janeiro de 2008

Outros Silêncios

«O caixão avança devagarinho, atrás a multidão geme silenciosamente. Um silêncio feito de murmúrios e rumores, de chilreares de pássaros invisíveis e da cantoria fantasmagórica dos sinos, de arrastares de pés e estalos de bengalas.»

Paulo Kellerman, «Os Mundos Que Partilhamos», Deriva

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Lisboa por aí


Histórias Fulminantes 65

Consta que morreu triste certo cozinheiro nazi por nunca ter conseguido realizar o sonho da sua vida: fazer uns bifinhos de peru com cogumelos de Hiroshima.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

O problema do Sporting é, tão-só, falta de...

Confiança...

Subtileza...

Toque de bola...
Técnica...

Souplesse...

Garra...

Poder de drible...

Raiva...

Elegância...

Beleza natural...

Acreditar...

Tranquilidade!

Histórias Fulminantes 64

Encontrada morta no sexto andar do hotel onde estava hospedada, a ex-Playboy de seios avantajados foi ainda sujeita a massagens cardíacas por mais de uma hora...

Amor aos Pedaços - O texto

A Minnie é uma gatinha afável e brincalhona, mas é provável que esteja assustada e não se deixe agarrar. No entanto, não arranha nem faz mal. Para atrair a sua atenção, pode fazer-se barulho com um plástico pequeno. Tem olhos azuis, embora a maior parte das vezes só se veja a iris castanha. Tem porte pequeno e magro.

Amor aos Pedaços


terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Silence Music Box, Ferruccio Spinetti/ Petra Magoni

A Demanda do Bravo Cavaleiro Dom Quixote - Capítulo Final

XXII.

Coitado do Pai Natal. Menção à Final Feliz. O bravo cavaleiro esmorece. Pensou em escrever crónicas, pensou até em mudar de visual. O cavaleiro Dom Quixote montado no seu cavalo? Garanto pela vidinha e saúde das minhas filhas.


Quem já não acreditava no Pai Natal nem em ninguém era Dom Quixote que, após dias e dias de errância pela capital lusitana, quase que desistira por completo, e por faltas de força, dos seus propósitos iniciais, de quando desandara da Dom Quixote animado em provar ao mundo da edição que ele ainda tinha muito para dar à literatura portuguesa. Que o mundo da edição não tinha perdido por completo a dignidade, que o último reduto da moral ainda reunia forças suficientes para resistir, para invocar novas ninfas éticas e imprimir à literatura lusa um crivo de verticalidade que lhe escapava a cada dia que passava, a cada nova editora que surgia no mercado com intuitos meramente economicistas. Não, com Dom Quixote a esperança não morreria, pois ele, bravo cavaleiro, qual Camões a nado agarrado a’«Os Lusíadas», levantaria bem alto a bandeira das Letras nacionais... Mas isso, isso foi no início, e aqui foi assaz referido e enaltecido pois era de um herói que falávamos, de um herói que continuamos a falar, e um herói deve sempre ser apresentado ao leitor como garante último das virtudes humanas. Agora, infelizmente, e bem ao contrário, o ânimo de Dom Quixote esmorecia. E como recriminá-lo? Espírito algum, verdadeiro amante dos livros e da palavra, poderá resistir por tempo eterno à devassidão da essência do livro? Qual o amador do texto e das ideias que consegue assistir, impávido e sereno, ao aviltamento do livro, ao estupro literário a que o condenam as supostas e teóricas necessidades de um público que não vê nele senão a porta para a coscuvilhice, para o reles e primário acerto de contas, para um confessionalismo amoroso de índole “folhetinosa” e pretensamente emocional, que não vê no livro senão um espelho de papel das vaidades próprias?
Dom Quixote tinha batido a inúmeras portas de diversas editoras, jovens empresas que pululavam como cogumelos na realidade editorial portuguesa, mas de todas tinha saído tal como entrara, isto é, excluídos lança e escudo, sem nada nas mãos. O bravo cavaleiro tinha-se sujeitado a enfrentar de mão estendida meros pretendentes à condição de editores, quando todos eles desmerecem o epíteto, todos eles não passando de meros predadores do livro, da sua essência, do seu mais profundo significado. Todos eles também vermes que vão sugando o espaço de mercado, afastando das estantes, das montras, das livrarias, os verdadeiros livros, as vidas e as histórias que contam, os livros fervilhantes de imaginação, de fantasia, de magia, de onírico, de invenção, de criatividade. Porque o verdadeiro livro é esse, um objecto que cria, que ilumina, que revela novos mundos, que acrescenta, em si um acto de criação. Pequenos mundos que se acrescentam ao mundo. Escrever é ousar experimentar o acto da criação. É partir do nada, que é o mundo à nossa volta, e acrescentar uma letra ao universo da criação. Naturalmente, tudo teorias e lirismos que escapam à regra do lucro fácil e rápido que move esses novos pretendentes a “editores”.
E naturalmente que ninguém tinha apostou verdadeiramente nas qualidades de Dom Quixote, ninguém sequer lhe concedeu o benefício da dúvida, uma hipótese, ténue e singela que fosse, até por cortesia, para mostrar o seu valor, para imprimir força às suas ideias e convicções, para mostrar que o livro Livro não tinha morrido, que o Livro haveria de sobreviver. Mas não, o mais que ele logrou alcançar, pobre e parca conquista, fora o convite estapafúrdio e indignante do Hare-editor da Oriente(-se). Não, minto, tivera ainda uma outra proposta, uma original proposta vinda de uma outra editora de nome curioso, a Final Feliz, que, como se adivinhará, tinha chegado ao mercado apenas para editar livros com final feliz! Pois o director da Final Feliz, em abono da verdade, também se compadecera do bravo cavaleiro e chegara a propor-lhe que escrevesse um livro em que Dom Quixote e Dom Chicote se bateriam em duelo na Praça de Toiros do Campo Pequeno (com entradas pagas a reverter directa e naturalmente para os bolsos da Final Feliz). Dom Quixote, obviamente que seria o vencedor e sairia da arena em ombros aclamado pelo povo...
Foi depois de todas estas andanças e desventuras que um certo dia um assomo de depressão assentou praça no peito de Dom Quixote. Retirou-se das ruas centrais de Lisboa para um local recôndito onde poucos o pudessem ver, e aí, pensou e pensou, remoeu e remoeu a sua vida e a sua desdita. E pensou até que não podendo vencer as regras do novo mercado, julgou por momentos que o melhor que faria era juntar-se-lhes ou jogar com elas. Pensou até em aceitar uma proposta da Star Books para pôr a sua vida em livro, pensou em aceitar escrever crónicas semanais para um jornal diário e para uma revista semanal do coração («Cartas a Dulcineia», sugeriu o director do “pasquim”), pensou também em escrever este livro que o leitor tem em mãos (dizem mesmo que terá escrito umas páginas, desinteressando-se depois do projecto por achar que nenhuma editora teria coragem para se interessar por ele), pensou até em mudar de visual, tanto que tinha ouvido falar em imagem e na importância do parecer nos dias de hoje. Mas logo, logo, ao pensar em tudo isso, se julgou louco (mais do que literariamente era) e, imaginando-se de cabelo, bigodes e barbas cortados, de fato e gravata montado no seu Rocinante, achou a visão tão ridícula que no imediato abandonou tais estapafúrdios projectos. Recriminou-se mesmo por ter vacilado, por ter sequer imaginado em juntar-se à lógica assassina do mercado. Não, não poderia fazê-lo, jamais, jamais o faria.
Nesse dia, nesse exacto dia em que tal certeza, tal pensamento acudiu à sua mente, Dom Quixote decidiu partir. Sim, antes partir do que ceder, do que alinhar, do que se vender. E a verdade, a verdade é que nesse dia em que Dom Quixote desapareceu em direcção a Este, provavelmente em direcção à sua terra Natal, diluindo-se na linha do horizonte até se transformar num ponto que, também ele, depois desapareceria, o céu, quase de um momento para o outro, encheu-se de nuvens brancas que entrando em colisão umas com as outras originaram uma tempestade como havia muito por ali se não via. «Parecia que o céu de repente se fechava como um livro grosso, com enorme estrépito, bramido e fragor», testemunhou um aldeão de um lugarejo ali próximo, um pouco para lá da ponte Vasco da Gama. Ao que outro, corroborando a impressão do primeiro, ajuntou, em directo para as câmaras de televisão: «E logo a seguir, o mais estranho de tudo, é que mal as chuvas e os trovões se calaram, as nuvens todas se juntaram dando forma a uma figura que, garanto pela vidinha e saúde das minhas filhas, era a do cavaleiro Dom Quixote montado no seu cavalo. Mas isso foi coisa de segundos, depois o cavalo levantou as pernas dianteiras – aquilo mais parecia o cavalo do John Wayne –, para logo de seguida cavaleiro e montada se virarem e partirem a galope esfumando-se as nuvens de que eram feitos num céu de um azul puro.»
Nessa mesma noite, ao saber dos acontecimentos pelo telejornal, o ex-director editorial da Dom Quixote, actual director da Dom Chicote, teve dificuldades em adormecer e quando o conseguiu foi no imediato assolado a noite inteira por pesadelos em que o bravo cavaleiro, montado no Rocinante, corria atrás dele de lança em riste, até que ele acabava por cair num abismo ao fundo do qual lhe aparecia Etelvina Prazeres vestida de diabo, com tridente na mão, rindo-se para ele às gargalhadas.

FIM

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Outros Silêncios

«Gostaria de romancear a minha limitação, de me reconstruir como heroína predestinada. Se acreditasse verdadeiramente num Deus, diria que fiquei cega para conseguir valorizar o escuro e o silêncio, o não sber o caminho.»

Inês Pedrosa, «A Eternidade e o Desejo», Dom Quixote

domingo, 13 de janeiro de 2008

sábado, 12 de janeiro de 2008

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

E agora para um brevíssimo momento poético-festivo

Festa Rija

Solidão,
não.
Sol e Dão
sim!

O Problema dos Domingos

«Domingos divertidos passam estas raparigas em Braga! Quase tanto como o V.S. a preparar as suas petições para o ministro limpar o rabo a elas.»

Luiz Pacheco, «O Libertino Passeia por Braga, A Idolátrica, o seu Esplendor»

Projecto «TÉCNICAS FOTOGRÁFICAS»
























A Demanda do Bravo cavaleiro Dom Quixote - Capítulo XXI

XXI.

De regresso à Residência Literária. Os ímpetos vulcânicos do vereador da Cultura. O caldo entornado. Os escritores, essa tropa de vadiagem. Salvador de novo agarrado aos estofos do BMW. Um reencontro animado e cheio de novidades. Uma tese de doutoramento e a Peso Pluma.



Retrocedendo neste relato até terras da autarquia onde decorria a Residência Literária, na qual participavam Etelvina, cinco colegas seus e respectivos seis escritores-fantasmas, lembramos que estávamos no ponto em que os escritores reais (atenção, não se confunda com o verdadeiro escritor Miguel Real) tinham acabado de apanhado um grande susto com as brincadeiras nocturnas dos escritores-fantasmas. Estavam ainda no primeiro sonho, não gostaram da brincadeira, mas quem estava a gostar dela, ainda que de outra índole, era Etelvina Prazeres que na sua já famosa suite 69 descobria vulcânicos ímpetos ao vereador da Cultura.
O vereador, recordemos, tinha bebido uns copitos na Feira do Livro e também ele, na ocasião (que se faz o ladrão, como é sabido, passa a saber-se que também faz o vereador) se tinha posto a lançar olhares gulosos a Etelvina a qual, não se fazendo rogada, lhe respondia olhando-o de alto a baixo, entre um autógrafo e outro, pondo por momentos a língua marota ao canto da boca. Topando a cena à distância, o presidente, retido pela conversa da directora da Biblioteca Nacional, roía-se todo, tanto mais que na ocasião nada podia fazer para evitar aquele comércio de olhares já que ali presente, junto de si, estava também a sua esposa que não lhe largava o braço. A verdade é que, como atrás referimos noutro capítulo, autora e vereador se entenderam muito bem no regresso ao Turismo Rural, tecendo-lhe ela verdadeiras loas pelos seus dotes de bailarino e retribuindo-lhe aquele com beliscadelas nas carnes ao arrepio dos olhares dos escritores.
Aí chegados, os dois demoraram-se em estratégica conversa no bar, esperando apenas que os escritores tratassem de recolher aos seus leitos. O que logo aconteceu, tendo autora e vereador aguardado mais um tempinho julgado necessário para que adormecessem. Não tardou que terminassem as suas bebidas e juntos recolhessem ao 69 para umas avarias controladas, já que Etelvina, depois do que vira nessa manhã, com o vereador cheio de falta de ar agarrado à porta da suite, não queria arriscar em excesso, não fosse o diabo tecê-las e pregar uma partida ao coração do vereador e, por decorrência, ao seu, coitadito. Alegrar-se-iam, contudo.
E os mistérios do ser humano são por demais insuspeitos. Tivessem confiado a Etelvina que aquele vereador, de ar perfeitamente banal, era uma verdadeira esmeriladora do sexo e Etelvina, com toda a sua experiência jamais teria acreditado em semelhante dislate. Só que a realidade era outra e aquele homem de pobre e fraca figura escondia em si (e agora o revelava) um verdadeiro vulcão, um furacão, um tsunami! E que tsunami cheio de surpresas! Enquanto satisfazia a autora, o vereador declarava-lhe ao ouvido passagens dos «120 Dias de Sodoma», do Marquês de Sade, de «Trópico de Capricórnio», de Henry Miller e Saramago (este autor, confessamos, não chegámos nunca a perceber porquê se encontrava misturado nos sussurros orgásticos do vereador). Era um homem curioso este vereador, uma vez que depois das frases que declamava cavalgando Etelvina, ele próprio se detinha nos seus movimentos para, por momentos a sai próprio se bater palmas. Etelvina, chateada com a ideia, só lhe dizia: «Ai meu vereador, meu vereador, que me cite Saramago ainda vá que não vá, agora que se ponha a bater palmas... isso interrompe-me o gozo, quebra-me o prazer... ai, isso não meu vereador, porque é que em vez das palmas não me dá antes umas palmadas valentes?...»
E nestes meandros se finou o último dia da Residência Literária. Não se pode dizer que tenha sido uma residência profícua em termos de realizações literárias, tanto mais que a experiência acabou por voltar-se muito mais para os domínios da carne do que para os do espírito, e a verdade é que de textos aí exauridos nada vezes nada. Ninguém tinha alinhado uma só ideia, escrito uma só linha. Em consequência, e malgrado a realização de outras actividades, como as diversas supracitadas, houve que tirar consequências políticas desse vazio, desse fiasco, da inexistência de prova material, ao fim ao cabo, da passagem dos ilustres escritores pela autarquia a expensas desta, «e a que expensas!», indignava-se o presidente em sessão de assembleia autárquica. Os assomos de raiva e intuitos de vingança do presidente eram mais do que explicáveis, pois coube-lhe a ele, no dia da partida da comitiva de escritores de regresso a Lisboa, ir ao Turismo Rural para acordar Etelvina e dela se despedir.
Julgara o presidente que era isso, tão-só e simplesmente, que iria fazer. Acordar a autora de «A Verdade de Cristal» e qual princesa a que se dirigisse oferecer-se para seu príncipe em futuros encontros, quer em deslocações, dele, à capital, quer em viagens, dela, ao interior. Chegando ao Turismo Rural como quem a sua casa chegasse, pondo e dispondo, nada perguntando apenas actuando, assim o presidente se aprestou a subir a escada até ao primeiro piso dirigindo-se à suite 69. Pelo sim pelo não, o autarca trouxera os seus óleos, quem sabe à autora apetecesse uma massagem de despedida... Chegado à porta da suite, o presidente bate leve, levemente como quem batesse à porta de um convento. O mais, o leitor avisado, tendo já juntado dois mais dois, acaba certamente de inferir. Quem lhe vai abrir a porta, em trajes menores, é o vereador da Cultura e... e está o caldo entornado.
Foi depois desta cena, e nos dias seguintes, na dita sessão de assembleia autárquica, que o furibundo presidente da Câmara quis tirar consequências políticas do flagrante em que apanhou o seu vereador e Etelvina. Esta, claro, a nossa versão, pois aquilo que o edil aduzia, para a necessidade de se retirarem consequências, era o não cumprimento de um dos objectivos primeiros da Residência Literária, a redacção de textos, por parte dos escritores, que depois seriam impressos pela autarquia em edição da sua responsabilidade. «Que se tinham gasto mundos e fundos com a brincadeira dos escritores, essa tropa de vadiagem», e que ele só via dois repensáveis em todo o processo: a directora da Biblioteca Municipal e o vereador da Cultura. Escusado será dizer que ambos foram destituídos dos seus cargos.
Alheios a toda essa polémica autárquica os escritores e os escritores-fantasmas tinham regressado a Lisboa. José Salvador que até tinha ganho uma corzinha de pele naqueles dias, voltara a perdê-la rapidamente agarrado outra vez aos estofos do BMW de Etelvina que engolia a auto-estrada a quase duzentos quilómetros por hora. Uns e outros teriam muito para contar e para escrever. No mais, a verdade é que, seres realistas urbanos por excelência que eram, já sentiam a falta da grande cidade, do trânsito avançando a golfadas, do tempo contado aos minutos, do stress da chegada ao trabalho e, na verdade, assim tinham confessado uns aos outros, era apenas com essa adrenalina quotidiana que conseguiam encontrar inspiração para escrever.
Etelvina, logo no dia seguinte foi ter com o seu director editorial. Almoçaram juntos e ele riu-se imenso com as histórias que ela lhe contou, que tinham apanhado um tempo excelente, que as sessões de autógrafos tinham sido um sucesso, que ela se sentia agora revigorada para se poder oferecer, de coração aberto, ao acto criativo. O director pô-la também a par das novidades, das notícias relacionadas com Dom Quixote, pois ninguém falava de outra coisa (que, ao que tinha vindo a público num tablóide a Câmara de Lisboa até pensara em erigi-lo a ícone da cidade), avançou-lhe a excelência dos números de vendas do seu livro, que continuava a esgotar edições, não deixava os primeiros lugares dos tops de vendas e, adivinhasse Etelvina, «Etelvina Prazeres – A Verdade de Cristal» ia mesmo ser alvo de uma tese de doutoramento!
Durante o encontro, o director editorial falou ainda a Etelvina dos novos sucessos da Dom Chicote (nomeadamente com o sucesso de vendas de uma nova colecção de literatura gay, a que chamara Peso Pluma), e depois de ter perguntado à autora se o José Salvador se tinha portado bem, o director editorial anunciou a Etelvina que já tinha maquinado o enredo do seu novo livro. Tratar-se-ia de um romance, um romance com cerca de quinhentas páginas, um verdadeiro romance que, de uma vez por todas, a afirmaria enquanto romancista e escritora de vulto. Ao ouvir falar em quinhentas páginas Etelvina assustou-se. «Ai director. Quinhentas páginas? Mas isso deve pesar quilos! E o que é que vamos dizer em tantas páginas?» O director editorial riu a bom rir de tão naives temores. «Não se preocupe, Vi (e já tínhamos saudades de ver assim tratada a nossa autora, facto que só deixou de se verificar, nos últimos capítulos deste relato, porque na província ninguém a conhecia desse modo), está tudo tratado, hoje mesmo vou ter um pé de orelha com o nosso escritor-fantasma e em poucos meses a coisa está tratada. Tem de estar mesmo, porque o livro tem de sair antes do Natal.» «Ai, director, já estou nervosa, gosto tanto do Pai Natal».