W.G.Sebald, «Os Emigrantes», Teorema
sábado, 5 de janeiro de 2008
O Problema dos Domingos
«Pelo que me toca, aos domingos, no hotel completamente deserto invadia-me uma total falta de aspirações e de objectivos que, para ter ao menos a ilusão de ter o que fazer, saía na direcção da cidade e caminhava sem destino entre os edifícios monumentais do século anterior, que o correr do tempo enegrecera.»
sexta-feira, 4 de janeiro de 2008
A Demanda do Bravo Cavaleiro Dom Quixote - Capítulo XIX
XIX.
Um presidente de câmara ciumento. Uma grande ressaca e a providência de uma mera sessão de autógrafos. O edil interrompe a leitura do «Almanaque Tio Patinhas» para fazer um obséquio a Etelvina. Salvador em grande. De Gin em Gin, de Caipiroska em Caipiroska. Alguns espectáculos comatosos.
Na pequena localidade onde decorria a residência literária tudo ia correndo pelo melhor. Os escritores tiravam o maior partido do convite que lhes calhara em sorte. Gozavam o bom tempo, entretinham-se com passeios e umas comezainas na região, e ao fim da noite dispunham-se a grandes farras no turismo rural. A primeira noite nem correu mal de todo, estiveram todos no bar, na gargalhada e nas anedotas, até por volta das três da madrugada, cada qual lançando charme para cima de Etelvina Prazeres, tentando a sua sorte, quem sabe para uma noite bem passada. O presidente da Câmara é que continuava a não achar piada nenhuma àquele assédio mais do que declarado. Invectivou contra os escritores e contra os livros, chamou nomes a torto e a direito aos editores e livreiros, e, já bem bebido, terminou a noite a enxovalhar a directora da Biblioteca Municipal, chamando-lhe tudo e mais alguma coisa. O presidente sentia, definitivamente, qualquer coisa má a respeito da senhora. Quando um dos empregados da residência o acompanhou ao carro, bêbado que nem um cacho, o presidente ainda teve forças para ameaçar os escritores de que no dia seguinte os trataria de pôr a milhas dali...
E assim fez. No dia seguinte, pelo final da manhã, o vereador da Cultura dirigiu-se ao turismo rural com o fim de levar consigo os cinco escritores para a sessão literária que estava aprazada numa livraria local. Bem instruído pelo presidente, o vereador não se fez rogado ao saber que às onze da manhã os escritores ainda estavam todos a dormir, e tratou ele próprio de ir acordá-los, um a um, aos respectivos quartos, não se mostrando manso nas fortes pancadas que infligia às portas. Meia-hora depois, já todos se encontravam no hall de entrada, partindo depois para a cidade, bastante mal dispostos pelo súbito acordar, donde que sonolentos e, pior ainda, com forte ressaca, a fim de cumprirem com os compromissos agendados. Valeu-lhes a providência e o que os esperava era uma mera sessão de autógrafos, pelo que todos se safaram sem grandes complicações, tanto mais que naquela ocasião específica não poderiam mesmo ser substituídos pelos escritores-fantasmas, que, de resto, também tinham ficado a dormir.
Esse dia seguinte, para além da referida sessão de autógrafos, não tinha previsto mais nenhum acontecimento. Quanto à ausência de Etelvina na sessão, o presidente providenciara que o seu motorista, logo de manhã bem cedo fosse à livraria onde o evento teria lugar, pegasse nos livros da autora e os levasse à residência onde ela trataria de os assinar, levando-os o motorista de regresso à livraria. E assim se fez, com grande profissionalismo e eficácia, pelo que à tarde todos poderiam descansar e continuar em busca de inspiração para as suas histórias a partir daquela experiência. O presidente tirou mais um dia de férias e passou a tarde junto de Etelvina, oleando aqui e acolá, tendo conseguido, em quatro horas, ler seis páginas de um «Almanaque Tio Patinhas» que levara consigo a entreter e educar o espírito.
Na piscina só se encontravam mesmo Etelvina e o autarca, bem como dois hóspedes estrangeiros (um casal de alemães com ar de verdadeiras salcichas) e os seis escritores-fantasmas. Etelvina estranhou a ausência dos seus cinco colegas escritores e perguntou ao edil sobre o seu paradeiro. Este, rindo-se a bom rir, disse-lhe que dera folga ao motorista e que por isso provavelmente eles não tinham conseguido voltar para o turismo rural... E mais não especificou, pouco interessado que estava em saber quem os traria de volta e a que horas. Etelvina sorriu e perguntou ao edil se não fazia o obséquio de lhe ir buscar mais um cocktail, que eram de morrer! Prestimoso, o autarca logo acedeu ao pedido, piscando o olho à autora depois de lhe mostrar os novos óleos que trouxera consigo.
A uns metros de distância, os escritores-fantasmas conversavam animadamente sobre livros, sobre as suas experiências, sobre os seus anseios literários, sobre os projectos de futuro, sobre aquilo que uns e outros andavam a escrever. José Salvador era um dos mais requisitados para a conversa, pois não só trabalhava numa casa que tinha grandes pergaminhos, como também porque era ele o homem por trás da grande Etelvina Prazeres, autora desse sucesso sem par, de sua graça: «Etelvina Prazeres – A Verdade de Cristal». Na verdade, todos eles, mais do que em qualquer outro assunto de conversa, estavam interessados em saber pormenores e detalhes, picantes, se possível, em torno da história de Dom Quixote e da sua atribulada saída da editora. Salvador estava lá – porque apesar de preferir as noites para trabalho, naquele dia também ele estava mais do que curioso para receber um exemplar do livro acabado de sair da gráfica –, Salvador viu e ouviu, Salvador certamente que tinha muito que contar.
E Salvador satisfez a curiosidade aos seus colegas de métier, dando-lhes a conhecer tintim por tintim como tudo tinha acontecido naquela manhã. O director editorial que tinha chegado cedo como nunca aos escritórios, a dona Ifigénia que já por ali, também quase antes do galo cantar, limpava o pó aos cantos da casa, a chegada em polvorosa e com grande estardalhaço de Etelvina e do seu staff protector, a recepção dos livros ainda com cheiro forte a tinta, e depois, claro, a saída espaventosa e a grande galope de um Dom Quixote desvairado ao saber de que livro se tratava aquele, quem era Etelvina, etc., e o mais que o leitor bem recorda.
E a tarde passou-se assim, num rame-rame sonolento e morredoiro, com Etelvina Prazeres na piscina a banhos de água e sol, o senhor presidente da câmara a seu lado, todo obsequioso em matéria de óleos e demais ungidos, investido também a garçon que, sempre que a sede da autora apertava, logo se predispunha a ir buscar-lhe pronto abastecimento ao bar. E depois, à distância considerada razoável pelo edil, os seis escritores-fantasmas, todos eles aproveitando também para disfarçar um pouco a palidez de peles, cada qual com um ar mais leitoso que o seu próximo, de tipo fantasmagórico, lividez que em caso de agravamento ao ponto de doença poderia muito facilmente ser induzida, em sede de segurança social, como resultado directo da profissão exercida. Como doença profissional, em suma.
Quanto a literatura que, lembrar-se-ão, era o que levava àquelas paragens toda esta gente, nem vê-la! A única leitura ali à vista devia-se ao presidente, mas devia ser do tipo hermético ou filosófico, pois o edil não havia maneira de chegar ao fim do almanaque das aventuras do Tio Patinhas... De resto, também dos escritores, os reais, não havia ainda sinal. E só houve bem ao final da tarde, que foi quando chegaram de táxi ao turismo rural, já o sol começava a despedir-se na linha do horizonte. Esgotados da sessão de autógrafos que se tinha prolongado pela tarde fora, suando a bom suar, chegaram, não falaram a ninguém, e apenas deitaram um olhar raivoso ao autarca que relaxava ainda numa espreguiçadeira. Irritados, os escritores só tiveram forças para tomar um duche, descer para jantar e logo em seguida recolher aos seus quartos para uma retemperadora noite de sono. Tinham cumprido o segundo dia da residência e ainda também nenhum deles tinha a menor ideia sobre o que iriam escrever, melhor, nenhum deles sequer se tinha lembrado de que esse era um dos pressupostos da residência, isto é, a partir da experiência havida criar um pequeno texto literário. Talvez no dia seguinte algum dos escritores-fantasmas se lembrasse do assunto. Talvez... talvez porque nessa noite os escritores-fantasmas não se portaram por aí além e não sabemos se algum deles terá ficado em condições para no dia seguinte escrever uma linha que fosse. Vamos já a esses sucessos, pois que ao contrário dos escritores, os escritores-fantasmas, depois do jantar, estavam frescos que nem gambas acabadas de sair do frigorífico com pedrinhas de gelo e, logo, prontíssimos para agarrar a noite ou, como diz o povo, pintar a manta. Foi o que fizeram.
De Martini em Martini, de Gin em Gin, de Caipiroska em Caipiroska, o grupo entrou pela noite dentro em grande reinação. Etelvina, que desde pequena tinha uma estranha fixação por microfones, foi a primeira a dar o mote. Bem alegre, assolapou o palco para si, agarrou-se ao micro e à aparelhagem de karaoke, pondo ao rubro a sua assistência «privada». Cantou, cantou, cantou e cantou mais ainda, cantou todo o repertório existente enquanto o presidente e os escritores-fantasmas a acompanhavam num coro que mais parecia de lamúrias ou cornudos. Foi uma verdadeira chuva de estrelas, e só quem lá esteve poderá ter ficado com a exacta noção do que aquilo foi. Só pelas cinco da manhã, muitos drinks adentro, muita cantoria depois, é que os escritores-fantasmas e Etelvina decidiram dar por terminada a sessão, subindo aos seus quartos. O presidente, esse não decidiu nada pois havia já uma hora que dormia e ressonava de barriga e cabeça enfiadas para baixo num dos sofás do bar.
A caminhada dos sete elementos até ao andar de cima do turismo não foi tarefa fácil e mais parecia que todos caminhavam para o Calvário, só lhes faltando a cruz para o efeito. «Cruzes canhoto!», disse para si o rapaz do turno nocturno por trás do balcão da recepção a ver tão comatoso espectáculo. Todos se amparavam uns aos outros e todos os escritores-fantasmas muito interessados pareciam em amparar as curvas de Etelvina, que não via um palmo à sua frente e, rouca que estava, só dizia coisas sem nexo, tipo que um dia haveria de ir a Estocolmo receber o Nobel, que o Saraiva não pensasse que era só ele o maior escritor, que o Saramago tinha a mania que era o dono das morais, que o Lobo António (foi assim que disse) bem podia ter aquele arzinho de intelectual depressivo-compulsivo, mas que ela, ela Etelvina Prazeres com muito prazer, tinha ainda muito para dar à literatura e sobretudo dela a receber...
Engano ou não (talvez algum dia um dos escritores-fantasmas envolvidos na cena venha a pôr em livro a verdade dos factos), vá lá saber-se porquê mas quando, quase às duas da tarde do dia seguinte, um a um, seguidos de Etelvina no final, cada qual com uma dor de cabeça maior, foram acordando, a verdade é que nenhum deles saberia explicar ou se lembrava de como e porquê todos tinham ido parar à cama de Etelvina. Quanto ao presidente, fora acordado ao meio-dia, ainda de cabeça atarracada numa almofada, babando-se ao de leve quando sonhava ser o Robbie Williams rodeado de top models em trajes menores numa pista de dança. Estremunhado e de mau humor, com a cabeça a pesar toneladas, o autarca só abriu olho depois de muitos safanões no ombro que lhe dera o vereador da cultura. «Presidente, presidente, acorde, acorde presidente!». O homem estava em stress e não era para menos. Havia que cumprir o programa da Residência Literária e a agenda dizia que nesse dia, às três da tarde, deveria ter lugar a sessão de abertura da Feira do Livro. Ora, a abertura estava confiada à tesoura do autarca e durante toda a manhã o pessoal da Câmara o tinha procurado por toda a cidade sem dele reunir notícia. «Ó senhor presidente, acorde! Ai, senhor presidente, a directora da Biblioteca vai-me matar! Acorde, por amor de Deus, temos que ir para a feira do livro. Presidente, olhe que a sua esposa está em cuidados...»
Ao ouvir a palavra «esposa» o edil como que chegou à terra, isto é, acordou de supetão, pondo-se direito que nem um espeto como que querendo dar a entender que estava muito bem, tudo estava sob controle e que ali o tinham a prontos para acudir aos seus deveres e tomar em mãos as responsabilidade atinentes à função que exercia, a de comandar os gloriosos destinos da sua autarquia. «A feira? Pois, vamos já para lá, que já me podia ter vindo acordar muito mais cedo, senhor vereador!» E dali saiu de rompante, algo estonteado da ressaca, mas determinado a cumprir com a agenda da Residência. Antes, teve ainda tempo de dar ordem na recepção para que logo, logo acordassem Etelvina e os demais escritores, que também preste, muito preste chegaria a carrinha da Câmara para os levar. O rapazito da Recepção envidou então esforços para acordar os clientes da suite 69 (onde se encontravam Etelvina e os seis fantasmas). Telefonou para o quarto, deixou tocar, tocar, tocar e nada. Ninguém atendia. Todos dormiam ainda a bom dormir.
Pouco depois, chegava a carrinha da Câmara com o vereador da Cultura a comandar as operações, devidamente instruído para não arredar dali sem os escritores. O que até não foi tarefa difícil já que, à excepção de Etelvina, todos tinham acordado cedo, tendo-se decidido a um passeio a cavalo pelos campos. Só que as instruções do presidente eram bem precisas, todos os escritores deveriam estar presentes na Feira, pelo que Etelvina não podia ser excepção. Só que a prestigiada autora dormia! Porém, ao vereador da Cultura não restava outra solução, caber-lhe-ia arrancar Etelvina às profundezas do sono. Junto do moço da recepção o vereador tentou novamente a ligação por telefone ao 69, mas nada feito. Tinha mesmo que recorrer a uma solução extrema, pediu a chave dupla do quarto e foi para lá que se dirigiu. Mais devera não tê-lo feito, tal foi o susto que apanhou mal fez rodar a chave na fechadura e deparando-se com o espectáculo que lhe calhou em sorte. Nus, nuzinhos tal como tinham vindo ao mundo, ressonando sobre os lençóis em alvoroço, os seis escritores-fantasmas abraçavam-se a Etelvina que descansava ainda com um sorriso nos lábios. O susto do vereador foi de tal ordem que ia-lhe dando uma síncope cardíaca, pelo que levou a mão ao peito e arfou com dificuldade, encostando-se com estrondo à porta entreaberta. Com o barulho, Etelvina e os seus escritores-fantasmas acordaram um a um e um a um foram estranhando o que raio fazia ali, àquela hora, de mão junto ao pescoço tentando desapertar a gravata e arfando que nem um louco o vereador da Cultura.
Refeito o vereador com um copinho de água fresca açucarada, sem mais delongas o «braço direito» do presidente instou os circunstantes a se vestirem e pediu a Etelvina que, sem mais delongas, se encaminhasse para o piso de baixo onde a carrinha camarária a aguardava para levá-la, mais aos outros escritores, à Feira do Livro, cuja abertura estava agendada para daí a poucos minutos. Ordens do presidente! Etelvina, algo irritadiça com o stress todo daquele acordar, tanto mais que mal teve tempo para tomar o pequeno-almoço com calma e, inacreditavelmente, nem sequer pudera dar um mergulho na piscina, estava uma pilha de nervos. Porém, a insistência do vereador da Cultura, Etelvina lá subiu, com a calma possível, para dentro da carrinha, dando ao mesmo tempo uma trinca numa sandes de panado e segurando noutra mão um croquete. A tarde na piscina ficou deste modo por conta dos escritores-fantasmas, que assim se tiveram oportunidade de se refazer dos excessos cometidos na noite anterior. Depressa chegaria ao fim o terceiro dia da Residência Literária, faltava apenas um para cumprir, aquele em que, supostamente, os escritores apresentariam, em sessão camarária, uma sinopse das ideias que pretenderiam desenvolver a partir da sua estadia ali durante aqueles quatro dias.
A sessão na feira do livro acabou por decorrer sem factos de monta a referir, muito embora tenha havido quem perguntasse pelo paradeiro dos escritores-fantasmas que tão boa conta de si e dos seus méritos literários haviam dado na sessão inaugural da residência. Quanto aos escritores, uma vez mais, todas as atenções se voltaram para Etelvina que acabou por passar uma tarde divertida a dar autógrafos, tanto mais que faltara à sessão do dia anterior. Seguiu-se depois fausta jantarada, sempre patrocinada pelo senhor presidente, agora já mais controlado nos comes e bebes em virtude da presença da esposa, e a noite terminou numa discoteca local com a música a «bombar» e, desta feita, com o vereador da Cultura – em substituição do edil que tinha levado com ordem de marcha da esposa para se dirigir com ela para casa –, a mostrar os seus dotes de dançarino. Lá para as três da manhã, todos regressaram ao Turismo Rural e enfiaram-se directamente (sem passagem pelo bar) nos seus quartos. Todos, excepto Etelvina e o vereador que por então se entendiam às mil maravilhas, ficando na conversa mole, acompanhada de um drink até às duas da manhã.
Foi pouco para lá dessa hora que, lá em cima, mal os escritores tinham acabado de pregar olho, sonhando já com os anjinhos, foram acordados por estranhos barulhos, vozes sussurrantes que mais pareciam gemidos vindos do além. Etelvina não lhes ligou patavina (aqui entre nós, porque acabara por se envolver com o vereador da Cultura entre lençóis), mas os escritores assustaram-se a bom assustar. Não vale a pena esconder, é claro que eram os escritores-fantasmas que novamente davam azo à sua propensão para a diversão nocturna. Tinham todos acabado de regressar de uma discoteca e haviam decidido pregar um susto aos seus escritores. E, neste concreto, se eram escritores-fantasmas quem poderia recriminá-los pelo facto?
Um presidente de câmara ciumento. Uma grande ressaca e a providência de uma mera sessão de autógrafos. O edil interrompe a leitura do «Almanaque Tio Patinhas» para fazer um obséquio a Etelvina. Salvador em grande. De Gin em Gin, de Caipiroska em Caipiroska. Alguns espectáculos comatosos.
Na pequena localidade onde decorria a residência literária tudo ia correndo pelo melhor. Os escritores tiravam o maior partido do convite que lhes calhara em sorte. Gozavam o bom tempo, entretinham-se com passeios e umas comezainas na região, e ao fim da noite dispunham-se a grandes farras no turismo rural. A primeira noite nem correu mal de todo, estiveram todos no bar, na gargalhada e nas anedotas, até por volta das três da madrugada, cada qual lançando charme para cima de Etelvina Prazeres, tentando a sua sorte, quem sabe para uma noite bem passada. O presidente da Câmara é que continuava a não achar piada nenhuma àquele assédio mais do que declarado. Invectivou contra os escritores e contra os livros, chamou nomes a torto e a direito aos editores e livreiros, e, já bem bebido, terminou a noite a enxovalhar a directora da Biblioteca Municipal, chamando-lhe tudo e mais alguma coisa. O presidente sentia, definitivamente, qualquer coisa má a respeito da senhora. Quando um dos empregados da residência o acompanhou ao carro, bêbado que nem um cacho, o presidente ainda teve forças para ameaçar os escritores de que no dia seguinte os trataria de pôr a milhas dali...
E assim fez. No dia seguinte, pelo final da manhã, o vereador da Cultura dirigiu-se ao turismo rural com o fim de levar consigo os cinco escritores para a sessão literária que estava aprazada numa livraria local. Bem instruído pelo presidente, o vereador não se fez rogado ao saber que às onze da manhã os escritores ainda estavam todos a dormir, e tratou ele próprio de ir acordá-los, um a um, aos respectivos quartos, não se mostrando manso nas fortes pancadas que infligia às portas. Meia-hora depois, já todos se encontravam no hall de entrada, partindo depois para a cidade, bastante mal dispostos pelo súbito acordar, donde que sonolentos e, pior ainda, com forte ressaca, a fim de cumprirem com os compromissos agendados. Valeu-lhes a providência e o que os esperava era uma mera sessão de autógrafos, pelo que todos se safaram sem grandes complicações, tanto mais que naquela ocasião específica não poderiam mesmo ser substituídos pelos escritores-fantasmas, que, de resto, também tinham ficado a dormir.
Esse dia seguinte, para além da referida sessão de autógrafos, não tinha previsto mais nenhum acontecimento. Quanto à ausência de Etelvina na sessão, o presidente providenciara que o seu motorista, logo de manhã bem cedo fosse à livraria onde o evento teria lugar, pegasse nos livros da autora e os levasse à residência onde ela trataria de os assinar, levando-os o motorista de regresso à livraria. E assim se fez, com grande profissionalismo e eficácia, pelo que à tarde todos poderiam descansar e continuar em busca de inspiração para as suas histórias a partir daquela experiência. O presidente tirou mais um dia de férias e passou a tarde junto de Etelvina, oleando aqui e acolá, tendo conseguido, em quatro horas, ler seis páginas de um «Almanaque Tio Patinhas» que levara consigo a entreter e educar o espírito.
Na piscina só se encontravam mesmo Etelvina e o autarca, bem como dois hóspedes estrangeiros (um casal de alemães com ar de verdadeiras salcichas) e os seis escritores-fantasmas. Etelvina estranhou a ausência dos seus cinco colegas escritores e perguntou ao edil sobre o seu paradeiro. Este, rindo-se a bom rir, disse-lhe que dera folga ao motorista e que por isso provavelmente eles não tinham conseguido voltar para o turismo rural... E mais não especificou, pouco interessado que estava em saber quem os traria de volta e a que horas. Etelvina sorriu e perguntou ao edil se não fazia o obséquio de lhe ir buscar mais um cocktail, que eram de morrer! Prestimoso, o autarca logo acedeu ao pedido, piscando o olho à autora depois de lhe mostrar os novos óleos que trouxera consigo.
A uns metros de distância, os escritores-fantasmas conversavam animadamente sobre livros, sobre as suas experiências, sobre os seus anseios literários, sobre os projectos de futuro, sobre aquilo que uns e outros andavam a escrever. José Salvador era um dos mais requisitados para a conversa, pois não só trabalhava numa casa que tinha grandes pergaminhos, como também porque era ele o homem por trás da grande Etelvina Prazeres, autora desse sucesso sem par, de sua graça: «Etelvina Prazeres – A Verdade de Cristal». Na verdade, todos eles, mais do que em qualquer outro assunto de conversa, estavam interessados em saber pormenores e detalhes, picantes, se possível, em torno da história de Dom Quixote e da sua atribulada saída da editora. Salvador estava lá – porque apesar de preferir as noites para trabalho, naquele dia também ele estava mais do que curioso para receber um exemplar do livro acabado de sair da gráfica –, Salvador viu e ouviu, Salvador certamente que tinha muito que contar.
E Salvador satisfez a curiosidade aos seus colegas de métier, dando-lhes a conhecer tintim por tintim como tudo tinha acontecido naquela manhã. O director editorial que tinha chegado cedo como nunca aos escritórios, a dona Ifigénia que já por ali, também quase antes do galo cantar, limpava o pó aos cantos da casa, a chegada em polvorosa e com grande estardalhaço de Etelvina e do seu staff protector, a recepção dos livros ainda com cheiro forte a tinta, e depois, claro, a saída espaventosa e a grande galope de um Dom Quixote desvairado ao saber de que livro se tratava aquele, quem era Etelvina, etc., e o mais que o leitor bem recorda.
E a tarde passou-se assim, num rame-rame sonolento e morredoiro, com Etelvina Prazeres na piscina a banhos de água e sol, o senhor presidente da câmara a seu lado, todo obsequioso em matéria de óleos e demais ungidos, investido também a garçon que, sempre que a sede da autora apertava, logo se predispunha a ir buscar-lhe pronto abastecimento ao bar. E depois, à distância considerada razoável pelo edil, os seis escritores-fantasmas, todos eles aproveitando também para disfarçar um pouco a palidez de peles, cada qual com um ar mais leitoso que o seu próximo, de tipo fantasmagórico, lividez que em caso de agravamento ao ponto de doença poderia muito facilmente ser induzida, em sede de segurança social, como resultado directo da profissão exercida. Como doença profissional, em suma.
Quanto a literatura que, lembrar-se-ão, era o que levava àquelas paragens toda esta gente, nem vê-la! A única leitura ali à vista devia-se ao presidente, mas devia ser do tipo hermético ou filosófico, pois o edil não havia maneira de chegar ao fim do almanaque das aventuras do Tio Patinhas... De resto, também dos escritores, os reais, não havia ainda sinal. E só houve bem ao final da tarde, que foi quando chegaram de táxi ao turismo rural, já o sol começava a despedir-se na linha do horizonte. Esgotados da sessão de autógrafos que se tinha prolongado pela tarde fora, suando a bom suar, chegaram, não falaram a ninguém, e apenas deitaram um olhar raivoso ao autarca que relaxava ainda numa espreguiçadeira. Irritados, os escritores só tiveram forças para tomar um duche, descer para jantar e logo em seguida recolher aos seus quartos para uma retemperadora noite de sono. Tinham cumprido o segundo dia da residência e ainda também nenhum deles tinha a menor ideia sobre o que iriam escrever, melhor, nenhum deles sequer se tinha lembrado de que esse era um dos pressupostos da residência, isto é, a partir da experiência havida criar um pequeno texto literário. Talvez no dia seguinte algum dos escritores-fantasmas se lembrasse do assunto. Talvez... talvez porque nessa noite os escritores-fantasmas não se portaram por aí além e não sabemos se algum deles terá ficado em condições para no dia seguinte escrever uma linha que fosse. Vamos já a esses sucessos, pois que ao contrário dos escritores, os escritores-fantasmas, depois do jantar, estavam frescos que nem gambas acabadas de sair do frigorífico com pedrinhas de gelo e, logo, prontíssimos para agarrar a noite ou, como diz o povo, pintar a manta. Foi o que fizeram.
De Martini em Martini, de Gin em Gin, de Caipiroska em Caipiroska, o grupo entrou pela noite dentro em grande reinação. Etelvina, que desde pequena tinha uma estranha fixação por microfones, foi a primeira a dar o mote. Bem alegre, assolapou o palco para si, agarrou-se ao micro e à aparelhagem de karaoke, pondo ao rubro a sua assistência «privada». Cantou, cantou, cantou e cantou mais ainda, cantou todo o repertório existente enquanto o presidente e os escritores-fantasmas a acompanhavam num coro que mais parecia de lamúrias ou cornudos. Foi uma verdadeira chuva de estrelas, e só quem lá esteve poderá ter ficado com a exacta noção do que aquilo foi. Só pelas cinco da manhã, muitos drinks adentro, muita cantoria depois, é que os escritores-fantasmas e Etelvina decidiram dar por terminada a sessão, subindo aos seus quartos. O presidente, esse não decidiu nada pois havia já uma hora que dormia e ressonava de barriga e cabeça enfiadas para baixo num dos sofás do bar.
A caminhada dos sete elementos até ao andar de cima do turismo não foi tarefa fácil e mais parecia que todos caminhavam para o Calvário, só lhes faltando a cruz para o efeito. «Cruzes canhoto!», disse para si o rapaz do turno nocturno por trás do balcão da recepção a ver tão comatoso espectáculo. Todos se amparavam uns aos outros e todos os escritores-fantasmas muito interessados pareciam em amparar as curvas de Etelvina, que não via um palmo à sua frente e, rouca que estava, só dizia coisas sem nexo, tipo que um dia haveria de ir a Estocolmo receber o Nobel, que o Saraiva não pensasse que era só ele o maior escritor, que o Saramago tinha a mania que era o dono das morais, que o Lobo António (foi assim que disse) bem podia ter aquele arzinho de intelectual depressivo-compulsivo, mas que ela, ela Etelvina Prazeres com muito prazer, tinha ainda muito para dar à literatura e sobretudo dela a receber...
Engano ou não (talvez algum dia um dos escritores-fantasmas envolvidos na cena venha a pôr em livro a verdade dos factos), vá lá saber-se porquê mas quando, quase às duas da tarde do dia seguinte, um a um, seguidos de Etelvina no final, cada qual com uma dor de cabeça maior, foram acordando, a verdade é que nenhum deles saberia explicar ou se lembrava de como e porquê todos tinham ido parar à cama de Etelvina. Quanto ao presidente, fora acordado ao meio-dia, ainda de cabeça atarracada numa almofada, babando-se ao de leve quando sonhava ser o Robbie Williams rodeado de top models em trajes menores numa pista de dança. Estremunhado e de mau humor, com a cabeça a pesar toneladas, o autarca só abriu olho depois de muitos safanões no ombro que lhe dera o vereador da cultura. «Presidente, presidente, acorde, acorde presidente!». O homem estava em stress e não era para menos. Havia que cumprir o programa da Residência Literária e a agenda dizia que nesse dia, às três da tarde, deveria ter lugar a sessão de abertura da Feira do Livro. Ora, a abertura estava confiada à tesoura do autarca e durante toda a manhã o pessoal da Câmara o tinha procurado por toda a cidade sem dele reunir notícia. «Ó senhor presidente, acorde! Ai, senhor presidente, a directora da Biblioteca vai-me matar! Acorde, por amor de Deus, temos que ir para a feira do livro. Presidente, olhe que a sua esposa está em cuidados...»
Ao ouvir a palavra «esposa» o edil como que chegou à terra, isto é, acordou de supetão, pondo-se direito que nem um espeto como que querendo dar a entender que estava muito bem, tudo estava sob controle e que ali o tinham a prontos para acudir aos seus deveres e tomar em mãos as responsabilidade atinentes à função que exercia, a de comandar os gloriosos destinos da sua autarquia. «A feira? Pois, vamos já para lá, que já me podia ter vindo acordar muito mais cedo, senhor vereador!» E dali saiu de rompante, algo estonteado da ressaca, mas determinado a cumprir com a agenda da Residência. Antes, teve ainda tempo de dar ordem na recepção para que logo, logo acordassem Etelvina e os demais escritores, que também preste, muito preste chegaria a carrinha da Câmara para os levar. O rapazito da Recepção envidou então esforços para acordar os clientes da suite 69 (onde se encontravam Etelvina e os seis fantasmas). Telefonou para o quarto, deixou tocar, tocar, tocar e nada. Ninguém atendia. Todos dormiam ainda a bom dormir.
Pouco depois, chegava a carrinha da Câmara com o vereador da Cultura a comandar as operações, devidamente instruído para não arredar dali sem os escritores. O que até não foi tarefa difícil já que, à excepção de Etelvina, todos tinham acordado cedo, tendo-se decidido a um passeio a cavalo pelos campos. Só que as instruções do presidente eram bem precisas, todos os escritores deveriam estar presentes na Feira, pelo que Etelvina não podia ser excepção. Só que a prestigiada autora dormia! Porém, ao vereador da Cultura não restava outra solução, caber-lhe-ia arrancar Etelvina às profundezas do sono. Junto do moço da recepção o vereador tentou novamente a ligação por telefone ao 69, mas nada feito. Tinha mesmo que recorrer a uma solução extrema, pediu a chave dupla do quarto e foi para lá que se dirigiu. Mais devera não tê-lo feito, tal foi o susto que apanhou mal fez rodar a chave na fechadura e deparando-se com o espectáculo que lhe calhou em sorte. Nus, nuzinhos tal como tinham vindo ao mundo, ressonando sobre os lençóis em alvoroço, os seis escritores-fantasmas abraçavam-se a Etelvina que descansava ainda com um sorriso nos lábios. O susto do vereador foi de tal ordem que ia-lhe dando uma síncope cardíaca, pelo que levou a mão ao peito e arfou com dificuldade, encostando-se com estrondo à porta entreaberta. Com o barulho, Etelvina e os seus escritores-fantasmas acordaram um a um e um a um foram estranhando o que raio fazia ali, àquela hora, de mão junto ao pescoço tentando desapertar a gravata e arfando que nem um louco o vereador da Cultura.
Refeito o vereador com um copinho de água fresca açucarada, sem mais delongas o «braço direito» do presidente instou os circunstantes a se vestirem e pediu a Etelvina que, sem mais delongas, se encaminhasse para o piso de baixo onde a carrinha camarária a aguardava para levá-la, mais aos outros escritores, à Feira do Livro, cuja abertura estava agendada para daí a poucos minutos. Ordens do presidente! Etelvina, algo irritadiça com o stress todo daquele acordar, tanto mais que mal teve tempo para tomar o pequeno-almoço com calma e, inacreditavelmente, nem sequer pudera dar um mergulho na piscina, estava uma pilha de nervos. Porém, a insistência do vereador da Cultura, Etelvina lá subiu, com a calma possível, para dentro da carrinha, dando ao mesmo tempo uma trinca numa sandes de panado e segurando noutra mão um croquete. A tarde na piscina ficou deste modo por conta dos escritores-fantasmas, que assim se tiveram oportunidade de se refazer dos excessos cometidos na noite anterior. Depressa chegaria ao fim o terceiro dia da Residência Literária, faltava apenas um para cumprir, aquele em que, supostamente, os escritores apresentariam, em sessão camarária, uma sinopse das ideias que pretenderiam desenvolver a partir da sua estadia ali durante aqueles quatro dias.
A sessão na feira do livro acabou por decorrer sem factos de monta a referir, muito embora tenha havido quem perguntasse pelo paradeiro dos escritores-fantasmas que tão boa conta de si e dos seus méritos literários haviam dado na sessão inaugural da residência. Quanto aos escritores, uma vez mais, todas as atenções se voltaram para Etelvina que acabou por passar uma tarde divertida a dar autógrafos, tanto mais que faltara à sessão do dia anterior. Seguiu-se depois fausta jantarada, sempre patrocinada pelo senhor presidente, agora já mais controlado nos comes e bebes em virtude da presença da esposa, e a noite terminou numa discoteca local com a música a «bombar» e, desta feita, com o vereador da Cultura – em substituição do edil que tinha levado com ordem de marcha da esposa para se dirigir com ela para casa –, a mostrar os seus dotes de dançarino. Lá para as três da manhã, todos regressaram ao Turismo Rural e enfiaram-se directamente (sem passagem pelo bar) nos seus quartos. Todos, excepto Etelvina e o vereador que por então se entendiam às mil maravilhas, ficando na conversa mole, acompanhada de um drink até às duas da manhã.
Foi pouco para lá dessa hora que, lá em cima, mal os escritores tinham acabado de pregar olho, sonhando já com os anjinhos, foram acordados por estranhos barulhos, vozes sussurrantes que mais pareciam gemidos vindos do além. Etelvina não lhes ligou patavina (aqui entre nós, porque acabara por se envolver com o vereador da Cultura entre lençóis), mas os escritores assustaram-se a bom assustar. Não vale a pena esconder, é claro que eram os escritores-fantasmas que novamente davam azo à sua propensão para a diversão nocturna. Tinham todos acabado de regressar de uma discoteca e haviam decidido pregar um susto aos seus escritores. E, neste concreto, se eram escritores-fantasmas quem poderia recriminá-los pelo facto?
Histórias Fulminantes 60
A sua boca era um túmulo a quem todos confiavam os seus segredos. Uma vez falecido, ao abrir-lhe a boca o médico que o autopsiou encontrou a Verdade e um tesouro em dentes de ouro.
Silence News - Olímpio Ferreira
O artigo vem no «Público» de hoje, assinado por Jorge Silva Melo e diz de um «Um homem que fazia livros»
1967-2007 Olímpio Ferreira
Chamava-se Olímpio Ferreira, o seu nome aparece na ficha de dezenas de livros e revistas (da Cotovia, da & etc., da Assírio, da Fenda, da Averno, da Abril em Maio, dos Artistas Unidos, e mais haverá que não sei). Tinha 40 anos, fazia paginação, morreu no dia 30 de Dezembro, ataque cardíaco.
Um dia, há muitos anos, dia difícil para mim, tocou-me à porta com um embrulho que eu supus ter deixado cair - e agradeci. Era um exemplar de Consideram-se Mortos e Morrem, o belíssimo romance de Vittorini que a PIDE apreendeu nos anos 60 e aparecia na colecção da Portugália como "fora do mercado". Lera um artigo em que eu falava da falta que me fazia esse livro perdido, e apareceu-me em casa (como soube a minha morada? Nunca saberei...) com esse embrulho, um sorriso, um remetente (à Rua da Fé, nome que lhe ia bem). Para onde telefonei, mal me apercebi que não era um vizinho que encontrara nas escadas uma coisa que eu deixara cair. E ficámos amigos.E foi sempre com esse sorriso e estes livros achados que fui vivendo estes anos com ele, livros que encontrava, e um dia me oferecia, os Vadios de Pasolini, tradução de Virgílio Martinho, capa de Pinto, edição do Vítor Silva Tavares para a Ulisseia, apreendido pela PIDE - que desencantou nunca me disse onde, que tanto o procurei.
Vinha de Coimbra e do movimento católico, falámos pouco desse catolicismo que nos ligava, falámos sempre mais de livros, de traduções que ele sabia estarem a ser feitas (foi ele que me falou de Carlos Leite traduzindo o Pavese, de Manuel Portela a traduzir o Sterne), de poetas que apareciam (deu-me o primeiro Tolentino Mendonça, padre e amigo, não sei se não foi ele também quem primeiro me falou do Luís Quintais, foi ele que me anunciou a decisão do Manuel Gusmão de enfim publicar, sabia sempre tudo, foi ele que me falou da DiVersos), falámos de tipos de letras e da dimensão dos livros (gostávamos de livros pequeninos, livrinhos, chamámos nós à nossa colecção), de capas e de política, rimo-nos da última vez que nos encontrámos, no Campo de Santana, na véspera ou no dia em que lhe nasceu o filho mais novo, rimos dos dislates do poder, sempre falámos mais disso, dos disparates do mundo, ele convidava-me de vez em quando para umas coisas (um colóquio na Nova, um artigo para a revista Intervalo em que trabalhava), recomendava-me pessoas, gente mais nova (o Luís Henriques, que este domingo me anunciou a sua morte - e chorava), aparecia sempre, como da primeira vez, com um sorriso lindo.
E fazia livros, paginava-os, entusiasmava-se, revejo agora o seu deslumbramento com o Homossexualidade de Joaquim Manuel Magalhães que publicara a Telhados de Vidro nº 4 (500 ex.). É poema (extraordinário) que não leio sem me lembrar do rosto do Olímpio ao oferecer-mo, "se há poesia política, é esta", dizia, e nesse dia estava declaradamente afirmativo, coisa rara naquela sua maneira de ser, tão discreto que era.Nunca soube o que queria o Olímpio, se queria fazer outra coisa, se queria escrever, se queria editar, se queria abrir alguma loja de livros, se queria outra coisa, nunca disse, mesmo quando eu o desafiava, sei que fazia livros, queria andar pelo meio deles - e de filmes também, filmes de que, às vezes, falávamos e foi ele que me disse que me conhecera em Coimbra, na estreia do Agosto, na plateia deserta do TAGV - e paginava com saber, com extremo cuidado, destreza, simplicidade, delicadeza. Não sei se atrás do seu sorriso haveria alguma mágoa, alguma coisa que não tinha feito e queria, sorria, brincava com o destino, falava de amigos e de escritores, de editores e de livros. E dos filhos e das noites em claro.
Era um homem que fazia livros - e às vezes os dava -, que convencia os outros da excelência de certos autores (Gianni Rodari, editado pela Teorema), que convidava ao secreto encontro - e tinha sempre novidades.
Morreu agora, inesperadamente, brutalmente, discretamente, no meio das festas, com tantos amigos fora, e faz-me falta, era um rapaz leal, firme, secreto, discreto, um amigo. Na missa, em Santa Isabel, Tolentino Mendonça lembrou-o, comovido - e lembrou as bem-aventuranças. E lembrou que não seremos jamais órfãos, sempre seremos herdeiros. Deste rapaz que fazia livros.
1967-2007 Olímpio Ferreira
Chamava-se Olímpio Ferreira, o seu nome aparece na ficha de dezenas de livros e revistas (da Cotovia, da & etc., da Assírio, da Fenda, da Averno, da Abril em Maio, dos Artistas Unidos, e mais haverá que não sei). Tinha 40 anos, fazia paginação, morreu no dia 30 de Dezembro, ataque cardíaco.
Um dia, há muitos anos, dia difícil para mim, tocou-me à porta com um embrulho que eu supus ter deixado cair - e agradeci. Era um exemplar de Consideram-se Mortos e Morrem, o belíssimo romance de Vittorini que a PIDE apreendeu nos anos 60 e aparecia na colecção da Portugália como "fora do mercado". Lera um artigo em que eu falava da falta que me fazia esse livro perdido, e apareceu-me em casa (como soube a minha morada? Nunca saberei...) com esse embrulho, um sorriso, um remetente (à Rua da Fé, nome que lhe ia bem). Para onde telefonei, mal me apercebi que não era um vizinho que encontrara nas escadas uma coisa que eu deixara cair. E ficámos amigos.E foi sempre com esse sorriso e estes livros achados que fui vivendo estes anos com ele, livros que encontrava, e um dia me oferecia, os Vadios de Pasolini, tradução de Virgílio Martinho, capa de Pinto, edição do Vítor Silva Tavares para a Ulisseia, apreendido pela PIDE - que desencantou nunca me disse onde, que tanto o procurei.
Vinha de Coimbra e do movimento católico, falámos pouco desse catolicismo que nos ligava, falámos sempre mais de livros, de traduções que ele sabia estarem a ser feitas (foi ele que me falou de Carlos Leite traduzindo o Pavese, de Manuel Portela a traduzir o Sterne), de poetas que apareciam (deu-me o primeiro Tolentino Mendonça, padre e amigo, não sei se não foi ele também quem primeiro me falou do Luís Quintais, foi ele que me anunciou a decisão do Manuel Gusmão de enfim publicar, sabia sempre tudo, foi ele que me falou da DiVersos), falámos de tipos de letras e da dimensão dos livros (gostávamos de livros pequeninos, livrinhos, chamámos nós à nossa colecção), de capas e de política, rimo-nos da última vez que nos encontrámos, no Campo de Santana, na véspera ou no dia em que lhe nasceu o filho mais novo, rimos dos dislates do poder, sempre falámos mais disso, dos disparates do mundo, ele convidava-me de vez em quando para umas coisas (um colóquio na Nova, um artigo para a revista Intervalo em que trabalhava), recomendava-me pessoas, gente mais nova (o Luís Henriques, que este domingo me anunciou a sua morte - e chorava), aparecia sempre, como da primeira vez, com um sorriso lindo.
E fazia livros, paginava-os, entusiasmava-se, revejo agora o seu deslumbramento com o Homossexualidade de Joaquim Manuel Magalhães que publicara a Telhados de Vidro nº 4 (500 ex.). É poema (extraordinário) que não leio sem me lembrar do rosto do Olímpio ao oferecer-mo, "se há poesia política, é esta", dizia, e nesse dia estava declaradamente afirmativo, coisa rara naquela sua maneira de ser, tão discreto que era.Nunca soube o que queria o Olímpio, se queria fazer outra coisa, se queria escrever, se queria editar, se queria abrir alguma loja de livros, se queria outra coisa, nunca disse, mesmo quando eu o desafiava, sei que fazia livros, queria andar pelo meio deles - e de filmes também, filmes de que, às vezes, falávamos e foi ele que me disse que me conhecera em Coimbra, na estreia do Agosto, na plateia deserta do TAGV - e paginava com saber, com extremo cuidado, destreza, simplicidade, delicadeza. Não sei se atrás do seu sorriso haveria alguma mágoa, alguma coisa que não tinha feito e queria, sorria, brincava com o destino, falava de amigos e de escritores, de editores e de livros. E dos filhos e das noites em claro.
Era um homem que fazia livros - e às vezes os dava -, que convencia os outros da excelência de certos autores (Gianni Rodari, editado pela Teorema), que convidava ao secreto encontro - e tinha sempre novidades.
Morreu agora, inesperadamente, brutalmente, discretamente, no meio das festas, com tantos amigos fora, e faz-me falta, era um rapaz leal, firme, secreto, discreto, um amigo. Na missa, em Santa Isabel, Tolentino Mendonça lembrou-o, comovido - e lembrou as bem-aventuranças. E lembrou que não seremos jamais órfãos, sempre seremos herdeiros. Deste rapaz que fazia livros.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2008
E a propósito de moral e das intocáveis corjas que nos vão governando
O texto, brilhante, é do Miguel Sousa Tavares, a quem tiro o chapéu pela lucidez e coragem com que opina. Veio no «Expresso» de 29 de Dezembro e devia ser, a partir de agora, leitura obrigatória nas escolas. Para atestar da escória política que nos vem governando e que faz com que cada vez menos e menos gente vote em eleições.
Da Opus Dei à maçonaria: a incrível história do BCP
«Expresso», 29 de Dezembro 2007
Em países onde o capitalismo, as leis da concorrência e a seriedade do negócio bancário são levados a sério, a inacreditável história do BCP já teria levado a prisões e a um escândalo público de todo o tamanho. Em Portugal, como tudo vai acabar sem responsáveis e sem responsabilidades, convém recordar os principais momentos deste "case study", para que ao menos a falta de vergonha não passe impune.
1 Até ao 25 de Abril, o negócio bancário em Portugal obedecia a regras simples: cada grande família, intimamente ligada ao regime, tinha o seu banco. Os bancos tinham um só dono ou uma só família como dono e sustentavam os demais negócios do respectivo grupo. Com o 25 de Abril e a nacionalização sumária de toda a banca, entrámos num período 'revolucionário' em que "a banca ao serviço do povo" se traduzia, aos olhos do povo, por uns camaradas mal vestidos e mal encarados que nos atendiam aos balcões como se nos estivessem a fazer um grande favor. Jardim Gonçalves veio revolucionar isso, com a criação do BCP e, mais tarde, da Nova Rede, onde as pessoas passaram a ser tratadas como clientes e recebidas por profissionais do ofício. Mas, mais: ele conseguiu criar um banco através de um MBO informal que, na prática, assentava na ideia de valorizar a competência sobre o capital. O BCP reuniu uma série de accionistas fundadores, mas quem de facto mandava eram os administradores - que não tinham capital, mas tinham "know-how". Todos os fundadores aceitaram o contrato proposto pelo "engenheiro" - à excepção de Américo Amorim, que tratou de sair, com grandes lucros, assim que achou que os gestores não respeitavam o estatuto a que se achava com direito (e dinheiro).
2 Com essa imagem, aliás merecida, de profissionalismo e competência, o BCP foi crescendo, crescendo, até se tornar o maior banco privado português, apenas atrás do único banco público, a Caixa Geral de Depósitos. E, de cada vez que crescia, era necessário um aumento de capital. E, em cada aumento de capital, era necessário evitar que algum accionista individual ganhasse tanta dimensão que pudesse passar a interferir na gestão do banco. Para tal, o BCP começou a fazer coisas pouco recomendáveis: aos pequenos depositantes, que lhe tinham confiado as suas poupanças para gestão, o BCP tratava de lhes comprar, sem os consultar, acções do próprio banco nos aumentos de capital, deixando-os depois desamparados perante as perdas em bolsa; aos grandes depositantes e amigos dos gestores, abria-lhes créditos de milhões em "off-shores" para comprarem acções do banco, cobrindo-lhes, em caso de necessidade, os prejuízos do investimento. Desta forma exemplar, o banco financiou o seu crescimento com o pêlo do próprio cão - aliás, com o dinheiro dos depositantes - e subtraiu ao Estado uma fortuna em lucros não declarados para impostos. Ano após ano, também o próprio BCP declarava lucros astronómicos, pelos quais pagava menos de impostos do que os porteiros do banco pagavam de IRS em percentagem. E, enquanto isso, aqueles que lhe tinham confiado as suas pequenas ou médias poupanças viam-nas sistematicamente estagnadas ou até diminuídas e, de seis em seis meses, recebiam uma carta-circular do engenheiro a explicar que os mercados estavam muito mal.
3 Depois, e seguindo a velha profecia marxista, o BCP quis crescer ainda mais e engolir o BPI. Não conseguiu, mas, no processo, o engenheiro trucidou o sucessor que ele próprio havia escolhido, mostrando que a tímida "renovação" anunciada não passava de uma farsa. E descobriu-se ainda uma outra coisa extraordinária e que se diria impossível: que o BCP e o BPI tinham participações cruzadas, ao ponto de hoje o BPI deter 8% do capital do BCP e, como maior accionista individual, ter-se tornado determinante no processo de escolha da nova administração... do concorrente! Como se fosse a coisa mais natural do mundo, o presidente do BPI dá uma conferência de imprensa a explicar quem deve integrar a nova administração do banco que o quis opar e com o qual é suposto concorrer no mercado, todos os dias...
4 Instalada entretanto a guerra interna, entra em cena o notável comendador Berardo - o homem que mais riqueza acumula e menos produz no país - protegido de Sócrates, que lhe deu um museu do Estado para ele armazenar a sua colecção de arte privada. Mas, verdade se diga, as brasas espalhadas por Berardo tiveram o mérito de revelar segredos ocultos e inconfessáveis daquela casa. E assim ficámos a saber que o filho do engenheiro fora financiado em milhões para um negócio de vão de escada, e perdoado em milhões quando o negócio inevitavelmente foi por água abaixo. E que havia também amigos do engenheiro e da administração, gente que se prestara ao esquema das "off-shores", que igualmente viam os seus créditos malparados serem perdoados e esquecidos por acto de favor pessoal.
5 E foi quando, lá do fundo do sono dos justos onde dormia tranquilo, acorda inesperadamente o governador do Banco de Portugal e resolve dizer que já bastava: aquela gente não podia continuar a dirigir o banco, sob pena de acontecer alguma coisa de mais grave - como, por exemplo, a própria falência, a prazo.
6 Reúnem-se, então, as seguintes personalidades de eleição: o comendador Berardo, o presidente de uma empresa pública com participação no BCP e ele próprio ex-ministro de um governo PSD e da confiança pessoal de Sócrates, mais, ao que consta, alguém em representação do doutor "honoris causa" Stanley Ho - a quem tantos socialistas tanto devem e vice-versa. E, entre todos, congeminam um "take over" sobre a administração do BCP, com o "agréement" do dr. Fernando Ulrich, do BPI. E olhando para o panorama perturbante a que se tinha chegado, a juntar ao súbito despertar do dr. Vítor Constâncio, acharam todos avisado entregar o BCP ao PS. Para que não restassem dúvidas das suas boas intenções, até concordaram em que a vice-presidência fosse entregue ao sr. Armando Vara (que também usa 'dr.') - esse expoente político e bancário que o país inteiro conhece e respeita.
7 E eis como um banco, que era tão independente que fazia tremer os governos, desagua nos braços cândidos de um partido político - e logo o do Governo. E eis como um banco, que era tão cristão, tão "opus dei", tão boas famílias, acaba na esfera dessa curiosa seita do avental, a que chamam maçonaria.
8 E, revelada a trama em todo o seu esplendor, que faz o líder da oposição? Pede em troca, para o seu partido, a Caixa Geral de Depósitos, o banco público. Pede e vai receber, porque há 'matérias de regime' que mesmo um governo com maioria absoluta no parlamento não se atreve a pôr em causa. Um governo inteligente, em Portugal, sabe que nunca pode abocanhar o bolo todo. Sob pena de os escândalos começarem a rolar na praça pública, não pode haver durante muito tempo um pequeno exército de desempregados da Grande Família do Bloco Central.
Se alguém me tivesse contado esta história, eu não teria acreditado. Mas vemos, ouvimos e lemos. E foi tal e qual.
Da Opus Dei à maçonaria: a incrível história do BCP
«Expresso», 29 de Dezembro 2007
Em países onde o capitalismo, as leis da concorrência e a seriedade do negócio bancário são levados a sério, a inacreditável história do BCP já teria levado a prisões e a um escândalo público de todo o tamanho. Em Portugal, como tudo vai acabar sem responsáveis e sem responsabilidades, convém recordar os principais momentos deste "case study", para que ao menos a falta de vergonha não passe impune.
1 Até ao 25 de Abril, o negócio bancário em Portugal obedecia a regras simples: cada grande família, intimamente ligada ao regime, tinha o seu banco. Os bancos tinham um só dono ou uma só família como dono e sustentavam os demais negócios do respectivo grupo. Com o 25 de Abril e a nacionalização sumária de toda a banca, entrámos num período 'revolucionário' em que "a banca ao serviço do povo" se traduzia, aos olhos do povo, por uns camaradas mal vestidos e mal encarados que nos atendiam aos balcões como se nos estivessem a fazer um grande favor. Jardim Gonçalves veio revolucionar isso, com a criação do BCP e, mais tarde, da Nova Rede, onde as pessoas passaram a ser tratadas como clientes e recebidas por profissionais do ofício. Mas, mais: ele conseguiu criar um banco através de um MBO informal que, na prática, assentava na ideia de valorizar a competência sobre o capital. O BCP reuniu uma série de accionistas fundadores, mas quem de facto mandava eram os administradores - que não tinham capital, mas tinham "know-how". Todos os fundadores aceitaram o contrato proposto pelo "engenheiro" - à excepção de Américo Amorim, que tratou de sair, com grandes lucros, assim que achou que os gestores não respeitavam o estatuto a que se achava com direito (e dinheiro).
2 Com essa imagem, aliás merecida, de profissionalismo e competência, o BCP foi crescendo, crescendo, até se tornar o maior banco privado português, apenas atrás do único banco público, a Caixa Geral de Depósitos. E, de cada vez que crescia, era necessário um aumento de capital. E, em cada aumento de capital, era necessário evitar que algum accionista individual ganhasse tanta dimensão que pudesse passar a interferir na gestão do banco. Para tal, o BCP começou a fazer coisas pouco recomendáveis: aos pequenos depositantes, que lhe tinham confiado as suas poupanças para gestão, o BCP tratava de lhes comprar, sem os consultar, acções do próprio banco nos aumentos de capital, deixando-os depois desamparados perante as perdas em bolsa; aos grandes depositantes e amigos dos gestores, abria-lhes créditos de milhões em "off-shores" para comprarem acções do banco, cobrindo-lhes, em caso de necessidade, os prejuízos do investimento. Desta forma exemplar, o banco financiou o seu crescimento com o pêlo do próprio cão - aliás, com o dinheiro dos depositantes - e subtraiu ao Estado uma fortuna em lucros não declarados para impostos. Ano após ano, também o próprio BCP declarava lucros astronómicos, pelos quais pagava menos de impostos do que os porteiros do banco pagavam de IRS em percentagem. E, enquanto isso, aqueles que lhe tinham confiado as suas pequenas ou médias poupanças viam-nas sistematicamente estagnadas ou até diminuídas e, de seis em seis meses, recebiam uma carta-circular do engenheiro a explicar que os mercados estavam muito mal.
3 Depois, e seguindo a velha profecia marxista, o BCP quis crescer ainda mais e engolir o BPI. Não conseguiu, mas, no processo, o engenheiro trucidou o sucessor que ele próprio havia escolhido, mostrando que a tímida "renovação" anunciada não passava de uma farsa. E descobriu-se ainda uma outra coisa extraordinária e que se diria impossível: que o BCP e o BPI tinham participações cruzadas, ao ponto de hoje o BPI deter 8% do capital do BCP e, como maior accionista individual, ter-se tornado determinante no processo de escolha da nova administração... do concorrente! Como se fosse a coisa mais natural do mundo, o presidente do BPI dá uma conferência de imprensa a explicar quem deve integrar a nova administração do banco que o quis opar e com o qual é suposto concorrer no mercado, todos os dias...
4 Instalada entretanto a guerra interna, entra em cena o notável comendador Berardo - o homem que mais riqueza acumula e menos produz no país - protegido de Sócrates, que lhe deu um museu do Estado para ele armazenar a sua colecção de arte privada. Mas, verdade se diga, as brasas espalhadas por Berardo tiveram o mérito de revelar segredos ocultos e inconfessáveis daquela casa. E assim ficámos a saber que o filho do engenheiro fora financiado em milhões para um negócio de vão de escada, e perdoado em milhões quando o negócio inevitavelmente foi por água abaixo. E que havia também amigos do engenheiro e da administração, gente que se prestara ao esquema das "off-shores", que igualmente viam os seus créditos malparados serem perdoados e esquecidos por acto de favor pessoal.
5 E foi quando, lá do fundo do sono dos justos onde dormia tranquilo, acorda inesperadamente o governador do Banco de Portugal e resolve dizer que já bastava: aquela gente não podia continuar a dirigir o banco, sob pena de acontecer alguma coisa de mais grave - como, por exemplo, a própria falência, a prazo.
6 Reúnem-se, então, as seguintes personalidades de eleição: o comendador Berardo, o presidente de uma empresa pública com participação no BCP e ele próprio ex-ministro de um governo PSD e da confiança pessoal de Sócrates, mais, ao que consta, alguém em representação do doutor "honoris causa" Stanley Ho - a quem tantos socialistas tanto devem e vice-versa. E, entre todos, congeminam um "take over" sobre a administração do BCP, com o "agréement" do dr. Fernando Ulrich, do BPI. E olhando para o panorama perturbante a que se tinha chegado, a juntar ao súbito despertar do dr. Vítor Constâncio, acharam todos avisado entregar o BCP ao PS. Para que não restassem dúvidas das suas boas intenções, até concordaram em que a vice-presidência fosse entregue ao sr. Armando Vara (que também usa 'dr.') - esse expoente político e bancário que o país inteiro conhece e respeita.
7 E eis como um banco, que era tão independente que fazia tremer os governos, desagua nos braços cândidos de um partido político - e logo o do Governo. E eis como um banco, que era tão cristão, tão "opus dei", tão boas famílias, acaba na esfera dessa curiosa seita do avental, a que chamam maçonaria.
8 E, revelada a trama em todo o seu esplendor, que faz o líder da oposição? Pede em troca, para o seu partido, a Caixa Geral de Depósitos, o banco público. Pede e vai receber, porque há 'matérias de regime' que mesmo um governo com maioria absoluta no parlamento não se atreve a pôr em causa. Um governo inteligente, em Portugal, sabe que nunca pode abocanhar o bolo todo. Sob pena de os escândalos começarem a rolar na praça pública, não pode haver durante muito tempo um pequeno exército de desempregados da Grande Família do Bloco Central.
Se alguém me tivesse contado esta história, eu não teria acreditado. Mas vemos, ouvimos e lemos. E foi tal e qual.
quarta-feira, 2 de janeiro de 2008
O Pecado bem pode morar ao lado
«Sabe, a moral a mim preocupa-me de outra maneira; considero o pecado a única fonte da virtude, quer dizer, o exercício inteligente do pecado.»
Carlos de Oliveira, «Pequenos Burgueses», Assírio & Alvim
Carlos de Oliveira, «Pequenos Burgueses», Assírio & Alvim
A Demanda do Bravo Cavaleiro Dom Quixote - Capítulo XVIII
XVIII.
Um calor dos diabos e o Alberto Bragança. Dom Quixote bate à porta da Oriente(-se). O jovem Hare e o hare-editor. Uma renovação de look à imagem de Krishnamurti, para além de um curso intensivo de Teosofia. Um Grão de Caril com Coco e outras especialidades.
Desiludido quanto baste com a conversa que mantivera com a editora da Ideias Fantásticas, Dom Quixote continuou a sua errância por uma Lisboa soalheira e quentíssima. Suava por todos os lados e manter-se dentro da armadura quase equivalia a estar a candidatar-se a transformar-se num grelhado. Resistiu, porém, pois um cavaleiro digno desse nome jamais se desfazia da sua armadura. Tirou o elmo, e dirigiu-se ao local onde deixara «estacionado» Rocinante. Por sorte, este estava num sítio onde agora fazia sombra e Dom Quixote aproveitou para se resguardar do sol inclemente. Ia a tentar subir para a garupa quando olhando ao poucos metros de si viu uma cara conhecida.
Mas, mas?... Sim, era ele, era mesmo ele, não estava enganado, conhecia-o muito bem, embora já não o visse ira para um bom par de anos. Era o Alberto, o Alberto Bragança, o grande escritor de contos, o melhor no género, sem dúvida, reconhecido pelos escritores, reconhecido pelos mais diversos Prémios Literários, reconhecido em vida, caso raro, por diversas homenagens que lhe foram prestadas em tempo. O Bragança... Mas agora que se punha a pensar nisso, nunca mais soubera que ele tivesse editado material novo, histórias frescas, no seu estilo sardónico e bem humorado, corrosivo e altamente culto. Que lhe teria acontecido? Porque é que nunca mais editara? E que diabo estava ali a fazer, encostado à parede, com um ar parado e emudecido, como se não fosse um homem de palavras e dos mais distintos, para mais!
Dom Quixote aproximou-se e foi então que o espanto mais se apoderou dos seus olhos. Que era o Bragança era, apesar de mais uma rugazita ou outra, apesar das cãs brancas polvilhando-lhe a farta cabeleira (essa continuava a mesma), apesar das barbas crescidas. Mas o Bragança apesar de ser o mesmo parecia outro! O seu olhar tinha perdido o brilho de antigamente, na comissura dos seus lábios nem um assomo do seu célebre e contagiante sorriso. E depois... depois, que raio era aquilo que ele trazia ao pescoço?! Foi ao chegar bem perto do Bragança que Dom Quixote viu que aquilo que ele trazia pendurado ao pescoço era uma corrente que suspendia uma placa sobre o peito na qual se lia: «Uma esmola para um escritor sem editor, por favor!»
Dom Quixote não queria acreditar naquilo que lia. Então o Bragança, o grande Bragança, aquela verdadeira máquina de escrever tinha chegado àquele ponto, um ponto que mais parecia um ponto final na sua vida, na sua carreira? «Bragança, estás bom pá, que é feito de ti?», dirigiu-se-lhe o cavaleiro quase a desprender-se-lhe uma lágrima do canto do olho (do direito, para o leitor mais dado a pormenores). A princípio, o Bragança fez-se desentendido, algo envergonhado da situação em que o Dom Quixote o encontrara, mas logo depois se desfez em lágrimas num abraço ao velho companheiro de muitos livros. Os dois foram então beber um café e durante cerca de uma hora puseram em dia os dias e as desditas respectivas, cada qual mais desconcertado com o que o outro contava. O Bragança confiou a Dom Quixote que desde havia seis anos já não conseguia arranjar editor e que todos lhe diziam a mesma lengalenga: já não estavam interessados em ficção, queriam antes realidade. Dom Quixote, por seu turno, limitou-se a contar aquilo que o outro já sabia por traços largos, vendo as parangonas nos jornais, e disse que andava em busca de emprego, tendo já batido a duas portas mas sem quaisquer resultados palpáveis. Disse-lhe mesmo que tinha acabado de deixar as instalações de uma editora ali perto, a Ideias Fantásticas, e que agora iria tentar numa outra embora ainda não soubesse qual. O Bragança disse conhecer muito bem a Ideias Fantásticas, também ele já tentara vender as suas histórias à doutora, mas sem nada conseguir voltara às ruas e às esmolas. «Sabe, o mais trágico nisto tudo é que desse dia em diante me vi obrigado a aceitar as esmolas que ela me dá sempre que passa por mim na rua...» No fim da conversa, os dois amigos desejaram-se boa sorte mutuamente, não sem antes o Bragança ter recomendado a Dom Quixote, já que ele ali se encontrava, que ele batesse à porta de uma outra jovem editora que ali tinha escritório. E como se chamava? «É a Oriente(-se)», respondeu-lhe o Bragança, «fica logo ali abaixo».
Depois de verificar se o ticket de estacionamento do Rocinante ainda dava para mais algum tempo – dava –, Dom Quixote desceu a rua e foi bater à porta da tal Oriente(-se), de que nunca tinha ouvido falar. De qualquer forma, Dom Quixote, só pelo nome (que, ao contrário da forma escrita, quando falado apenas parecia o imperativo de orientação na terceira pessoa do singular) pensou tratar-se de uma editora vocacionada para as matérias de auto-ajuda e auto-conhecimento. Estava enganado, e disso se apercebeu quando um jovem rapaz Hare Krishna o veio atender. Vestia uma espécie de lençol branco que suspendia até aos pés, com uma alça apenas sobre o seu ombro esquerdo, tinha a cabeça rapada saindo-se somente atrás um esguio carrapito até ao pescoço. Fez uma espécie de vénia a Dom Quixote e convidou-o a entrar para uma salinha cujas paredes se encontravam forradas com pósteres de cores vivas e garridas, mostrando cenas de cariz mitológico, com muitos animais, bem como de indianas e indianos em cenas de irmanação com a Natureza e os animais, tocando e cantando. Num outro póster que se destacava dos demais, pela grandeza e pelo impacto da imagem surgia encimado por letras garrafais, em todo o seu esplendor, Lord Krishna.
Dom Quixote viu logo onde se tinha ido meter. Mas agora já lá estava, não podia simplesmente bater com a porta e ir-se embora sob pena de ser desagradável. E, para mais, não se estava ali mal de todo, já que o ambiente era climatizado por ar condicionado e podia ouvir-se uma música tranquila oriunda como que de lado nenhum, já que por ali não se viam colunas de som. Pelo menos à vista. O jovem Hare tinha-se retirado por momentos indo anunciar ao editor quem ali se encontrava. Quando regressou à sala vinha acompanhado do dito editor, também ele envolvido em mantos alvos e sedosos, de sandálias enfiadas nos pés, cabelo rapado e trancinha atrás da cabeça.
Apresentou-se e vendo o ar deliciado com que Dom Quixote escutava a música que se fazia ouvir, tratou de ir explicando: «Sabe, todas as principais escrituras do mundo enfatizam a importância dos santos nomes de Deus. A filosofia da consciência de Krishna explica que ouvir o som transcendental (voz ou música) é o primeiro elemento da vida espiritual. Nós temos, por conseguinte, particular interesse por uma enorme variedade de kirtans (o canto congregacional dos santos nomes de Deus) e antigas canções devocionais.» Dom Quixote anuiu ao que o Hare-editor lhe dizia, concordando com tudo e confirmando que se tratava de um som muito relaxante.
Uma vez sentados no chão frente a frente (ali não havia cadeiras nem mesas, apenas um computador portátil no chão e uma mesinha pequena de apoio onde ardiam dois paus de incenso emanando um cheiro nauseabundo que começava a afectar as narinas do nosso cavaleiro), Dom Quixote voltou, mais uma vez, a expor os acontecimentos recentes da sua vida, revelando-se ao dispor de quem entendesse (se é que o Hare-editor entendia) para pôr em prática o seu conhecimento e experiência enquanto figura editorial tutorial e histórica no país. O Hare-editor ouviu com a maior das atenções e depois de uma pausa silenciosa disse que, de sua parte, até poderia colocar a hipótese de vir a trabalhar com ele, mas havia alguns constrangimentos que não via que facilmente se ultrapassassem.
Dom Quixote quis saber que constrangimentos eram esses, ou não se tratava, tão-somente, de editar bons livros e boa literatura? Nesse momento, o Hare-editor fez mais uma pausa algo prolongada e depois, de forma algo titubeante, lá foi dizendo: «Sim, livros, mas para nós... para nós a questão da imagem é deveras importante, é mesmo um condição sine qua non para quem quer que venha trabalhar connosco. Não tome isto como uma questão pessoal, mas a verdade é que... bem... a sua... a verdade é que a sua imagem está um pouco... como dizer?... gasta, ultrapassada. Enfim, as barbas, os bigodes, há-de compreender que já estão fora de moda, conferem-lhe um ar algo... algo sujo, ou melhor, algo impuro... Isto já para não falar na sua armadura, essa então completamente demodé. Para resumir, caro Dom Quixote, a vir trabalhar connosco o senhor teria de ser alvo de uma completa renovação do look, teríamos de lhe cortar essas barbas, bigode e cabeleira, teríamos de lhe arranjar um mando conveniente, enfim, fazê-lo renascer. Obviamente que contaríamos para isso com a ajuda de profissionais, com a nossa equipa de consultores de imagem que, num piscar de olhos, lhe haveriam de pô-lo à semelhança e imagem de Krishnamurti. Depois, teria ainda de frequentar um curso intensivo de Teosofia e, uma vez aprovado, estaria pronto a entrar nos quadros da Oriente(-se).
Depois da conversa e como se aproximasse a hora do lanche, o Hare-editor convidou Dom Quixote para o acompanhar a um restaurante vegetariano ali próximo que fazia umas refeições óptimas. Dom Quixote estava meio aparvalhado com as sugestões do Hare para que ele se transformasse num qualquer Buda ou coisa parecida, e esteve vai não vai para recusar o convite, mas como não tinha almoçado e não sabia se iria arranjar trocados para o jantar, resolveu aceitar, mesmo sabendo que o esperavam grandes prelecções sobre as teorias Krishna. Acertou em cheio. Durante o lanche ajantarado, o Hare-editor não se cansou de discorrer sobre as vantagens do vegetarianismo. Disse que uma alimentação livre de karma era fundamental para o progresso espiritual, dissertou acerca dos inúmeros benefícios de uma alimentação livre das impurezas da carne, falou de receitas deliciosas e, pelo caminho, não deixou de adiantar teorias e teorias acerca dos impactos nocivos de uma alimentação carnívora, não só para o ambiente, como para milhões e milhões de pessoas e animais.
Enquanto o Hare-editor falava e debitava as suas convicções vegetarianas, Dom Quixote, apesar de não ter pratos de carne à sua frente, aproveitou para ir pedindo aquilo que lhe parecia mais comestível da ementa. Pediu Grão de Caril com Coco, Hambúrguer de lentilha, Empadão de Bróculos, Seitan com Banana e terminou com uma Escalivada de Churrasco. No fim, ainda se lembrou de pedir qualquer coisita ao Rocinante, que também devia estar esfomeado. Pegou na ementa para cães (que ali também poderiam servir-se acompanhando os donos) e ordenou que lhe embrulhassem uns Biscoitos para cão de legumes e queijo vegano. Depois de ter o embrulho consigo, sorriu para o Hare-editor, levantou-se, agradeceu muito o lanche, prometeu que ia pensar na proposta de se converter às teosofias e pôs-se dali a andar, que já não havia nada a fazer para salvar o dia. Ala dali a arranjar poiso para pernoitar.
Um calor dos diabos e o Alberto Bragança. Dom Quixote bate à porta da Oriente(-se). O jovem Hare e o hare-editor. Uma renovação de look à imagem de Krishnamurti, para além de um curso intensivo de Teosofia. Um Grão de Caril com Coco e outras especialidades.
Desiludido quanto baste com a conversa que mantivera com a editora da Ideias Fantásticas, Dom Quixote continuou a sua errância por uma Lisboa soalheira e quentíssima. Suava por todos os lados e manter-se dentro da armadura quase equivalia a estar a candidatar-se a transformar-se num grelhado. Resistiu, porém, pois um cavaleiro digno desse nome jamais se desfazia da sua armadura. Tirou o elmo, e dirigiu-se ao local onde deixara «estacionado» Rocinante. Por sorte, este estava num sítio onde agora fazia sombra e Dom Quixote aproveitou para se resguardar do sol inclemente. Ia a tentar subir para a garupa quando olhando ao poucos metros de si viu uma cara conhecida.
Mas, mas?... Sim, era ele, era mesmo ele, não estava enganado, conhecia-o muito bem, embora já não o visse ira para um bom par de anos. Era o Alberto, o Alberto Bragança, o grande escritor de contos, o melhor no género, sem dúvida, reconhecido pelos escritores, reconhecido pelos mais diversos Prémios Literários, reconhecido em vida, caso raro, por diversas homenagens que lhe foram prestadas em tempo. O Bragança... Mas agora que se punha a pensar nisso, nunca mais soubera que ele tivesse editado material novo, histórias frescas, no seu estilo sardónico e bem humorado, corrosivo e altamente culto. Que lhe teria acontecido? Porque é que nunca mais editara? E que diabo estava ali a fazer, encostado à parede, com um ar parado e emudecido, como se não fosse um homem de palavras e dos mais distintos, para mais!
Dom Quixote aproximou-se e foi então que o espanto mais se apoderou dos seus olhos. Que era o Bragança era, apesar de mais uma rugazita ou outra, apesar das cãs brancas polvilhando-lhe a farta cabeleira (essa continuava a mesma), apesar das barbas crescidas. Mas o Bragança apesar de ser o mesmo parecia outro! O seu olhar tinha perdido o brilho de antigamente, na comissura dos seus lábios nem um assomo do seu célebre e contagiante sorriso. E depois... depois, que raio era aquilo que ele trazia ao pescoço?! Foi ao chegar bem perto do Bragança que Dom Quixote viu que aquilo que ele trazia pendurado ao pescoço era uma corrente que suspendia uma placa sobre o peito na qual se lia: «Uma esmola para um escritor sem editor, por favor!»
Dom Quixote não queria acreditar naquilo que lia. Então o Bragança, o grande Bragança, aquela verdadeira máquina de escrever tinha chegado àquele ponto, um ponto que mais parecia um ponto final na sua vida, na sua carreira? «Bragança, estás bom pá, que é feito de ti?», dirigiu-se-lhe o cavaleiro quase a desprender-se-lhe uma lágrima do canto do olho (do direito, para o leitor mais dado a pormenores). A princípio, o Bragança fez-se desentendido, algo envergonhado da situação em que o Dom Quixote o encontrara, mas logo depois se desfez em lágrimas num abraço ao velho companheiro de muitos livros. Os dois foram então beber um café e durante cerca de uma hora puseram em dia os dias e as desditas respectivas, cada qual mais desconcertado com o que o outro contava. O Bragança confiou a Dom Quixote que desde havia seis anos já não conseguia arranjar editor e que todos lhe diziam a mesma lengalenga: já não estavam interessados em ficção, queriam antes realidade. Dom Quixote, por seu turno, limitou-se a contar aquilo que o outro já sabia por traços largos, vendo as parangonas nos jornais, e disse que andava em busca de emprego, tendo já batido a duas portas mas sem quaisquer resultados palpáveis. Disse-lhe mesmo que tinha acabado de deixar as instalações de uma editora ali perto, a Ideias Fantásticas, e que agora iria tentar numa outra embora ainda não soubesse qual. O Bragança disse conhecer muito bem a Ideias Fantásticas, também ele já tentara vender as suas histórias à doutora, mas sem nada conseguir voltara às ruas e às esmolas. «Sabe, o mais trágico nisto tudo é que desse dia em diante me vi obrigado a aceitar as esmolas que ela me dá sempre que passa por mim na rua...» No fim da conversa, os dois amigos desejaram-se boa sorte mutuamente, não sem antes o Bragança ter recomendado a Dom Quixote, já que ele ali se encontrava, que ele batesse à porta de uma outra jovem editora que ali tinha escritório. E como se chamava? «É a Oriente(-se)», respondeu-lhe o Bragança, «fica logo ali abaixo».
Depois de verificar se o ticket de estacionamento do Rocinante ainda dava para mais algum tempo – dava –, Dom Quixote desceu a rua e foi bater à porta da tal Oriente(-se), de que nunca tinha ouvido falar. De qualquer forma, Dom Quixote, só pelo nome (que, ao contrário da forma escrita, quando falado apenas parecia o imperativo de orientação na terceira pessoa do singular) pensou tratar-se de uma editora vocacionada para as matérias de auto-ajuda e auto-conhecimento. Estava enganado, e disso se apercebeu quando um jovem rapaz Hare Krishna o veio atender. Vestia uma espécie de lençol branco que suspendia até aos pés, com uma alça apenas sobre o seu ombro esquerdo, tinha a cabeça rapada saindo-se somente atrás um esguio carrapito até ao pescoço. Fez uma espécie de vénia a Dom Quixote e convidou-o a entrar para uma salinha cujas paredes se encontravam forradas com pósteres de cores vivas e garridas, mostrando cenas de cariz mitológico, com muitos animais, bem como de indianas e indianos em cenas de irmanação com a Natureza e os animais, tocando e cantando. Num outro póster que se destacava dos demais, pela grandeza e pelo impacto da imagem surgia encimado por letras garrafais, em todo o seu esplendor, Lord Krishna.
Dom Quixote viu logo onde se tinha ido meter. Mas agora já lá estava, não podia simplesmente bater com a porta e ir-se embora sob pena de ser desagradável. E, para mais, não se estava ali mal de todo, já que o ambiente era climatizado por ar condicionado e podia ouvir-se uma música tranquila oriunda como que de lado nenhum, já que por ali não se viam colunas de som. Pelo menos à vista. O jovem Hare tinha-se retirado por momentos indo anunciar ao editor quem ali se encontrava. Quando regressou à sala vinha acompanhado do dito editor, também ele envolvido em mantos alvos e sedosos, de sandálias enfiadas nos pés, cabelo rapado e trancinha atrás da cabeça.
Apresentou-se e vendo o ar deliciado com que Dom Quixote escutava a música que se fazia ouvir, tratou de ir explicando: «Sabe, todas as principais escrituras do mundo enfatizam a importância dos santos nomes de Deus. A filosofia da consciência de Krishna explica que ouvir o som transcendental (voz ou música) é o primeiro elemento da vida espiritual. Nós temos, por conseguinte, particular interesse por uma enorme variedade de kirtans (o canto congregacional dos santos nomes de Deus) e antigas canções devocionais.» Dom Quixote anuiu ao que o Hare-editor lhe dizia, concordando com tudo e confirmando que se tratava de um som muito relaxante.
Uma vez sentados no chão frente a frente (ali não havia cadeiras nem mesas, apenas um computador portátil no chão e uma mesinha pequena de apoio onde ardiam dois paus de incenso emanando um cheiro nauseabundo que começava a afectar as narinas do nosso cavaleiro), Dom Quixote voltou, mais uma vez, a expor os acontecimentos recentes da sua vida, revelando-se ao dispor de quem entendesse (se é que o Hare-editor entendia) para pôr em prática o seu conhecimento e experiência enquanto figura editorial tutorial e histórica no país. O Hare-editor ouviu com a maior das atenções e depois de uma pausa silenciosa disse que, de sua parte, até poderia colocar a hipótese de vir a trabalhar com ele, mas havia alguns constrangimentos que não via que facilmente se ultrapassassem.
Dom Quixote quis saber que constrangimentos eram esses, ou não se tratava, tão-somente, de editar bons livros e boa literatura? Nesse momento, o Hare-editor fez mais uma pausa algo prolongada e depois, de forma algo titubeante, lá foi dizendo: «Sim, livros, mas para nós... para nós a questão da imagem é deveras importante, é mesmo um condição sine qua non para quem quer que venha trabalhar connosco. Não tome isto como uma questão pessoal, mas a verdade é que... bem... a sua... a verdade é que a sua imagem está um pouco... como dizer?... gasta, ultrapassada. Enfim, as barbas, os bigodes, há-de compreender que já estão fora de moda, conferem-lhe um ar algo... algo sujo, ou melhor, algo impuro... Isto já para não falar na sua armadura, essa então completamente demodé. Para resumir, caro Dom Quixote, a vir trabalhar connosco o senhor teria de ser alvo de uma completa renovação do look, teríamos de lhe cortar essas barbas, bigode e cabeleira, teríamos de lhe arranjar um mando conveniente, enfim, fazê-lo renascer. Obviamente que contaríamos para isso com a ajuda de profissionais, com a nossa equipa de consultores de imagem que, num piscar de olhos, lhe haveriam de pô-lo à semelhança e imagem de Krishnamurti. Depois, teria ainda de frequentar um curso intensivo de Teosofia e, uma vez aprovado, estaria pronto a entrar nos quadros da Oriente(-se).
Depois da conversa e como se aproximasse a hora do lanche, o Hare-editor convidou Dom Quixote para o acompanhar a um restaurante vegetariano ali próximo que fazia umas refeições óptimas. Dom Quixote estava meio aparvalhado com as sugestões do Hare para que ele se transformasse num qualquer Buda ou coisa parecida, e esteve vai não vai para recusar o convite, mas como não tinha almoçado e não sabia se iria arranjar trocados para o jantar, resolveu aceitar, mesmo sabendo que o esperavam grandes prelecções sobre as teorias Krishna. Acertou em cheio. Durante o lanche ajantarado, o Hare-editor não se cansou de discorrer sobre as vantagens do vegetarianismo. Disse que uma alimentação livre de karma era fundamental para o progresso espiritual, dissertou acerca dos inúmeros benefícios de uma alimentação livre das impurezas da carne, falou de receitas deliciosas e, pelo caminho, não deixou de adiantar teorias e teorias acerca dos impactos nocivos de uma alimentação carnívora, não só para o ambiente, como para milhões e milhões de pessoas e animais.
Enquanto o Hare-editor falava e debitava as suas convicções vegetarianas, Dom Quixote, apesar de não ter pratos de carne à sua frente, aproveitou para ir pedindo aquilo que lhe parecia mais comestível da ementa. Pediu Grão de Caril com Coco, Hambúrguer de lentilha, Empadão de Bróculos, Seitan com Banana e terminou com uma Escalivada de Churrasco. No fim, ainda se lembrou de pedir qualquer coisita ao Rocinante, que também devia estar esfomeado. Pegou na ementa para cães (que ali também poderiam servir-se acompanhando os donos) e ordenou que lhe embrulhassem uns Biscoitos para cão de legumes e queijo vegano. Depois de ter o embrulho consigo, sorriu para o Hare-editor, levantou-se, agradeceu muito o lanche, prometeu que ia pensar na proposta de se converter às teosofias e pôs-se dali a andar, que já não havia nada a fazer para salvar o dia. Ala dali a arranjar poiso para pernoitar.
Histórias Fulminantes 60
Era um montanhista albino, de grande reputação. Chamavam-lhe, com elevação, o grande albinista.
O preço das coisas
O barril do petróleo chegou finalmente aos cem dólares. Pergunto por que níveis andará o preço do poema?
Silence News - Ministro das Finanças
Disse o «Financial Times», à partida insuspeito: «O ministro de Estado e das Finanças [português] arrecadou um prémio que quase ninguém inveja. Fernando Teixeira dos Santos foi considerado o segundo pior ministro das Finanças da Zona Euro.» Como esta gente é toda amiga e andam todos baralhados da tola, mais se diz e pode ler que «o FT analisa ainda a aptidão política dos ministros e, nesta matéria, conclui que Teixeira dos Santos é um dos três melhores.» Portanto, em conclusão: o homem tem muita aptidão mas os resultados da sua enorme aptidão são um desastre! E que tal os senhores do FT irem para casa com baixa médica por inaptidão?
terça-feira, 1 de janeiro de 2008
Histórias Fulminantes 59
Não tinha absolutamente jeito nenhum para a flauta; dizia, e bem, o seu pai que tinha uma tremenda flauta de jeito para a música.
E agora que o Natal «já não está», ainda com Mésseder
«No Natal, reaprende-se a arte do tempo. Chegam de longe os que partiram. E, sob os sulcos que a viagem nos rostos desenhou, ainda se vislumbram traços infantis. De outros, apenas regressam os fantasmas. E há sempre alguém que chora sobre o leite derramado da infância.»
João Pedro Mésseder, «Abrasivas», Deriva
O Problema dos Domingos
«Ao domingo, o cansaço não tem nome. É por isso o dia mais cruel.»
João Pedro Mésseder, «Abrasivas», Deriva
E os meus livros do ano (não necessariamente pela ordem em que surgem)
Compêndio Para Uso dos Pássaros, Manoel de Barros, Quasi Edições
O Animal Moribundo, Philip Roth, Dom Quixote
A Síndrome de Ulisses, Santiago Gamboa, Edições ASA
A Face da Guerra, Martha Gellhorn, Dom Quixote
Reedições da Obra de Miguel Torga, Dom Quixote
Criaturas da Noite, Lázaro Covadlo, Livros de Areia
Colecção A Biblioteca de Babel, Presença
Os Mundos Que Partilhamos, Paulo Kellerman, Deriva
A Chave da Casa, Tatiana Salem Levy, Cotovia
O Meu Século, Jorge Silva Melo, Cotovia
Impasse, Icchokas Meras, Quetzal
Sou Todo Ouvidos, Joseph Mitchell, Ambar
Alexandre O'Neill, Uma Biografia Literária, Maria Antónia Oliveira, Dom Quixote
Balada Para Sérgio Varella-Cid, Joel Costa, Casa das Letras
A Vida Aventurosa de Sparrow Springwater, Trevor Ferguson, Cavalo de Ferro
Todo-o-Mundo, Phipil Roth, Dom Quixote
A Confraria do Vinho, John Fante, Teorema
Chance, Jersy Kosinski, Livros de Areia
O Resto é Silêncio, Augusto Monterroso, Oficina do Livro
Aprender a Rezar na Era da Técnica, Gonçalo M. Tavares, Caminho
O Animal Moribundo, Philip Roth, Dom Quixote
A Síndrome de Ulisses, Santiago Gamboa, Edições ASA
A Face da Guerra, Martha Gellhorn, Dom Quixote
Reedições da Obra de Miguel Torga, Dom Quixote
Criaturas da Noite, Lázaro Covadlo, Livros de Areia
Colecção A Biblioteca de Babel, Presença
Os Mundos Que Partilhamos, Paulo Kellerman, Deriva
A Chave da Casa, Tatiana Salem Levy, Cotovia
O Meu Século, Jorge Silva Melo, Cotovia
Impasse, Icchokas Meras, Quetzal
Sou Todo Ouvidos, Joseph Mitchell, Ambar
Alexandre O'Neill, Uma Biografia Literária, Maria Antónia Oliveira, Dom Quixote
Balada Para Sérgio Varella-Cid, Joel Costa, Casa das Letras
A Vida Aventurosa de Sparrow Springwater, Trevor Ferguson, Cavalo de Ferro
Todo-o-Mundo, Phipil Roth, Dom Quixote
A Confraria do Vinho, John Fante, Teorema
Chance, Jersy Kosinski, Livros de Areia
O Resto é Silêncio, Augusto Monterroso, Oficina do Livro
Aprender a Rezar na Era da Técnica, Gonçalo M. Tavares, Caminho
A questão é
A arte contemporânea é de esquerda ou de direita? Ou não é? Ou já não é? Ou já não há esquerda e direita? A política convertida a bafienta auto-estrada?
Histórias Fulminantes 58
Sem consciência do risco, de pijama às riscas cavalgava pela avenida nu sobre a garupa do cavalo. Os médicos que depois o viram não tiveram dúvidas: «Alzheimer galopante».
segunda-feira, 31 de dezembro de 2007
A orelha do Francisco
Um mosquito (se calhar mais do que um) picou a orelha do Francisco, que hoje andou o dia inteiro com a mesma inchada e vermelha. Já vos disse o quanto odeio insectos? Sim, eu sei que odiar é feio. Mas isso faz-se? Hoje vai haver caça! (...) Curiosamente, recordo agora que no carro o que se ouviu foi a música dos espanhóis La Oreja de Van Gogh! Ainda diz a outra que não há coincidências...
A questão (tripla) é
Que raio de interesse pode suscitar esta corrida às rédeas da Caixa? E que raio de interesse pode suscitar o futuro do bcp? Juro, não entendo. Não vão todos continuar a comer à grande e à portuguesa dos bolsos de todos nós? Porque não os calam?
O Abrupto Homem do Leme
Pacheco Pereira insurge-se (no «Público» de ontem) contra a pobreza dos blogues nacionais. Parece-me uma leitura algo abrupta da lusoblogosfera. Sobretudo porque seria curioso saber quanto tempo perde Pacheco a ler outros blogs, sobretudo quando deve passar tanto tempo ao leme do seu. E já agora, porquê aquelas fotografias tão bacocas, foleiras e insípidas?...
Sim, eu sei
Sim, eu sei, a vida são recordações... Não, perdão, o que eu queria dizer é que sim, eu sei que posts muito grandes não se lêem e por isso o Dom Quixote...
Silence News
Não há pae para Amaral. O senhor comprou todas as grandes editores portuguesas. Agora somou a Dom Quixote. Está no meu livro; aquela ainda vai mudar de nome (para Dom Chicote) e passar apenas a editar Carolinas Salgado. Não lêem o meu Dom Quixote!
domingo, 30 de dezembro de 2007
Silence Music Box - Tops

os meus do ano:
1 - Sia, «Lady Croissant»
2 - Cinematics, «A Strange Education»
3- Wilco, «Sky Blue Sky»
4 - She Wants Revenge, «This is Forever»
5 - Joan as a Police Woman, «Real Life»
6 - PJ Harvey, «White Chalk»
7 - The Long Blondes, «Some One to Drive You Home»
8 - Blonde Redhead, «23»
9 - Air, «Pocket Symphony»
10 - Tori Amos, «American Doll Posse»
11 - Brazilian Girls, «Talk to la Bomb»
12 - White Stripes, «Icky Thump»
13 - Bat for Lashes, «Fur and Gold»
14 - Interpol, «Our Love to Admire»
15 - Bruce Springsteen, «Magic»
16 - Patrick Wolf, «Magic Position»
17 - National, «Boxer»
18 - Travis, «Boy With no Name»
19 - Brett Anderson, «Bret Anderson»
20 - Editors, «An End as a Start»
Call Girl

Dizem para aí que é filme comercial. Pois eu, tiro o chapéu (passe a expressão, pois o dito lhe cai muito bem) ao António Pedro Vasconcelos. O filme come-se, sem falsas leituras. Bom enredo, boas interpretações, bom ritmo narrativo, bom som, e, no mais, um filme colado à realidade. Mesmo que ninguém ligue à mensagem principal e tudo fique a olhar para as curvas da Soraia; dir-se-ia que a actriz/personagem corrompe o próprio filme.
sexta-feira, 28 de dezembro de 2007
Histórias Fulminantes 57
Era um poço de sabedoria. Quando o autopsiaram, dois médicos descuidaram-se ao olhar as profundezas do seu intelecto e caíram. Quando chegaram ao fundo bateram com a cabeça nos clássicos de encadernações pontiagudas e tiveram morte imediata.
A Demanda do Bravo Cavaleiro Dom Quixote - capítulo XVII
XVII.
De novo a autora. Um edil voltado para as coisas da cultura. A porca torceu o rabo. Mais uma grande ideia do director. A Vasco da Gama a 220 quilómetros por hora. Beijinhos aqui e acolá, o encontro de escritores, dito residência. A suite 69. Os olhos a caírem para um Pão de Rala e até ao presidente sabia bem um mergulho.
Há já um bom par de páginas que não trazemos aqui notícias da nossa autora. Aliás, leit motiv primordial para todo este arrazoado de palavras, para toda esta história de contornos assaz singulares e de desenlace desconhecido, inclusive ainda até para o próprio autor destas linhas. Mas vejamos então onde tínhamos deixado a nossa escritora de sucesso, a best seller entre os best sellers. Exactamente, atento e avisado leitor, tinhamo-la deixado vai não vai para se dirigir a uma cidadezinha do interior do país, cujo edil local, muito voltado para as coisas da cultura (que, descobrira recentemente até era coisa que estava na moda, pelo que talvez fazer umas coisitas na área lhe pudesse granjear alguma popularidade para as eleições que se aproximavam), se lembrara de convidar meia-dúzia de escritores para uma «residência literária».
Etelvina Prazeres, enquanto nome do momento, não poderia não ter sido convidada. Aliás, a primeira convidada, se calhar mesmo a única convidada com verdadeiro interesse aos olhos do autarca anfitrião. Etelvina nunca tinha ouvido falar em coisa semelhante, uma residência, para ela, era apenas uma grande casa, um casarão ou um palacete, como aquele em que em tempos não muito distantes vivera com o seu ex-presidente do tal clube desportivo nortenho, de resto, o homem que estivera na base do sucesso do seu livro. A verdade é que quando ela pensava que a convidavam para tirar umas feriazitas (mais do que merecidas) num qualquer turismo rural do interior, e já, alegre e contente, se preparava para fazer as malas, a conversa com o seu editor é que veio iluminá-la em parte quanto aos reais objectivos de iniciativas como aquela. Que sim, que até seria numa bela casa, talvez mesmo num turismo rural, disse-lhe o director editorial, mas que o propósito era que os escritores participassem em mesas-redondas com o público acerca das suas experiências de escrita, e, sobretudo, que essa residência lhes permitisse escrever um texto novo, de preferência acerca dessa mesma experiência.
Aí é que a porca torceu o rabo para Etelvina! Como diabo haveria ela de se pôr a escrever fosse o que fosse? Então o director não sabia também que fora o escritor-fantasma a escrever o seu livro, limitando-se ela a contar-lhe episódios avulsos da sua vida? O director editorial disse que sim, que sabia isso muito bem, mas que nestas coisas das residências a coisa era mesmo só para os escritores... A não ser... «A não ser o que?», perguntou-lhe logo a escritora, garantindo uma vez mais que sem a presença do seu fantasma, o Salvador, ela era incapaz de escrever uma palavra. «A não ser», disse o director, «que juntemos o útil ao agradável». E lá explicou o que tinha em mente. Contou a Etelvina dos anseios de reconhecimento de José Salvador, farto que estava da sua profissão de escritor-fantasma, chegando depois ao ponto que mais agradou à autora. Falaria com o fantasma para que a acompanhasse à dita residência. O homem haveria de ficar contente e certamente que lhe agradaria o facto de a acompanhar, de sair para o campo, de apanhar ar puro e fresco e, claro, contactar com os outros escritores. E como contornar a questão autárquica?, perguntou Etelvina. «Nada que não se possa solucionar», garantiu o director, pegando no telefone e pedindo à sua secretária, a dona Paula, que lhe fizesse uma «ligaçãozinha» para o senhor presidente de Câmara da povoação onde a dita residência teria lugar.
Pouco tardou em que a dona Paula lhe ligasse de volta pondo o director em linha directa com o autarca. A conversa correu com muitos rodriguinhos de apreciação mútua, com muitos assentimentos, e com a promessa de um visita oportuna do director ao presidente que o levaria a provar as iguarias da região. Etelvina não percebeu quais. «Prontos, está tudo resolvido», disse o director para a sua autora, «vou falar com o fantasma para também fazer as malas. A ver se o homem ganha uma corzinha!» Etelvina suspirou de alívio, assim, sim, teria imenso prazer em participar na residência. Ao director, pediu apenas que falasse com o fantasma no sentido de ele, durante o período da deslocação, actuar com a discrição possível, na sombra, por assim dizer, até para não dar muito nas vistas junto dos outros escritores.
Na manhã do dia aprazado para a ida até à cidadezinha do interior onde todos os escritores ficaram de se encontrar pelas 11h30 da manhã, seguindo para residência onde deixariam as malas e logo depois para um almoço de boas-vindas, Etelvina estava com um nervoso miudinho. Ficara de se encontrar à porta da editora para apanhar o escritor-fantasma e ali estando, não havia maneira de ele aparecer. Por fim, lá apareceu trazendo uma malinha a tiracolo, vestindo calças brancas largas de linho e uma camisa cheia de flores amarelas e vermelhas, bem ao jeito e gosto africano. Os óculos escuros compunham a figura e davam o toque final. Etelvina não se conteve e começou a rir-se dele bem nas suas barbas, expressão embora fiel, talvez algo deslocada de um sentido real uma vez que o fantasma tinha muito pouca barba. Na verdade, despontavam-lhe nas faces apenas dois ou três pêlos mal semeados, o que a ninguém espantaria até porque onde é que já se viram fantasmas com barba?
Prosseguiram então viagem, passando a ponte Vasco da Gama a mais de 220 quilómetros por hora. Etelvina cantava com uma voz esganiçada as canções que o rádio ia debitando, com os hits mais recentes dos cantores de novela nacionais. Quanto ao escritor-fantasma, por trás dos seus óculos escuros seguia agarrado ao banco do BMW da autora, mais assustado do que um susto, todo ele pele de galinha e já a desfazer-se em rezas e promessas assim chegasse são e salvo ao destino. Transcorrida pouco mais de uma hora de viagem, sempre em alta cavalagem e grande gritaria a bordo, Etelvina e o fantasma chegaram à porta da Câmara Municipal, local marcado para encontro antes de seguirem até à residência. Tinham conseguido chegar a horas.
À sua espera estavam o presidente da Câmara e o seu vereador da Cultura, bem como os outros escritores. Etelvina, contudo, estranhou o seu número, pensou que seriam mais cinco, com ela seis, e a verdade é que estavam ali, para além do edil e do vereador, mais dez pessoas! «Dez, senhor presidente? Então não éramos só seis escritores participantes?» O presidente sorriu, pôs-lhe o braço sobre o ombro e apressou-se a esclarecê-la. A coisa era simples, é que todos os seus colegas escritores tinham também decidido participar na residência acompanhados dos seus escritores-fantasmas. Etelvina fez um grande ar de espanto mas lá acabou por sorrir, sentindo-se com isso muito melhor. Afinal, todos os grandes escritores têm os seus fantasmas. E nessa medida se calhar ela era mesmo uma grande escritora... Quem sabe, um dia não acabava mesmo por escrever poesia, essa tal arte maior da escrita reservada aos maiores entre os maiores.
Beijinhos aqui e beijinhos acolá, escritores e escritores-fantasmas cumprimentaram-se, alegrando-se pela experiência que tinham pela frente. Etelvina apresentou-se e apresentou o seu Zé, o seu querido fantasma. Curiosamente, o Zé já tinha tratado de se apresentar, estando agora em amena cavaqueira com os seus pares fantasmas, eles sim, afinal, os verdadeiros interessados na literatura e no programa a cumprir previamente definido pela autarquia conjuntamente com a biblioteca local, cuja directora entretanto também e juntara ao grupo. Um grupo alegre, jovial e colorido, sobretudo por via do garrido das corres das roupas dos escritores-fantasmas, que partiu em caravana até à tão sonhada residência, efectivamente, uma antiga casa apalaçada, situada no campo e agora transformada em moderno turismo rural.
Como eram doze, e não seis, os participantes do evento, metade dos quartos da «residência» ficaram por conta dos homens e mulheres das letras, para ser mais concreto por conta de cinco escritores homens, seis escritores-fantasmas também homens e... e apenas uma escritora, Etelvina Prazeres, que, dada a grandeza do seu sucesso literário, tivera direito a uma suite, a número 69. E quanto prazer e honra ela tinha nisso, confessaria depois ao presidente que já não a largava como cão a um osso, quanto prazer em ser a única representante feminina num evento de tamanha importância. Deste primeiro contacto dos escritores com o local onde passariam a residir nos dias seguintes pouco mais há a dizer senão dois pequenos apartes: primeiro, as muitas malas com que Etelvina encheu o seu quarto, mais parecendo que trouxera consigo a totalidade do seu guarda-roupa; depois, que logo, logo, mal ali chegados, o seu escritor-fantasma desaparecera. Nada de especial se passara, pouco depois já ele também se dirigia para o hall de entrada, vindo do bar e acompanhado dos seus pares fantasmas, onde já estivera a bebericar um Porto de Honra, seguido de quejandos alcalóides. Zé Salvador ostentava um sorriso na cara de grande satisfação, era a primeira vez que sentia o prazer destes encontros literários e estava disposto a retirar da experiência tudo o que pudesse. A comitiva seguiu então para um restaurante ali próximo onde inúmeras iguarias regionais os aguardavam.
Os escritores e os escritores-fantasmas comeram que nem presidentes. Bem, quase como presidentes, porque se esses fossem tomados à imagem do presidente da Câmara local, que enfardava como Etelvina nunca vira, a imagem cairia por terra. Acompanhar a voracidade do estômago do homem era tarefa impossível para qualquer mortal, mesmo para qualquer escritor ou escritor-fantasma esfaimado, como se mostrava, de resto, Zé Salvador, repetindo três vezes o prato principal, depois de comer umas entradinhas, e preparando agora o ataque à mesa das sobremesas em regime de self service. Caíram-lhe os olhos para um Pão de Rala, para uns Morgados e para um arroz doce divinal feito com leite de cabra. Satisfeito, mas não terminado, Zé ainda encontrou espaço para uma fatiazinha de Sericá, pondo termo à refeição com a ameixa de Elvas da praxe seguida da degustação de uma aguardentezinha da garrafeira particular do Chefe que tinha tanto de «pomada» como de «bomba»!
No fim do repasto, a directora da Biblioteca local levantou-se distribuindo aos escritores uma folha A4 com o programa da «1ª Residência de Escritores Abel Antero - 2007» – Abel Antero era o nome de um escritor local que assim a autarquia aproveitava para homenagear, depois de ter descerrado uma placa na casa onde ele nascera e de conceder o seu nome a uma rua da localidade. Em amena e alegre conversa, os escritores, todos eles, se apressaram a entregar as folhas aos seus escritores-fantasmas, continuando as provas vinícolas da região comandadas pelo senhor presidente. Em conversa com Etelvina, o senhor presidente confessou-lhe que só tinha lido alguns parágrafos do seu «extraordinário» livro, que ela não levasse a mal, mas é que ele tinha um não-sei-quê com a leitura, que quase nunca conseguia arrancar do primeiro parágrafo e que a última coisa que lera já nem se lembrava. Gostava, sim, do Tio Patinhas, que comprava desde criança. No entanto, ressalvava, tinha lá em casa um Lobo Antunes que a editora lhe mandara e que, quem sabe um dia, com a graça de Deus, conseguiria ler. Embora duvidasse de ter tempo para essas coisas, tão «atazanado» andava sempre com os problemas que os seus opositores lhe arranjavam na Câmara. Etelvina, de sua parte, confessou também que não achava grande piada ao Tio Patinhas e que preferia mesmo o Donald. E sobre esta divergência entraram os dois em prolífica discussão.
Batiam quase as três da tarde de um dia que se mostrava cheio de sol e calor, quando o presidente chama a empregada de mesa do restaurante dizendo-lhe para dizer ao Chefe para pôr a dolorosa na conta da Câmara. Depois, dirige-se aos escritores e aos escritores-fantasmas convidando-os a dar seguimento ao programa estabelecido pela directora da Biblioteca, no caso um encontro com o público para apresentação das obras respectivas. Chegando-se uns aos outros, os escritores-escritores, não os fantasmas, trocaram breves impressões e rapidíssimas conclusões que imediatamente trataram de transmitir ao presidente da Câmara por intermédio de Etelvina Prazeres fazendo uso do elevado capital de simpatia que esta nutria junto do edil. E que lhe comunicou aquela? Que os escritores achavam que estando um belo dia de sol, estando um calor que apenas convidava ao desfrute de um banho de piscina, estando, ainda para mais de barrigas cheias, seria bem melhor que pudessem ir para a residência e aí aproveitar o resto da tarde com uns mergulhos oferecendo aos corpos um belo bronzeado. Consideravam eles que tal hipótese bem melhor serviria os intentos primeiros de vir a conseguir que eles se inspirassem para a redacção de um qualquer texto original. O presidente ouviu, considerou, em voz baixa, que compreendia muito bem a situação, que até a ele lhe apetecia um banhito, quem sabe até os poderia acompanhar no gozo da piscina, e que teria apenas de dar uma palavrinha à directora da Biblioteca, que, adiantou entre dentes, é uma chata do piorio sempre com os livros e os escritores atrás dela!
Assim disse, assim fez e assim regressou para junto de Etelvina dizendo-lhe que estava tudo resolvido, que tinha tido uma excelente ideia e que só tinha de ir a casa buscar os calções de banho e a toalha, deixar o vereador da Cultura na Câmara, e que em menos de nada se lhe juntaria na residência, oferecendo-se, desde logo, para lhe pôr o creme nas costas, assim ela o permitisse, naturalmente, e não visse nisso incómodo de maior ou qualquer avanço de sua parte. «Senhor presidente, por quem é? Então ia eu achar tal coisa de uma pessoa tão distinta como o senhor?» E a ideia? A ideia do presidente? Ah, pois claro, esta: o edil lembrou-se e bem de «convidar» os escritores fantasma a fazerem as vezes dos escritores na dita sessão de apresentação de obras ao público local. Pois se não tinham eles enchido o papo, e de que maneira, essa haveria de ser a forma de pagarem o repasto. Sim, que isto de andar a escrevinhar livros não é trabalho que se veja. Ainda para mais escritores de segunda fila, escritores-fantasmas.
E todos se foram então às suas vidas e afazeres. Os escritores dirigiram-se a banhos para a residência, todos metidos no BMW de Etelvina, em busca de inspiração soalheira para as suas empreitadas literárias, no seu Mercedes o autarca levou consigo o vereador e a directora da biblioteca, enquanto que aos escritores-fantasmas foi-lhes indicado que aguardassem um pouco que no entretanto uma camioneta da Câmara os viria buscar para levá-los até à Biblioteca Municipal onde tratariam de entreter conversa com a audiência, dando a conhecer a vida e obra dos escritores que representavam. A coisa acabaria por correr mal de todo. A princípio os locais que ali se deslocaram na intenção de conversar com os seus escritores favoritos ainda desconfiaram de que lhes estavam a enfiar um grande barrete, mas depois da conversa engatar e fluir, com os escritores-fantasmas a falarem de literatura com algum conhecimento de causa, a verdade é que, no final, todos os presentes se convenceram de que aqueles escritores, sendo fantasmas, tinham muito mais a dizer e para dizer do que os verdadeiros escritores.
Entretanto, estirada ao sol junto à piscina, em biquini deveras poupado no tecido e com um elaborado cocktail que bebericava por uma palhinha, Etelvina encontrava-se no melhor dos mundos, rodeada pelos cinco escritores e pelo presidente de Câmara que, cheio de ciúmes, tratava de enxotar os escritores para longe, ao mesmo tempo que preparava os óleos com que trataria de ungir a sua autora predilecta. «É bom que desapareçam, senão ainda os obrigo a ir para a Biblioteca aturar aquela gente», disse o presidente a Etelvina que achou a piada óptima, respondendo, «ó senhor presidente, não é preciso tanto, olhe que isso era uma maldade! Afinal de contas só estávamos a trocar ideias acerca dos nossos escritores-fantasmas, que são como as empregadas lá em casa e assim... Seu maroto, tem a certeza de que esses óleos são para bronzeados ou para massagens?»
De novo a autora. Um edil voltado para as coisas da cultura. A porca torceu o rabo. Mais uma grande ideia do director. A Vasco da Gama a 220 quilómetros por hora. Beijinhos aqui e acolá, o encontro de escritores, dito residência. A suite 69. Os olhos a caírem para um Pão de Rala e até ao presidente sabia bem um mergulho.
Há já um bom par de páginas que não trazemos aqui notícias da nossa autora. Aliás, leit motiv primordial para todo este arrazoado de palavras, para toda esta história de contornos assaz singulares e de desenlace desconhecido, inclusive ainda até para o próprio autor destas linhas. Mas vejamos então onde tínhamos deixado a nossa escritora de sucesso, a best seller entre os best sellers. Exactamente, atento e avisado leitor, tinhamo-la deixado vai não vai para se dirigir a uma cidadezinha do interior do país, cujo edil local, muito voltado para as coisas da cultura (que, descobrira recentemente até era coisa que estava na moda, pelo que talvez fazer umas coisitas na área lhe pudesse granjear alguma popularidade para as eleições que se aproximavam), se lembrara de convidar meia-dúzia de escritores para uma «residência literária».
Etelvina Prazeres, enquanto nome do momento, não poderia não ter sido convidada. Aliás, a primeira convidada, se calhar mesmo a única convidada com verdadeiro interesse aos olhos do autarca anfitrião. Etelvina nunca tinha ouvido falar em coisa semelhante, uma residência, para ela, era apenas uma grande casa, um casarão ou um palacete, como aquele em que em tempos não muito distantes vivera com o seu ex-presidente do tal clube desportivo nortenho, de resto, o homem que estivera na base do sucesso do seu livro. A verdade é que quando ela pensava que a convidavam para tirar umas feriazitas (mais do que merecidas) num qualquer turismo rural do interior, e já, alegre e contente, se preparava para fazer as malas, a conversa com o seu editor é que veio iluminá-la em parte quanto aos reais objectivos de iniciativas como aquela. Que sim, que até seria numa bela casa, talvez mesmo num turismo rural, disse-lhe o director editorial, mas que o propósito era que os escritores participassem em mesas-redondas com o público acerca das suas experiências de escrita, e, sobretudo, que essa residência lhes permitisse escrever um texto novo, de preferência acerca dessa mesma experiência.
Aí é que a porca torceu o rabo para Etelvina! Como diabo haveria ela de se pôr a escrever fosse o que fosse? Então o director não sabia também que fora o escritor-fantasma a escrever o seu livro, limitando-se ela a contar-lhe episódios avulsos da sua vida? O director editorial disse que sim, que sabia isso muito bem, mas que nestas coisas das residências a coisa era mesmo só para os escritores... A não ser... «A não ser o que?», perguntou-lhe logo a escritora, garantindo uma vez mais que sem a presença do seu fantasma, o Salvador, ela era incapaz de escrever uma palavra. «A não ser», disse o director, «que juntemos o útil ao agradável». E lá explicou o que tinha em mente. Contou a Etelvina dos anseios de reconhecimento de José Salvador, farto que estava da sua profissão de escritor-fantasma, chegando depois ao ponto que mais agradou à autora. Falaria com o fantasma para que a acompanhasse à dita residência. O homem haveria de ficar contente e certamente que lhe agradaria o facto de a acompanhar, de sair para o campo, de apanhar ar puro e fresco e, claro, contactar com os outros escritores. E como contornar a questão autárquica?, perguntou Etelvina. «Nada que não se possa solucionar», garantiu o director, pegando no telefone e pedindo à sua secretária, a dona Paula, que lhe fizesse uma «ligaçãozinha» para o senhor presidente de Câmara da povoação onde a dita residência teria lugar.
Pouco tardou em que a dona Paula lhe ligasse de volta pondo o director em linha directa com o autarca. A conversa correu com muitos rodriguinhos de apreciação mútua, com muitos assentimentos, e com a promessa de um visita oportuna do director ao presidente que o levaria a provar as iguarias da região. Etelvina não percebeu quais. «Prontos, está tudo resolvido», disse o director para a sua autora, «vou falar com o fantasma para também fazer as malas. A ver se o homem ganha uma corzinha!» Etelvina suspirou de alívio, assim, sim, teria imenso prazer em participar na residência. Ao director, pediu apenas que falasse com o fantasma no sentido de ele, durante o período da deslocação, actuar com a discrição possível, na sombra, por assim dizer, até para não dar muito nas vistas junto dos outros escritores.
Na manhã do dia aprazado para a ida até à cidadezinha do interior onde todos os escritores ficaram de se encontrar pelas 11h30 da manhã, seguindo para residência onde deixariam as malas e logo depois para um almoço de boas-vindas, Etelvina estava com um nervoso miudinho. Ficara de se encontrar à porta da editora para apanhar o escritor-fantasma e ali estando, não havia maneira de ele aparecer. Por fim, lá apareceu trazendo uma malinha a tiracolo, vestindo calças brancas largas de linho e uma camisa cheia de flores amarelas e vermelhas, bem ao jeito e gosto africano. Os óculos escuros compunham a figura e davam o toque final. Etelvina não se conteve e começou a rir-se dele bem nas suas barbas, expressão embora fiel, talvez algo deslocada de um sentido real uma vez que o fantasma tinha muito pouca barba. Na verdade, despontavam-lhe nas faces apenas dois ou três pêlos mal semeados, o que a ninguém espantaria até porque onde é que já se viram fantasmas com barba?
Prosseguiram então viagem, passando a ponte Vasco da Gama a mais de 220 quilómetros por hora. Etelvina cantava com uma voz esganiçada as canções que o rádio ia debitando, com os hits mais recentes dos cantores de novela nacionais. Quanto ao escritor-fantasma, por trás dos seus óculos escuros seguia agarrado ao banco do BMW da autora, mais assustado do que um susto, todo ele pele de galinha e já a desfazer-se em rezas e promessas assim chegasse são e salvo ao destino. Transcorrida pouco mais de uma hora de viagem, sempre em alta cavalagem e grande gritaria a bordo, Etelvina e o fantasma chegaram à porta da Câmara Municipal, local marcado para encontro antes de seguirem até à residência. Tinham conseguido chegar a horas.
À sua espera estavam o presidente da Câmara e o seu vereador da Cultura, bem como os outros escritores. Etelvina, contudo, estranhou o seu número, pensou que seriam mais cinco, com ela seis, e a verdade é que estavam ali, para além do edil e do vereador, mais dez pessoas! «Dez, senhor presidente? Então não éramos só seis escritores participantes?» O presidente sorriu, pôs-lhe o braço sobre o ombro e apressou-se a esclarecê-la. A coisa era simples, é que todos os seus colegas escritores tinham também decidido participar na residência acompanhados dos seus escritores-fantasmas. Etelvina fez um grande ar de espanto mas lá acabou por sorrir, sentindo-se com isso muito melhor. Afinal, todos os grandes escritores têm os seus fantasmas. E nessa medida se calhar ela era mesmo uma grande escritora... Quem sabe, um dia não acabava mesmo por escrever poesia, essa tal arte maior da escrita reservada aos maiores entre os maiores.
Beijinhos aqui e beijinhos acolá, escritores e escritores-fantasmas cumprimentaram-se, alegrando-se pela experiência que tinham pela frente. Etelvina apresentou-se e apresentou o seu Zé, o seu querido fantasma. Curiosamente, o Zé já tinha tratado de se apresentar, estando agora em amena cavaqueira com os seus pares fantasmas, eles sim, afinal, os verdadeiros interessados na literatura e no programa a cumprir previamente definido pela autarquia conjuntamente com a biblioteca local, cuja directora entretanto também e juntara ao grupo. Um grupo alegre, jovial e colorido, sobretudo por via do garrido das corres das roupas dos escritores-fantasmas, que partiu em caravana até à tão sonhada residência, efectivamente, uma antiga casa apalaçada, situada no campo e agora transformada em moderno turismo rural.
Como eram doze, e não seis, os participantes do evento, metade dos quartos da «residência» ficaram por conta dos homens e mulheres das letras, para ser mais concreto por conta de cinco escritores homens, seis escritores-fantasmas também homens e... e apenas uma escritora, Etelvina Prazeres, que, dada a grandeza do seu sucesso literário, tivera direito a uma suite, a número 69. E quanto prazer e honra ela tinha nisso, confessaria depois ao presidente que já não a largava como cão a um osso, quanto prazer em ser a única representante feminina num evento de tamanha importância. Deste primeiro contacto dos escritores com o local onde passariam a residir nos dias seguintes pouco mais há a dizer senão dois pequenos apartes: primeiro, as muitas malas com que Etelvina encheu o seu quarto, mais parecendo que trouxera consigo a totalidade do seu guarda-roupa; depois, que logo, logo, mal ali chegados, o seu escritor-fantasma desaparecera. Nada de especial se passara, pouco depois já ele também se dirigia para o hall de entrada, vindo do bar e acompanhado dos seus pares fantasmas, onde já estivera a bebericar um Porto de Honra, seguido de quejandos alcalóides. Zé Salvador ostentava um sorriso na cara de grande satisfação, era a primeira vez que sentia o prazer destes encontros literários e estava disposto a retirar da experiência tudo o que pudesse. A comitiva seguiu então para um restaurante ali próximo onde inúmeras iguarias regionais os aguardavam.
Os escritores e os escritores-fantasmas comeram que nem presidentes. Bem, quase como presidentes, porque se esses fossem tomados à imagem do presidente da Câmara local, que enfardava como Etelvina nunca vira, a imagem cairia por terra. Acompanhar a voracidade do estômago do homem era tarefa impossível para qualquer mortal, mesmo para qualquer escritor ou escritor-fantasma esfaimado, como se mostrava, de resto, Zé Salvador, repetindo três vezes o prato principal, depois de comer umas entradinhas, e preparando agora o ataque à mesa das sobremesas em regime de self service. Caíram-lhe os olhos para um Pão de Rala, para uns Morgados e para um arroz doce divinal feito com leite de cabra. Satisfeito, mas não terminado, Zé ainda encontrou espaço para uma fatiazinha de Sericá, pondo termo à refeição com a ameixa de Elvas da praxe seguida da degustação de uma aguardentezinha da garrafeira particular do Chefe que tinha tanto de «pomada» como de «bomba»!
No fim do repasto, a directora da Biblioteca local levantou-se distribuindo aos escritores uma folha A4 com o programa da «1ª Residência de Escritores Abel Antero - 2007» – Abel Antero era o nome de um escritor local que assim a autarquia aproveitava para homenagear, depois de ter descerrado uma placa na casa onde ele nascera e de conceder o seu nome a uma rua da localidade. Em amena e alegre conversa, os escritores, todos eles, se apressaram a entregar as folhas aos seus escritores-fantasmas, continuando as provas vinícolas da região comandadas pelo senhor presidente. Em conversa com Etelvina, o senhor presidente confessou-lhe que só tinha lido alguns parágrafos do seu «extraordinário» livro, que ela não levasse a mal, mas é que ele tinha um não-sei-quê com a leitura, que quase nunca conseguia arrancar do primeiro parágrafo e que a última coisa que lera já nem se lembrava. Gostava, sim, do Tio Patinhas, que comprava desde criança. No entanto, ressalvava, tinha lá em casa um Lobo Antunes que a editora lhe mandara e que, quem sabe um dia, com a graça de Deus, conseguiria ler. Embora duvidasse de ter tempo para essas coisas, tão «atazanado» andava sempre com os problemas que os seus opositores lhe arranjavam na Câmara. Etelvina, de sua parte, confessou também que não achava grande piada ao Tio Patinhas e que preferia mesmo o Donald. E sobre esta divergência entraram os dois em prolífica discussão.
Batiam quase as três da tarde de um dia que se mostrava cheio de sol e calor, quando o presidente chama a empregada de mesa do restaurante dizendo-lhe para dizer ao Chefe para pôr a dolorosa na conta da Câmara. Depois, dirige-se aos escritores e aos escritores-fantasmas convidando-os a dar seguimento ao programa estabelecido pela directora da Biblioteca, no caso um encontro com o público para apresentação das obras respectivas. Chegando-se uns aos outros, os escritores-escritores, não os fantasmas, trocaram breves impressões e rapidíssimas conclusões que imediatamente trataram de transmitir ao presidente da Câmara por intermédio de Etelvina Prazeres fazendo uso do elevado capital de simpatia que esta nutria junto do edil. E que lhe comunicou aquela? Que os escritores achavam que estando um belo dia de sol, estando um calor que apenas convidava ao desfrute de um banho de piscina, estando, ainda para mais de barrigas cheias, seria bem melhor que pudessem ir para a residência e aí aproveitar o resto da tarde com uns mergulhos oferecendo aos corpos um belo bronzeado. Consideravam eles que tal hipótese bem melhor serviria os intentos primeiros de vir a conseguir que eles se inspirassem para a redacção de um qualquer texto original. O presidente ouviu, considerou, em voz baixa, que compreendia muito bem a situação, que até a ele lhe apetecia um banhito, quem sabe até os poderia acompanhar no gozo da piscina, e que teria apenas de dar uma palavrinha à directora da Biblioteca, que, adiantou entre dentes, é uma chata do piorio sempre com os livros e os escritores atrás dela!
Assim disse, assim fez e assim regressou para junto de Etelvina dizendo-lhe que estava tudo resolvido, que tinha tido uma excelente ideia e que só tinha de ir a casa buscar os calções de banho e a toalha, deixar o vereador da Cultura na Câmara, e que em menos de nada se lhe juntaria na residência, oferecendo-se, desde logo, para lhe pôr o creme nas costas, assim ela o permitisse, naturalmente, e não visse nisso incómodo de maior ou qualquer avanço de sua parte. «Senhor presidente, por quem é? Então ia eu achar tal coisa de uma pessoa tão distinta como o senhor?» E a ideia? A ideia do presidente? Ah, pois claro, esta: o edil lembrou-se e bem de «convidar» os escritores fantasma a fazerem as vezes dos escritores na dita sessão de apresentação de obras ao público local. Pois se não tinham eles enchido o papo, e de que maneira, essa haveria de ser a forma de pagarem o repasto. Sim, que isto de andar a escrevinhar livros não é trabalho que se veja. Ainda para mais escritores de segunda fila, escritores-fantasmas.
E todos se foram então às suas vidas e afazeres. Os escritores dirigiram-se a banhos para a residência, todos metidos no BMW de Etelvina, em busca de inspiração soalheira para as suas empreitadas literárias, no seu Mercedes o autarca levou consigo o vereador e a directora da biblioteca, enquanto que aos escritores-fantasmas foi-lhes indicado que aguardassem um pouco que no entretanto uma camioneta da Câmara os viria buscar para levá-los até à Biblioteca Municipal onde tratariam de entreter conversa com a audiência, dando a conhecer a vida e obra dos escritores que representavam. A coisa acabaria por correr mal de todo. A princípio os locais que ali se deslocaram na intenção de conversar com os seus escritores favoritos ainda desconfiaram de que lhes estavam a enfiar um grande barrete, mas depois da conversa engatar e fluir, com os escritores-fantasmas a falarem de literatura com algum conhecimento de causa, a verdade é que, no final, todos os presentes se convenceram de que aqueles escritores, sendo fantasmas, tinham muito mais a dizer e para dizer do que os verdadeiros escritores.
Entretanto, estirada ao sol junto à piscina, em biquini deveras poupado no tecido e com um elaborado cocktail que bebericava por uma palhinha, Etelvina encontrava-se no melhor dos mundos, rodeada pelos cinco escritores e pelo presidente de Câmara que, cheio de ciúmes, tratava de enxotar os escritores para longe, ao mesmo tempo que preparava os óleos com que trataria de ungir a sua autora predilecta. «É bom que desapareçam, senão ainda os obrigo a ir para a Biblioteca aturar aquela gente», disse o presidente a Etelvina que achou a piada óptima, respondendo, «ó senhor presidente, não é preciso tanto, olhe que isso era uma maldade! Afinal de contas só estávamos a trocar ideias acerca dos nossos escritores-fantasmas, que são como as empregadas lá em casa e assim... Seu maroto, tem a certeza de que esses óleos são para bronzeados ou para massagens?»
quinta-feira, 27 de dezembro de 2007
segunda-feira, 24 de dezembro de 2007
Outros Silêncios
«No silêncio há uma espécie de deslocação para a natureza.»
«Uma cidade que não valoriza o silêncio é uma cidade totalitária.»
«Muitas vezes no mundo contemporâneo o silêncio torna-se trágico, porque não é um silêncio, é mais um silenciamento.»
«Uma cidade que não valoriza o silêncio é uma cidade totalitária.»
«Muitas vezes no mundo contemporâneo o silêncio torna-se trágico, porque não é um silêncio, é mais um silenciamento.»
José Tolentino Mendonça, Câmara Clara, RTP2
sexta-feira, 21 de dezembro de 2007
Histórias Fulminantes 56
Deus fumava descontraidamente um cigarro quando se lembrou de utilizar a Terra como cinzeiro. Densas nuvens cinzentas perfilaram-se então no horizonte.
E agora para um momento poético!
gostava
mas não sou como o Torga
que a cada natal
tirava do saco da poesia
um menino jesus e um poema
sei apenas e cada vez mais
que o natal são as crianças
e as ofertas dos seus sorrisos
o natal quando penso nele
já não lá está
de modo que arrumo a secretária
desejo as boas festas no escritório
e saio para o trânsito das últimas compras
no shopping
enquanto aguardo pelo meu número de senha
para cortar o cabelo
tirando as medidas às barbas do pai-natal
dou de caras com o menino jesus
deitado ao baixo entre as notícias
de guerra e paz
lá onde o menino nasceu entre as palhinhas
de modo que não sou como o Torga
que a cada Natal seu poema
talvez porque como o David
sei também que a cada Natal
há o prenúncio do Natal que há-de vir
Natal primeiro
Natal derradeiro
que é como quem diz são favas contadas
mas tudo isto é poema
corte-se o bolo
mande-se tudo à fava
abram-se as prendas
distribua-se com parcimónia e gula
a alegria pelas crianças
mas não sou como o Torga
que a cada natal
tirava do saco da poesia
um menino jesus e um poema
sei apenas e cada vez mais
que o natal são as crianças
e as ofertas dos seus sorrisos
o natal quando penso nele
já não lá está
de modo que arrumo a secretária
desejo as boas festas no escritório
e saio para o trânsito das últimas compras
no shopping
enquanto aguardo pelo meu número de senha
para cortar o cabelo
tirando as medidas às barbas do pai-natal
dou de caras com o menino jesus
deitado ao baixo entre as notícias
de guerra e paz
lá onde o menino nasceu entre as palhinhas
de modo que não sou como o Torga
que a cada Natal seu poema
talvez porque como o David
sei também que a cada Natal
há o prenúncio do Natal que há-de vir
Natal primeiro
Natal derradeiro
que é como quem diz são favas contadas
mas tudo isto é poema
corte-se o bolo
mande-se tudo à fava
abram-se as prendas
distribua-se com parcimónia e gula
a alegria pelas crianças
A Demanda do Bravo Cavaleiro Dom Quixote - Capítulo XVI
XVI.
Uma simpática jovem respirando saúde, forma física, boas maneiras e Chanel. A doutora da Ideias Fantásticas. Dom Quixote convicto de que poderia ser uma mais-valia. A história da editora. A história surpreendente de Luisinha Ratita Cunha. Pitchi.
D. Quixote demorou quase duas horas para atravessar Lisboa desde Belém até à antiga Praça do Areeiro e, como se adivinha, chegou à porta da Ideias Fantásticas como uma autêntica pilha de nervos. Já não bastassem, uma vez mais, o trânsito infernal e o calor impiedoso, ali chegado um outro problema – embora não original nesta história, mas há-de o leitor convir que não é fácil pensar onde se arruma um equídeo no meio de uma cidade – se lhe colocou. Onde deixar o Rocinante? Pasto, ali à volta não havia e a editora só tinha lugares de garagem para o carro do Editor Geral, pelo que a única solução foi optar pelo estacionamento pago da EMEL. Contrafeito e resmungando de si para consigo (como também já vai sendo hábito), Dom Quixote lá tirou uma moeda de uma pequena sacola que trazia por dentro da armadura e dirigiu-se ao parquímetro. Colocada a moeda na ranhura, voltou com o ticket na mão para junto do seu cavalo. Rocinante, bem estacionado, recebeu então do seu dono o dito ticket que, preso entre os dentes, provaria a sua legalidade enquanto utente rodoviário.
Tocando à campainha com afinco quem o veio receber foi uma simpática jovem que respirava saúde, forma física, boas maneiras e Chanel. Simpática e despachada, embora mantendo uma certa distância de reserva para com Dom Quixote, cujo aspecto a perturbou e lhe causou uma indisfarçável ligeira repulsa, a menina apresentou-se, dizendo chamar-se Coco, e perguntou ao cavaleiro se tinha entrevista ou reunião marcada e, já agora, se possível, com quem.
Que não, respondeu-lhe Dom Quixote, mas que desejava falar com a editora da Ideias Fantásticas, pois tinha uma proposta a fazer-lhe, quisesse fazer o favor de o apresentar, Dom Quixote era o seu nome, caso não soubesse. Com certeza, respondeu-lhe a menina Coco, pedindo-lhe que aguardasse um pouco que ela ia ver se a doutora o podia receber. «A doutora?...», intrigou-se o nosso protagonista, pondo-se a pensar que o mundo editorial tinha mudado bastante nas últimas décadas. Antes, os livros eram ofício de meros e simples amantes da palavra, das ideias, hoje os livros parecem entregues à classe dos doutores, gente que vê nos livros meros objectos comercializáveis, se possível geradores de riqueza, se possível o mais rapidamente possível.
Estava nestes considerandos para consigo, quando voltou à sala de espera a menina Coco com um sorriso a meia haste, declaradamente a contragosto. Transmitiu-lhe então que tivera muita sorte, pois a doutora já tinha chegado, já tinha bebido o café da manhã, e, pasmasse, tinha encontrado um buraco na agenda hiperpreenchida. Dom Quixote levantou-se e seguiu então a menina por um corredor que levava a uma porta ao fundo. Entrando no gabinete da «doutora», Dom Quixote sorriu, cumprimentando a dita. Era uma senhora dos seus quarenta e muitos, toda sorrisos, batom e unha pintadas de um vermelho garrido. Pulseiras de ouro, colares reluzindo a condizer, toda ela, entre o negro e o creme, transpirava um vestir caro e refinado, de marca comprada na Avenida da Liberdade ou quiçá mesmo nas exuberantes avenidas parisienses. Visse a distinta passeando na rua e jamais Dom Quixote afirmaria estar perante uma editora de livros. Era tal qual como havia poucos minutos atrás reflectia; adeus aos homens mal vestidos, de aspecto intelectual e óculos de hastes grossas e lentes garrafais na cara, agora o mercado queria outro tipo de profissionais, transpirando (e até este termo pode aqui desadequar-se...) glamour e modernidade. Dom Quixote não via mal nenhum nisso, de resto. Por que raio, aliás, as pessoas que lidam com o livro devem aparentar-se com ratazanas mal vestidas e mal amanhadas? Importava, sem dúvida, era que fossem competentes, que tratassem os livros com carinho e amor, que amassem as palavras, o toque nas encadernações, o cheiro a tinta quando ainda acabados de chegar das gráficas. Que, acima de tudo, prezassem as ideias, as histórias, as boas histórias. E quem dizia que esta «doutora» não era assim?
Dom Quixote apressou-se a voltar à terra e a pôr de lado esses pensamentos, até porque, como lhe fizera transparecer a secretária da doutora, esta não teria muito tempo disponível em agenda. Apresentou-se, ao que ela respondeu ser isso escusado pois que o conhecia bem e a sua história dos últimos dias era conhecida de todo o público em geral, e passou a enumerar os motivos da sua presença ali. Contou, uma vez mais, a sua indignação pelos sucessos havidos com a história do livro de Etelvina, valeu-se, em jeito de apresentação curricular, dos inúmeros conseguimentos editoriais a que dera imagem, chegou, enfim, onde queria. Desejava saber se a Ideias Fantásticas – de que, confessava, ainda tinha ouvido falar muito pouco – não estaria aberta a contar com o seu trabalho, com os seus conhecimentos, com a sua experiência. E mais disse, fazendo uso de um termo técnico que vinha ouvindo nos últimos tempos, para assim dar um ar de quem estava por dentro do espírito dos tempos, tratando-se, por conseguinte, de um homem que, apesar da sua provecta idade, não deixava de acompanhar o avanço das ideias e dos tempos: «Estou convicto de que poderia ser uma mais-valia para a empresa.»
A doutora ouviu-o com grande tranquilidade e paz de espírito (Dom Quixote reparou que ela deveria ser uma praticante daquelas terapias ocidentais de nomes estranhos, que gozam de grande popularidade entre as classes altas urbanas nos dias de hoje, pois em cima da secretária estava um livro em cuja capa se via uma mulher pendurada de um tecto de cabeça para baixo, mas com grande ar de apaziguamento interior...) e, mal ele terminou, tomou a palavra. Tentou ser curta e directa e foi assim que se dirigiu ao nosso bravo cavaleiro em busca de emprego: «Meu querido amigo, compreendo bem a sua posição, a todos os títulos lastimáveis... Olhe, deixe-me primeiro apresentar-lhe a nossa editora, pois como disse e bem não conhece e isso apenas e certamente porque é muito recente no mercado. Vou-lhe contar: eu sou licenciada em Comunicação e Marketing e depois de concluído o meu curso, que adorei, cheguei a um mercado na área que estava super lotado. Pois então, o que é que eu fiz? Comprei um livro de auto-ajuda, para tentar chegar a uma decisão quanto à minha vida e que destino dar-lhe. Comecei a ler aquilo e depois de muito esforço de leitura achei que ali havia ideias a mais. Muito, muito palavreado, quando eu só queria uma dica! Foi então que ao olhar duas e três vezes para o livro que tinha comprado me dei conta que o Livro era um produto muito mal trabalhado entre nós, e foi então que tive uma ideia fantástica...»
Neste ponto do seu discurso, a doutora fez uma pequena pausa deliberadamente. Tudo para ver se o seu interlocutor tinha alcançado o ponto em que ela chegara à descoberta do nome da editora. «Ideia fantástica...» Como se Dom Quixote nem tugisse nem mugisse a tal respeito, ela continuou: «Prontos, foi aí! (a grafia de «prontos», com um s no final, transcrevemo-la tal qual a doutora – e muitos outros doutores hoje e dia – a empregou) Foi quando tive a ideia fantástica de me dedicar ao sector que resolvi adoptar a marca Ideias Fantásticas. Não, não foi uma coisa que tivesse feito de um dia para o outro, antes de a pôr em prática ainda fui trabalhar como Relações Públicas para uma multinacional ligada ao mundo das revistas e do Livro Oculto, e foi aí, durante essa experiência, que comecei, aos poucos e poucos, a percepcionar exactamente que rumo e que áreas de desenvolvimento queria imprimir ao sector do livro. Olhe, uma coisa vi logo, vi que os livros que o mercado oferecia eram produtos completamente desadequados das necessidades dos leitores e do público. Ai, as pessoas queriam outras coisas, coisas mais alegres, mais divertidas, histórias de vida, sobretudo, queriam histórias de vida, reais, palpáveis, tais como as delas, histórias em que se pudessem rever.»
Dom Quixote, ouvindo toda aquela lengalenga, ficando, nomeadamente, sem perceber qual a ligação entre o referido mundo das revistas e do Livro Oculto com a literatura, ia-se remexendo na sua cadeira e tornava-se-lhe cada vez mais penoso ali continuar, até porque já estava a ver para onde a conversa afunilava. Mas a doutora, que estava cheia de trabalho, lá continuava, contente por ter quem lhe ouvisse a história de vida, também ela, a sua, uma história de sucesso, uma história que até poderia ter lugar num livro, quem sabe... Depois de debitar as suas luminosas ideias a respeito do mercado livreiro, a doutora passou a concretizar, enumerando, alguns dos seus primeiros sucessos no domínio das vendas. «O nosso primeiro grande best seller foi a história surpreendente da Luisinha Ratita Cunha. Não sei se o Dom Quixote a conhece, talvez sim, a mais nova das irmãs Ratita Cunha, que casou com um médico e que depois veio a ser agredida fisicamente por ele indo parar ao hospital. Prontos, eu própria quando soube da história, fiquei escandalizada, e tomei a iniciativa, até como mulher e por uma questão de solidariedade, de ir falar com ela convencendo-a a pôr em livro toda a sua história». Foi um sucesso imediato. Para mais, conseguimos juntar às palavras fotos fantásticas de quando ela esteve no hospital e de logo a seguir, quando fez uma sessão fotográfica de estúdio – que nós patrocinámos – com um grande fotógrafo da praça. O público adorou e na verdade ficou um trabalho muito bonito. Porque nós conferimos dignidade àquelas imagens, ao contrário dos jornais, que tratam estas matérias com desprezo e sem qualidade gráfica nenhuma, nós fizemos um trabalho muito digno, a própria Luisinha adorou ver-se naquelas imagens e confessou-me mesmo que ver-se assim tão bela, apesar de cheia de nódoas negras e de um braço engessado, aquilo a ajudou a suportar as dores.»
Dom Quixote estava quase petrificado a ouvir tudo aquilo e mais ficou quando ouviu da boca da doutora os números de vendas, 50 mil exemplares esgotados numa semana. E calar-se com os seus best sellers? Qual quê!; enunciou depois a história do apresentador de futebol que relatou em livro as suas dificuldades e a discriminação de que foi alvo no seu meio profissional, na classe e no mundo desportivo, depois de ter confessado, numa edição em directo, que era gay, solidarizando-se assim com o caso de um futebolista que tinha sido expulso da sua equipa depois de apanhado nos balneários, antes de uma final europeia, com um dos bandeirinhas; passou de seguida à história de uma tia de Cascais que, participante outrora num concurso televisivo, viu a sua vida familiar ir por água abaixo quando o seu marido a trocou pela criada ucraniana e depois de ela o ter espremido até ao último cêntimo, após o que desapareceu com as pratas lá de casa, entrou numa crise depressiva que o levou, num momento de crise mais acentuado, a copular com o seu caniche. Pimpinita passou então por maus momentos e resolveu expurgar tudo num livro «maravilhoso, de uma entrega sublime», contando em «O Calvário de Pimpinita» (de subtítulo «Pitchi - O Prazer da Maldade») como, a partir de então, e depois de muitas consultas a médicos, a especialistas de dentro e de fora do país, tudo fez para conseguir restituir um pouco de alegria à vida do seu caniche que ficara «imensamente muito» traumatizado com a violação de que fora vítima, tanto mais que a sua única experiência sexual até àquele doloroso momento fora com ejaculações precoces com um cãozinho de pelúcia que ela lhe oferecera quando cumprira um ano de idade...
A história triste do caniche Pitchi fora demais para Dom Quixote. Farto que estava de ouvir as ideias fantásticas da doutora à sua frente, o cavaleiro levantou-se, pediu desculpa e afirmou que se retirava pois lhe parecia que, manifestamente, não se revia no tipo de histórias que achava deviam interessar à literatura e ao «negócio» dos livros. Pegando na sua lança e no elmo, Dom Quixote retirou-se então do gabinete da doutora e de mais um capítulo deste livro, uma vez mais sem definir linhas de rumo para a sua vida. A vida nos livros não é fácil, nem para os grandes cavaleiros da palavra. Teria de ir pregar para outra freguesia. Desistir é que não estava nos seus planos. Desistir só mesmo perante a morte, mas como esta ainda não desse mostras de o vir atazanar ou bater-lhe à porta, seguiria em frente, pelos seus ideais. De qualquer forma, no momento a verdade é que não dispunha de porta onde a morte pudesse vir bater-lhe... Tanto melhor para ele, tanto pior para ela.
Uma simpática jovem respirando saúde, forma física, boas maneiras e Chanel. A doutora da Ideias Fantásticas. Dom Quixote convicto de que poderia ser uma mais-valia. A história da editora. A história surpreendente de Luisinha Ratita Cunha. Pitchi.
D. Quixote demorou quase duas horas para atravessar Lisboa desde Belém até à antiga Praça do Areeiro e, como se adivinha, chegou à porta da Ideias Fantásticas como uma autêntica pilha de nervos. Já não bastassem, uma vez mais, o trânsito infernal e o calor impiedoso, ali chegado um outro problema – embora não original nesta história, mas há-de o leitor convir que não é fácil pensar onde se arruma um equídeo no meio de uma cidade – se lhe colocou. Onde deixar o Rocinante? Pasto, ali à volta não havia e a editora só tinha lugares de garagem para o carro do Editor Geral, pelo que a única solução foi optar pelo estacionamento pago da EMEL. Contrafeito e resmungando de si para consigo (como também já vai sendo hábito), Dom Quixote lá tirou uma moeda de uma pequena sacola que trazia por dentro da armadura e dirigiu-se ao parquímetro. Colocada a moeda na ranhura, voltou com o ticket na mão para junto do seu cavalo. Rocinante, bem estacionado, recebeu então do seu dono o dito ticket que, preso entre os dentes, provaria a sua legalidade enquanto utente rodoviário.
Tocando à campainha com afinco quem o veio receber foi uma simpática jovem que respirava saúde, forma física, boas maneiras e Chanel. Simpática e despachada, embora mantendo uma certa distância de reserva para com Dom Quixote, cujo aspecto a perturbou e lhe causou uma indisfarçável ligeira repulsa, a menina apresentou-se, dizendo chamar-se Coco, e perguntou ao cavaleiro se tinha entrevista ou reunião marcada e, já agora, se possível, com quem.
Que não, respondeu-lhe Dom Quixote, mas que desejava falar com a editora da Ideias Fantásticas, pois tinha uma proposta a fazer-lhe, quisesse fazer o favor de o apresentar, Dom Quixote era o seu nome, caso não soubesse. Com certeza, respondeu-lhe a menina Coco, pedindo-lhe que aguardasse um pouco que ela ia ver se a doutora o podia receber. «A doutora?...», intrigou-se o nosso protagonista, pondo-se a pensar que o mundo editorial tinha mudado bastante nas últimas décadas. Antes, os livros eram ofício de meros e simples amantes da palavra, das ideias, hoje os livros parecem entregues à classe dos doutores, gente que vê nos livros meros objectos comercializáveis, se possível geradores de riqueza, se possível o mais rapidamente possível.
Estava nestes considerandos para consigo, quando voltou à sala de espera a menina Coco com um sorriso a meia haste, declaradamente a contragosto. Transmitiu-lhe então que tivera muita sorte, pois a doutora já tinha chegado, já tinha bebido o café da manhã, e, pasmasse, tinha encontrado um buraco na agenda hiperpreenchida. Dom Quixote levantou-se e seguiu então a menina por um corredor que levava a uma porta ao fundo. Entrando no gabinete da «doutora», Dom Quixote sorriu, cumprimentando a dita. Era uma senhora dos seus quarenta e muitos, toda sorrisos, batom e unha pintadas de um vermelho garrido. Pulseiras de ouro, colares reluzindo a condizer, toda ela, entre o negro e o creme, transpirava um vestir caro e refinado, de marca comprada na Avenida da Liberdade ou quiçá mesmo nas exuberantes avenidas parisienses. Visse a distinta passeando na rua e jamais Dom Quixote afirmaria estar perante uma editora de livros. Era tal qual como havia poucos minutos atrás reflectia; adeus aos homens mal vestidos, de aspecto intelectual e óculos de hastes grossas e lentes garrafais na cara, agora o mercado queria outro tipo de profissionais, transpirando (e até este termo pode aqui desadequar-se...) glamour e modernidade. Dom Quixote não via mal nenhum nisso, de resto. Por que raio, aliás, as pessoas que lidam com o livro devem aparentar-se com ratazanas mal vestidas e mal amanhadas? Importava, sem dúvida, era que fossem competentes, que tratassem os livros com carinho e amor, que amassem as palavras, o toque nas encadernações, o cheiro a tinta quando ainda acabados de chegar das gráficas. Que, acima de tudo, prezassem as ideias, as histórias, as boas histórias. E quem dizia que esta «doutora» não era assim?
Dom Quixote apressou-se a voltar à terra e a pôr de lado esses pensamentos, até porque, como lhe fizera transparecer a secretária da doutora, esta não teria muito tempo disponível em agenda. Apresentou-se, ao que ela respondeu ser isso escusado pois que o conhecia bem e a sua história dos últimos dias era conhecida de todo o público em geral, e passou a enumerar os motivos da sua presença ali. Contou, uma vez mais, a sua indignação pelos sucessos havidos com a história do livro de Etelvina, valeu-se, em jeito de apresentação curricular, dos inúmeros conseguimentos editoriais a que dera imagem, chegou, enfim, onde queria. Desejava saber se a Ideias Fantásticas – de que, confessava, ainda tinha ouvido falar muito pouco – não estaria aberta a contar com o seu trabalho, com os seus conhecimentos, com a sua experiência. E mais disse, fazendo uso de um termo técnico que vinha ouvindo nos últimos tempos, para assim dar um ar de quem estava por dentro do espírito dos tempos, tratando-se, por conseguinte, de um homem que, apesar da sua provecta idade, não deixava de acompanhar o avanço das ideias e dos tempos: «Estou convicto de que poderia ser uma mais-valia para a empresa.»
A doutora ouviu-o com grande tranquilidade e paz de espírito (Dom Quixote reparou que ela deveria ser uma praticante daquelas terapias ocidentais de nomes estranhos, que gozam de grande popularidade entre as classes altas urbanas nos dias de hoje, pois em cima da secretária estava um livro em cuja capa se via uma mulher pendurada de um tecto de cabeça para baixo, mas com grande ar de apaziguamento interior...) e, mal ele terminou, tomou a palavra. Tentou ser curta e directa e foi assim que se dirigiu ao nosso bravo cavaleiro em busca de emprego: «Meu querido amigo, compreendo bem a sua posição, a todos os títulos lastimáveis... Olhe, deixe-me primeiro apresentar-lhe a nossa editora, pois como disse e bem não conhece e isso apenas e certamente porque é muito recente no mercado. Vou-lhe contar: eu sou licenciada em Comunicação e Marketing e depois de concluído o meu curso, que adorei, cheguei a um mercado na área que estava super lotado. Pois então, o que é que eu fiz? Comprei um livro de auto-ajuda, para tentar chegar a uma decisão quanto à minha vida e que destino dar-lhe. Comecei a ler aquilo e depois de muito esforço de leitura achei que ali havia ideias a mais. Muito, muito palavreado, quando eu só queria uma dica! Foi então que ao olhar duas e três vezes para o livro que tinha comprado me dei conta que o Livro era um produto muito mal trabalhado entre nós, e foi então que tive uma ideia fantástica...»
Neste ponto do seu discurso, a doutora fez uma pequena pausa deliberadamente. Tudo para ver se o seu interlocutor tinha alcançado o ponto em que ela chegara à descoberta do nome da editora. «Ideia fantástica...» Como se Dom Quixote nem tugisse nem mugisse a tal respeito, ela continuou: «Prontos, foi aí! (a grafia de «prontos», com um s no final, transcrevemo-la tal qual a doutora – e muitos outros doutores hoje e dia – a empregou) Foi quando tive a ideia fantástica de me dedicar ao sector que resolvi adoptar a marca Ideias Fantásticas. Não, não foi uma coisa que tivesse feito de um dia para o outro, antes de a pôr em prática ainda fui trabalhar como Relações Públicas para uma multinacional ligada ao mundo das revistas e do Livro Oculto, e foi aí, durante essa experiência, que comecei, aos poucos e poucos, a percepcionar exactamente que rumo e que áreas de desenvolvimento queria imprimir ao sector do livro. Olhe, uma coisa vi logo, vi que os livros que o mercado oferecia eram produtos completamente desadequados das necessidades dos leitores e do público. Ai, as pessoas queriam outras coisas, coisas mais alegres, mais divertidas, histórias de vida, sobretudo, queriam histórias de vida, reais, palpáveis, tais como as delas, histórias em que se pudessem rever.»
Dom Quixote, ouvindo toda aquela lengalenga, ficando, nomeadamente, sem perceber qual a ligação entre o referido mundo das revistas e do Livro Oculto com a literatura, ia-se remexendo na sua cadeira e tornava-se-lhe cada vez mais penoso ali continuar, até porque já estava a ver para onde a conversa afunilava. Mas a doutora, que estava cheia de trabalho, lá continuava, contente por ter quem lhe ouvisse a história de vida, também ela, a sua, uma história de sucesso, uma história que até poderia ter lugar num livro, quem sabe... Depois de debitar as suas luminosas ideias a respeito do mercado livreiro, a doutora passou a concretizar, enumerando, alguns dos seus primeiros sucessos no domínio das vendas. «O nosso primeiro grande best seller foi a história surpreendente da Luisinha Ratita Cunha. Não sei se o Dom Quixote a conhece, talvez sim, a mais nova das irmãs Ratita Cunha, que casou com um médico e que depois veio a ser agredida fisicamente por ele indo parar ao hospital. Prontos, eu própria quando soube da história, fiquei escandalizada, e tomei a iniciativa, até como mulher e por uma questão de solidariedade, de ir falar com ela convencendo-a a pôr em livro toda a sua história». Foi um sucesso imediato. Para mais, conseguimos juntar às palavras fotos fantásticas de quando ela esteve no hospital e de logo a seguir, quando fez uma sessão fotográfica de estúdio – que nós patrocinámos – com um grande fotógrafo da praça. O público adorou e na verdade ficou um trabalho muito bonito. Porque nós conferimos dignidade àquelas imagens, ao contrário dos jornais, que tratam estas matérias com desprezo e sem qualidade gráfica nenhuma, nós fizemos um trabalho muito digno, a própria Luisinha adorou ver-se naquelas imagens e confessou-me mesmo que ver-se assim tão bela, apesar de cheia de nódoas negras e de um braço engessado, aquilo a ajudou a suportar as dores.»
Dom Quixote estava quase petrificado a ouvir tudo aquilo e mais ficou quando ouviu da boca da doutora os números de vendas, 50 mil exemplares esgotados numa semana. E calar-se com os seus best sellers? Qual quê!; enunciou depois a história do apresentador de futebol que relatou em livro as suas dificuldades e a discriminação de que foi alvo no seu meio profissional, na classe e no mundo desportivo, depois de ter confessado, numa edição em directo, que era gay, solidarizando-se assim com o caso de um futebolista que tinha sido expulso da sua equipa depois de apanhado nos balneários, antes de uma final europeia, com um dos bandeirinhas; passou de seguida à história de uma tia de Cascais que, participante outrora num concurso televisivo, viu a sua vida familiar ir por água abaixo quando o seu marido a trocou pela criada ucraniana e depois de ela o ter espremido até ao último cêntimo, após o que desapareceu com as pratas lá de casa, entrou numa crise depressiva que o levou, num momento de crise mais acentuado, a copular com o seu caniche. Pimpinita passou então por maus momentos e resolveu expurgar tudo num livro «maravilhoso, de uma entrega sublime», contando em «O Calvário de Pimpinita» (de subtítulo «Pitchi - O Prazer da Maldade») como, a partir de então, e depois de muitas consultas a médicos, a especialistas de dentro e de fora do país, tudo fez para conseguir restituir um pouco de alegria à vida do seu caniche que ficara «imensamente muito» traumatizado com a violação de que fora vítima, tanto mais que a sua única experiência sexual até àquele doloroso momento fora com ejaculações precoces com um cãozinho de pelúcia que ela lhe oferecera quando cumprira um ano de idade...
A história triste do caniche Pitchi fora demais para Dom Quixote. Farto que estava de ouvir as ideias fantásticas da doutora à sua frente, o cavaleiro levantou-se, pediu desculpa e afirmou que se retirava pois lhe parecia que, manifestamente, não se revia no tipo de histórias que achava deviam interessar à literatura e ao «negócio» dos livros. Pegando na sua lança e no elmo, Dom Quixote retirou-se então do gabinete da doutora e de mais um capítulo deste livro, uma vez mais sem definir linhas de rumo para a sua vida. A vida nos livros não é fácil, nem para os grandes cavaleiros da palavra. Teria de ir pregar para outra freguesia. Desistir é que não estava nos seus planos. Desistir só mesmo perante a morte, mas como esta ainda não desse mostras de o vir atazanar ou bater-lhe à porta, seguiria em frente, pelos seus ideais. De qualquer forma, no momento a verdade é que não dispunha de porta onde a morte pudesse vir bater-lhe... Tanto melhor para ele, tanto pior para ela.
quinta-feira, 20 de dezembro de 2007
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