quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

O problema do Sporting é, tão-só, falta de...

Confiança...

Subtileza...

Toque de bola...
Técnica...

Souplesse...

Garra...

Poder de drible...

Raiva...

Elegância...

Beleza natural...

Acreditar...

Tranquilidade!

Histórias Fulminantes 64

Encontrada morta no sexto andar do hotel onde estava hospedada, a ex-Playboy de seios avantajados foi ainda sujeita a massagens cardíacas por mais de uma hora...

Amor aos Pedaços - O texto

A Minnie é uma gatinha afável e brincalhona, mas é provável que esteja assustada e não se deixe agarrar. No entanto, não arranha nem faz mal. Para atrair a sua atenção, pode fazer-se barulho com um plástico pequeno. Tem olhos azuis, embora a maior parte das vezes só se veja a iris castanha. Tem porte pequeno e magro.

Amor aos Pedaços


terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Silence Music Box, Ferruccio Spinetti/ Petra Magoni

A Demanda do Bravo Cavaleiro Dom Quixote - Capítulo Final

XXII.

Coitado do Pai Natal. Menção à Final Feliz. O bravo cavaleiro esmorece. Pensou em escrever crónicas, pensou até em mudar de visual. O cavaleiro Dom Quixote montado no seu cavalo? Garanto pela vidinha e saúde das minhas filhas.


Quem já não acreditava no Pai Natal nem em ninguém era Dom Quixote que, após dias e dias de errância pela capital lusitana, quase que desistira por completo, e por faltas de força, dos seus propósitos iniciais, de quando desandara da Dom Quixote animado em provar ao mundo da edição que ele ainda tinha muito para dar à literatura portuguesa. Que o mundo da edição não tinha perdido por completo a dignidade, que o último reduto da moral ainda reunia forças suficientes para resistir, para invocar novas ninfas éticas e imprimir à literatura lusa um crivo de verticalidade que lhe escapava a cada dia que passava, a cada nova editora que surgia no mercado com intuitos meramente economicistas. Não, com Dom Quixote a esperança não morreria, pois ele, bravo cavaleiro, qual Camões a nado agarrado a’«Os Lusíadas», levantaria bem alto a bandeira das Letras nacionais... Mas isso, isso foi no início, e aqui foi assaz referido e enaltecido pois era de um herói que falávamos, de um herói que continuamos a falar, e um herói deve sempre ser apresentado ao leitor como garante último das virtudes humanas. Agora, infelizmente, e bem ao contrário, o ânimo de Dom Quixote esmorecia. E como recriminá-lo? Espírito algum, verdadeiro amante dos livros e da palavra, poderá resistir por tempo eterno à devassidão da essência do livro? Qual o amador do texto e das ideias que consegue assistir, impávido e sereno, ao aviltamento do livro, ao estupro literário a que o condenam as supostas e teóricas necessidades de um público que não vê nele senão a porta para a coscuvilhice, para o reles e primário acerto de contas, para um confessionalismo amoroso de índole “folhetinosa” e pretensamente emocional, que não vê no livro senão um espelho de papel das vaidades próprias?
Dom Quixote tinha batido a inúmeras portas de diversas editoras, jovens empresas que pululavam como cogumelos na realidade editorial portuguesa, mas de todas tinha saído tal como entrara, isto é, excluídos lança e escudo, sem nada nas mãos. O bravo cavaleiro tinha-se sujeitado a enfrentar de mão estendida meros pretendentes à condição de editores, quando todos eles desmerecem o epíteto, todos eles não passando de meros predadores do livro, da sua essência, do seu mais profundo significado. Todos eles também vermes que vão sugando o espaço de mercado, afastando das estantes, das montras, das livrarias, os verdadeiros livros, as vidas e as histórias que contam, os livros fervilhantes de imaginação, de fantasia, de magia, de onírico, de invenção, de criatividade. Porque o verdadeiro livro é esse, um objecto que cria, que ilumina, que revela novos mundos, que acrescenta, em si um acto de criação. Pequenos mundos que se acrescentam ao mundo. Escrever é ousar experimentar o acto da criação. É partir do nada, que é o mundo à nossa volta, e acrescentar uma letra ao universo da criação. Naturalmente, tudo teorias e lirismos que escapam à regra do lucro fácil e rápido que move esses novos pretendentes a “editores”.
E naturalmente que ninguém tinha apostou verdadeiramente nas qualidades de Dom Quixote, ninguém sequer lhe concedeu o benefício da dúvida, uma hipótese, ténue e singela que fosse, até por cortesia, para mostrar o seu valor, para imprimir força às suas ideias e convicções, para mostrar que o livro Livro não tinha morrido, que o Livro haveria de sobreviver. Mas não, o mais que ele logrou alcançar, pobre e parca conquista, fora o convite estapafúrdio e indignante do Hare-editor da Oriente(-se). Não, minto, tivera ainda uma outra proposta, uma original proposta vinda de uma outra editora de nome curioso, a Final Feliz, que, como se adivinhará, tinha chegado ao mercado apenas para editar livros com final feliz! Pois o director da Final Feliz, em abono da verdade, também se compadecera do bravo cavaleiro e chegara a propor-lhe que escrevesse um livro em que Dom Quixote e Dom Chicote se bateriam em duelo na Praça de Toiros do Campo Pequeno (com entradas pagas a reverter directa e naturalmente para os bolsos da Final Feliz). Dom Quixote, obviamente que seria o vencedor e sairia da arena em ombros aclamado pelo povo...
Foi depois de todas estas andanças e desventuras que um certo dia um assomo de depressão assentou praça no peito de Dom Quixote. Retirou-se das ruas centrais de Lisboa para um local recôndito onde poucos o pudessem ver, e aí, pensou e pensou, remoeu e remoeu a sua vida e a sua desdita. E pensou até que não podendo vencer as regras do novo mercado, julgou por momentos que o melhor que faria era juntar-se-lhes ou jogar com elas. Pensou até em aceitar uma proposta da Star Books para pôr a sua vida em livro, pensou em aceitar escrever crónicas semanais para um jornal diário e para uma revista semanal do coração («Cartas a Dulcineia», sugeriu o director do “pasquim”), pensou também em escrever este livro que o leitor tem em mãos (dizem mesmo que terá escrito umas páginas, desinteressando-se depois do projecto por achar que nenhuma editora teria coragem para se interessar por ele), pensou até em mudar de visual, tanto que tinha ouvido falar em imagem e na importância do parecer nos dias de hoje. Mas logo, logo, ao pensar em tudo isso, se julgou louco (mais do que literariamente era) e, imaginando-se de cabelo, bigodes e barbas cortados, de fato e gravata montado no seu Rocinante, achou a visão tão ridícula que no imediato abandonou tais estapafúrdios projectos. Recriminou-se mesmo por ter vacilado, por ter sequer imaginado em juntar-se à lógica assassina do mercado. Não, não poderia fazê-lo, jamais, jamais o faria.
Nesse dia, nesse exacto dia em que tal certeza, tal pensamento acudiu à sua mente, Dom Quixote decidiu partir. Sim, antes partir do que ceder, do que alinhar, do que se vender. E a verdade, a verdade é que nesse dia em que Dom Quixote desapareceu em direcção a Este, provavelmente em direcção à sua terra Natal, diluindo-se na linha do horizonte até se transformar num ponto que, também ele, depois desapareceria, o céu, quase de um momento para o outro, encheu-se de nuvens brancas que entrando em colisão umas com as outras originaram uma tempestade como havia muito por ali se não via. «Parecia que o céu de repente se fechava como um livro grosso, com enorme estrépito, bramido e fragor», testemunhou um aldeão de um lugarejo ali próximo, um pouco para lá da ponte Vasco da Gama. Ao que outro, corroborando a impressão do primeiro, ajuntou, em directo para as câmaras de televisão: «E logo a seguir, o mais estranho de tudo, é que mal as chuvas e os trovões se calaram, as nuvens todas se juntaram dando forma a uma figura que, garanto pela vidinha e saúde das minhas filhas, era a do cavaleiro Dom Quixote montado no seu cavalo. Mas isso foi coisa de segundos, depois o cavalo levantou as pernas dianteiras – aquilo mais parecia o cavalo do John Wayne –, para logo de seguida cavaleiro e montada se virarem e partirem a galope esfumando-se as nuvens de que eram feitos num céu de um azul puro.»
Nessa mesma noite, ao saber dos acontecimentos pelo telejornal, o ex-director editorial da Dom Quixote, actual director da Dom Chicote, teve dificuldades em adormecer e quando o conseguiu foi no imediato assolado a noite inteira por pesadelos em que o bravo cavaleiro, montado no Rocinante, corria atrás dele de lança em riste, até que ele acabava por cair num abismo ao fundo do qual lhe aparecia Etelvina Prazeres vestida de diabo, com tridente na mão, rindo-se para ele às gargalhadas.

FIM

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Outros Silêncios

«Gostaria de romancear a minha limitação, de me reconstruir como heroína predestinada. Se acreditasse verdadeiramente num Deus, diria que fiquei cega para conseguir valorizar o escuro e o silêncio, o não sber o caminho.»

Inês Pedrosa, «A Eternidade e o Desejo», Dom Quixote

domingo, 13 de janeiro de 2008

sábado, 12 de janeiro de 2008

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

E agora para um brevíssimo momento poético-festivo

Festa Rija

Solidão,
não.
Sol e Dão
sim!

O Problema dos Domingos

«Domingos divertidos passam estas raparigas em Braga! Quase tanto como o V.S. a preparar as suas petições para o ministro limpar o rabo a elas.»

Luiz Pacheco, «O Libertino Passeia por Braga, A Idolátrica, o seu Esplendor»

Projecto «TÉCNICAS FOTOGRÁFICAS»
























A Demanda do Bravo cavaleiro Dom Quixote - Capítulo XXI

XXI.

De regresso à Residência Literária. Os ímpetos vulcânicos do vereador da Cultura. O caldo entornado. Os escritores, essa tropa de vadiagem. Salvador de novo agarrado aos estofos do BMW. Um reencontro animado e cheio de novidades. Uma tese de doutoramento e a Peso Pluma.



Retrocedendo neste relato até terras da autarquia onde decorria a Residência Literária, na qual participavam Etelvina, cinco colegas seus e respectivos seis escritores-fantasmas, lembramos que estávamos no ponto em que os escritores reais (atenção, não se confunda com o verdadeiro escritor Miguel Real) tinham acabado de apanhado um grande susto com as brincadeiras nocturnas dos escritores-fantasmas. Estavam ainda no primeiro sonho, não gostaram da brincadeira, mas quem estava a gostar dela, ainda que de outra índole, era Etelvina Prazeres que na sua já famosa suite 69 descobria vulcânicos ímpetos ao vereador da Cultura.
O vereador, recordemos, tinha bebido uns copitos na Feira do Livro e também ele, na ocasião (que se faz o ladrão, como é sabido, passa a saber-se que também faz o vereador) se tinha posto a lançar olhares gulosos a Etelvina a qual, não se fazendo rogada, lhe respondia olhando-o de alto a baixo, entre um autógrafo e outro, pondo por momentos a língua marota ao canto da boca. Topando a cena à distância, o presidente, retido pela conversa da directora da Biblioteca Nacional, roía-se todo, tanto mais que na ocasião nada podia fazer para evitar aquele comércio de olhares já que ali presente, junto de si, estava também a sua esposa que não lhe largava o braço. A verdade é que, como atrás referimos noutro capítulo, autora e vereador se entenderam muito bem no regresso ao Turismo Rural, tecendo-lhe ela verdadeiras loas pelos seus dotes de bailarino e retribuindo-lhe aquele com beliscadelas nas carnes ao arrepio dos olhares dos escritores.
Aí chegados, os dois demoraram-se em estratégica conversa no bar, esperando apenas que os escritores tratassem de recolher aos seus leitos. O que logo aconteceu, tendo autora e vereador aguardado mais um tempinho julgado necessário para que adormecessem. Não tardou que terminassem as suas bebidas e juntos recolhessem ao 69 para umas avarias controladas, já que Etelvina, depois do que vira nessa manhã, com o vereador cheio de falta de ar agarrado à porta da suite, não queria arriscar em excesso, não fosse o diabo tecê-las e pregar uma partida ao coração do vereador e, por decorrência, ao seu, coitadito. Alegrar-se-iam, contudo.
E os mistérios do ser humano são por demais insuspeitos. Tivessem confiado a Etelvina que aquele vereador, de ar perfeitamente banal, era uma verdadeira esmeriladora do sexo e Etelvina, com toda a sua experiência jamais teria acreditado em semelhante dislate. Só que a realidade era outra e aquele homem de pobre e fraca figura escondia em si (e agora o revelava) um verdadeiro vulcão, um furacão, um tsunami! E que tsunami cheio de surpresas! Enquanto satisfazia a autora, o vereador declarava-lhe ao ouvido passagens dos «120 Dias de Sodoma», do Marquês de Sade, de «Trópico de Capricórnio», de Henry Miller e Saramago (este autor, confessamos, não chegámos nunca a perceber porquê se encontrava misturado nos sussurros orgásticos do vereador). Era um homem curioso este vereador, uma vez que depois das frases que declamava cavalgando Etelvina, ele próprio se detinha nos seus movimentos para, por momentos a sai próprio se bater palmas. Etelvina, chateada com a ideia, só lhe dizia: «Ai meu vereador, meu vereador, que me cite Saramago ainda vá que não vá, agora que se ponha a bater palmas... isso interrompe-me o gozo, quebra-me o prazer... ai, isso não meu vereador, porque é que em vez das palmas não me dá antes umas palmadas valentes?...»
E nestes meandros se finou o último dia da Residência Literária. Não se pode dizer que tenha sido uma residência profícua em termos de realizações literárias, tanto mais que a experiência acabou por voltar-se muito mais para os domínios da carne do que para os do espírito, e a verdade é que de textos aí exauridos nada vezes nada. Ninguém tinha alinhado uma só ideia, escrito uma só linha. Em consequência, e malgrado a realização de outras actividades, como as diversas supracitadas, houve que tirar consequências políticas desse vazio, desse fiasco, da inexistência de prova material, ao fim ao cabo, da passagem dos ilustres escritores pela autarquia a expensas desta, «e a que expensas!», indignava-se o presidente em sessão de assembleia autárquica. Os assomos de raiva e intuitos de vingança do presidente eram mais do que explicáveis, pois coube-lhe a ele, no dia da partida da comitiva de escritores de regresso a Lisboa, ir ao Turismo Rural para acordar Etelvina e dela se despedir.
Julgara o presidente que era isso, tão-só e simplesmente, que iria fazer. Acordar a autora de «A Verdade de Cristal» e qual princesa a que se dirigisse oferecer-se para seu príncipe em futuros encontros, quer em deslocações, dele, à capital, quer em viagens, dela, ao interior. Chegando ao Turismo Rural como quem a sua casa chegasse, pondo e dispondo, nada perguntando apenas actuando, assim o presidente se aprestou a subir a escada até ao primeiro piso dirigindo-se à suite 69. Pelo sim pelo não, o autarca trouxera os seus óleos, quem sabe à autora apetecesse uma massagem de despedida... Chegado à porta da suite, o presidente bate leve, levemente como quem batesse à porta de um convento. O mais, o leitor avisado, tendo já juntado dois mais dois, acaba certamente de inferir. Quem lhe vai abrir a porta, em trajes menores, é o vereador da Cultura e... e está o caldo entornado.
Foi depois desta cena, e nos dias seguintes, na dita sessão de assembleia autárquica, que o furibundo presidente da Câmara quis tirar consequências políticas do flagrante em que apanhou o seu vereador e Etelvina. Esta, claro, a nossa versão, pois aquilo que o edil aduzia, para a necessidade de se retirarem consequências, era o não cumprimento de um dos objectivos primeiros da Residência Literária, a redacção de textos, por parte dos escritores, que depois seriam impressos pela autarquia em edição da sua responsabilidade. «Que se tinham gasto mundos e fundos com a brincadeira dos escritores, essa tropa de vadiagem», e que ele só via dois repensáveis em todo o processo: a directora da Biblioteca Municipal e o vereador da Cultura. Escusado será dizer que ambos foram destituídos dos seus cargos.
Alheios a toda essa polémica autárquica os escritores e os escritores-fantasmas tinham regressado a Lisboa. José Salvador que até tinha ganho uma corzinha de pele naqueles dias, voltara a perdê-la rapidamente agarrado outra vez aos estofos do BMW de Etelvina que engolia a auto-estrada a quase duzentos quilómetros por hora. Uns e outros teriam muito para contar e para escrever. No mais, a verdade é que, seres realistas urbanos por excelência que eram, já sentiam a falta da grande cidade, do trânsito avançando a golfadas, do tempo contado aos minutos, do stress da chegada ao trabalho e, na verdade, assim tinham confessado uns aos outros, era apenas com essa adrenalina quotidiana que conseguiam encontrar inspiração para escrever.
Etelvina, logo no dia seguinte foi ter com o seu director editorial. Almoçaram juntos e ele riu-se imenso com as histórias que ela lhe contou, que tinham apanhado um tempo excelente, que as sessões de autógrafos tinham sido um sucesso, que ela se sentia agora revigorada para se poder oferecer, de coração aberto, ao acto criativo. O director pô-la também a par das novidades, das notícias relacionadas com Dom Quixote, pois ninguém falava de outra coisa (que, ao que tinha vindo a público num tablóide a Câmara de Lisboa até pensara em erigi-lo a ícone da cidade), avançou-lhe a excelência dos números de vendas do seu livro, que continuava a esgotar edições, não deixava os primeiros lugares dos tops de vendas e, adivinhasse Etelvina, «Etelvina Prazeres – A Verdade de Cristal» ia mesmo ser alvo de uma tese de doutoramento!
Durante o encontro, o director editorial falou ainda a Etelvina dos novos sucessos da Dom Chicote (nomeadamente com o sucesso de vendas de uma nova colecção de literatura gay, a que chamara Peso Pluma), e depois de ter perguntado à autora se o José Salvador se tinha portado bem, o director editorial anunciou a Etelvina que já tinha maquinado o enredo do seu novo livro. Tratar-se-ia de um romance, um romance com cerca de quinhentas páginas, um verdadeiro romance que, de uma vez por todas, a afirmaria enquanto romancista e escritora de vulto. Ao ouvir falar em quinhentas páginas Etelvina assustou-se. «Ai director. Quinhentas páginas? Mas isso deve pesar quilos! E o que é que vamos dizer em tantas páginas?» O director editorial riu a bom rir de tão naives temores. «Não se preocupe, Vi (e já tínhamos saudades de ver assim tratada a nossa autora, facto que só deixou de se verificar, nos últimos capítulos deste relato, porque na província ninguém a conhecia desse modo), está tudo tratado, hoje mesmo vou ter um pé de orelha com o nosso escritor-fantasma e em poucos meses a coisa está tratada. Tem de estar mesmo, porque o livro tem de sair antes do Natal.» «Ai, director, já estou nervosa, gosto tanto do Pai Natal».

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Silence Music Box, Damien Rice, «Delicate»

Silence Blues Box Music, Son House, «Death Letter»

Silence Music Box - Pavlov`s Dog, «Julia»

Primeiro retrato da Sara pelo Vasco (claro)

A Demanda do Bravo Cavaleiro Dom Quixote - Capítulo XX

XX.

Bem cedo, no Rossio, o cavaleiro da Triste Figura. Informações secretas e de fonte segura dando conta de algumas propostas em Assembleia Camarária. A Star Books. Cuca, Cuxicuca, Xanduca e Cochicho. Prontos outra vez e Dom Quixote de «cuca cheia».



Voltando a Dom Quixote, depois das fracassadas e inglórias investidas em busca de emprego nas editoras Ideias Fantásticas e na Oriente(-se), o cavaleiro, tendo pernoitado, uma vez mais, ao relento num dos jardins de Lisboa, acordou com a luz da manhã impedindo-o de retemperar sono e forças. Estava cansado, a fome a roer-lhe o estômago, e como se não bastasse esse desconforto começava a sentir a falta de um bom banho. Aproveitando o calor que logo bem cedo se fazia sentir, e estando ainda a maior parte das pessoas a dormir, Dom Quixote desceu do Campo Mártires da Pátria até ao Rossio, em cuja fonte aproveitou para se lavar. Encontrava-se nesses preparos quando, dando por ele, à sua volta se tinha juntado um grupo de sem abrigo, vagabundos, um ou outro louco, e um pequeno grupo de estudantes universitários de traje académico, capas ao ombro, todos muito bem bebidos, acabados de chegar de uma noitada, cantando e bebendo ainda. Dirigiam-se para a paragem de táxis ali próxima, mas ao ver o ilustre cavaleiro, em figura cada vez mais triste, não quiseram deixar de o ir cumprimentar, entoando-lhe uma qualquer canção patética bem ao jeito das tunas.
Dom Quixote, ao ver aquela gente toda mais aquele bando de jovens aos berros num absoluto desnorte de afinação de vozes, não fez mais nada, vestiu de novo a camisa que tirara por momentos, colocou o peito da armadura, e como quem não quer a coisa, pegou de repente na sua lança e escudo e tratou de afugentar aquela plateia indesejada, lançando-se sobre ela aos urros e gritos. Aflitos e tementes, julgando que o cavaleiro houvera endoidecido de vez, pedintes, maltrapilhos, doidos e os doidivanas da tuna puseram-se a milhas. Satisfeito, logo, logo Dom Quixote foi ter com o seu cavalo que também ele saciava a sede nas águas da fonte bem ali no meio da praça do Rossio, em frente ao Teatro Nacional Dona Maria II. Entretanto o sol pusera a galgar o horizonte e já a vida corria por ali a descer ao coração da cidade. Chegavam as floristas, os quiosques abriam portas, desatando os maços de jornais e revistas atados com guita e preparando a sua exposição nas bancas, os empregados dos cafés circundantes compunham mesas e cadeiras nas esplanadas, os turistas iam chegando aos poucos, fotografia atrás de fotografia, um cigano ou outro tentavam aproximações diplomáticas escondendo nas mãos anéis ou relógios a preços módicos, quando não oferecendo outras propostas alucinogénicas. Fazia-se tarde, o nosso bravo cavaleiro alçava-se à garupa do seu fiel companheiro e partia a tentar a sorte numa outra editora de que o amigo Bragança lhe tinha falado. Aos poucos e poucos figura conhecida na cidade, a sua imagem, recortando-se a galope ou a trote pelas ruas infestadas de carros, ia-se tornando numa espécie de imagem de marca para a edilidade.
(Fazemos aqui um parênteses para, a este respeito, darmos conta ao leitor de informações secretas e de fonte segura que nos chegaram por essa altura, dando conta de que, nesse mesmo dia, em Assembleia Camarária, a vereadora da Cultura, de sua livre vontade e iniciativa, terá colocado a votação uma proposta tendente a alterar a imagem de marca da cidade, os corvos, que achava, assim se expressou, «demasiado negra e algo gasta». A capital, no seu entender, «movia-se rumo ao futuro» e se Espanha era, cada vez mais, o país do futuro, porque não associar-se a capital alfacinha à imagem de marca do país de nuestros hermanos? Era meio caminho andado e a sua ideia, inclusive, era muito simples: aproveitando a onda de solidariedade e entusiasmo em torno de Dom Quixote – o leitor não viu, nem podia, nem leu, mas pode agora ler, só para que tenha ideia do carinho que povo lisboeta já nutria por ele, quando o cavaleiro da triste figura se afastou da Praça do Rossio teve de se apear novamente da garupa para receber beijinhos das floristas, que o trataram por «Menino Quixote», afiançando-lhe a sua fé em que o futuro lhe haveria de sorrir, despedindo-se ainda com a oferta de um belo e apetitoso ramo de flores a Rocinante –, e já que ele passara a fazer parte integrante do postal turístico lisboeta, porque não aproveitar a sua imagem alcandorando-a a novo ícone da cidade? Que, no entanto, não se preocupassem os mais cépticos, pois que os corvos se manteriam, firmes e bem hirtos, como parte integrante do novo símbolo autárquico, mas, sugeria a vereadora, ficariam muito melhor, por exemplo, ao ombro do cavaleiro. Assim, justamente, como os velhos marinheiros e piratas de papagaio ao ombro, também Dom Quixote adoptaria o corvo. No mais, ainda acrescentou, seria uma ideia excelente no sentido de promover a defesa de uma espécie já quase em vias de extinção.
A ideia provocou celeuma acirrada entre os diversos representantes partidários ali presentes. O representante do Partido dos Verdes achou a ideia muito interessante, mas lá foi dizendo que se calhar também não seria mau de todo que no outro ombro do cavaleiro se apusesse uma pomba, sim, uma pomba, porque havia anos que as pombas eram muito mal tratadas pela edilidade, escorraçadas e perseguidas dos parques, das estátuas e dos beirais, as pombas, coitadinhas, que já nem sequer podiam multiplicar-se em paz de acordo com a vontade reprodutória que o seu íntimo lhes pedia, as pombas, vítimas indefesas de vis atitudes como aquela de lhes darem a ingerir contraceptivos, medida «carniceira» que só poderia ter como consequência a desaparição da espécie. E mais: havia quanto tempo a cultura nacional não dedicava às pombas interesse de qualquer espécie? Não sabiam? Sabia ele muito bem: desde que o cançonetista Max cantara os belos versos «Pomba branca pomba branca/ Já perdi o teu voar/ Naquela terra distante/ Toda coberta pelo mar...» No fundo, concluía, as pombas eram como os corvos, preparavam-se para ser erradicadas da paisagem citadina e da cultura nacional. Um crime, um crime que envergonharia a nação aos olhos do estrangeiro.
O membro do Partido Comunista mostrou-se pouco receptivo à ideia, pois, segundo disse, temia que por trás da proposta da senhora vereadora se escondessem outras motivações, que não as meramente turístico-promocionais da cidade, motivações, se se fazia entender, ligadas ao «grande capital», ávido de explorar uma imagem que a ser de alguém seria de todos e cuja exploração, por conseguinte, não deveria ficar nas mãos dos «grandes capitalistas». «Dom Quixote não pode ser mais uma lança nesta África capitalista entregue ao patronato, aos barões e aos ricos e poderosos em que por vezes, muitas vezes, vezes demasiadas, parecemos viver. Dom Quixote é do povo, pertence ao povo e ao povo há-de pertencer!» Assim terminou, já algo exaltado e de dedo em riste.
Quanto ao representante do Partido Popular, mostrou-se veementemente em oposição à ideia, que lhe parecia «absolutamente ridícula e estapafúrdia». Disse que tudo aquilo mais lhe parecia «coisa de romance ou mesmo digna de uma qualquer das muitas aventuras de Dom Quixote». E ajuntou, em tom de escárnio, que a senhora vereadora andaria a ler muitas histórias ou a ver muitos filmes, que «não deveria excluir uma visitinha a um hospital psiquiátrico» ou então deveria, talvez, «apostar numa carreira literária», pois que tinha muita imaginação, em excesso mesmo, e que, por conseguinte, deveria colocar esse capital (e quando referiu esta palavra o representante do Partido Comunista pôs-se logo alerta) ao serviço do fantástico, quem sabe não se tornaria numa «JK Rowlings» ou mesmo, «olhe, numa Etelvina Prazeres, numa best seller!» E terminou, aduzindo que, em matéria de pombos, havia muito que a espécie deveria ter sido erradicada da cidade, pois significavam um verdadeiro cancro para a estatuária. E que tinha dito, e que, olhassem, fossem todos mas era dar milho aos pombos que ele tinha mais o que fazer, retirando-se em seguida, em sinal de protesto e batendo com a porta.)
O parênteses está fechado, não sabemos se a proposta foi aprovada ou não, pois a saída extemporânea do representante do Partido Popular deixou a assembleia camarária sem número suficiente de votantes para que houvesse quorum deliberativo, a única coisa que podemos avançar até ao momento é que até à data, passeando pela cidade, não temos notado que, aqui e ali, os corvos tenham subido para o ombro da efígie de Dom Quixote. Soturnos e curvados sobre si, negros como a noite de todos os pesadelos, os corvos continuam, orgulhosamente sós, a ilustrar a capital. Voltemos, pois, ao nosso venturoso cavaleiro que deixa agora o Rossio, limpando as faces beijadas pelas floristas à manga da camisa, e já a caminho da editora sugerida pelo Bragança, a Star Books.
Ao ler o nome da Editora na placa à entrada do prédio onde a mesma se encontrava sediada, Dom Quixote já não sabia bem o que pensar. Começou por achar estranho tratar-se de um nome em inglês mas depois já não achou mais nada, pensou apenas que se tratasse de uma estratégia de internacionalização, talvez o director editorial fosse de origem britânica, talvez fosse um súbdito de Sua Magestade, ou talvez a editora apostasse também na distribuição internacional, além-Badajoz. Sim, se calhar era apenas isso. Dom Quixote tratou pois de «estacionar» Rocinante ali perto, à sombra no passeio, tanto mais que já não tinha moedas que fossem para entregar aos melgas da EMEL. Em seguida dirigiu-se de novo à entrada do prédio, tocando à campainha da Star Books.
Desta feita, o prédio não pertencia por inteiro à editora, esta apenas ocupava o penthouse, uma área de 180 metros quadrados com uma vista deslumbrante sobre a cidade. Com janelas e varandas a toda a volta, a luz derramava-se com esplendor pelo espaço repartido apenas por divisórias atrás das quais se sentavam, em frente aos computadores, os seus diversos funcionários. Consultores, copys, redactores, relações públicas, secretárias, designers, etc., todos muito jovens, muito in e muito práticos no vestir, despachados nos modos e no falar. A vida sorria-lhes e eles sorriam à vida. Trabalhar assim todos os dias, ao contrário do que escrevera em tempos um poeta, certamente que não cansaria. Foi isso que pensou Dom Quixote ao entrar no amplo escritório (que afinal como que eram vários escritórios num só) e antevendo-se já também ele ali, dia após dia, semana após semana, mês após mês, ano após ano, concedendo imagem e credibilidade a excelentes romances, belíssimos e interessantíssimos ensaios, a notáveis edições de luxo celebrando idades provectas de autores em fim de carreira, a soberbas e bonitas edições de poesia, a celebrar com os seus sorridentes colegas de trabalho a edição de verdadeiras pérolas no domínio da literatura infantil.
É claro que o nosso bravo cavaleiro sonhava, ou não fosse o sonho, transfigurado a delírio, a sua imagem de marca. Apresentado à directora editorial (afinal era uma directora não um director), Dom Quixote dirigiu-se com ela para um «compartimento», uma espécie de área mais reservada num dos cantos do escritório, onde normalmente ela recebia visitas, convidados, candidatos a escritores, e outros agentes do meio. Era um espaço muito bem decorado, com linhas modernas, alternando entre os tons brancos e pretos, dois belos e confortáveis maples em pele apostos em ângulo recto, com almofadões de um vermelho sangue de boi, um tapete branco felpudo e, em cima deste, uma mesa de pedra com tampo de vidro, baixinha e rasa, em triângulo isósceles. Sobre ela, repousavam dois pires com bolachinhas, biscoitos, rebuçados e bombons.
Ao ali entrar, naturalmente todas as atenções do pessoal ali presente caíram sobre a sua figura. Alto, magro, barbas alvas, afiladas, estrepitoso no andar e nos gestos, não havia como não reparar nele. Sorrindo à direita e à esquerda, Dom Quixote avançou, já conduzido pela directora editorial, até que ambos se sentaram nos ditos maples. Ainda sem nada no estômago, este rugindo de forma assustadora, Dom Quixote ao ver os dois pires com «acepipes» vários à sua frente não se fez rogado. Pediu o obséquio de um cafezinho e atacou as «iguarias». E naturalmente, a conversa entrou nos eixos pretendidos pelo cavaleiro. Não nos alongaremos aqui nos intróitos invocados pelo cavaleiro, explicando a sua situação, já por demais do conhecimento público e do leitor, pelo que passemos antes à resposta de Cuxicuca Nogueira. Dom Quixote a princípio não entendeu bem o nome pelo qual ela se apresentara, pelo que pediu perdão, que não tinha ouvido bem e se poderia a senhora repetir, que provavelmente seria dele o problema, que talvez com a idade avançada já não estivesse a ouvir muito bem. Mas, dissera? «Cuxi quê?» «Cuca, Cuxicuca, é como todos me conhecem e me tratam, bem alguns preferem só dizer Cuxi, outros escolhem o Cuca... É conforme, por mim tanto me faz. Vem de Alexandra, mas como eu não gosto nada do nome, achei por bem adoptar o nome que me chamavam quando era miúda. Primeiro era Xuxa que me chamavam, depois foi Xanduca, e mais tarde, como eu me tornei, com os anos, muito dada aos segredinhos e aos cochichos, foi um amigo brasileiro que me passou a chamar Cuxicuca, não sei se está a ver uma mistura entre Xanduca e Cochicho, ou o contrário, primeiro Cochicho e depois Xanduca...
Dom Quixote fingiu-se extremamente espantado com a origem do seu nome, pelo menos o nome pelo qual todos a conheciam. Cuxicuca passou então, a pedido do cavaleiro, que se demorava saboreando um bolinho de coco e um biscoito de manteiga, a explicar a origem de um outro nome, o da editora. Cuxicuca explicou então que tudo tinha partido da sua experiência enquanto relações públicas de um canal televisivo privado. Tinham sido anos de grata e inesquecível experiência, de muita aprendizagem, de gente óptima que tinha conhecido, com quem aliás continuava a dar-se e mesmo a sair, só que às tantas teve uma ideia luminosa. Quando Cuxicuca disse aquelas palavras, ideia luminosa, fez-se luz a Dom Quixote apercebendo-se do tipo de editor que, mais uma vez, lhe tinha calhado na rifa... só faltava que a seguir lhe dissesse que ainda havia pensado em chamar à sua editora a Ideias Luminosas...
«E foi então que tive uma ideia luminosa. Pensei mesmo em chamar à editora Ideias Luminosas, numa espécie de homenagem àquele momento mágico, mas depois, como já existia no mercado a Ideias Fantásticas, achei melhor escolher outro nome. Pois bem, como o meu objectivo ia no sentido de aproveitar as histórias de vida de pessoas conhecidas da televisão e do grande público, portanto de estrelas, lembrei-me, assim de repente, de Star Books. Por um lado, escapávamos ao conceito algo esgotado da estrela (sobretudo desde o concurso Chuva de Estrelas), que, ainda assim, mantínhamos aceso com a palavra em inglês e, por outro lado, abríamos portas ao mercado estrangeiro.»
No mais da conversa, que se espraiou por uma boa hora, a desenvolta directora editorial deu conta a Dom Quixote da sua visão de mercado, das suas opções editoriais, do seu conceito de livro adaptado às leis do mercado global segundo as quais todos os empresários, quer quisessem ou não, deveriam reger-se sob pena de perderem o barco. E nisso os editores de livros não deveriam nem podiam, sobrevivência oblige, escapar à regra. «Se o mercado nos diz que o que mais vende são os livros de auto-ajuda, de relatos de experiências de vida na primeira pessoa, se na verdade as pessoas estão fartas de literatura hermética e presunçosa, de livros que ninguém consegue ler passadas duas ou três páginas, encalhando em parágrafos que não se sabe onde começam nem acabam, em frases ultra-compridas sem pontuação alguma, num chorrilho de palavreado intelectual, então só há uma via a prosseguir, ir ao encontro dos anseios e desejos do público. O público é quem manda. O cavaleiro (assim mesmo, não era cavalheiro que ele queria dizer) saberá mais do que ninguém que vivemos numa sociedade de superabundância a todos os níveis e editorial também. Você acorda um dia e vai à livraria ao pé da sua casa, chega lá e prontos (cá está o prontos outra vez!)», depara-se com um conjunto de novidades. Pois bem, vai para casa e acorda no dia seguinte. Nesse dia, vai outra vez à mesma livraria e aí chegado o que vê? Vê mais um montão de livros novos nos expositores, títulos e mais títulos à espera de uma pequenina oportunidade para se revelarem aos olhos do público, títulos que, com muita sorte, ficarão ali, em exposição, até ao dia seguinte, mas que, certamente, uma semana depois já estão confinados às estantes e um mês depois desaparecem nos armazéns, voltando apenas a ver a luz do dia quando começa a época das feiras de livros, no Verão. Repare, não digo que a culpa seja só dos livreiros e dos editores. Não, a culpa é também do leitor, dos leitores, de uma sociedade de consumo ávida a cada dia de novas ofertas e sempre mais novidades. Veja, os olhos dos leitores não param, uma pessoa sai à rua e os estímulos à sua sede de consumo não cessam, surgem de todos os lados, em todas as montras, em panfletos, na televisão, nas rádios, nos outdoors, nas traseiras dos autocarros, nas paredes da cidade. É uma concorrência desenfreada, uma autêntica selva de estímulos, mas uma selva na qual vivemos e na qual lutamos por um nicho, um nicho de mercado. E como é difícil esse combate! Olhe, você com certeza que o saberá imaginar, tantas foram as batalhas que travou ao longo da sua vida. Pois olhe, são demasiados apelos e só nós sabemos o quanto é difícil captar a atenção, por um segundo só que seja, de um potencial comprador. E digo-lhe mais, muito mais difícil é conseguir ultrapassar esse momento e, uma vez conseguido, conseguir fazer com que o interessado passe de apenas isso mesmo, interessado, a comprador, isto é, passar do mero olhar para uma capa, do seu eventual folhear ao momento decisivo em que pega no livro, se dirige com ele para uma caixa registadora, abre a carteira, retira o cartão Multibanco ou de crédito e efectua a sua compra. Só aí, só então podemos dizer que saímos vitoriosos do combate.»
Dom Quixote lá ia ouvindo o que a directora editorial lhe contava. E se compreendia muitas das suas motivações, não deixava de achar estranho a conotação de combate que ela imprimia às suas ideias e às suas palavras. Pensando bem, o facto seria até perfeitamente justificável estando ela em presença de um bravo cavaleiro cujas conquistas e aventuras eram, ainda hoje, motivo de grande inspiração para muita gente. Cuxicuca, vistas as coisas, nem daria por ela ao fazê-lo, ao bramir com tamanha verve e fulgor os seus pontos de vista sobre o seu negócio, sobre o mercado, sobre a aventura do editar livros em pleno século XXI. Pouco faltou para que àquelas palavras se começasse a ouvir, em plano de fundo, uma qualquer melodia em tom Wagneriano, épico, inaugural, cruzando imagens em que hordas de editores, investidos a soldados das letras, avançassem por campos e campos de páginas brancas, bramindo ao alto, como lanças ou espadas, títulos e mais títulos de livros caindo sobre fileiras e mais fileiras de leitores...
Dando, por conseguinte, o benefício da dúvida a Cuxicuca, rindo-se para si da imagem que criara no seu pensamento, Dom Quixote limitou-se a continuar a comericar, pondo em dia as fomes dos seus fundos, já pouco ligando às balelas com que a frenética directora editorial tentava vender-lhe o seu peixe, quer dizer, os seus livros. Falava de targets, de know how, de marketing para aqui e marketing para acolá, referia a importância das marcas, a quão crucial era também o merchandising, a comunicação, o jingle, o ter em conta uma tal de direct response, a importância de actuar nos meios above e bellow the line, o fundamental que era perceber o feedback do mercado, falou ainda nos conceitos de marketing mix e na substituição do mero e ultrapassado conceito de Promoção pelo conceito de Comunicação, dizendo, e passando a citar, que «Comunicação implica bidireccionalidade, promoção e recepção do feedback. Senhor Dom Quixote, tudo se resume a um conceito muito simples: o que não se comunica não existe.»
Para resumo de capítulo, que já se alonga por demasiado nestes considerandos acerca do mercado editorial e da feroz concorrência que é apanágio do mercado na sociedade global, refira-se apenas um dado curioso ao nível do funcionamento da casa, em matéria de pesquisa de autores. Primeiro, se não se tratasse de cara conhecida do grande público, seja por via das televisões ou das revistas da society, nem sequer valia a pena apostar em perder tempo com um hipotético livro. Depois, confessara Cuxicuca a Dom Quixote que a Star Books era uma empresa pioneira no sentido em que criara um novo posto ao nível do sector editorial: o Star Editor. O Star Editor tinha uma função muito cristalina e funcionava de modo também ele muito às claras. Ou seja, a função dele era palmilhar as redacções televisivas (ou de revistas do coração) tentando convencer jornalistas, locutores, concorrentes em programas diversos, ou até mesmo apresentadores da Meteorologia, a escreverem as histórias das suas vidas. E nisso tinham tido ultimamente basto sucesso.
Cuxicuca contara ainda a estória em torno do primeiro livro editado pela Star Books. Era o percurso de vida de um Director de Programas, relatando, em voz própria, como deixara para trás uma infância de pobreza e vicissitudes até chegar onde chegara, conhecendo as pessoas certas, movendo os cordelinhos na altura exacta, e por aí adiante sem, naturalmente, deixar de pincelar os conseguimentos profissionais com passagens, por vezes picantes, das suas aventuras íntimas (sobretudo com muitas caras conhecidas, também elas stars) nos muitos vales de lençóis por onde, assumia orgulhoso, tinha passado o seu corpinho de atleta conseguido à custa de muito ginásio, muitas massagens e limpezas de pele, também de muita leitura de revistas masculinas que tanto o tinham ensinado. «Eu Director Me Confesso» tinha sido um sucesso imediato, esgotando nas livrarias e enchendo inclusive os carrinhos de compras dos grandes hipermercados, entalado entre batatas, couves, nabos, fraldas de bebé e para incontinentes, e demais mercadoria.
Ouvidas as histórias, bucho atestado, ouvidos a zunir de tanta estória e historieta, Dom Quixote estava, por assim dizer, de «cuca cheia», tratando de se despedir da directora da Star Books, desejando-lhe sucesso e votos de longa vida, que ele iria procurar sustento noutras paragens. E prontos... (ai que isto se pega!!!), e pronto, metade de mais um dia está cumprida, foi um Dom Quixote de barriga reconfortada, mas de espírito desalentado e faces tristonhas que se dirigiu ao seu Rocinante, fiel companheiro que não via a hora de galopar dali para fora tantas eram as moscas que voejavam em torno da sua cara. Dom Quixote, garantimo-lo, era a primeira vez que o víamos assim, sem ânimo, todo ele mágoa e ressentimento para com um mundo editorial ao qual havia dado tanto e durante tantos anos de trabalho. Olhasse bem para si e Dom Quixote chegaria à clarividente conclusão de que o que lhe acontecia não era senão o que acontecia a milhares e milhares de pessoas como ele, homens e mulheres que depois de vidas inteiras dedicadas a um trabalho, a uma empresa, acabavam despedidas e nas ruas da amargura e nos becos do desemprego sem que ninguém voltasse mais a olhá-las enquanto força de trabalho, enquanto pessoas válidas, enquanto poços de experiência e sabedoria. Estaria Dom Quixote para desistir da sua dama, a literatura em Portugal? Não, ainda não, no final da conversa com Cuxicuca tinha-lhe ela acabado por dizer que ali não havia lugar para mais ninguém – a equipa estava constituída –, mas que tinha uma amiga que tinha também acabado de abrir uma editora e estava a recrutar pessoal. E porque não tentar?

Histórias Fulminantes 62

Tinha um discurso complexo e encabelado. Por isso os seus livros se vendiam com um pente.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

O circo de passagem









Sobre o Vazio


Outros Silêncios

«O Profundo Silêncio das Manhãs de Domingo»

Título de livro de Manuel Jorge Marmelo a editar em breve nas Quasi.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Podridão e preço da batata podre

Epá, o secretário de Estado do Trabalho e da Segurança Social, um tipo cujo nome não sei nem desejo saber, mas que ouvi na TSF a dizer barbaridades sobre a forma como os pensionistas devem receber os retroactivos de reforma em suaves prestações que não chegam a um euro, pois coitadinhos, dizia o distinto justificando a decisão política, com tal maquia (nove, dez euros...) nos bolsos logo, logo desbaratariam o dinheiro... Digam lá, o figurão donde é que vem? quem é que o pôs no poleiro? quem é que o tira de lá? rapidamente! sem olhar a retroactividades! quando muito com um pontapé no rectoactivo! Cada vez mais brilhante este PS! E já agora, agora que se confirma que Sócrates vai faltar ao eleitoralmente prometido em relação ao referendo ao Tratado de Lisboa, quem pergunta ao senhor engenheiro, olhos nos olhos, quanto vale a sua palavra?

domingo, 6 de janeiro de 2008

Outros Silêncios

«– Isso acontece com toda a gente. Há sempre alguém que liga o rádio; que tenta desligar o silêncio.»

Paulo Kellerman, blog A Gaveta do Paulo

Luiz Pacheco

«Há em todas as literaturas, em todos os tempos, um tipo de artistas que não sendo criadores de fôlego, não se podendo definir (nem talvez eles o ambicionando) como cumeadas de uma época, duma geração ou movimento estético; tendo-se dispersado ou malbaratado o seu talento; ou a própria existência não lhes consentindo mais largos voos, de que todavia os sabíamos capazes; faltando-lhes, enfim, aquela paciência e tenacidade que são os melhores garantes do génio, - não os devemos considerar figuras menores. Dir-se-á, mais rigorosamente, que são personalidades estimáveis, talvez para darem o tom e o nível a determinada época, geração ou movimento, e a sua obra, diminuta ou discreta, às vezes resiste melhor do que outras, grandiosas e grandiloquentes, à prova do tempo. Percebe-se que viveram desprendidos, que não contraíram (não quiseram ou não puderam contrair) consigo npróprios, com a luz que lhes ia dentro, a disciplina exigida por uma criação deliberada e ambiciosa; que a frivolidade do carácter lhes adoçava, atenuando-a, a vontade criadora - tudo, por vezes, dourado com uma bonomia ou um cepticismo (mascarados de ironia), que tornavam os seus juízos como o seu convívio uma experiência de lucidez e simpatia humanas.»
Publicado em 1964, no Jornal de Letras e Artes, com este texto (aqui incompleto) Luiz Pacheco abordava, homenageando, a breve embora fulgurante passagem e desaparecimento de Daniel Filipe pelas letras portuguesas. Dizia, e bem, mais adiante, que Daniel Filipe tinha amado o amor, «que é coisa raríssima». Quem conheça os escritos de Pacheco sobre a literatura portuguesa sabe que para lá da língua vituperina com que fazia as suas críticas encontrava-se um enorme amor à língua portuguesa, amor esse, justamente, que o fazia ser como era: duro e cru, sarcástico também, mas justamente por tudo isso, por todos admirado.
Ao ler este texto sobre Daniel Filipe, espantosamente penso estar a ler um texto autobiográfico de Luiz Pacheco. Ora vejam se a pele não lhe cabe na perfeição. De caminho, e agora, na morte de Luiz Pacheco, porque não lembrar os versos de Daniel Faria: «Tão próxima a partida!/ Tão cedo para a morte!/ (A secreta ferida/ da vária, esquiva sorte).» (Daniel Filipe, «a invenção do amor e outros poemas», Presença)

Colombo deve ter estremecido debaixo da tumba

Ontem, estreou em Cuba o novo filme de Manoel de Oliveira. Dizem na televisão, do «mestre», dizem, alguns espectadores da Vila alentejana, que sim, que vai ser muito bom para a terra (!!!!), só ninguém tem coragem para dizer que o filme é um desastre, uma pessegada, digna do mais reles mestre de obras cinematográfico em início de obra.

Tropeçar em criancinhas

«... tropeçar em criancinhas»; não ter de o fazer numa novel biblioteca que a todos tem decepcionado. quem utiliza a expressão - depreciativa, parece-me e depreende-se no contexto da leitura do post de certo blogger - está visto que não gosta de criancinhas; mas porque não gosta de criancinhas entre os livros? qual é o problema de criancinhas entre os livros? e que criancinhas: meninas ou meninos?... mas porque é que essa gente não gosta de criancinhas? talvez porque não tenham sido criancinhas. depois adoram-nas e querem adoptá-las...

Histórias Fulminantes 61

Apesar de sem culpa formada (tinha só a quarta classe) matou-se com grande distinção.

Suite Egípcia

http://suiteegipcia.blogspot.com/ Durante as próximas semanas fixe este endereço do blog que a Susana Paiva alimentará em viagem pelo Egipto. Só nome é já um achado e dava um belo título para romance.

sábado, 5 de janeiro de 2008

Resumindo: ir ao Coliseu e em casa ver este DVD


O que em muito talvez se deva...

... às vivências com o seu namoradinho Pete Doherty, dos Babyshambles que no próximo dia 8 vão estar em Lisboa, no Coliseu.

Esta é a Amy que habitualmente tem pior aspecto


Blogospérolas - Amy Winehouse

«Quando Amy Winehouse vai morrer? É o que pergunta um bolão virtual que promete presentear o vencedor com um iPod Touch. Mais de sete mil internautas já fizeram suas apostas, seguidas de condolências à cantora britânica. A brincadeira macabra começou em dezembro do ano passado. Bolão tenta acertar data de morte da cantora Amy Winehouse: "Todos nós teremos um encontro com nosso criador um dia, mas Amy Winehouse parece não conseguir esperar (...) Adivinhe quando será seu último suspiro e seja coroado o Sr. ou a Sra. Morte", propõe a página.»

«Folha de São Paulo», 4/01/08

Escrever segundo Grossman

«The moment before you do it, you have only a vague notion of what it will be like. It’s threatening, it’s attractive, it’s everything. The moment after, you don’t understand how you lived all your life without it. You immediately become an addict. You know that this is what you want to do.» De David Grossman, nascido em Jerusalém em 1954, publicou recentemente a Campo das Letras o excelente «Em Carne Viva», dito «a mais estranha e triste história de amor alguma vez contada». Que aconselho.

Silence Music Box - Josh Rouse, «Miracle»