quarta-feira, 9 de janeiro de 2008
Outros Silêncios
«O Profundo Silêncio das Manhãs de Domingo»
Título de livro de Manuel Jorge Marmelo a editar em breve nas Quasi.
terça-feira, 8 de janeiro de 2008
Podridão e preço da batata podre
Epá, o secretário de Estado do Trabalho e da Segurança Social, um tipo cujo nome não sei nem desejo saber, mas que ouvi na TSF a dizer barbaridades sobre a forma como os pensionistas devem receber os retroactivos de reforma em suaves prestações que não chegam a um euro, pois coitadinhos, dizia o distinto justificando a decisão política, com tal maquia (nove, dez euros...) nos bolsos logo, logo desbaratariam o dinheiro... Digam lá, o figurão donde é que vem? quem é que o pôs no poleiro? quem é que o tira de lá? rapidamente! sem olhar a retroactividades! quando muito com um pontapé no rectoactivo! Cada vez mais brilhante este PS! E já agora, agora que se confirma que Sócrates vai faltar ao eleitoralmente prometido em relação ao referendo ao Tratado de Lisboa, quem pergunta ao senhor engenheiro, olhos nos olhos, quanto vale a sua palavra?
domingo, 6 de janeiro de 2008
Outros Silêncios
«– Isso acontece com toda a gente. Há sempre alguém que liga o rádio; que tenta desligar o silêncio.»
Paulo Kellerman, blog A Gaveta do Paulo
Luiz Pacheco
«Há em todas as literaturas, em todos os tempos, um tipo de artistas que não sendo criadores de fôlego, não se podendo definir (nem talvez eles o ambicionando) como cumeadas de uma época, duma geração ou movimento estético; tendo-se dispersado ou malbaratado o seu talento; ou a própria existência não lhes consentindo mais largos voos, de que todavia os sabíamos capazes; faltando-lhes, enfim, aquela paciência e tenacidade que são os melhores garantes do génio, - não os devemos considerar figuras menores. Dir-se-á, mais rigorosamente, que são personalidades estimáveis, talvez para darem o tom e o nível a determinada época, geração ou movimento, e a sua obra, diminuta ou discreta, às vezes resiste melhor do que outras, grandiosas e grandiloquentes, à prova do tempo. Percebe-se que viveram desprendidos, que não contraíram (não quiseram ou não puderam contrair) consigo npróprios, com a luz que lhes ia dentro, a disciplina exigida por uma criação deliberada e ambiciosa; que a frivolidade do carácter lhes adoçava, atenuando-a, a vontade criadora - tudo, por vezes, dourado com uma bonomia ou um cepticismo (mascarados de ironia), que tornavam os seus juízos como o seu convívio uma experiência de lucidez e simpatia humanas.»
Publicado em 1964, no Jornal de Letras e Artes, com este texto (aqui incompleto) Luiz Pacheco abordava, homenageando, a breve embora fulgurante passagem e desaparecimento de Daniel Filipe pelas letras portuguesas. Dizia, e bem, mais adiante, que Daniel Filipe tinha amado o amor, «que é coisa raríssima». Quem conheça os escritos de Pacheco sobre a literatura portuguesa sabe que para lá da língua vituperina com que fazia as suas críticas encontrava-se um enorme amor à língua portuguesa, amor esse, justamente, que o fazia ser como era: duro e cru, sarcástico também, mas justamente por tudo isso, por todos admirado.
Ao ler este texto sobre Daniel Filipe, espantosamente penso estar a ler um texto autobiográfico de Luiz Pacheco. Ora vejam se a pele não lhe cabe na perfeição. De caminho, e agora, na morte de Luiz Pacheco, porque não lembrar os versos de Daniel Faria: «Tão próxima a partida!/ Tão cedo para a morte!/ (A secreta ferida/ da vária, esquiva sorte).» (Daniel Filipe, «a invenção do amor e outros poemas», Presença)
Publicado em 1964, no Jornal de Letras e Artes, com este texto (aqui incompleto) Luiz Pacheco abordava, homenageando, a breve embora fulgurante passagem e desaparecimento de Daniel Filipe pelas letras portuguesas. Dizia, e bem, mais adiante, que Daniel Filipe tinha amado o amor, «que é coisa raríssima». Quem conheça os escritos de Pacheco sobre a literatura portuguesa sabe que para lá da língua vituperina com que fazia as suas críticas encontrava-se um enorme amor à língua portuguesa, amor esse, justamente, que o fazia ser como era: duro e cru, sarcástico também, mas justamente por tudo isso, por todos admirado.
Ao ler este texto sobre Daniel Filipe, espantosamente penso estar a ler um texto autobiográfico de Luiz Pacheco. Ora vejam se a pele não lhe cabe na perfeição. De caminho, e agora, na morte de Luiz Pacheco, porque não lembrar os versos de Daniel Faria: «Tão próxima a partida!/ Tão cedo para a morte!/ (A secreta ferida/ da vária, esquiva sorte).» (Daniel Filipe, «a invenção do amor e outros poemas», Presença)
Colombo deve ter estremecido debaixo da tumba
Ontem, estreou em Cuba o novo filme de Manoel de Oliveira. Dizem na televisão, do «mestre», dizem, alguns espectadores da Vila alentejana, que sim, que vai ser muito bom para a terra (!!!!), só ninguém tem coragem para dizer que o filme é um desastre, uma pessegada, digna do mais reles mestre de obras cinematográfico em início de obra.
Tropeçar em criancinhas
«... tropeçar em criancinhas»; não ter de o fazer numa novel biblioteca que a todos tem decepcionado. quem utiliza a expressão - depreciativa, parece-me e depreende-se no contexto da leitura do post de certo blogger - está visto que não gosta de criancinhas; mas porque não gosta de criancinhas entre os livros? qual é o problema de criancinhas entre os livros? e que criancinhas: meninas ou meninos?... mas porque é que essa gente não gosta de criancinhas? talvez porque não tenham sido criancinhas. depois adoram-nas e querem adoptá-las...
Histórias Fulminantes 61
Apesar de sem culpa formada (tinha só a quarta classe) matou-se com grande distinção.
Suite Egípcia
http://suiteegipcia.blogspot.com/ Durante as próximas semanas fixe este endereço do blog que a Susana Paiva alimentará em viagem pelo Egipto. Só nome é já um achado e dava um belo título para romance.
sábado, 5 de janeiro de 2008
O que em muito talvez se deva...
Blogospérolas - Amy Winehouse
«Quando Amy Winehouse vai morrer? É o que pergunta um bolão virtual que promete presentear o vencedor com um iPod Touch. Mais de sete mil internautas já fizeram suas apostas, seguidas de condolências à cantora britânica. A brincadeira macabra começou em dezembro do ano passado. Bolão tenta acertar data de morte da cantora Amy Winehouse: "Todos nós teremos um encontro com nosso criador um dia, mas Amy Winehouse parece não conseguir esperar (...) Adivinhe quando será seu último suspiro e seja coroado o Sr. ou a Sra. Morte", propõe a página.»
«Folha de São Paulo», 4/01/08
Escrever segundo Grossman
«The moment before you do it, you have only a vague notion of what it will be like. It’s threatening, it’s attractive, it’s everything. The moment after, you don’t understand how you lived all your life without it. You immediately become an addict. You know that this is what you want to do.» De David Grossman, nascido em Jerusalém em 1954, publicou recentemente a Campo das Letras o excelente «Em Carne Viva», dito «a mais estranha e triste história de amor alguma vez contada». Que aconselho.
O Problema dos Domingos
«Pelo que me toca, aos domingos, no hotel completamente deserto invadia-me uma total falta de aspirações e de objectivos que, para ter ao menos a ilusão de ter o que fazer, saía na direcção da cidade e caminhava sem destino entre os edifícios monumentais do século anterior, que o correr do tempo enegrecera.»
W.G.Sebald, «Os Emigrantes», Teorema
sexta-feira, 4 de janeiro de 2008
A Demanda do Bravo Cavaleiro Dom Quixote - Capítulo XIX
XIX.
Um presidente de câmara ciumento. Uma grande ressaca e a providência de uma mera sessão de autógrafos. O edil interrompe a leitura do «Almanaque Tio Patinhas» para fazer um obséquio a Etelvina. Salvador em grande. De Gin em Gin, de Caipiroska em Caipiroska. Alguns espectáculos comatosos.
Na pequena localidade onde decorria a residência literária tudo ia correndo pelo melhor. Os escritores tiravam o maior partido do convite que lhes calhara em sorte. Gozavam o bom tempo, entretinham-se com passeios e umas comezainas na região, e ao fim da noite dispunham-se a grandes farras no turismo rural. A primeira noite nem correu mal de todo, estiveram todos no bar, na gargalhada e nas anedotas, até por volta das três da madrugada, cada qual lançando charme para cima de Etelvina Prazeres, tentando a sua sorte, quem sabe para uma noite bem passada. O presidente da Câmara é que continuava a não achar piada nenhuma àquele assédio mais do que declarado. Invectivou contra os escritores e contra os livros, chamou nomes a torto e a direito aos editores e livreiros, e, já bem bebido, terminou a noite a enxovalhar a directora da Biblioteca Municipal, chamando-lhe tudo e mais alguma coisa. O presidente sentia, definitivamente, qualquer coisa má a respeito da senhora. Quando um dos empregados da residência o acompanhou ao carro, bêbado que nem um cacho, o presidente ainda teve forças para ameaçar os escritores de que no dia seguinte os trataria de pôr a milhas dali...
E assim fez. No dia seguinte, pelo final da manhã, o vereador da Cultura dirigiu-se ao turismo rural com o fim de levar consigo os cinco escritores para a sessão literária que estava aprazada numa livraria local. Bem instruído pelo presidente, o vereador não se fez rogado ao saber que às onze da manhã os escritores ainda estavam todos a dormir, e tratou ele próprio de ir acordá-los, um a um, aos respectivos quartos, não se mostrando manso nas fortes pancadas que infligia às portas. Meia-hora depois, já todos se encontravam no hall de entrada, partindo depois para a cidade, bastante mal dispostos pelo súbito acordar, donde que sonolentos e, pior ainda, com forte ressaca, a fim de cumprirem com os compromissos agendados. Valeu-lhes a providência e o que os esperava era uma mera sessão de autógrafos, pelo que todos se safaram sem grandes complicações, tanto mais que naquela ocasião específica não poderiam mesmo ser substituídos pelos escritores-fantasmas, que, de resto, também tinham ficado a dormir.
Esse dia seguinte, para além da referida sessão de autógrafos, não tinha previsto mais nenhum acontecimento. Quanto à ausência de Etelvina na sessão, o presidente providenciara que o seu motorista, logo de manhã bem cedo fosse à livraria onde o evento teria lugar, pegasse nos livros da autora e os levasse à residência onde ela trataria de os assinar, levando-os o motorista de regresso à livraria. E assim se fez, com grande profissionalismo e eficácia, pelo que à tarde todos poderiam descansar e continuar em busca de inspiração para as suas histórias a partir daquela experiência. O presidente tirou mais um dia de férias e passou a tarde junto de Etelvina, oleando aqui e acolá, tendo conseguido, em quatro horas, ler seis páginas de um «Almanaque Tio Patinhas» que levara consigo a entreter e educar o espírito.
Na piscina só se encontravam mesmo Etelvina e o autarca, bem como dois hóspedes estrangeiros (um casal de alemães com ar de verdadeiras salcichas) e os seis escritores-fantasmas. Etelvina estranhou a ausência dos seus cinco colegas escritores e perguntou ao edil sobre o seu paradeiro. Este, rindo-se a bom rir, disse-lhe que dera folga ao motorista e que por isso provavelmente eles não tinham conseguido voltar para o turismo rural... E mais não especificou, pouco interessado que estava em saber quem os traria de volta e a que horas. Etelvina sorriu e perguntou ao edil se não fazia o obséquio de lhe ir buscar mais um cocktail, que eram de morrer! Prestimoso, o autarca logo acedeu ao pedido, piscando o olho à autora depois de lhe mostrar os novos óleos que trouxera consigo.
A uns metros de distância, os escritores-fantasmas conversavam animadamente sobre livros, sobre as suas experiências, sobre os seus anseios literários, sobre os projectos de futuro, sobre aquilo que uns e outros andavam a escrever. José Salvador era um dos mais requisitados para a conversa, pois não só trabalhava numa casa que tinha grandes pergaminhos, como também porque era ele o homem por trás da grande Etelvina Prazeres, autora desse sucesso sem par, de sua graça: «Etelvina Prazeres – A Verdade de Cristal». Na verdade, todos eles, mais do que em qualquer outro assunto de conversa, estavam interessados em saber pormenores e detalhes, picantes, se possível, em torno da história de Dom Quixote e da sua atribulada saída da editora. Salvador estava lá – porque apesar de preferir as noites para trabalho, naquele dia também ele estava mais do que curioso para receber um exemplar do livro acabado de sair da gráfica –, Salvador viu e ouviu, Salvador certamente que tinha muito que contar.
E Salvador satisfez a curiosidade aos seus colegas de métier, dando-lhes a conhecer tintim por tintim como tudo tinha acontecido naquela manhã. O director editorial que tinha chegado cedo como nunca aos escritórios, a dona Ifigénia que já por ali, também quase antes do galo cantar, limpava o pó aos cantos da casa, a chegada em polvorosa e com grande estardalhaço de Etelvina e do seu staff protector, a recepção dos livros ainda com cheiro forte a tinta, e depois, claro, a saída espaventosa e a grande galope de um Dom Quixote desvairado ao saber de que livro se tratava aquele, quem era Etelvina, etc., e o mais que o leitor bem recorda.
E a tarde passou-se assim, num rame-rame sonolento e morredoiro, com Etelvina Prazeres na piscina a banhos de água e sol, o senhor presidente da câmara a seu lado, todo obsequioso em matéria de óleos e demais ungidos, investido também a garçon que, sempre que a sede da autora apertava, logo se predispunha a ir buscar-lhe pronto abastecimento ao bar. E depois, à distância considerada razoável pelo edil, os seis escritores-fantasmas, todos eles aproveitando também para disfarçar um pouco a palidez de peles, cada qual com um ar mais leitoso que o seu próximo, de tipo fantasmagórico, lividez que em caso de agravamento ao ponto de doença poderia muito facilmente ser induzida, em sede de segurança social, como resultado directo da profissão exercida. Como doença profissional, em suma.
Quanto a literatura que, lembrar-se-ão, era o que levava àquelas paragens toda esta gente, nem vê-la! A única leitura ali à vista devia-se ao presidente, mas devia ser do tipo hermético ou filosófico, pois o edil não havia maneira de chegar ao fim do almanaque das aventuras do Tio Patinhas... De resto, também dos escritores, os reais, não havia ainda sinal. E só houve bem ao final da tarde, que foi quando chegaram de táxi ao turismo rural, já o sol começava a despedir-se na linha do horizonte. Esgotados da sessão de autógrafos que se tinha prolongado pela tarde fora, suando a bom suar, chegaram, não falaram a ninguém, e apenas deitaram um olhar raivoso ao autarca que relaxava ainda numa espreguiçadeira. Irritados, os escritores só tiveram forças para tomar um duche, descer para jantar e logo em seguida recolher aos seus quartos para uma retemperadora noite de sono. Tinham cumprido o segundo dia da residência e ainda também nenhum deles tinha a menor ideia sobre o que iriam escrever, melhor, nenhum deles sequer se tinha lembrado de que esse era um dos pressupostos da residência, isto é, a partir da experiência havida criar um pequeno texto literário. Talvez no dia seguinte algum dos escritores-fantasmas se lembrasse do assunto. Talvez... talvez porque nessa noite os escritores-fantasmas não se portaram por aí além e não sabemos se algum deles terá ficado em condições para no dia seguinte escrever uma linha que fosse. Vamos já a esses sucessos, pois que ao contrário dos escritores, os escritores-fantasmas, depois do jantar, estavam frescos que nem gambas acabadas de sair do frigorífico com pedrinhas de gelo e, logo, prontíssimos para agarrar a noite ou, como diz o povo, pintar a manta. Foi o que fizeram.
De Martini em Martini, de Gin em Gin, de Caipiroska em Caipiroska, o grupo entrou pela noite dentro em grande reinação. Etelvina, que desde pequena tinha uma estranha fixação por microfones, foi a primeira a dar o mote. Bem alegre, assolapou o palco para si, agarrou-se ao micro e à aparelhagem de karaoke, pondo ao rubro a sua assistência «privada». Cantou, cantou, cantou e cantou mais ainda, cantou todo o repertório existente enquanto o presidente e os escritores-fantasmas a acompanhavam num coro que mais parecia de lamúrias ou cornudos. Foi uma verdadeira chuva de estrelas, e só quem lá esteve poderá ter ficado com a exacta noção do que aquilo foi. Só pelas cinco da manhã, muitos drinks adentro, muita cantoria depois, é que os escritores-fantasmas e Etelvina decidiram dar por terminada a sessão, subindo aos seus quartos. O presidente, esse não decidiu nada pois havia já uma hora que dormia e ressonava de barriga e cabeça enfiadas para baixo num dos sofás do bar.
A caminhada dos sete elementos até ao andar de cima do turismo não foi tarefa fácil e mais parecia que todos caminhavam para o Calvário, só lhes faltando a cruz para o efeito. «Cruzes canhoto!», disse para si o rapaz do turno nocturno por trás do balcão da recepção a ver tão comatoso espectáculo. Todos se amparavam uns aos outros e todos os escritores-fantasmas muito interessados pareciam em amparar as curvas de Etelvina, que não via um palmo à sua frente e, rouca que estava, só dizia coisas sem nexo, tipo que um dia haveria de ir a Estocolmo receber o Nobel, que o Saraiva não pensasse que era só ele o maior escritor, que o Saramago tinha a mania que era o dono das morais, que o Lobo António (foi assim que disse) bem podia ter aquele arzinho de intelectual depressivo-compulsivo, mas que ela, ela Etelvina Prazeres com muito prazer, tinha ainda muito para dar à literatura e sobretudo dela a receber...
Engano ou não (talvez algum dia um dos escritores-fantasmas envolvidos na cena venha a pôr em livro a verdade dos factos), vá lá saber-se porquê mas quando, quase às duas da tarde do dia seguinte, um a um, seguidos de Etelvina no final, cada qual com uma dor de cabeça maior, foram acordando, a verdade é que nenhum deles saberia explicar ou se lembrava de como e porquê todos tinham ido parar à cama de Etelvina. Quanto ao presidente, fora acordado ao meio-dia, ainda de cabeça atarracada numa almofada, babando-se ao de leve quando sonhava ser o Robbie Williams rodeado de top models em trajes menores numa pista de dança. Estremunhado e de mau humor, com a cabeça a pesar toneladas, o autarca só abriu olho depois de muitos safanões no ombro que lhe dera o vereador da cultura. «Presidente, presidente, acorde, acorde presidente!». O homem estava em stress e não era para menos. Havia que cumprir o programa da Residência Literária e a agenda dizia que nesse dia, às três da tarde, deveria ter lugar a sessão de abertura da Feira do Livro. Ora, a abertura estava confiada à tesoura do autarca e durante toda a manhã o pessoal da Câmara o tinha procurado por toda a cidade sem dele reunir notícia. «Ó senhor presidente, acorde! Ai, senhor presidente, a directora da Biblioteca vai-me matar! Acorde, por amor de Deus, temos que ir para a feira do livro. Presidente, olhe que a sua esposa está em cuidados...»
Ao ouvir a palavra «esposa» o edil como que chegou à terra, isto é, acordou de supetão, pondo-se direito que nem um espeto como que querendo dar a entender que estava muito bem, tudo estava sob controle e que ali o tinham a prontos para acudir aos seus deveres e tomar em mãos as responsabilidade atinentes à função que exercia, a de comandar os gloriosos destinos da sua autarquia. «A feira? Pois, vamos já para lá, que já me podia ter vindo acordar muito mais cedo, senhor vereador!» E dali saiu de rompante, algo estonteado da ressaca, mas determinado a cumprir com a agenda da Residência. Antes, teve ainda tempo de dar ordem na recepção para que logo, logo acordassem Etelvina e os demais escritores, que também preste, muito preste chegaria a carrinha da Câmara para os levar. O rapazito da Recepção envidou então esforços para acordar os clientes da suite 69 (onde se encontravam Etelvina e os seis fantasmas). Telefonou para o quarto, deixou tocar, tocar, tocar e nada. Ninguém atendia. Todos dormiam ainda a bom dormir.
Pouco depois, chegava a carrinha da Câmara com o vereador da Cultura a comandar as operações, devidamente instruído para não arredar dali sem os escritores. O que até não foi tarefa difícil já que, à excepção de Etelvina, todos tinham acordado cedo, tendo-se decidido a um passeio a cavalo pelos campos. Só que as instruções do presidente eram bem precisas, todos os escritores deveriam estar presentes na Feira, pelo que Etelvina não podia ser excepção. Só que a prestigiada autora dormia! Porém, ao vereador da Cultura não restava outra solução, caber-lhe-ia arrancar Etelvina às profundezas do sono. Junto do moço da recepção o vereador tentou novamente a ligação por telefone ao 69, mas nada feito. Tinha mesmo que recorrer a uma solução extrema, pediu a chave dupla do quarto e foi para lá que se dirigiu. Mais devera não tê-lo feito, tal foi o susto que apanhou mal fez rodar a chave na fechadura e deparando-se com o espectáculo que lhe calhou em sorte. Nus, nuzinhos tal como tinham vindo ao mundo, ressonando sobre os lençóis em alvoroço, os seis escritores-fantasmas abraçavam-se a Etelvina que descansava ainda com um sorriso nos lábios. O susto do vereador foi de tal ordem que ia-lhe dando uma síncope cardíaca, pelo que levou a mão ao peito e arfou com dificuldade, encostando-se com estrondo à porta entreaberta. Com o barulho, Etelvina e os seus escritores-fantasmas acordaram um a um e um a um foram estranhando o que raio fazia ali, àquela hora, de mão junto ao pescoço tentando desapertar a gravata e arfando que nem um louco o vereador da Cultura.
Refeito o vereador com um copinho de água fresca açucarada, sem mais delongas o «braço direito» do presidente instou os circunstantes a se vestirem e pediu a Etelvina que, sem mais delongas, se encaminhasse para o piso de baixo onde a carrinha camarária a aguardava para levá-la, mais aos outros escritores, à Feira do Livro, cuja abertura estava agendada para daí a poucos minutos. Ordens do presidente! Etelvina, algo irritadiça com o stress todo daquele acordar, tanto mais que mal teve tempo para tomar o pequeno-almoço com calma e, inacreditavelmente, nem sequer pudera dar um mergulho na piscina, estava uma pilha de nervos. Porém, a insistência do vereador da Cultura, Etelvina lá subiu, com a calma possível, para dentro da carrinha, dando ao mesmo tempo uma trinca numa sandes de panado e segurando noutra mão um croquete. A tarde na piscina ficou deste modo por conta dos escritores-fantasmas, que assim se tiveram oportunidade de se refazer dos excessos cometidos na noite anterior. Depressa chegaria ao fim o terceiro dia da Residência Literária, faltava apenas um para cumprir, aquele em que, supostamente, os escritores apresentariam, em sessão camarária, uma sinopse das ideias que pretenderiam desenvolver a partir da sua estadia ali durante aqueles quatro dias.
A sessão na feira do livro acabou por decorrer sem factos de monta a referir, muito embora tenha havido quem perguntasse pelo paradeiro dos escritores-fantasmas que tão boa conta de si e dos seus méritos literários haviam dado na sessão inaugural da residência. Quanto aos escritores, uma vez mais, todas as atenções se voltaram para Etelvina que acabou por passar uma tarde divertida a dar autógrafos, tanto mais que faltara à sessão do dia anterior. Seguiu-se depois fausta jantarada, sempre patrocinada pelo senhor presidente, agora já mais controlado nos comes e bebes em virtude da presença da esposa, e a noite terminou numa discoteca local com a música a «bombar» e, desta feita, com o vereador da Cultura – em substituição do edil que tinha levado com ordem de marcha da esposa para se dirigir com ela para casa –, a mostrar os seus dotes de dançarino. Lá para as três da manhã, todos regressaram ao Turismo Rural e enfiaram-se directamente (sem passagem pelo bar) nos seus quartos. Todos, excepto Etelvina e o vereador que por então se entendiam às mil maravilhas, ficando na conversa mole, acompanhada de um drink até às duas da manhã.
Foi pouco para lá dessa hora que, lá em cima, mal os escritores tinham acabado de pregar olho, sonhando já com os anjinhos, foram acordados por estranhos barulhos, vozes sussurrantes que mais pareciam gemidos vindos do além. Etelvina não lhes ligou patavina (aqui entre nós, porque acabara por se envolver com o vereador da Cultura entre lençóis), mas os escritores assustaram-se a bom assustar. Não vale a pena esconder, é claro que eram os escritores-fantasmas que novamente davam azo à sua propensão para a diversão nocturna. Tinham todos acabado de regressar de uma discoteca e haviam decidido pregar um susto aos seus escritores. E, neste concreto, se eram escritores-fantasmas quem poderia recriminá-los pelo facto?
Um presidente de câmara ciumento. Uma grande ressaca e a providência de uma mera sessão de autógrafos. O edil interrompe a leitura do «Almanaque Tio Patinhas» para fazer um obséquio a Etelvina. Salvador em grande. De Gin em Gin, de Caipiroska em Caipiroska. Alguns espectáculos comatosos.
Na pequena localidade onde decorria a residência literária tudo ia correndo pelo melhor. Os escritores tiravam o maior partido do convite que lhes calhara em sorte. Gozavam o bom tempo, entretinham-se com passeios e umas comezainas na região, e ao fim da noite dispunham-se a grandes farras no turismo rural. A primeira noite nem correu mal de todo, estiveram todos no bar, na gargalhada e nas anedotas, até por volta das três da madrugada, cada qual lançando charme para cima de Etelvina Prazeres, tentando a sua sorte, quem sabe para uma noite bem passada. O presidente da Câmara é que continuava a não achar piada nenhuma àquele assédio mais do que declarado. Invectivou contra os escritores e contra os livros, chamou nomes a torto e a direito aos editores e livreiros, e, já bem bebido, terminou a noite a enxovalhar a directora da Biblioteca Municipal, chamando-lhe tudo e mais alguma coisa. O presidente sentia, definitivamente, qualquer coisa má a respeito da senhora. Quando um dos empregados da residência o acompanhou ao carro, bêbado que nem um cacho, o presidente ainda teve forças para ameaçar os escritores de que no dia seguinte os trataria de pôr a milhas dali...
E assim fez. No dia seguinte, pelo final da manhã, o vereador da Cultura dirigiu-se ao turismo rural com o fim de levar consigo os cinco escritores para a sessão literária que estava aprazada numa livraria local. Bem instruído pelo presidente, o vereador não se fez rogado ao saber que às onze da manhã os escritores ainda estavam todos a dormir, e tratou ele próprio de ir acordá-los, um a um, aos respectivos quartos, não se mostrando manso nas fortes pancadas que infligia às portas. Meia-hora depois, já todos se encontravam no hall de entrada, partindo depois para a cidade, bastante mal dispostos pelo súbito acordar, donde que sonolentos e, pior ainda, com forte ressaca, a fim de cumprirem com os compromissos agendados. Valeu-lhes a providência e o que os esperava era uma mera sessão de autógrafos, pelo que todos se safaram sem grandes complicações, tanto mais que naquela ocasião específica não poderiam mesmo ser substituídos pelos escritores-fantasmas, que, de resto, também tinham ficado a dormir.
Esse dia seguinte, para além da referida sessão de autógrafos, não tinha previsto mais nenhum acontecimento. Quanto à ausência de Etelvina na sessão, o presidente providenciara que o seu motorista, logo de manhã bem cedo fosse à livraria onde o evento teria lugar, pegasse nos livros da autora e os levasse à residência onde ela trataria de os assinar, levando-os o motorista de regresso à livraria. E assim se fez, com grande profissionalismo e eficácia, pelo que à tarde todos poderiam descansar e continuar em busca de inspiração para as suas histórias a partir daquela experiência. O presidente tirou mais um dia de férias e passou a tarde junto de Etelvina, oleando aqui e acolá, tendo conseguido, em quatro horas, ler seis páginas de um «Almanaque Tio Patinhas» que levara consigo a entreter e educar o espírito.
Na piscina só se encontravam mesmo Etelvina e o autarca, bem como dois hóspedes estrangeiros (um casal de alemães com ar de verdadeiras salcichas) e os seis escritores-fantasmas. Etelvina estranhou a ausência dos seus cinco colegas escritores e perguntou ao edil sobre o seu paradeiro. Este, rindo-se a bom rir, disse-lhe que dera folga ao motorista e que por isso provavelmente eles não tinham conseguido voltar para o turismo rural... E mais não especificou, pouco interessado que estava em saber quem os traria de volta e a que horas. Etelvina sorriu e perguntou ao edil se não fazia o obséquio de lhe ir buscar mais um cocktail, que eram de morrer! Prestimoso, o autarca logo acedeu ao pedido, piscando o olho à autora depois de lhe mostrar os novos óleos que trouxera consigo.
A uns metros de distância, os escritores-fantasmas conversavam animadamente sobre livros, sobre as suas experiências, sobre os seus anseios literários, sobre os projectos de futuro, sobre aquilo que uns e outros andavam a escrever. José Salvador era um dos mais requisitados para a conversa, pois não só trabalhava numa casa que tinha grandes pergaminhos, como também porque era ele o homem por trás da grande Etelvina Prazeres, autora desse sucesso sem par, de sua graça: «Etelvina Prazeres – A Verdade de Cristal». Na verdade, todos eles, mais do que em qualquer outro assunto de conversa, estavam interessados em saber pormenores e detalhes, picantes, se possível, em torno da história de Dom Quixote e da sua atribulada saída da editora. Salvador estava lá – porque apesar de preferir as noites para trabalho, naquele dia também ele estava mais do que curioso para receber um exemplar do livro acabado de sair da gráfica –, Salvador viu e ouviu, Salvador certamente que tinha muito que contar.
E Salvador satisfez a curiosidade aos seus colegas de métier, dando-lhes a conhecer tintim por tintim como tudo tinha acontecido naquela manhã. O director editorial que tinha chegado cedo como nunca aos escritórios, a dona Ifigénia que já por ali, também quase antes do galo cantar, limpava o pó aos cantos da casa, a chegada em polvorosa e com grande estardalhaço de Etelvina e do seu staff protector, a recepção dos livros ainda com cheiro forte a tinta, e depois, claro, a saída espaventosa e a grande galope de um Dom Quixote desvairado ao saber de que livro se tratava aquele, quem era Etelvina, etc., e o mais que o leitor bem recorda.
E a tarde passou-se assim, num rame-rame sonolento e morredoiro, com Etelvina Prazeres na piscina a banhos de água e sol, o senhor presidente da câmara a seu lado, todo obsequioso em matéria de óleos e demais ungidos, investido também a garçon que, sempre que a sede da autora apertava, logo se predispunha a ir buscar-lhe pronto abastecimento ao bar. E depois, à distância considerada razoável pelo edil, os seis escritores-fantasmas, todos eles aproveitando também para disfarçar um pouco a palidez de peles, cada qual com um ar mais leitoso que o seu próximo, de tipo fantasmagórico, lividez que em caso de agravamento ao ponto de doença poderia muito facilmente ser induzida, em sede de segurança social, como resultado directo da profissão exercida. Como doença profissional, em suma.
Quanto a literatura que, lembrar-se-ão, era o que levava àquelas paragens toda esta gente, nem vê-la! A única leitura ali à vista devia-se ao presidente, mas devia ser do tipo hermético ou filosófico, pois o edil não havia maneira de chegar ao fim do almanaque das aventuras do Tio Patinhas... De resto, também dos escritores, os reais, não havia ainda sinal. E só houve bem ao final da tarde, que foi quando chegaram de táxi ao turismo rural, já o sol começava a despedir-se na linha do horizonte. Esgotados da sessão de autógrafos que se tinha prolongado pela tarde fora, suando a bom suar, chegaram, não falaram a ninguém, e apenas deitaram um olhar raivoso ao autarca que relaxava ainda numa espreguiçadeira. Irritados, os escritores só tiveram forças para tomar um duche, descer para jantar e logo em seguida recolher aos seus quartos para uma retemperadora noite de sono. Tinham cumprido o segundo dia da residência e ainda também nenhum deles tinha a menor ideia sobre o que iriam escrever, melhor, nenhum deles sequer se tinha lembrado de que esse era um dos pressupostos da residência, isto é, a partir da experiência havida criar um pequeno texto literário. Talvez no dia seguinte algum dos escritores-fantasmas se lembrasse do assunto. Talvez... talvez porque nessa noite os escritores-fantasmas não se portaram por aí além e não sabemos se algum deles terá ficado em condições para no dia seguinte escrever uma linha que fosse. Vamos já a esses sucessos, pois que ao contrário dos escritores, os escritores-fantasmas, depois do jantar, estavam frescos que nem gambas acabadas de sair do frigorífico com pedrinhas de gelo e, logo, prontíssimos para agarrar a noite ou, como diz o povo, pintar a manta. Foi o que fizeram.
De Martini em Martini, de Gin em Gin, de Caipiroska em Caipiroska, o grupo entrou pela noite dentro em grande reinação. Etelvina, que desde pequena tinha uma estranha fixação por microfones, foi a primeira a dar o mote. Bem alegre, assolapou o palco para si, agarrou-se ao micro e à aparelhagem de karaoke, pondo ao rubro a sua assistência «privada». Cantou, cantou, cantou e cantou mais ainda, cantou todo o repertório existente enquanto o presidente e os escritores-fantasmas a acompanhavam num coro que mais parecia de lamúrias ou cornudos. Foi uma verdadeira chuva de estrelas, e só quem lá esteve poderá ter ficado com a exacta noção do que aquilo foi. Só pelas cinco da manhã, muitos drinks adentro, muita cantoria depois, é que os escritores-fantasmas e Etelvina decidiram dar por terminada a sessão, subindo aos seus quartos. O presidente, esse não decidiu nada pois havia já uma hora que dormia e ressonava de barriga e cabeça enfiadas para baixo num dos sofás do bar.
A caminhada dos sete elementos até ao andar de cima do turismo não foi tarefa fácil e mais parecia que todos caminhavam para o Calvário, só lhes faltando a cruz para o efeito. «Cruzes canhoto!», disse para si o rapaz do turno nocturno por trás do balcão da recepção a ver tão comatoso espectáculo. Todos se amparavam uns aos outros e todos os escritores-fantasmas muito interessados pareciam em amparar as curvas de Etelvina, que não via um palmo à sua frente e, rouca que estava, só dizia coisas sem nexo, tipo que um dia haveria de ir a Estocolmo receber o Nobel, que o Saraiva não pensasse que era só ele o maior escritor, que o Saramago tinha a mania que era o dono das morais, que o Lobo António (foi assim que disse) bem podia ter aquele arzinho de intelectual depressivo-compulsivo, mas que ela, ela Etelvina Prazeres com muito prazer, tinha ainda muito para dar à literatura e sobretudo dela a receber...
Engano ou não (talvez algum dia um dos escritores-fantasmas envolvidos na cena venha a pôr em livro a verdade dos factos), vá lá saber-se porquê mas quando, quase às duas da tarde do dia seguinte, um a um, seguidos de Etelvina no final, cada qual com uma dor de cabeça maior, foram acordando, a verdade é que nenhum deles saberia explicar ou se lembrava de como e porquê todos tinham ido parar à cama de Etelvina. Quanto ao presidente, fora acordado ao meio-dia, ainda de cabeça atarracada numa almofada, babando-se ao de leve quando sonhava ser o Robbie Williams rodeado de top models em trajes menores numa pista de dança. Estremunhado e de mau humor, com a cabeça a pesar toneladas, o autarca só abriu olho depois de muitos safanões no ombro que lhe dera o vereador da cultura. «Presidente, presidente, acorde, acorde presidente!». O homem estava em stress e não era para menos. Havia que cumprir o programa da Residência Literária e a agenda dizia que nesse dia, às três da tarde, deveria ter lugar a sessão de abertura da Feira do Livro. Ora, a abertura estava confiada à tesoura do autarca e durante toda a manhã o pessoal da Câmara o tinha procurado por toda a cidade sem dele reunir notícia. «Ó senhor presidente, acorde! Ai, senhor presidente, a directora da Biblioteca vai-me matar! Acorde, por amor de Deus, temos que ir para a feira do livro. Presidente, olhe que a sua esposa está em cuidados...»
Ao ouvir a palavra «esposa» o edil como que chegou à terra, isto é, acordou de supetão, pondo-se direito que nem um espeto como que querendo dar a entender que estava muito bem, tudo estava sob controle e que ali o tinham a prontos para acudir aos seus deveres e tomar em mãos as responsabilidade atinentes à função que exercia, a de comandar os gloriosos destinos da sua autarquia. «A feira? Pois, vamos já para lá, que já me podia ter vindo acordar muito mais cedo, senhor vereador!» E dali saiu de rompante, algo estonteado da ressaca, mas determinado a cumprir com a agenda da Residência. Antes, teve ainda tempo de dar ordem na recepção para que logo, logo acordassem Etelvina e os demais escritores, que também preste, muito preste chegaria a carrinha da Câmara para os levar. O rapazito da Recepção envidou então esforços para acordar os clientes da suite 69 (onde se encontravam Etelvina e os seis fantasmas). Telefonou para o quarto, deixou tocar, tocar, tocar e nada. Ninguém atendia. Todos dormiam ainda a bom dormir.
Pouco depois, chegava a carrinha da Câmara com o vereador da Cultura a comandar as operações, devidamente instruído para não arredar dali sem os escritores. O que até não foi tarefa difícil já que, à excepção de Etelvina, todos tinham acordado cedo, tendo-se decidido a um passeio a cavalo pelos campos. Só que as instruções do presidente eram bem precisas, todos os escritores deveriam estar presentes na Feira, pelo que Etelvina não podia ser excepção. Só que a prestigiada autora dormia! Porém, ao vereador da Cultura não restava outra solução, caber-lhe-ia arrancar Etelvina às profundezas do sono. Junto do moço da recepção o vereador tentou novamente a ligação por telefone ao 69, mas nada feito. Tinha mesmo que recorrer a uma solução extrema, pediu a chave dupla do quarto e foi para lá que se dirigiu. Mais devera não tê-lo feito, tal foi o susto que apanhou mal fez rodar a chave na fechadura e deparando-se com o espectáculo que lhe calhou em sorte. Nus, nuzinhos tal como tinham vindo ao mundo, ressonando sobre os lençóis em alvoroço, os seis escritores-fantasmas abraçavam-se a Etelvina que descansava ainda com um sorriso nos lábios. O susto do vereador foi de tal ordem que ia-lhe dando uma síncope cardíaca, pelo que levou a mão ao peito e arfou com dificuldade, encostando-se com estrondo à porta entreaberta. Com o barulho, Etelvina e os seus escritores-fantasmas acordaram um a um e um a um foram estranhando o que raio fazia ali, àquela hora, de mão junto ao pescoço tentando desapertar a gravata e arfando que nem um louco o vereador da Cultura.
Refeito o vereador com um copinho de água fresca açucarada, sem mais delongas o «braço direito» do presidente instou os circunstantes a se vestirem e pediu a Etelvina que, sem mais delongas, se encaminhasse para o piso de baixo onde a carrinha camarária a aguardava para levá-la, mais aos outros escritores, à Feira do Livro, cuja abertura estava agendada para daí a poucos minutos. Ordens do presidente! Etelvina, algo irritadiça com o stress todo daquele acordar, tanto mais que mal teve tempo para tomar o pequeno-almoço com calma e, inacreditavelmente, nem sequer pudera dar um mergulho na piscina, estava uma pilha de nervos. Porém, a insistência do vereador da Cultura, Etelvina lá subiu, com a calma possível, para dentro da carrinha, dando ao mesmo tempo uma trinca numa sandes de panado e segurando noutra mão um croquete. A tarde na piscina ficou deste modo por conta dos escritores-fantasmas, que assim se tiveram oportunidade de se refazer dos excessos cometidos na noite anterior. Depressa chegaria ao fim o terceiro dia da Residência Literária, faltava apenas um para cumprir, aquele em que, supostamente, os escritores apresentariam, em sessão camarária, uma sinopse das ideias que pretenderiam desenvolver a partir da sua estadia ali durante aqueles quatro dias.
A sessão na feira do livro acabou por decorrer sem factos de monta a referir, muito embora tenha havido quem perguntasse pelo paradeiro dos escritores-fantasmas que tão boa conta de si e dos seus méritos literários haviam dado na sessão inaugural da residência. Quanto aos escritores, uma vez mais, todas as atenções se voltaram para Etelvina que acabou por passar uma tarde divertida a dar autógrafos, tanto mais que faltara à sessão do dia anterior. Seguiu-se depois fausta jantarada, sempre patrocinada pelo senhor presidente, agora já mais controlado nos comes e bebes em virtude da presença da esposa, e a noite terminou numa discoteca local com a música a «bombar» e, desta feita, com o vereador da Cultura – em substituição do edil que tinha levado com ordem de marcha da esposa para se dirigir com ela para casa –, a mostrar os seus dotes de dançarino. Lá para as três da manhã, todos regressaram ao Turismo Rural e enfiaram-se directamente (sem passagem pelo bar) nos seus quartos. Todos, excepto Etelvina e o vereador que por então se entendiam às mil maravilhas, ficando na conversa mole, acompanhada de um drink até às duas da manhã.
Foi pouco para lá dessa hora que, lá em cima, mal os escritores tinham acabado de pregar olho, sonhando já com os anjinhos, foram acordados por estranhos barulhos, vozes sussurrantes que mais pareciam gemidos vindos do além. Etelvina não lhes ligou patavina (aqui entre nós, porque acabara por se envolver com o vereador da Cultura entre lençóis), mas os escritores assustaram-se a bom assustar. Não vale a pena esconder, é claro que eram os escritores-fantasmas que novamente davam azo à sua propensão para a diversão nocturna. Tinham todos acabado de regressar de uma discoteca e haviam decidido pregar um susto aos seus escritores. E, neste concreto, se eram escritores-fantasmas quem poderia recriminá-los pelo facto?
Histórias Fulminantes 60
A sua boca era um túmulo a quem todos confiavam os seus segredos. Uma vez falecido, ao abrir-lhe a boca o médico que o autopsiou encontrou a Verdade e um tesouro em dentes de ouro.
Silence News - Olímpio Ferreira
O artigo vem no «Público» de hoje, assinado por Jorge Silva Melo e diz de um «Um homem que fazia livros»
1967-2007 Olímpio Ferreira
Chamava-se Olímpio Ferreira, o seu nome aparece na ficha de dezenas de livros e revistas (da Cotovia, da & etc., da Assírio, da Fenda, da Averno, da Abril em Maio, dos Artistas Unidos, e mais haverá que não sei). Tinha 40 anos, fazia paginação, morreu no dia 30 de Dezembro, ataque cardíaco.
Um dia, há muitos anos, dia difícil para mim, tocou-me à porta com um embrulho que eu supus ter deixado cair - e agradeci. Era um exemplar de Consideram-se Mortos e Morrem, o belíssimo romance de Vittorini que a PIDE apreendeu nos anos 60 e aparecia na colecção da Portugália como "fora do mercado". Lera um artigo em que eu falava da falta que me fazia esse livro perdido, e apareceu-me em casa (como soube a minha morada? Nunca saberei...) com esse embrulho, um sorriso, um remetente (à Rua da Fé, nome que lhe ia bem). Para onde telefonei, mal me apercebi que não era um vizinho que encontrara nas escadas uma coisa que eu deixara cair. E ficámos amigos.E foi sempre com esse sorriso e estes livros achados que fui vivendo estes anos com ele, livros que encontrava, e um dia me oferecia, os Vadios de Pasolini, tradução de Virgílio Martinho, capa de Pinto, edição do Vítor Silva Tavares para a Ulisseia, apreendido pela PIDE - que desencantou nunca me disse onde, que tanto o procurei.
Vinha de Coimbra e do movimento católico, falámos pouco desse catolicismo que nos ligava, falámos sempre mais de livros, de traduções que ele sabia estarem a ser feitas (foi ele que me falou de Carlos Leite traduzindo o Pavese, de Manuel Portela a traduzir o Sterne), de poetas que apareciam (deu-me o primeiro Tolentino Mendonça, padre e amigo, não sei se não foi ele também quem primeiro me falou do Luís Quintais, foi ele que me anunciou a decisão do Manuel Gusmão de enfim publicar, sabia sempre tudo, foi ele que me falou da DiVersos), falámos de tipos de letras e da dimensão dos livros (gostávamos de livros pequeninos, livrinhos, chamámos nós à nossa colecção), de capas e de política, rimo-nos da última vez que nos encontrámos, no Campo de Santana, na véspera ou no dia em que lhe nasceu o filho mais novo, rimos dos dislates do poder, sempre falámos mais disso, dos disparates do mundo, ele convidava-me de vez em quando para umas coisas (um colóquio na Nova, um artigo para a revista Intervalo em que trabalhava), recomendava-me pessoas, gente mais nova (o Luís Henriques, que este domingo me anunciou a sua morte - e chorava), aparecia sempre, como da primeira vez, com um sorriso lindo.
E fazia livros, paginava-os, entusiasmava-se, revejo agora o seu deslumbramento com o Homossexualidade de Joaquim Manuel Magalhães que publicara a Telhados de Vidro nº 4 (500 ex.). É poema (extraordinário) que não leio sem me lembrar do rosto do Olímpio ao oferecer-mo, "se há poesia política, é esta", dizia, e nesse dia estava declaradamente afirmativo, coisa rara naquela sua maneira de ser, tão discreto que era.Nunca soube o que queria o Olímpio, se queria fazer outra coisa, se queria escrever, se queria editar, se queria abrir alguma loja de livros, se queria outra coisa, nunca disse, mesmo quando eu o desafiava, sei que fazia livros, queria andar pelo meio deles - e de filmes também, filmes de que, às vezes, falávamos e foi ele que me disse que me conhecera em Coimbra, na estreia do Agosto, na plateia deserta do TAGV - e paginava com saber, com extremo cuidado, destreza, simplicidade, delicadeza. Não sei se atrás do seu sorriso haveria alguma mágoa, alguma coisa que não tinha feito e queria, sorria, brincava com o destino, falava de amigos e de escritores, de editores e de livros. E dos filhos e das noites em claro.
Era um homem que fazia livros - e às vezes os dava -, que convencia os outros da excelência de certos autores (Gianni Rodari, editado pela Teorema), que convidava ao secreto encontro - e tinha sempre novidades.
Morreu agora, inesperadamente, brutalmente, discretamente, no meio das festas, com tantos amigos fora, e faz-me falta, era um rapaz leal, firme, secreto, discreto, um amigo. Na missa, em Santa Isabel, Tolentino Mendonça lembrou-o, comovido - e lembrou as bem-aventuranças. E lembrou que não seremos jamais órfãos, sempre seremos herdeiros. Deste rapaz que fazia livros.
1967-2007 Olímpio Ferreira
Chamava-se Olímpio Ferreira, o seu nome aparece na ficha de dezenas de livros e revistas (da Cotovia, da & etc., da Assírio, da Fenda, da Averno, da Abril em Maio, dos Artistas Unidos, e mais haverá que não sei). Tinha 40 anos, fazia paginação, morreu no dia 30 de Dezembro, ataque cardíaco.
Um dia, há muitos anos, dia difícil para mim, tocou-me à porta com um embrulho que eu supus ter deixado cair - e agradeci. Era um exemplar de Consideram-se Mortos e Morrem, o belíssimo romance de Vittorini que a PIDE apreendeu nos anos 60 e aparecia na colecção da Portugália como "fora do mercado". Lera um artigo em que eu falava da falta que me fazia esse livro perdido, e apareceu-me em casa (como soube a minha morada? Nunca saberei...) com esse embrulho, um sorriso, um remetente (à Rua da Fé, nome que lhe ia bem). Para onde telefonei, mal me apercebi que não era um vizinho que encontrara nas escadas uma coisa que eu deixara cair. E ficámos amigos.E foi sempre com esse sorriso e estes livros achados que fui vivendo estes anos com ele, livros que encontrava, e um dia me oferecia, os Vadios de Pasolini, tradução de Virgílio Martinho, capa de Pinto, edição do Vítor Silva Tavares para a Ulisseia, apreendido pela PIDE - que desencantou nunca me disse onde, que tanto o procurei.
Vinha de Coimbra e do movimento católico, falámos pouco desse catolicismo que nos ligava, falámos sempre mais de livros, de traduções que ele sabia estarem a ser feitas (foi ele que me falou de Carlos Leite traduzindo o Pavese, de Manuel Portela a traduzir o Sterne), de poetas que apareciam (deu-me o primeiro Tolentino Mendonça, padre e amigo, não sei se não foi ele também quem primeiro me falou do Luís Quintais, foi ele que me anunciou a decisão do Manuel Gusmão de enfim publicar, sabia sempre tudo, foi ele que me falou da DiVersos), falámos de tipos de letras e da dimensão dos livros (gostávamos de livros pequeninos, livrinhos, chamámos nós à nossa colecção), de capas e de política, rimo-nos da última vez que nos encontrámos, no Campo de Santana, na véspera ou no dia em que lhe nasceu o filho mais novo, rimos dos dislates do poder, sempre falámos mais disso, dos disparates do mundo, ele convidava-me de vez em quando para umas coisas (um colóquio na Nova, um artigo para a revista Intervalo em que trabalhava), recomendava-me pessoas, gente mais nova (o Luís Henriques, que este domingo me anunciou a sua morte - e chorava), aparecia sempre, como da primeira vez, com um sorriso lindo.
E fazia livros, paginava-os, entusiasmava-se, revejo agora o seu deslumbramento com o Homossexualidade de Joaquim Manuel Magalhães que publicara a Telhados de Vidro nº 4 (500 ex.). É poema (extraordinário) que não leio sem me lembrar do rosto do Olímpio ao oferecer-mo, "se há poesia política, é esta", dizia, e nesse dia estava declaradamente afirmativo, coisa rara naquela sua maneira de ser, tão discreto que era.Nunca soube o que queria o Olímpio, se queria fazer outra coisa, se queria escrever, se queria editar, se queria abrir alguma loja de livros, se queria outra coisa, nunca disse, mesmo quando eu o desafiava, sei que fazia livros, queria andar pelo meio deles - e de filmes também, filmes de que, às vezes, falávamos e foi ele que me disse que me conhecera em Coimbra, na estreia do Agosto, na plateia deserta do TAGV - e paginava com saber, com extremo cuidado, destreza, simplicidade, delicadeza. Não sei se atrás do seu sorriso haveria alguma mágoa, alguma coisa que não tinha feito e queria, sorria, brincava com o destino, falava de amigos e de escritores, de editores e de livros. E dos filhos e das noites em claro.
Era um homem que fazia livros - e às vezes os dava -, que convencia os outros da excelência de certos autores (Gianni Rodari, editado pela Teorema), que convidava ao secreto encontro - e tinha sempre novidades.
Morreu agora, inesperadamente, brutalmente, discretamente, no meio das festas, com tantos amigos fora, e faz-me falta, era um rapaz leal, firme, secreto, discreto, um amigo. Na missa, em Santa Isabel, Tolentino Mendonça lembrou-o, comovido - e lembrou as bem-aventuranças. E lembrou que não seremos jamais órfãos, sempre seremos herdeiros. Deste rapaz que fazia livros.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2008
E a propósito de moral e das intocáveis corjas que nos vão governando
O texto, brilhante, é do Miguel Sousa Tavares, a quem tiro o chapéu pela lucidez e coragem com que opina. Veio no «Expresso» de 29 de Dezembro e devia ser, a partir de agora, leitura obrigatória nas escolas. Para atestar da escória política que nos vem governando e que faz com que cada vez menos e menos gente vote em eleições.
Da Opus Dei à maçonaria: a incrível história do BCP
«Expresso», 29 de Dezembro 2007
Em países onde o capitalismo, as leis da concorrência e a seriedade do negócio bancário são levados a sério, a inacreditável história do BCP já teria levado a prisões e a um escândalo público de todo o tamanho. Em Portugal, como tudo vai acabar sem responsáveis e sem responsabilidades, convém recordar os principais momentos deste "case study", para que ao menos a falta de vergonha não passe impune.
1 Até ao 25 de Abril, o negócio bancário em Portugal obedecia a regras simples: cada grande família, intimamente ligada ao regime, tinha o seu banco. Os bancos tinham um só dono ou uma só família como dono e sustentavam os demais negócios do respectivo grupo. Com o 25 de Abril e a nacionalização sumária de toda a banca, entrámos num período 'revolucionário' em que "a banca ao serviço do povo" se traduzia, aos olhos do povo, por uns camaradas mal vestidos e mal encarados que nos atendiam aos balcões como se nos estivessem a fazer um grande favor. Jardim Gonçalves veio revolucionar isso, com a criação do BCP e, mais tarde, da Nova Rede, onde as pessoas passaram a ser tratadas como clientes e recebidas por profissionais do ofício. Mas, mais: ele conseguiu criar um banco através de um MBO informal que, na prática, assentava na ideia de valorizar a competência sobre o capital. O BCP reuniu uma série de accionistas fundadores, mas quem de facto mandava eram os administradores - que não tinham capital, mas tinham "know-how". Todos os fundadores aceitaram o contrato proposto pelo "engenheiro" - à excepção de Américo Amorim, que tratou de sair, com grandes lucros, assim que achou que os gestores não respeitavam o estatuto a que se achava com direito (e dinheiro).
2 Com essa imagem, aliás merecida, de profissionalismo e competência, o BCP foi crescendo, crescendo, até se tornar o maior banco privado português, apenas atrás do único banco público, a Caixa Geral de Depósitos. E, de cada vez que crescia, era necessário um aumento de capital. E, em cada aumento de capital, era necessário evitar que algum accionista individual ganhasse tanta dimensão que pudesse passar a interferir na gestão do banco. Para tal, o BCP começou a fazer coisas pouco recomendáveis: aos pequenos depositantes, que lhe tinham confiado as suas poupanças para gestão, o BCP tratava de lhes comprar, sem os consultar, acções do próprio banco nos aumentos de capital, deixando-os depois desamparados perante as perdas em bolsa; aos grandes depositantes e amigos dos gestores, abria-lhes créditos de milhões em "off-shores" para comprarem acções do banco, cobrindo-lhes, em caso de necessidade, os prejuízos do investimento. Desta forma exemplar, o banco financiou o seu crescimento com o pêlo do próprio cão - aliás, com o dinheiro dos depositantes - e subtraiu ao Estado uma fortuna em lucros não declarados para impostos. Ano após ano, também o próprio BCP declarava lucros astronómicos, pelos quais pagava menos de impostos do que os porteiros do banco pagavam de IRS em percentagem. E, enquanto isso, aqueles que lhe tinham confiado as suas pequenas ou médias poupanças viam-nas sistematicamente estagnadas ou até diminuídas e, de seis em seis meses, recebiam uma carta-circular do engenheiro a explicar que os mercados estavam muito mal.
3 Depois, e seguindo a velha profecia marxista, o BCP quis crescer ainda mais e engolir o BPI. Não conseguiu, mas, no processo, o engenheiro trucidou o sucessor que ele próprio havia escolhido, mostrando que a tímida "renovação" anunciada não passava de uma farsa. E descobriu-se ainda uma outra coisa extraordinária e que se diria impossível: que o BCP e o BPI tinham participações cruzadas, ao ponto de hoje o BPI deter 8% do capital do BCP e, como maior accionista individual, ter-se tornado determinante no processo de escolha da nova administração... do concorrente! Como se fosse a coisa mais natural do mundo, o presidente do BPI dá uma conferência de imprensa a explicar quem deve integrar a nova administração do banco que o quis opar e com o qual é suposto concorrer no mercado, todos os dias...
4 Instalada entretanto a guerra interna, entra em cena o notável comendador Berardo - o homem que mais riqueza acumula e menos produz no país - protegido de Sócrates, que lhe deu um museu do Estado para ele armazenar a sua colecção de arte privada. Mas, verdade se diga, as brasas espalhadas por Berardo tiveram o mérito de revelar segredos ocultos e inconfessáveis daquela casa. E assim ficámos a saber que o filho do engenheiro fora financiado em milhões para um negócio de vão de escada, e perdoado em milhões quando o negócio inevitavelmente foi por água abaixo. E que havia também amigos do engenheiro e da administração, gente que se prestara ao esquema das "off-shores", que igualmente viam os seus créditos malparados serem perdoados e esquecidos por acto de favor pessoal.
5 E foi quando, lá do fundo do sono dos justos onde dormia tranquilo, acorda inesperadamente o governador do Banco de Portugal e resolve dizer que já bastava: aquela gente não podia continuar a dirigir o banco, sob pena de acontecer alguma coisa de mais grave - como, por exemplo, a própria falência, a prazo.
6 Reúnem-se, então, as seguintes personalidades de eleição: o comendador Berardo, o presidente de uma empresa pública com participação no BCP e ele próprio ex-ministro de um governo PSD e da confiança pessoal de Sócrates, mais, ao que consta, alguém em representação do doutor "honoris causa" Stanley Ho - a quem tantos socialistas tanto devem e vice-versa. E, entre todos, congeminam um "take over" sobre a administração do BCP, com o "agréement" do dr. Fernando Ulrich, do BPI. E olhando para o panorama perturbante a que se tinha chegado, a juntar ao súbito despertar do dr. Vítor Constâncio, acharam todos avisado entregar o BCP ao PS. Para que não restassem dúvidas das suas boas intenções, até concordaram em que a vice-presidência fosse entregue ao sr. Armando Vara (que também usa 'dr.') - esse expoente político e bancário que o país inteiro conhece e respeita.
7 E eis como um banco, que era tão independente que fazia tremer os governos, desagua nos braços cândidos de um partido político - e logo o do Governo. E eis como um banco, que era tão cristão, tão "opus dei", tão boas famílias, acaba na esfera dessa curiosa seita do avental, a que chamam maçonaria.
8 E, revelada a trama em todo o seu esplendor, que faz o líder da oposição? Pede em troca, para o seu partido, a Caixa Geral de Depósitos, o banco público. Pede e vai receber, porque há 'matérias de regime' que mesmo um governo com maioria absoluta no parlamento não se atreve a pôr em causa. Um governo inteligente, em Portugal, sabe que nunca pode abocanhar o bolo todo. Sob pena de os escândalos começarem a rolar na praça pública, não pode haver durante muito tempo um pequeno exército de desempregados da Grande Família do Bloco Central.
Se alguém me tivesse contado esta história, eu não teria acreditado. Mas vemos, ouvimos e lemos. E foi tal e qual.
Da Opus Dei à maçonaria: a incrível história do BCP
«Expresso», 29 de Dezembro 2007
Em países onde o capitalismo, as leis da concorrência e a seriedade do negócio bancário são levados a sério, a inacreditável história do BCP já teria levado a prisões e a um escândalo público de todo o tamanho. Em Portugal, como tudo vai acabar sem responsáveis e sem responsabilidades, convém recordar os principais momentos deste "case study", para que ao menos a falta de vergonha não passe impune.
1 Até ao 25 de Abril, o negócio bancário em Portugal obedecia a regras simples: cada grande família, intimamente ligada ao regime, tinha o seu banco. Os bancos tinham um só dono ou uma só família como dono e sustentavam os demais negócios do respectivo grupo. Com o 25 de Abril e a nacionalização sumária de toda a banca, entrámos num período 'revolucionário' em que "a banca ao serviço do povo" se traduzia, aos olhos do povo, por uns camaradas mal vestidos e mal encarados que nos atendiam aos balcões como se nos estivessem a fazer um grande favor. Jardim Gonçalves veio revolucionar isso, com a criação do BCP e, mais tarde, da Nova Rede, onde as pessoas passaram a ser tratadas como clientes e recebidas por profissionais do ofício. Mas, mais: ele conseguiu criar um banco através de um MBO informal que, na prática, assentava na ideia de valorizar a competência sobre o capital. O BCP reuniu uma série de accionistas fundadores, mas quem de facto mandava eram os administradores - que não tinham capital, mas tinham "know-how". Todos os fundadores aceitaram o contrato proposto pelo "engenheiro" - à excepção de Américo Amorim, que tratou de sair, com grandes lucros, assim que achou que os gestores não respeitavam o estatuto a que se achava com direito (e dinheiro).
2 Com essa imagem, aliás merecida, de profissionalismo e competência, o BCP foi crescendo, crescendo, até se tornar o maior banco privado português, apenas atrás do único banco público, a Caixa Geral de Depósitos. E, de cada vez que crescia, era necessário um aumento de capital. E, em cada aumento de capital, era necessário evitar que algum accionista individual ganhasse tanta dimensão que pudesse passar a interferir na gestão do banco. Para tal, o BCP começou a fazer coisas pouco recomendáveis: aos pequenos depositantes, que lhe tinham confiado as suas poupanças para gestão, o BCP tratava de lhes comprar, sem os consultar, acções do próprio banco nos aumentos de capital, deixando-os depois desamparados perante as perdas em bolsa; aos grandes depositantes e amigos dos gestores, abria-lhes créditos de milhões em "off-shores" para comprarem acções do banco, cobrindo-lhes, em caso de necessidade, os prejuízos do investimento. Desta forma exemplar, o banco financiou o seu crescimento com o pêlo do próprio cão - aliás, com o dinheiro dos depositantes - e subtraiu ao Estado uma fortuna em lucros não declarados para impostos. Ano após ano, também o próprio BCP declarava lucros astronómicos, pelos quais pagava menos de impostos do que os porteiros do banco pagavam de IRS em percentagem. E, enquanto isso, aqueles que lhe tinham confiado as suas pequenas ou médias poupanças viam-nas sistematicamente estagnadas ou até diminuídas e, de seis em seis meses, recebiam uma carta-circular do engenheiro a explicar que os mercados estavam muito mal.
3 Depois, e seguindo a velha profecia marxista, o BCP quis crescer ainda mais e engolir o BPI. Não conseguiu, mas, no processo, o engenheiro trucidou o sucessor que ele próprio havia escolhido, mostrando que a tímida "renovação" anunciada não passava de uma farsa. E descobriu-se ainda uma outra coisa extraordinária e que se diria impossível: que o BCP e o BPI tinham participações cruzadas, ao ponto de hoje o BPI deter 8% do capital do BCP e, como maior accionista individual, ter-se tornado determinante no processo de escolha da nova administração... do concorrente! Como se fosse a coisa mais natural do mundo, o presidente do BPI dá uma conferência de imprensa a explicar quem deve integrar a nova administração do banco que o quis opar e com o qual é suposto concorrer no mercado, todos os dias...
4 Instalada entretanto a guerra interna, entra em cena o notável comendador Berardo - o homem que mais riqueza acumula e menos produz no país - protegido de Sócrates, que lhe deu um museu do Estado para ele armazenar a sua colecção de arte privada. Mas, verdade se diga, as brasas espalhadas por Berardo tiveram o mérito de revelar segredos ocultos e inconfessáveis daquela casa. E assim ficámos a saber que o filho do engenheiro fora financiado em milhões para um negócio de vão de escada, e perdoado em milhões quando o negócio inevitavelmente foi por água abaixo. E que havia também amigos do engenheiro e da administração, gente que se prestara ao esquema das "off-shores", que igualmente viam os seus créditos malparados serem perdoados e esquecidos por acto de favor pessoal.
5 E foi quando, lá do fundo do sono dos justos onde dormia tranquilo, acorda inesperadamente o governador do Banco de Portugal e resolve dizer que já bastava: aquela gente não podia continuar a dirigir o banco, sob pena de acontecer alguma coisa de mais grave - como, por exemplo, a própria falência, a prazo.
6 Reúnem-se, então, as seguintes personalidades de eleição: o comendador Berardo, o presidente de uma empresa pública com participação no BCP e ele próprio ex-ministro de um governo PSD e da confiança pessoal de Sócrates, mais, ao que consta, alguém em representação do doutor "honoris causa" Stanley Ho - a quem tantos socialistas tanto devem e vice-versa. E, entre todos, congeminam um "take over" sobre a administração do BCP, com o "agréement" do dr. Fernando Ulrich, do BPI. E olhando para o panorama perturbante a que se tinha chegado, a juntar ao súbito despertar do dr. Vítor Constâncio, acharam todos avisado entregar o BCP ao PS. Para que não restassem dúvidas das suas boas intenções, até concordaram em que a vice-presidência fosse entregue ao sr. Armando Vara (que também usa 'dr.') - esse expoente político e bancário que o país inteiro conhece e respeita.
7 E eis como um banco, que era tão independente que fazia tremer os governos, desagua nos braços cândidos de um partido político - e logo o do Governo. E eis como um banco, que era tão cristão, tão "opus dei", tão boas famílias, acaba na esfera dessa curiosa seita do avental, a que chamam maçonaria.
8 E, revelada a trama em todo o seu esplendor, que faz o líder da oposição? Pede em troca, para o seu partido, a Caixa Geral de Depósitos, o banco público. Pede e vai receber, porque há 'matérias de regime' que mesmo um governo com maioria absoluta no parlamento não se atreve a pôr em causa. Um governo inteligente, em Portugal, sabe que nunca pode abocanhar o bolo todo. Sob pena de os escândalos começarem a rolar na praça pública, não pode haver durante muito tempo um pequeno exército de desempregados da Grande Família do Bloco Central.
Se alguém me tivesse contado esta história, eu não teria acreditado. Mas vemos, ouvimos e lemos. E foi tal e qual.
quarta-feira, 2 de janeiro de 2008
O Pecado bem pode morar ao lado
«Sabe, a moral a mim preocupa-me de outra maneira; considero o pecado a única fonte da virtude, quer dizer, o exercício inteligente do pecado.»
Carlos de Oliveira, «Pequenos Burgueses», Assírio & Alvim
Carlos de Oliveira, «Pequenos Burgueses», Assírio & Alvim
A Demanda do Bravo Cavaleiro Dom Quixote - Capítulo XVIII
XVIII.
Um calor dos diabos e o Alberto Bragança. Dom Quixote bate à porta da Oriente(-se). O jovem Hare e o hare-editor. Uma renovação de look à imagem de Krishnamurti, para além de um curso intensivo de Teosofia. Um Grão de Caril com Coco e outras especialidades.
Desiludido quanto baste com a conversa que mantivera com a editora da Ideias Fantásticas, Dom Quixote continuou a sua errância por uma Lisboa soalheira e quentíssima. Suava por todos os lados e manter-se dentro da armadura quase equivalia a estar a candidatar-se a transformar-se num grelhado. Resistiu, porém, pois um cavaleiro digno desse nome jamais se desfazia da sua armadura. Tirou o elmo, e dirigiu-se ao local onde deixara «estacionado» Rocinante. Por sorte, este estava num sítio onde agora fazia sombra e Dom Quixote aproveitou para se resguardar do sol inclemente. Ia a tentar subir para a garupa quando olhando ao poucos metros de si viu uma cara conhecida.
Mas, mas?... Sim, era ele, era mesmo ele, não estava enganado, conhecia-o muito bem, embora já não o visse ira para um bom par de anos. Era o Alberto, o Alberto Bragança, o grande escritor de contos, o melhor no género, sem dúvida, reconhecido pelos escritores, reconhecido pelos mais diversos Prémios Literários, reconhecido em vida, caso raro, por diversas homenagens que lhe foram prestadas em tempo. O Bragança... Mas agora que se punha a pensar nisso, nunca mais soubera que ele tivesse editado material novo, histórias frescas, no seu estilo sardónico e bem humorado, corrosivo e altamente culto. Que lhe teria acontecido? Porque é que nunca mais editara? E que diabo estava ali a fazer, encostado à parede, com um ar parado e emudecido, como se não fosse um homem de palavras e dos mais distintos, para mais!
Dom Quixote aproximou-se e foi então que o espanto mais se apoderou dos seus olhos. Que era o Bragança era, apesar de mais uma rugazita ou outra, apesar das cãs brancas polvilhando-lhe a farta cabeleira (essa continuava a mesma), apesar das barbas crescidas. Mas o Bragança apesar de ser o mesmo parecia outro! O seu olhar tinha perdido o brilho de antigamente, na comissura dos seus lábios nem um assomo do seu célebre e contagiante sorriso. E depois... depois, que raio era aquilo que ele trazia ao pescoço?! Foi ao chegar bem perto do Bragança que Dom Quixote viu que aquilo que ele trazia pendurado ao pescoço era uma corrente que suspendia uma placa sobre o peito na qual se lia: «Uma esmola para um escritor sem editor, por favor!»
Dom Quixote não queria acreditar naquilo que lia. Então o Bragança, o grande Bragança, aquela verdadeira máquina de escrever tinha chegado àquele ponto, um ponto que mais parecia um ponto final na sua vida, na sua carreira? «Bragança, estás bom pá, que é feito de ti?», dirigiu-se-lhe o cavaleiro quase a desprender-se-lhe uma lágrima do canto do olho (do direito, para o leitor mais dado a pormenores). A princípio, o Bragança fez-se desentendido, algo envergonhado da situação em que o Dom Quixote o encontrara, mas logo depois se desfez em lágrimas num abraço ao velho companheiro de muitos livros. Os dois foram então beber um café e durante cerca de uma hora puseram em dia os dias e as desditas respectivas, cada qual mais desconcertado com o que o outro contava. O Bragança confiou a Dom Quixote que desde havia seis anos já não conseguia arranjar editor e que todos lhe diziam a mesma lengalenga: já não estavam interessados em ficção, queriam antes realidade. Dom Quixote, por seu turno, limitou-se a contar aquilo que o outro já sabia por traços largos, vendo as parangonas nos jornais, e disse que andava em busca de emprego, tendo já batido a duas portas mas sem quaisquer resultados palpáveis. Disse-lhe mesmo que tinha acabado de deixar as instalações de uma editora ali perto, a Ideias Fantásticas, e que agora iria tentar numa outra embora ainda não soubesse qual. O Bragança disse conhecer muito bem a Ideias Fantásticas, também ele já tentara vender as suas histórias à doutora, mas sem nada conseguir voltara às ruas e às esmolas. «Sabe, o mais trágico nisto tudo é que desse dia em diante me vi obrigado a aceitar as esmolas que ela me dá sempre que passa por mim na rua...» No fim da conversa, os dois amigos desejaram-se boa sorte mutuamente, não sem antes o Bragança ter recomendado a Dom Quixote, já que ele ali se encontrava, que ele batesse à porta de uma outra jovem editora que ali tinha escritório. E como se chamava? «É a Oriente(-se)», respondeu-lhe o Bragança, «fica logo ali abaixo».
Depois de verificar se o ticket de estacionamento do Rocinante ainda dava para mais algum tempo – dava –, Dom Quixote desceu a rua e foi bater à porta da tal Oriente(-se), de que nunca tinha ouvido falar. De qualquer forma, Dom Quixote, só pelo nome (que, ao contrário da forma escrita, quando falado apenas parecia o imperativo de orientação na terceira pessoa do singular) pensou tratar-se de uma editora vocacionada para as matérias de auto-ajuda e auto-conhecimento. Estava enganado, e disso se apercebeu quando um jovem rapaz Hare Krishna o veio atender. Vestia uma espécie de lençol branco que suspendia até aos pés, com uma alça apenas sobre o seu ombro esquerdo, tinha a cabeça rapada saindo-se somente atrás um esguio carrapito até ao pescoço. Fez uma espécie de vénia a Dom Quixote e convidou-o a entrar para uma salinha cujas paredes se encontravam forradas com pósteres de cores vivas e garridas, mostrando cenas de cariz mitológico, com muitos animais, bem como de indianas e indianos em cenas de irmanação com a Natureza e os animais, tocando e cantando. Num outro póster que se destacava dos demais, pela grandeza e pelo impacto da imagem surgia encimado por letras garrafais, em todo o seu esplendor, Lord Krishna.
Dom Quixote viu logo onde se tinha ido meter. Mas agora já lá estava, não podia simplesmente bater com a porta e ir-se embora sob pena de ser desagradável. E, para mais, não se estava ali mal de todo, já que o ambiente era climatizado por ar condicionado e podia ouvir-se uma música tranquila oriunda como que de lado nenhum, já que por ali não se viam colunas de som. Pelo menos à vista. O jovem Hare tinha-se retirado por momentos indo anunciar ao editor quem ali se encontrava. Quando regressou à sala vinha acompanhado do dito editor, também ele envolvido em mantos alvos e sedosos, de sandálias enfiadas nos pés, cabelo rapado e trancinha atrás da cabeça.
Apresentou-se e vendo o ar deliciado com que Dom Quixote escutava a música que se fazia ouvir, tratou de ir explicando: «Sabe, todas as principais escrituras do mundo enfatizam a importância dos santos nomes de Deus. A filosofia da consciência de Krishna explica que ouvir o som transcendental (voz ou música) é o primeiro elemento da vida espiritual. Nós temos, por conseguinte, particular interesse por uma enorme variedade de kirtans (o canto congregacional dos santos nomes de Deus) e antigas canções devocionais.» Dom Quixote anuiu ao que o Hare-editor lhe dizia, concordando com tudo e confirmando que se tratava de um som muito relaxante.
Uma vez sentados no chão frente a frente (ali não havia cadeiras nem mesas, apenas um computador portátil no chão e uma mesinha pequena de apoio onde ardiam dois paus de incenso emanando um cheiro nauseabundo que começava a afectar as narinas do nosso cavaleiro), Dom Quixote voltou, mais uma vez, a expor os acontecimentos recentes da sua vida, revelando-se ao dispor de quem entendesse (se é que o Hare-editor entendia) para pôr em prática o seu conhecimento e experiência enquanto figura editorial tutorial e histórica no país. O Hare-editor ouviu com a maior das atenções e depois de uma pausa silenciosa disse que, de sua parte, até poderia colocar a hipótese de vir a trabalhar com ele, mas havia alguns constrangimentos que não via que facilmente se ultrapassassem.
Dom Quixote quis saber que constrangimentos eram esses, ou não se tratava, tão-somente, de editar bons livros e boa literatura? Nesse momento, o Hare-editor fez mais uma pausa algo prolongada e depois, de forma algo titubeante, lá foi dizendo: «Sim, livros, mas para nós... para nós a questão da imagem é deveras importante, é mesmo um condição sine qua non para quem quer que venha trabalhar connosco. Não tome isto como uma questão pessoal, mas a verdade é que... bem... a sua... a verdade é que a sua imagem está um pouco... como dizer?... gasta, ultrapassada. Enfim, as barbas, os bigodes, há-de compreender que já estão fora de moda, conferem-lhe um ar algo... algo sujo, ou melhor, algo impuro... Isto já para não falar na sua armadura, essa então completamente demodé. Para resumir, caro Dom Quixote, a vir trabalhar connosco o senhor teria de ser alvo de uma completa renovação do look, teríamos de lhe cortar essas barbas, bigode e cabeleira, teríamos de lhe arranjar um mando conveniente, enfim, fazê-lo renascer. Obviamente que contaríamos para isso com a ajuda de profissionais, com a nossa equipa de consultores de imagem que, num piscar de olhos, lhe haveriam de pô-lo à semelhança e imagem de Krishnamurti. Depois, teria ainda de frequentar um curso intensivo de Teosofia e, uma vez aprovado, estaria pronto a entrar nos quadros da Oriente(-se).
Depois da conversa e como se aproximasse a hora do lanche, o Hare-editor convidou Dom Quixote para o acompanhar a um restaurante vegetariano ali próximo que fazia umas refeições óptimas. Dom Quixote estava meio aparvalhado com as sugestões do Hare para que ele se transformasse num qualquer Buda ou coisa parecida, e esteve vai não vai para recusar o convite, mas como não tinha almoçado e não sabia se iria arranjar trocados para o jantar, resolveu aceitar, mesmo sabendo que o esperavam grandes prelecções sobre as teorias Krishna. Acertou em cheio. Durante o lanche ajantarado, o Hare-editor não se cansou de discorrer sobre as vantagens do vegetarianismo. Disse que uma alimentação livre de karma era fundamental para o progresso espiritual, dissertou acerca dos inúmeros benefícios de uma alimentação livre das impurezas da carne, falou de receitas deliciosas e, pelo caminho, não deixou de adiantar teorias e teorias acerca dos impactos nocivos de uma alimentação carnívora, não só para o ambiente, como para milhões e milhões de pessoas e animais.
Enquanto o Hare-editor falava e debitava as suas convicções vegetarianas, Dom Quixote, apesar de não ter pratos de carne à sua frente, aproveitou para ir pedindo aquilo que lhe parecia mais comestível da ementa. Pediu Grão de Caril com Coco, Hambúrguer de lentilha, Empadão de Bróculos, Seitan com Banana e terminou com uma Escalivada de Churrasco. No fim, ainda se lembrou de pedir qualquer coisita ao Rocinante, que também devia estar esfomeado. Pegou na ementa para cães (que ali também poderiam servir-se acompanhando os donos) e ordenou que lhe embrulhassem uns Biscoitos para cão de legumes e queijo vegano. Depois de ter o embrulho consigo, sorriu para o Hare-editor, levantou-se, agradeceu muito o lanche, prometeu que ia pensar na proposta de se converter às teosofias e pôs-se dali a andar, que já não havia nada a fazer para salvar o dia. Ala dali a arranjar poiso para pernoitar.
Um calor dos diabos e o Alberto Bragança. Dom Quixote bate à porta da Oriente(-se). O jovem Hare e o hare-editor. Uma renovação de look à imagem de Krishnamurti, para além de um curso intensivo de Teosofia. Um Grão de Caril com Coco e outras especialidades.
Desiludido quanto baste com a conversa que mantivera com a editora da Ideias Fantásticas, Dom Quixote continuou a sua errância por uma Lisboa soalheira e quentíssima. Suava por todos os lados e manter-se dentro da armadura quase equivalia a estar a candidatar-se a transformar-se num grelhado. Resistiu, porém, pois um cavaleiro digno desse nome jamais se desfazia da sua armadura. Tirou o elmo, e dirigiu-se ao local onde deixara «estacionado» Rocinante. Por sorte, este estava num sítio onde agora fazia sombra e Dom Quixote aproveitou para se resguardar do sol inclemente. Ia a tentar subir para a garupa quando olhando ao poucos metros de si viu uma cara conhecida.
Mas, mas?... Sim, era ele, era mesmo ele, não estava enganado, conhecia-o muito bem, embora já não o visse ira para um bom par de anos. Era o Alberto, o Alberto Bragança, o grande escritor de contos, o melhor no género, sem dúvida, reconhecido pelos escritores, reconhecido pelos mais diversos Prémios Literários, reconhecido em vida, caso raro, por diversas homenagens que lhe foram prestadas em tempo. O Bragança... Mas agora que se punha a pensar nisso, nunca mais soubera que ele tivesse editado material novo, histórias frescas, no seu estilo sardónico e bem humorado, corrosivo e altamente culto. Que lhe teria acontecido? Porque é que nunca mais editara? E que diabo estava ali a fazer, encostado à parede, com um ar parado e emudecido, como se não fosse um homem de palavras e dos mais distintos, para mais!
Dom Quixote aproximou-se e foi então que o espanto mais se apoderou dos seus olhos. Que era o Bragança era, apesar de mais uma rugazita ou outra, apesar das cãs brancas polvilhando-lhe a farta cabeleira (essa continuava a mesma), apesar das barbas crescidas. Mas o Bragança apesar de ser o mesmo parecia outro! O seu olhar tinha perdido o brilho de antigamente, na comissura dos seus lábios nem um assomo do seu célebre e contagiante sorriso. E depois... depois, que raio era aquilo que ele trazia ao pescoço?! Foi ao chegar bem perto do Bragança que Dom Quixote viu que aquilo que ele trazia pendurado ao pescoço era uma corrente que suspendia uma placa sobre o peito na qual se lia: «Uma esmola para um escritor sem editor, por favor!»
Dom Quixote não queria acreditar naquilo que lia. Então o Bragança, o grande Bragança, aquela verdadeira máquina de escrever tinha chegado àquele ponto, um ponto que mais parecia um ponto final na sua vida, na sua carreira? «Bragança, estás bom pá, que é feito de ti?», dirigiu-se-lhe o cavaleiro quase a desprender-se-lhe uma lágrima do canto do olho (do direito, para o leitor mais dado a pormenores). A princípio, o Bragança fez-se desentendido, algo envergonhado da situação em que o Dom Quixote o encontrara, mas logo depois se desfez em lágrimas num abraço ao velho companheiro de muitos livros. Os dois foram então beber um café e durante cerca de uma hora puseram em dia os dias e as desditas respectivas, cada qual mais desconcertado com o que o outro contava. O Bragança confiou a Dom Quixote que desde havia seis anos já não conseguia arranjar editor e que todos lhe diziam a mesma lengalenga: já não estavam interessados em ficção, queriam antes realidade. Dom Quixote, por seu turno, limitou-se a contar aquilo que o outro já sabia por traços largos, vendo as parangonas nos jornais, e disse que andava em busca de emprego, tendo já batido a duas portas mas sem quaisquer resultados palpáveis. Disse-lhe mesmo que tinha acabado de deixar as instalações de uma editora ali perto, a Ideias Fantásticas, e que agora iria tentar numa outra embora ainda não soubesse qual. O Bragança disse conhecer muito bem a Ideias Fantásticas, também ele já tentara vender as suas histórias à doutora, mas sem nada conseguir voltara às ruas e às esmolas. «Sabe, o mais trágico nisto tudo é que desse dia em diante me vi obrigado a aceitar as esmolas que ela me dá sempre que passa por mim na rua...» No fim da conversa, os dois amigos desejaram-se boa sorte mutuamente, não sem antes o Bragança ter recomendado a Dom Quixote, já que ele ali se encontrava, que ele batesse à porta de uma outra jovem editora que ali tinha escritório. E como se chamava? «É a Oriente(-se)», respondeu-lhe o Bragança, «fica logo ali abaixo».
Depois de verificar se o ticket de estacionamento do Rocinante ainda dava para mais algum tempo – dava –, Dom Quixote desceu a rua e foi bater à porta da tal Oriente(-se), de que nunca tinha ouvido falar. De qualquer forma, Dom Quixote, só pelo nome (que, ao contrário da forma escrita, quando falado apenas parecia o imperativo de orientação na terceira pessoa do singular) pensou tratar-se de uma editora vocacionada para as matérias de auto-ajuda e auto-conhecimento. Estava enganado, e disso se apercebeu quando um jovem rapaz Hare Krishna o veio atender. Vestia uma espécie de lençol branco que suspendia até aos pés, com uma alça apenas sobre o seu ombro esquerdo, tinha a cabeça rapada saindo-se somente atrás um esguio carrapito até ao pescoço. Fez uma espécie de vénia a Dom Quixote e convidou-o a entrar para uma salinha cujas paredes se encontravam forradas com pósteres de cores vivas e garridas, mostrando cenas de cariz mitológico, com muitos animais, bem como de indianas e indianos em cenas de irmanação com a Natureza e os animais, tocando e cantando. Num outro póster que se destacava dos demais, pela grandeza e pelo impacto da imagem surgia encimado por letras garrafais, em todo o seu esplendor, Lord Krishna.
Dom Quixote viu logo onde se tinha ido meter. Mas agora já lá estava, não podia simplesmente bater com a porta e ir-se embora sob pena de ser desagradável. E, para mais, não se estava ali mal de todo, já que o ambiente era climatizado por ar condicionado e podia ouvir-se uma música tranquila oriunda como que de lado nenhum, já que por ali não se viam colunas de som. Pelo menos à vista. O jovem Hare tinha-se retirado por momentos indo anunciar ao editor quem ali se encontrava. Quando regressou à sala vinha acompanhado do dito editor, também ele envolvido em mantos alvos e sedosos, de sandálias enfiadas nos pés, cabelo rapado e trancinha atrás da cabeça.
Apresentou-se e vendo o ar deliciado com que Dom Quixote escutava a música que se fazia ouvir, tratou de ir explicando: «Sabe, todas as principais escrituras do mundo enfatizam a importância dos santos nomes de Deus. A filosofia da consciência de Krishna explica que ouvir o som transcendental (voz ou música) é o primeiro elemento da vida espiritual. Nós temos, por conseguinte, particular interesse por uma enorme variedade de kirtans (o canto congregacional dos santos nomes de Deus) e antigas canções devocionais.» Dom Quixote anuiu ao que o Hare-editor lhe dizia, concordando com tudo e confirmando que se tratava de um som muito relaxante.
Uma vez sentados no chão frente a frente (ali não havia cadeiras nem mesas, apenas um computador portátil no chão e uma mesinha pequena de apoio onde ardiam dois paus de incenso emanando um cheiro nauseabundo que começava a afectar as narinas do nosso cavaleiro), Dom Quixote voltou, mais uma vez, a expor os acontecimentos recentes da sua vida, revelando-se ao dispor de quem entendesse (se é que o Hare-editor entendia) para pôr em prática o seu conhecimento e experiência enquanto figura editorial tutorial e histórica no país. O Hare-editor ouviu com a maior das atenções e depois de uma pausa silenciosa disse que, de sua parte, até poderia colocar a hipótese de vir a trabalhar com ele, mas havia alguns constrangimentos que não via que facilmente se ultrapassassem.
Dom Quixote quis saber que constrangimentos eram esses, ou não se tratava, tão-somente, de editar bons livros e boa literatura? Nesse momento, o Hare-editor fez mais uma pausa algo prolongada e depois, de forma algo titubeante, lá foi dizendo: «Sim, livros, mas para nós... para nós a questão da imagem é deveras importante, é mesmo um condição sine qua non para quem quer que venha trabalhar connosco. Não tome isto como uma questão pessoal, mas a verdade é que... bem... a sua... a verdade é que a sua imagem está um pouco... como dizer?... gasta, ultrapassada. Enfim, as barbas, os bigodes, há-de compreender que já estão fora de moda, conferem-lhe um ar algo... algo sujo, ou melhor, algo impuro... Isto já para não falar na sua armadura, essa então completamente demodé. Para resumir, caro Dom Quixote, a vir trabalhar connosco o senhor teria de ser alvo de uma completa renovação do look, teríamos de lhe cortar essas barbas, bigode e cabeleira, teríamos de lhe arranjar um mando conveniente, enfim, fazê-lo renascer. Obviamente que contaríamos para isso com a ajuda de profissionais, com a nossa equipa de consultores de imagem que, num piscar de olhos, lhe haveriam de pô-lo à semelhança e imagem de Krishnamurti. Depois, teria ainda de frequentar um curso intensivo de Teosofia e, uma vez aprovado, estaria pronto a entrar nos quadros da Oriente(-se).
Depois da conversa e como se aproximasse a hora do lanche, o Hare-editor convidou Dom Quixote para o acompanhar a um restaurante vegetariano ali próximo que fazia umas refeições óptimas. Dom Quixote estava meio aparvalhado com as sugestões do Hare para que ele se transformasse num qualquer Buda ou coisa parecida, e esteve vai não vai para recusar o convite, mas como não tinha almoçado e não sabia se iria arranjar trocados para o jantar, resolveu aceitar, mesmo sabendo que o esperavam grandes prelecções sobre as teorias Krishna. Acertou em cheio. Durante o lanche ajantarado, o Hare-editor não se cansou de discorrer sobre as vantagens do vegetarianismo. Disse que uma alimentação livre de karma era fundamental para o progresso espiritual, dissertou acerca dos inúmeros benefícios de uma alimentação livre das impurezas da carne, falou de receitas deliciosas e, pelo caminho, não deixou de adiantar teorias e teorias acerca dos impactos nocivos de uma alimentação carnívora, não só para o ambiente, como para milhões e milhões de pessoas e animais.
Enquanto o Hare-editor falava e debitava as suas convicções vegetarianas, Dom Quixote, apesar de não ter pratos de carne à sua frente, aproveitou para ir pedindo aquilo que lhe parecia mais comestível da ementa. Pediu Grão de Caril com Coco, Hambúrguer de lentilha, Empadão de Bróculos, Seitan com Banana e terminou com uma Escalivada de Churrasco. No fim, ainda se lembrou de pedir qualquer coisita ao Rocinante, que também devia estar esfomeado. Pegou na ementa para cães (que ali também poderiam servir-se acompanhando os donos) e ordenou que lhe embrulhassem uns Biscoitos para cão de legumes e queijo vegano. Depois de ter o embrulho consigo, sorriu para o Hare-editor, levantou-se, agradeceu muito o lanche, prometeu que ia pensar na proposta de se converter às teosofias e pôs-se dali a andar, que já não havia nada a fazer para salvar o dia. Ala dali a arranjar poiso para pernoitar.
Histórias Fulminantes 60
Era um montanhista albino, de grande reputação. Chamavam-lhe, com elevação, o grande albinista.
O preço das coisas
O barril do petróleo chegou finalmente aos cem dólares. Pergunto por que níveis andará o preço do poema?
Silence News - Ministro das Finanças
Disse o «Financial Times», à partida insuspeito: «O ministro de Estado e das Finanças [português] arrecadou um prémio que quase ninguém inveja. Fernando Teixeira dos Santos foi considerado o segundo pior ministro das Finanças da Zona Euro.» Como esta gente é toda amiga e andam todos baralhados da tola, mais se diz e pode ler que «o FT analisa ainda a aptidão política dos ministros e, nesta matéria, conclui que Teixeira dos Santos é um dos três melhores.» Portanto, em conclusão: o homem tem muita aptidão mas os resultados da sua enorme aptidão são um desastre! E que tal os senhores do FT irem para casa com baixa médica por inaptidão?
terça-feira, 1 de janeiro de 2008
Histórias Fulminantes 59
Não tinha absolutamente jeito nenhum para a flauta; dizia, e bem, o seu pai que tinha uma tremenda flauta de jeito para a música.
E agora que o Natal «já não está», ainda com Mésseder
«No Natal, reaprende-se a arte do tempo. Chegam de longe os que partiram. E, sob os sulcos que a viagem nos rostos desenhou, ainda se vislumbram traços infantis. De outros, apenas regressam os fantasmas. E há sempre alguém que chora sobre o leite derramado da infância.»
João Pedro Mésseder, «Abrasivas», Deriva
O Problema dos Domingos
«Ao domingo, o cansaço não tem nome. É por isso o dia mais cruel.»
João Pedro Mésseder, «Abrasivas», Deriva
E os meus livros do ano (não necessariamente pela ordem em que surgem)
Compêndio Para Uso dos Pássaros, Manoel de Barros, Quasi Edições
O Animal Moribundo, Philip Roth, Dom Quixote
A Síndrome de Ulisses, Santiago Gamboa, Edições ASA
A Face da Guerra, Martha Gellhorn, Dom Quixote
Reedições da Obra de Miguel Torga, Dom Quixote
Criaturas da Noite, Lázaro Covadlo, Livros de Areia
Colecção A Biblioteca de Babel, Presença
Os Mundos Que Partilhamos, Paulo Kellerman, Deriva
A Chave da Casa, Tatiana Salem Levy, Cotovia
O Meu Século, Jorge Silva Melo, Cotovia
Impasse, Icchokas Meras, Quetzal
Sou Todo Ouvidos, Joseph Mitchell, Ambar
Alexandre O'Neill, Uma Biografia Literária, Maria Antónia Oliveira, Dom Quixote
Balada Para Sérgio Varella-Cid, Joel Costa, Casa das Letras
A Vida Aventurosa de Sparrow Springwater, Trevor Ferguson, Cavalo de Ferro
Todo-o-Mundo, Phipil Roth, Dom Quixote
A Confraria do Vinho, John Fante, Teorema
Chance, Jersy Kosinski, Livros de Areia
O Resto é Silêncio, Augusto Monterroso, Oficina do Livro
Aprender a Rezar na Era da Técnica, Gonçalo M. Tavares, Caminho
O Animal Moribundo, Philip Roth, Dom Quixote
A Síndrome de Ulisses, Santiago Gamboa, Edições ASA
A Face da Guerra, Martha Gellhorn, Dom Quixote
Reedições da Obra de Miguel Torga, Dom Quixote
Criaturas da Noite, Lázaro Covadlo, Livros de Areia
Colecção A Biblioteca de Babel, Presença
Os Mundos Que Partilhamos, Paulo Kellerman, Deriva
A Chave da Casa, Tatiana Salem Levy, Cotovia
O Meu Século, Jorge Silva Melo, Cotovia
Impasse, Icchokas Meras, Quetzal
Sou Todo Ouvidos, Joseph Mitchell, Ambar
Alexandre O'Neill, Uma Biografia Literária, Maria Antónia Oliveira, Dom Quixote
Balada Para Sérgio Varella-Cid, Joel Costa, Casa das Letras
A Vida Aventurosa de Sparrow Springwater, Trevor Ferguson, Cavalo de Ferro
Todo-o-Mundo, Phipil Roth, Dom Quixote
A Confraria do Vinho, John Fante, Teorema
Chance, Jersy Kosinski, Livros de Areia
O Resto é Silêncio, Augusto Monterroso, Oficina do Livro
Aprender a Rezar na Era da Técnica, Gonçalo M. Tavares, Caminho
A questão é
A arte contemporânea é de esquerda ou de direita? Ou não é? Ou já não é? Ou já não há esquerda e direita? A política convertida a bafienta auto-estrada?
Histórias Fulminantes 58
Sem consciência do risco, de pijama às riscas cavalgava pela avenida nu sobre a garupa do cavalo. Os médicos que depois o viram não tiveram dúvidas: «Alzheimer galopante».
segunda-feira, 31 de dezembro de 2007
A orelha do Francisco
Um mosquito (se calhar mais do que um) picou a orelha do Francisco, que hoje andou o dia inteiro com a mesma inchada e vermelha. Já vos disse o quanto odeio insectos? Sim, eu sei que odiar é feio. Mas isso faz-se? Hoje vai haver caça! (...) Curiosamente, recordo agora que no carro o que se ouviu foi a música dos espanhóis La Oreja de Van Gogh! Ainda diz a outra que não há coincidências...
A questão (tripla) é
Que raio de interesse pode suscitar esta corrida às rédeas da Caixa? E que raio de interesse pode suscitar o futuro do bcp? Juro, não entendo. Não vão todos continuar a comer à grande e à portuguesa dos bolsos de todos nós? Porque não os calam?
O Abrupto Homem do Leme
Pacheco Pereira insurge-se (no «Público» de ontem) contra a pobreza dos blogues nacionais. Parece-me uma leitura algo abrupta da lusoblogosfera. Sobretudo porque seria curioso saber quanto tempo perde Pacheco a ler outros blogs, sobretudo quando deve passar tanto tempo ao leme do seu. E já agora, porquê aquelas fotografias tão bacocas, foleiras e insípidas?...
Sim, eu sei
Sim, eu sei, a vida são recordações... Não, perdão, o que eu queria dizer é que sim, eu sei que posts muito grandes não se lêem e por isso o Dom Quixote...
Silence News
Não há pae para Amaral. O senhor comprou todas as grandes editores portuguesas. Agora somou a Dom Quixote. Está no meu livro; aquela ainda vai mudar de nome (para Dom Chicote) e passar apenas a editar Carolinas Salgado. Não lêem o meu Dom Quixote!
domingo, 30 de dezembro de 2007
Silence Music Box - Tops

os meus do ano:
1 - Sia, «Lady Croissant»
2 - Cinematics, «A Strange Education»
3- Wilco, «Sky Blue Sky»
4 - She Wants Revenge, «This is Forever»
5 - Joan as a Police Woman, «Real Life»
6 - PJ Harvey, «White Chalk»
7 - The Long Blondes, «Some One to Drive You Home»
8 - Blonde Redhead, «23»
9 - Air, «Pocket Symphony»
10 - Tori Amos, «American Doll Posse»
11 - Brazilian Girls, «Talk to la Bomb»
12 - White Stripes, «Icky Thump»
13 - Bat for Lashes, «Fur and Gold»
14 - Interpol, «Our Love to Admire»
15 - Bruce Springsteen, «Magic»
16 - Patrick Wolf, «Magic Position»
17 - National, «Boxer»
18 - Travis, «Boy With no Name»
19 - Brett Anderson, «Bret Anderson»
20 - Editors, «An End as a Start»
Call Girl

Dizem para aí que é filme comercial. Pois eu, tiro o chapéu (passe a expressão, pois o dito lhe cai muito bem) ao António Pedro Vasconcelos. O filme come-se, sem falsas leituras. Bom enredo, boas interpretações, bom ritmo narrativo, bom som, e, no mais, um filme colado à realidade. Mesmo que ninguém ligue à mensagem principal e tudo fique a olhar para as curvas da Soraia; dir-se-ia que a actriz/personagem corrompe o próprio filme.
sexta-feira, 28 de dezembro de 2007
Histórias Fulminantes 57
Era um poço de sabedoria. Quando o autopsiaram, dois médicos descuidaram-se ao olhar as profundezas do seu intelecto e caíram. Quando chegaram ao fundo bateram com a cabeça nos clássicos de encadernações pontiagudas e tiveram morte imediata.
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