terça-feira, 18 de dezembro de 2007

A Demanda do Bravo Cavaleiro Dom Quixote - Capítulo XV

XV.

Besta?! Ai, eu sabia que me iam chamar nomes. Vendas zero! Uns artistas! Uns intelectuais do verbo. Tudo bem explicado ao Zé. Um prémio literário para escritores-fantasmas. Não teria o director passado ao lado de uma grande carreira no marketing?

«Fantasma, tenho a solução para os teus problemas», disse o director editorial da Dom Chicote a José Salvador, vulgo escritor-fantasma, quando este chegou cabisbaixo ao escritório para uma reunião na qual, julgava, o director lhe iria dar um grande puxão de orelhas. O que, para seu espanto, não aconteceu.
Quando o escritor-fantasma entrou o director pediu-lhe que fechasse a porta, dizendo-lhe apenas um «temos que conversar» que logo, logo arrepiou de alto a baixo o pobre Zé pretendente a escritor de sucesso, leia-se best seller, ou, no entendimento de Vi Prazeres, «besta célere» – pois foi isso que ela perguntou ao director quando aquele lhe disse que ela já o era; o quê? Best seller! E ela: «Besta?! Ai, eu sabia que me iam chamar nomes, mas isso eu não vou deixar que aconteça, eu não admito, eu vou falar com o meu advogado, ai vou, isso vou, eu sabia, director...» Aproximando-se do Zé, o director dá-lhe umas palmadinhas nas costas entretendo com ele a conversa que se reproduz:
– Então, aqui para nós, que ninguém nos ouve, gostavas de ser escritor, hã Zé, é isso?
– Pois, quer dizer, senhor director, eu até gostava...
– Sim, senhor, sim senhor, ora então mais um escritor... Sabes, Zé, eu até nem vejo mal nisso, é profissão que hoje em dia muita gente escolhe, a entrada para o ramo encontra-se hoje mais facilitada e tal... agora, agora é preciso é reunir umas certas condições que, para te ser sincero, Zé, eu não sei se tu reúnes...
– Mas... mas que condições, senhor director... o senhor director até sabe que eu escrevo umas coisitas bem arranhadas.
– Sim, sem dúvida, e sobretudo tens a noção de experiência feita de por onde não te deves meter...
– Está a falar dos hermetismos...
– Ora, ora, ora, estás a ver como tu chegas lá! Nem mais! Epá, ó Zé, essa escrita que praí anda, com tanta malta a escrever assim, transpira depressão e morbidez, não há pachorra ou mente sã que aguente aquilo. Um gajo começa a ler de boa saúde e é uma sorte se quando acabar o livro não tiver de se meter em consultas psiquiátricas. E depois, depois já se sabe, chegam ao mercado e nada, vendas zero! Uns artistas! Uns intelectuais do verbo.
– Pois, artista eu... eu não quero ser, quero ser é escritor. Quer dizer, gostava, tinha gosto assim... assim em também, naturalmente, vender muitos livros, aparecer nas capas dos jornais e das revistas da especialidade, dar entrevistas...
– ... pois, pois, pois, pois é Zézinho, mas é precisamente aí, é aí nesse ponto que a porca torce o rabo. Ouve o que te digo, ouve bem o que te digo enquanto teu amigo que anda há muitos anos nesta vida e tu sabes disso! Ó Zé, epá... como é que eu te hei-de dizer isto... é que, é que... prontos, o que se passa é que a tua imagem não é famosa, convenhamos, falta-te um palminho de cara, ninguém te conhece e hoje em dia, tu sabes disso, sabes que se não tiveres uma imagem morres... Epá, morres, morres antes de chegares às bancas! Não leves a mal, Zé, e desculpa a frontalidade que só a minha amizade por ti permite, mas eu acho que uma fotografia tua numa capa até era capaz de assustar o leitor. Ah, ah, ah... Tenho ou não tenho razão?
– Pois... pois... se calhar o senhor director tem razão...
– É claro que tenho razão Zé, se eu não tivesse razão não tinha chegado onde cheguei, não tínhamos neste momento em mãos uma au-to-ra como a Prazeres. Mas ouve cá, então tu não estás satisfeito por seres um escritor-fantasma? Eu não sei como é, mas acredito que isso até há-de ajudar no engate das miúdas, não? Tipo: «O que é que eu faço na vida? Sou fantasma, escritor-fantasma.» Bem, deve ser de as deixar com um nervoso miudinho... Sabes como elas gostam do pessoal que tem assim profissões misteriosas, ficam logo todas entusiasmadas... Isto já para não falar do resto, pá, não tens que andar nas sessões de autógrafos, não tens que te preocupar com encontros de escritores, olha, não tens de aturar editores com o corta aqui, corta acolá, aumenta este capítulo, corta aquele, e aqui esta personagem isto, aquela aquilo e não sei que mais... Vê as coisas pelo lado positivo. Ninguém te chateia, pá, os críticos quando decidem morder é nos outros... Um espectáculo de trabalho, colhes a parte boa e a má deixas para os outros! E digo-te mais, aqui uma coisa para ficar entre nós, a verdade verdadinha é que eu acho mesmo que a maior parte dos escritores afirmados e com reconhecimento público dariam tudo para serem escritores-fantasmas.
– Pois... o senhor director desculpe... provavelmente tem razão, toda a razão. É que eu julgava que ser conhecido até era muito bom e há tanta gente que hoje publica... e depois sempre podia concorrer aos prémios literários que até me podiam dar uns dinheirinhos extra...
– Ouve cá, ó Zé, se o teu problema é esse, eu arranjo uma ideia qualquer para te ajudar. Arranja-se qualquer coisa cá em casa, dentro de portas, uma coisa que te anime... deixa-me pensar. Mas olha, isso dos prémios até é capaz de me dar uma ideia. Já sei. Cria-se um prémio literário para escritores-fantasmas a que tu poderás concorrer enquanto tal. Pede-se um patrocínio à Câmara e depois, bem... depois já sabes como é... a malta envia os textos... e... e o júri... o júri a gente escolhe e depois escolhe. Na sombra, claro!... Pode ser que tu ganhes... Dá-se um jeitinho... pronto, ganhas umas massas! Isto é, umas massas para ti, outra parte... enfim, tu sabes, tudo dividido de forma justa... a cada um a justa retribuição do seu trabalho e das suas ideias.
– Então e se alguém...
– Se, se, se nada, Zé! Então tu achas que algum escritor -fantasma teu concorrente vai duvidar ou questionar a decisão? E mesmo que duvide nenhum certamente há-de querer dar a cara. É que se a derem é porque, na verdade, não são autênticos escritores fantasma, pois esses nunca se dão a conhecer! Estás mesmo a ver nas notícias: «Escritor-fantasma contesta decisão de concurso literário»! Impossível, não é? Tinha a carreira arruinada. Como é, mais animado? Estamos conversados para já?
– Sim, senhor director, vou começar a pensar num romance...
– Isso, isso, vai pensando. E vai também pensando no novo livro da Etelvina Prazeres. Já tenho umas ideias sobre a coisa, mas depois falamos sobre isso.
– Está bem, senhor director e desculpe aquilo que me deu ao telefone... passei-me um bocadinho, não foi?
– Foi, rapaz, passaste-te mas já passou. Agora, mãos ao trabalho, temos autores à espera de obras!
– Vou já escrever, senhor director, obrigado por tudo.
Pronto. A história do fantasma estava resolvida. Era mais uma chatice pensar o raio do concurso, mas se calhar, pela originalidade, a coisa ainda daria alguma publicidade de borla à editora. De resto, um dos editores trataria do assunto, ele, enquanto director, só teria de controlar o valor do prémio, dar o OK final à decisão do júri e pouco mais. O director começava a achar que o contacto com a Imagem Mais lhe começava a trazer proveitos e a dar ideias; quem sabe não tinha passado ao lado de uma brilhante carreira no marketing?

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Silence Music Box - El Perro del Mar - «God Knows (You gotta give to get)»

A Demanda do Bravo Cavaleiro Dom Quixote - Capítulo XIV

XIV.

Um falso suicídio falhado. Um sonho interrompido com uma bolada na cabeça. Ô quirido, sem essa, vai! Xô! Talking of Dom, I must say I rather prefer our good old Don DeLillo. As más intenções. Ao ataque! Ao ataque!



Depois da conversa fruste havida com o director editorial da Escrever Direito Por Linhas Tortas, Dom Quixote acabou o final da tarde junto às águas do Tejo, tendo cavalgado até aos jardins da Torre de Belém, onde, nos relvados, à sombra de uma árvore, acabou por descansar, uma vez que o desânimo tinha novamente caído sobre si. Não foi fácil ali chegar, uma vez que o cavaleiro desconhecia o caminho a tomar. Chegou-se ao pé do Centro Cultural de Belém e, sem demoras, arriscou-se a atravessar ali mesmo a estrada, bem como a linha de comboio. Foi uma aventura e só por um triz a façanha não tivera final aziago, já que o comboio que vinha de Algés por pouco não o desfez em tiras. Quem viu, contou aos jornais e logo estes, no dia seguinte, trataram de refazer o filme dos factos garantindo em primeira página que o triste cavaleiro tentara o suicídio e falhara. «Dom Quixote investe pela morte», «Quixote, a desistência de um bravo», «Dom Quixote tenta o ponto final», «Dom Quixote, m capítulo para esquecer», eis alguns dos títulos que surgiram e que fizeram as delícias do povo, que assim seguia as andanças do cavaleiro como se de uma novela se tratasse. Quais seriam as cenas dos próximos capítulos?
Muita gente de cá para lá, crianças a jogar futebol, cães a correr que nem doidos, homens e mulheres pedalando bicicletas de montanha, muitos turistas de várias nacionalidades chegando em bandos e em autocarros, um ou outro cigano tentando vender relógios, óculos escuros, uma ou outra cigana negociando o futuro lido nas mãos a troco de cinco euros, uma azáfama! Recostado sobre as raízes de uma das frondosas árvores que ali existem, Dom Quixote, que não ficara minimamente atrapalhado com a situação do comboio, na verdade mal deu por ele tal a surdez que o afectava, depôs a lança a seu lado, aconselhou ao Rocinante que pastasse um pouco de relva, baixou a viseira do elmo e preparou-se para uma siesta.
Estava precisamente a entrar no primeiro sonho, antevendo um quadro idílico onde a sua bela Dulcineia lhe aparecia, sorrindo e sublime, de manto alvo descaindo sobre os ombros, pousada sobre nuvens brancas, quando uma bolada lhe acerta em cheio na cabeça. Atazanado, acorda em sobressalto e desata a língua num rol de imprecações para um miúdo que se aproximara para ir buscar a bola, vociferando cobras e lagartos, numa asneirada daquelas, bem à espanhola, que, uma vez mais, nem convém aqui citar. Foi-se então dali, pegando nas rédeas do seu alazão, e dirigindo-se ao café ali próximo. Chegado ao pequeno carreiro de pedra que leva à porta do estabelecimento, tratou de aí prender a sua montada. Dirigiu-se ao interior e pôs-se na fila para ser atendido. Serviu-se disto e daquilo, do mais e do que lhe aprouve, e uma vez na caixa registadora, pede-lhe a menina quantia avultada, de euros para cima de vinte! Dom Quixote nem queria acreditar; «setenta cêntimos um café?» – perguntou com ar de quem se sentia roubado. «Ó quirido», volveu-lhe uma empregada brasileira sem lhe dar grande importância, «não vem que não tem pra cima de mim, ‘cê só ‘tá pagando aquilo qui qué comê. Se ‘cê está se sentindo roubado, vá falá com o patrão, agora nem pense em mi xingá. Sem essa, vai! Xô!» Dom Quixote ficou-se com aquela resposta pronta e na ponta língua (afiada, sim!), pegou na sua bandeja e foi sentar-se na esplanada exterior.
«Hi, excuse me, is that really you? Dom Quixote himself?», chega-se-lhe à beira uma americana que estava sentada numa mesa ao lado da dele. «Como diz?», responde-lhe o cavaleiro denotando falta de paciência para tanta interpelação. «Well, well, what about this? Or well you are, or you can only be nuts, wearing that… that steel thing when’s so dam hot! Uau, Portugal is full of surprises, don’t you think so, darling?», virando-se para o marido, um poste de quase dois metros de altura, branco como o leite e certamente campeão de sardas lá no seu bairro, mais parecendo um hambúrguer do que uma pessoa. «Well, honey, he might very well be who you think he is, but, as far as it concerns to me, talking of Dom, I must say I rather prefer our good old Don DeLillo», respondeu-lhe o «pronto a comer» mais indignando o cavaleiro de triste figura que assim, e para que não tivesse de dar resposta à altura, se viu na circunstância de ter de se levantar e ir «colher amoras ao jardim».
Aos poucos a luz ia-se diluindo. A tarde despedia-se e com ela a grande maioria daqueles que por ali desfrutavam da bonomia do tempo e da beleza do lugar. Dom Quixote pegou nas rédeas do seu cavalo e dirigiu-se para os relvados a escolher uma boa árvore sob a qual se recolher e deitar, pensando já na noite que ali teria de passar. E a noite veio. Dom Quixote contorceu-se e remexeu-se mil e uma vezes até encontrar posição minimamente confortável que lhe permitisse dormir em paz e não acordar na manhã seguinte com um qualquer torcicolo ou dor nas costas. Fechou os olhos e para se tentar alhear dos problemas que lhe entretinham a mente sem dar tréguas, tentou assobiar uma zarzuela. Depois, o pensamento voltou a esgueirar-se-lhe e deu com ele a pensar nos muitos anos que tinha passado na editora, nos bons e nos maus momentos, mas sobretudo nos bons, que os maus, felizmente, tinham sido muito poucos.
Por fim adormeceu. Tão cansado estava das suas deambulações pela frenética Lisboa, que nem deu pelos mosquitos que trataram de lhe sugar o sangue a noite inteira. Não deu sequer pelos flashes das máquinas fotográficas de alguns paparazzi portugueses que tentavam arranjar material para vender às revistas e aos jornais. Para seu conforto de alma, teve a sorte de ser novamente visitado pelo sonho que a maldita bolada do miúdo que se dizia ser o Ronaldo tinha interrompido. Agora, sem futebol à sua volta, o sonho, sim, seguia bom curso e concretizava-se num beijo demorado e apaixonado que Dulcineia oferecia aos lábios do velho cavaleiro. Foi isso já a madrugada se levantava e sem perceber nem como nem porquê Dom Quixote abriu os olhos e à sua frente só via o focinho do Rocinante que o lambia de bom grado como se lhe quisesse lavar a cara e fazer desaparecer as ramelas.
Meio estremunhado, ainda mal se tendo direito nas pernas bamboleantes, Dom Quixote tentou abrir bem os olhos mas era tamanha a brancura da luz que o sol já por ali derramava que o cavaleiro viu-se algo contundido e atordoado, tendo apenas tido tempo para vislumbrar à sua frente, e a poucos metros de distância, um grupo de pessoas que, não teve dúvidas, àquela hora ali tão cedo não podiam de certeza ter boas intenções quanto à sua figura. Abriam os braços em estranhos movimentos de contenção, levantam uma perna para aqui, outra para acolá, baixavam o dorso, voltavam a abrir os braços como se numa luta de karaté, não, não podia ser boa coisa o que se preparavam para fazer. Queriam, de certeza, roubá-lo, despojá-lo dos seus últimos euros, quem sabe, atentar contra a sua vida ou roubar-lhe o Rocinante. Sim, era isso, queriam o seu alazão, e daí que não fizessem qualquer barulho naquelas suas movimentações suspeitas. «Ah, mas não, se pensam que apanham este velho guerreiro, bem enganados estão, ainda têm que fazer muito mais do que esses gestos patéticos para me apanharem», pensou Dom Quixote ao mesmo tempo que agarrou na sua lança, ergueu-se a custo para a garupa do Rocinante e logo investiu contra o grupo, gritando: «Ao ataque! Ao ataque!»
O estrépito e a gritaria com que Dom Quixote se atirou sobre aquelas pobres almas, que mais não faziam do que apaziguar os seus espíritos, irmanando os seus gestos aos dos animais, tentando a simbiose perfeita entre o seu respirar e o brando rumorejar da Natureza, causou uma pequena revolução junto à Torre de Belém. Até os ciganos que já por ali cirandavam deram à sola, pondo-se a milhas e a salvo daquele inaudito cavaleiro que só podia ser do Apocalipse! Valeu que a intervenção rápida da GNR a cavalo pôs cobro à situação e acalmou os ânimos. Os agentes, já a par da situação e apercebendo-se de quem tinham pela frente, decidiram dar ao cavaleiro o devido desconto (não se sabe se por via da loucura que lhe reconheciam, se por pena dele e compreensão face à situação difícil em que se encontrava) e simplesmente mandaram-no ir à sua vida. Quanto aos iogas, até ficaram contentes pois a fuga que empreenderam deu-lhes a perceber (pelo menos assim concluíram do facto) que tinham encarnado na perfeição a destreza e rapidez das lebres.
Retomando a sua marcha pela cidade, os nervos refeitos e mais calmo, Dom Quixote predispôs-se a bater a nova porta editorial. Não podia dizer-se que o dia tivesse começado da melhor maneira, mas ele estava confiante em que a sorte mudaria. Antes, porém, havia que tratar da carcaça, isto é, do diabo da armadura que continuava a ranger por todos os lados numa chinfrineira de dar cabo dos ouvidos a qualquer um. Dom Quixote foi-se então até Algés, onde julgou encontrar uma oficina onde arranjasse quem lhe oleasse as juntas. Chegando à porta de uma, entrou pela garagem e foi um ver se te avias com o Rocinante a derrapar para trás e para diante nos óleos que se encontravam derramados no chão. Em cima da garupa, Dom Quixote tentava equilibrar-se mais parecendo que concorria num qualquer rodeo americano, daqueles em que os cowboys saem disparados de umas portinholas em cavalos bravos acabando, regra geral, e mais ou menos tempo passado, estirados no meio do chão poeirento, com sorte sem nenhum osso partido ou fracturado e com a cabeça inteira. Pois ali, o chão não era poeirento, era oleoso, de cimento e foi nele mesmo que às tantas Dom Quixote terminou com a sua montada também de cócoras a seu lado. A tropa de mecânicos que por ali andava ficou boquiaberta e quase todos, surpreendidos pela cena, deitaram a esconder-se atrás dos carros que reparavam, só depois se levantando vendo, também eles, quem era o ilustre e mediático cliente. E disso se apercebendo, acorreram depois a ajudar o pobre «ancião» (como um disse em surdina para outro) a levantar-se, ele que fazia um leve esgar de dor e apalpava o traseiro dorido pelo embate no chão duro.
Levantando-se com alguma dificuldade, a mão esquerda nas costas, a direita apoiando-se na lança, lá se recompôs o cavaleiro, desdenhando toda e qualquer ajuda dos mecânicos, a tempo de cumprimentar o chefe da oficina que à sua frente já se encontrava a querer saber que raio se passava e em que podia ele ajudar «o ilustre», como a ele se dirigiu. Se vinha a pensar em trocar o Rocinante por um carro em segunda mão? Se queria novas ferraduras para o animal? Se queria antes ver uma viatura mais jeitosa e poupadinha no consumo, que também se arranjavam? Dom Quixote agradeceu e disse que não, estranhando uma vez mais toda a gente parecer pensar que ele queria desfazer-se do seu velho companheiro. Não, não, que desejava apenas olear a maldita armadura que não se cansava de lhe azucrinar os ouvidos, bem como, cada vez mais, lhe dificultava os movimentos e a marcha, o que, em caso de contenda ou, em circunstâncias extremas, necessidade de fuga, podia revelar-se pormenor muito perigoso e nada despiciendo.
O mecânico chefe concordou e fez mesmo questão em fornecer de graça o óleo e a mão de obra para tal. Que era um prazer, que insistia, que não aceitava uma recusa, que a sua patroa até tinha lá em casa uma edição das suas aventuras e que havia de gostar muito de saber que ele lá tinha ido à oficina, quem sabe se calhar até mandava fazer uma placa a recordar a data, pois não era todos os dias que lhe entravam por ali adentro vips... «Não queremos, de modo nenhum, que o ilustre cavaleiro saia daqui enferrujado!», gracejou por fim, dando uma valente palmada no ombro do cavaleiro que foi projectado um passo em frente.
E assim ele próprio se pôs de volta de Dom Quixote, como damas em volta de uma noiva em prova de vestido, a despejar cuidadosamente uma gota de óleo aqui, outra acolá, à medida que, para aferir do bom andamento dos trabalhos, ia pedindo ao cavaleiro que levantasse o braço direito, depois o esquerdo, a perna, a outra, o calcanhar, etc. Terminada a operação de lubrificação, o chefe da oficina ainda perguntou a Dom Quixote se não gostaria que lhe fizessem um polimento geral, quem sabe, também, não estaria interessado «o ilustre cliente» numas rédeas mais modernas e desportivas para a sua montada? Coisas bonitas, Dom Quixote não imaginava quantas novidades já não existiam no mercado em matéria de «tunning equestre»... Agradecendo a ajuda e disponibilidade, embora recusando-as as ofertas finais por declarada falta de tempo, Dom Quixote agradeceu e despediu-se, levando o Rocinante pelas rédeas até ao exterior para só então seguir caminho até ao endereço da Ideias Fantásticas. Era a próxima editora a visitar. Quem sabe, a sua futura casa editorial.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Silence Music Box - Blanche - «Do You Trust Me?»

Pop Up The Eighties - Soft Cell - «Tainted Love»

E agora para um momento poético...

pelo andar da carruagem
(estranha gente vai nela)
não é difícil prever
que a poesia
será a próxima doença do século.

A Demanda do Bravo Cavaleiro Dom Quixote - Capítulo XIII

XIII.

Os tops não mentem. Os escritores urbano-light-pop e os ultra-light-desportivos. O Ensaio Sobre a Ceifeira. Vi o meu nome num livro e chorei. Um telefonema de uma câmara municipal. Confesso que Vi(vi). Os anseios do Salvador.



Os tops não deixavam mentir quem quisesse depreciar o talento de Vi Prazeres. Eram, de resto, puro cristal alcandorando-a a primeiro lugar nas tabelas de vendas. Etelvina, agora simplesmente Vi, continuava no topo das preferências dos leitores portugueses. Crise? Qual crise? De leitura? É como se vê? Os números, uma vez mais, falavam por si, galopando semana após semana. Tudo corria sobre rodas e numa grande lufa-lufa. Vi era um fenómeno, um best seller que envergonharia os escritores candidatos ao Nobel, que deixaria a pensar na vida até os escritores best sellers que a tinham antecedido e cujos títulos se arrastavam agora em lugares mais modestos nas tabelas de vendas. A coisa chegou ao ponto de num programa televisivo uma escritora light ter acusado a escrita de Vi de ser ultra-light e de não ter o mínimo de exigências estilísticas. Um crítico dirimiu mais tarde o assunto num artigo de jornal, separando as águas e considerando a primeira como fazendo parte dos escritores «urbano-light-pop», e Vi relegando-a para o lote dos «ultra-light-desportivos».
Verdade, verdadinha é que poucos títulos rivalizavam com o seu, só um podendo alcandorar-se a título de concorrente. Chamava-se «Ensaio Sobre a Ceifeira» e era de um autor galardoado cujos livros, fortemente politizados e críticos, suscitavam por regra grande polémica e brado. Quem andava também nas nuvens de contentamento era a editora, a também rebaptizada Dom Chicote, que esfregava as mãos à chegada de cada reporting de vendas. A administração chamara mesmo ao andar de cima da editora, onde tinha escritório, o director editorial para lhe dar os parabéns. Este agradeceu e deixou em cima da mesa a possibilidade de se retomar a política de prémios por objectivos atingidos...
Quanto a Vi, quando o director editorial a voltou a ver foi para acertarem datas e agenda quanto a novas iniciativas promocionais, de acordo já com o estipulado e sugerido pela equipa da Imagem Mais. Também já instruída pelas respectivas profissionais, no modo de aparecer em público, Vi chegou ao gabinete do director editorial com um livro debaixo do braço, o que muito o espantou, pois não lhe constava que ele gostasse de leitura. «Ora, ora, cara autora, como está? Então, o que andamos a ler? Não me diga que é o seu próximo livro...?», gracejou. «Ah, não, ainda não, é só um livro que vinha com uma revista que me entrevistou. Como as meninas do marketing me disseram para ter sempre um livro comigo, porque acham que isso é uma imagem de marca de um escritor, eu achei por bem trazer este. Acho estranho é não ter nada escrito... Só diz na capa “Livro em Branco”!!! Não percebo, mas olhe, sempre dá para o efeito e sempre posso rabiscar uma ideia ou outra.» O director achou que sim, que estava muito bem, que era óptimo para a sua imagem e passou ao que ali a trazia, notando também que Vi já não se fazia acompanhar do seu séquito de capangas protectores – como ela explicou, as meninas do marketing tinham-lhe dito que um bastava e bem disfarçado, de preferência, pois ter tantos homens de preto à sua volta criava um fosso entre si e o público, o que «não se desejava, pois não, logo agora que a sua carreira mal estava a começar?»
Sessões em escolas, «sem ter de ir ao quadro», sessões em livrarias, «só para autografar», uma homenagem de um clube desportivo que tinha um leão na insígnia, um convite para escrever um conto para uma revista do coração, um convite para uma palestra subordinada ao tema da «Escrita Delirante», eram muitas e diversificadas as propostas que o director editorial tinha para Vi. Antes, antes deveria começar por assinar algumas T-Shirts com a sua fotografia estampada que seriam ofertadas num concurso literário ao qual a Dom Chicote dera o nome «Vi o meu nome num livro e chorei». A própria Vi, ao saber da novidade, choramingou timidamente, ao que o director editorial lhe facultou um lencinho de papel. «Ai, minha querida autora, se é para chorar, chore tudo agora que ainda não lhe disse o melhor. Ouça, ouça bem, recebemos um telefonema de uma Câmara Municipal... querem que você se desloque à cidade para que aí participe numa residência de escritores com vista à elaboração de um livro de contos sobre a experiência. Hã? Que tal?» Vi ficou algo perturbada com a notícia, pois ainda não se acostumara àquelas vidas de escritores. «Ai, confesso-lhe, nunca pensei que ser escritor fosse tão extenuante. E em que hotel é que vou ficar? Sabe quantas malas posso levar? E o meu escritor-fantasma, vai comigo para escrever o conto?»
O director editorial disse-lhe que não, que daquela vez não porque senão o fantasma dar-se-ia a conhecer e deixaria de o ser, pelo que teria de ser ela a descartar uma qualquer historieta que eles de certeza compravam a coisa, comprariam tudo tal era o sucesso do seu nome no mundo das letras. Vendo que Vi se assustara com a ideia de ter de engendrar e, pior, escrever um conto, o director editorial pediu-lhe que se acalmasse, dizendo-lhe que tinha a certeza de que ela saberia estar à altura do problema. Ela, ao contrário, dizia-lhe, «olhe que não, olhe que não, ai, como é que vai ser? Mas... e o escritor-fantasma, ele não podia ir fazendo-se passar por meu acompanhante?» O director disse que isso estava fora de questão, pois não era líquido que quem quer que fosse de bom senso e um palmo de testa acreditasse que um rapaz tão deslavado pudesse ser o amante, isto é, o companheiro de Vi. Isto dizendo e observando que a tremedeira não lhe passava, passou a um outro assunto que sabia iria encantar a sua autora e acalmá-la. Disse-lhe que era um convite algo sui generis – ela perguntou o que era isso dos «Genesis» serem para ali chamados ao assunto, que gostava mais era do Robbie Williams –, e concretizou: «Uma revista masculina de grande circulação quer fazer uma sessão fotográfica consigo. Uma coisa simples, querem-na em lingerie às riscas azuis e brancas, em cima de um cavalo e com um chicote na mão. Fantástico, não? Não sei se está a alcançar o impacto promocional da ideia? Não está contente? Tenho de dar a mão à palmatória, o preço que a Imagem Mais nos tem cobrado tem valido bem a pena, aquelas meninas têm jeito para o métier, não acha?» Vi, entusiasmada, respondeu apenas: «Ai, senhor director, eu meter, não me meto com ninguém, você sabe que eu não gosto de falar da vida dos outros. Deus me livre, já tenho problemas que sobrem na minha santa vida!»
«E o novo livro? Tem pensado no assunto?», continuou o animado director, sempre com mais e mais ideias a jorrarem-lhe da cabeça. «Pois, pois, temos que pensar nisso, minha querida, temos que pensar nisso não tarda. Sabe que isto da edição, às vezes funciona por modas, há que aproveitar quando caímos em sorte nas graças do público. Olhe, se quer que lhe diga eu já não tenho dormido a pensar noutra coisa e... e isto fica em sigilo, fica aqui entre nós, já pensei num título!», sussurrou-lhe esta última parte ao ouvido. Ao que ela, nos mesmos afagos de voz quase sumida, lhe pergunta chegando-se a ele. «Confesso Que Vivi», disse-lhe ele logo abrindo um grande sorriso, assim como quem tivesse encontrado nova pólvora. E explicou-lhe, sempre em tom menor: «Assim, “Confesso Que Vivi”, não sei se está a compreender, com o segundo vi entre parênteses, o que dá uma dupla leitura, hã, está a ver? Eu escrevo, é melhor, olhe: Confesso Que Vi(vi). Hã?... Diga lá se não tem aqui quem pense por si, quem zele pelos seus interesses, pelo seu futuro? Dê cá um beijinho, depois a P’ala liga-lhe a dizer horários e agenda para tudo o que conversámos.» E assim se despediu de Vi, tanto mais que o seu telemóvel tinha começado a tocar. Vi saiu então do escritório algo baralhada com as perspectivas tão precoces de um novo livro, de uma agenda tão completa e tão exigente, sobretudo na parte do conto...
«Estou? Sim... sim, sim. Quem fala?», o director atendeu o telemóvel que não se calava com a sua musiquinha polifónica e estridente de um êxito recente da Britney Spears, de quem também gostava para além dos fados. «Quem?», insistiu. E do outro lado da linha: «O Fantasma, sou eu, o Fantasma!» «Epá, Salvador, és tu? Que susto já me estavas a pregar com essa vozinha de... de fantasma, justamente! Epá, onde é que tu andas? Agora que te ouço é que me dou conta que desapareceste nos últimos dias! Têm-me dito que não tens posto cá os coiratos! A malta precisa de ti aqui, não é a bronzear o corpinho. Ouve lá, agora que há trabalhinho de sobra, com o sucesso da Vi e dos outros novos autores que temos em carteira, agora é que tu desapareces e te pões a milhas? Salvador, deixa-te de brincadeiras, onde é que tu...», dizia o director quando o Fantasma o interrompe: «Mais calminha, director, e tento nas palavras. Mais: o Salvador já não existe, morreu, kaput! Agora nasceu o Fantasma, o outro, o Salvador da pátria, cansou-se. Cansou-se de andar a trabalhar para o sucesso dos outros, para que os outros vendam livros que não escreveram, para que sejam eles, e não o Fantasma, e não eu, a aparecer nas revistas e nos jornais, nas televisões até. Por isso, director, calma nas palavras.»
Quando o director, embasbacado, tentou dizer-lhe de novo qualquer coisa, logo ele o interrompeu: «Schhhh... Quem fala sou eu, agora quem fala sou eu. Ouça bem, para começar quero dizer-lhe que se acabaram os livros dos outros escritos por mim. Em segundo lugar, considere-me como o seu novo autor... Sim, pode dizê-lo se quiser, um novo escritor nasceu. José Fantasma passa agora a ser o meu nome de guerra, o nome que assinarei enquanto autor. Tenho coisas na gaveta, aquilo que sempre quis escrever e não pude mostrar...» E a muito custo, lá conseguiu o director contrapor, elevando a voz: «O quê? Mas, ó Zé, tu endoideceste? Eu devia ter reparado, andavas demasiado branco, aquilo não podia ser só fantasmagoria... Era certamente qualquer parafuso que se te tinha soltado aí dentro da cabecinha, não? Ouve lá, ó Zé, epá, então tu com esse aspecto de cadáver queres ser um best seller? Onde é que tu tens um palminho de cara para seres autor? Tu não vês que um autor hoje em dia tem de ter muito mais para dar do que os seus livros? Tem de ter uma figura, boa apresentação, uma história para contar, algo a dizer que interesse às massas? Ou tu, por acaso, és vedeta de televisão? Epá, ó Zé, vem para o escritório que a gente conversa com calma, tu podes continuar a escrever, não há dúvidas que sabes o que é a escrita, epá, tudo bem, o.k., mas daí a dares o salto para as capas vai um bocado, não achas?»
O Fantasma, que apesar do seu aspecto algo assustador tinha uma alma frágil e espírito facilmente maleável, aquilo ouvindo desatou num pranto no outro lado da linha e acabou por desligar em soluços. O director, ainda meio embasbacado com a conversa, deixou-se cair no seu cadeirão, levou às mãos à cabeça e suspirou. Só me faltava esta, um fantasma a querer assustar-me! «Olha, e vai daí se calhar até era uma boa ideia promocional, lançar um livro do escritor-fantasma... Não, só se fosse o escritor-fantasma da casa de algum dirigente desportivo ou de alguma vedeta do jet set», pensou com os seus botões que desapertou junto ao colarinho para melhor respirar.

Silence, please

Enternecedora, a cara comovida do nosso primeiro quando a música ecoava pelos Jerónimos e se derramavam aplausos pelas naves do mosteiro... Que bela festa de amigos... E o povo, onde estava o povo que se queria e diz querer parte da festa?... retido pelas autoridades policiais. E onde se viram manifestações de regozijo pelo tratado?... ou fui só eu que não vi?... E o que vai mudar na nossa vidinha quando se diz que este é o «tratado possível»?... o «possível» basta-nos?... e a promessa, nosso primeiro, a promessa de um referendo? pois, pois é, é melhor esquecer... coisas de campanha a que ninguém deve ligar...

Histórias Fulminantes 55

O Senhor K. escreveu: O problema maior do Congresso da Paz foi que alguns dos seus participantes em vez de levarem consigo pombas da paz levaram bombas da paz.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Silence Music News - Sons & Daughters

Os escoceses Sons & Daughters, de Glasgow, que acabam de lançar o muito recomendável «The Gift», vão estar em concerto no Porto, para um concerto no Sá da Bandeira. Será já este sábado, e sentir-me-ia com sorte se por lá pudesse passar.

Silence Music News - Bauhaus

E para Março está guardada a melhor surpresa. Dia 3, lançamento do novo álbum dos lendários Bauhaus, o primeiro desde 1983, aquando da saída de «Burning From the Inside»! «Go Away White» é o título do disco, foi gravado em 18 dias em Ojai, Califórnia, e reúne os membros originais do projecto, Peter Murphy, Daniel J, Daniel Ash e Kevin Haskins.

Silence Cinema News

O Festival do Minuto realizado no Brasil premiou com o 1º Prémio para Melhor filme e também o 1º prémio para melhor filme de telemóvel, a peça realizada por Rui Avelans Coelho, intitulada Footmobile, gravada integralmente num telemóvel de última geração onde competiu com filmes gravados em câmaras de alta definição. O Festival do Minuto realizado a 6 de Dezembro, no Rio de Janeiro seleccionou, entre os 900 trabalhos recebidos, os 50 vídeos que mais se destacaram nesta edição. O filme Footmobile transforma a câmara (telemóvel) num personagem da própria acção, retirando-lhe a carga de passividade geralmente associada a uma câmara estática. O filme pode ser visionado através do site: http://festivaldominuto.oi.com.br/site/video.php?id=1404

Silence Music News - Joe Jackson


Boa notícia. No final de Janeiro o excelente Joe Jackson lança finalmente novo álbum, trata-se de «Rain», com o selo da Rykodisc, o primeiro em quatro anos. O disco inclui ainda um DVD dirigido e produzido por Julie Gardner, que com ele trabalhou nos últimos dois álbuns. O DVD contém imagens de concertos ao vivo, cenas de bastidores e uma entrevista televisiva concedida ao programa musical alemão «Rockpalast».

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Cine-Silêncio - Berlin Alexanderplatz, R.W. Fassbinder

Pai Natal, se andares por aí...

In Silence Progress - Francisco Laranjo



Francisco Laranjo
«Da Matéria», Pintura
Galeria São Mamede, Lisboa
R. da Escola Politécnica, 167, Lisboa
Tel. 21 397 32 55
2ª a 6ª, 10h-20h00/ sábado, 11h-19h00
Até 15 de Janeiro

De silêncio, cor, musicalidade e mistério se fazem as novas pinturas de Francisco Laranjo. Convite a espreitar um universo inaugural de emotivo e feliz recorte cromático.

Histórias Fulminantes 54

A teoria do Senhor K. era de cortar à faca os nervos da velha guarda de cientistas. Dizia o Senhor K. que o mundo começou a colapsar quando Deus começou a tricotar uma camisola de lã e a única linha que encontrou para tal foi a do horizonte. Usar o fio da navalha seria demasiado perigoso para quem, como Ele, tinha ainda pouca prática na costura.

Silence Music Box - Ungdomskulen - Batman

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

A Demanda do Bravo Cavaleiro Dom Quixote - Capítulo XII

XII.

Si, si, ai que tenelos en el sitio! Dom Quixote em Belém e Rocinante a jeito de montar uma égua jeitosa da banda a cavalo da GNR. A Escrever Direito por Linhas Tortas. Com a faca e o queijo da edição na mão.



Ninguém muda de vida, de hábitos, de rotinas como quem muda de camisola. Os anos criam habituação, um conforto que se instala na alma e nos dias. Se bem que se estivesse no tempo em que mudar de emprego é considerado algo muito positivo, significando ambição e sede de subir sempre mais alto (contra todos os princípios de Peter, se preciso for, e até mesmo contra toda a falta de razoabilidade), ao contrário do que antes acontecia, a verdade é que Dom Quixote era homem que raciocinava e pensava em moldes antigos. Achava ele que a fidelidade a um projecto era uma virtude, que a criação de laços profundos do trabalhador com a empresa só poderia resultar em benefícios para ambos. Para a empresa que, desde que mantivesse o empregado motivado, fosse por via de um salário justo, fosse por via da angariação de novos negócios e novos projectos, veria os seus objectivos alcançados, sabendo de antemão com o que poderia contar, e para o trabalhador que não teria, a todo o momento, a pairar-lhe por cima da cabeça a ameaça do cutelo do desemprego e que, naturalmente, tendo salário e gostando do seu trabalho, suaria a camisola, como se diz, para atingir as metas propostas. Dom Quixote era, por conseguinte, um homem antiquado.
Por tudo isso, deambulava ele contristado pelas ruas de Lisboa, seguindo rumo a uma editora, cuja morada tinha tirado de um livro que folheara numa livraria onde havia estado. Por pouco tempo ali estivera, a ver um e outro livro, mas num completo sufoco com as pessoas sempre de olho nele, algumas mesmo vindo falar-lhe, mostrando-lhe a sua simpatia, oferecendo-lhe a sua solidariedade, confiando-lhe que a sua atitude fora muito digna e que nos dias de hoje eram já muito poucos os que tinham coragem para a tomar. «É preciso impor a moralidade neste pântano em que hoje vivemos à míngua de valores, a reboque dos interesses comerciais que tudo corroem e minam!», disse-lhe, apontando o dedo indicador da mão para o ar, um velhote de sobretudo cinzento caindo sobre a marreca. «Si, si, ai que tenelos en el sítio!», confirmou uma velhinha, tentando abraçá-lo e beijá-lo.
O Rocinante arfava, esquivando-se também ele aos muitos curiosos que agora queriam tirar fotografias a seu lado. Já com o amo na garupa, deitou a galope a caminho de Belém, onde se encontrava a sede da editora que Dom Quixote iria visitar. Seguindo junto ao rio, cavalo e cavaleiro por diversas vezes se viram na contingência de serem atropelados, de modo que, achando que o melhor modo de acautelar o dano era fugir à ameaça, se puseram numa correria frenética, passando eles a ultrapassar os automóveis num rally serpenteante. Às tantas, de tão disparados que iam, não deram por ela e ultrapassaram o limite de velocidade que os recentes radares ali colocados anunciavam. Consequentemente, mais adiante, a pouco mais de mil metros, foi com estupefacção que uma brigada da GNR mandou parar a montada. Uma vez mais às voltas com a lei, Dom Quixote não se escapou a uma prelecção moralista sobre a convivência na estrada e a uma «multinha» que um simpático agente lhe rubricou, mais lhe adiantando que não lhe proibia o prosseguimento da viagem porque era a sua primeira contravenção ao código e porque, sendo ele a figura pública que era, acreditaria na sua palavra de honra em como, daí por diante, teria cuidados na condução. Dava-lha? A palavra? «Sim, sim», pronunciou Dom Quixote querendo ver-se livre de mais este compasso de espera.
Por fim, Dom Quixote chegou a Belém, de novo agastado e muito farto da cidade. Deixou a 24 de Julho, virou à direita e entrou pelos jardins fronteiros ao Palácio Presidencial. A editora ficava ali por perto, só teria de perguntar a alguém. Estranhamente os jardins estavam cheios de gente que, numa espécie de cordão humano, se aglutinava olhando para a casa do senhor Presidente da República. Aproximando-se, Dom Quixote apercebeu-se de que se tratava de um render da Guarda. E logo, logo sonaram os acordes da banda a cavalo que se aproximava toda engalanada a preceito. Vá lá saber-se porque, se por via do sol excessivo nas crinas, se por via de uma bela égua que viu passar-lhe diante dos olhos, o Rocinante põe-se em pulgas e dispara na direcção da coluna equestre com Dom Quixote aos solavancos e incapaz de lhe pôr freio. A agitação foi grande, a banda desconcentrou-se e o aplauso foi geral quando o Rocinante se põe a jeito de montar a dita égua supracitada.
Mais tarde, aliviado das vontades e fortemente reprimido por Dom Quixote, lá acabou o cavaleiro da triste figura (sendo que triste figura fora a que Rocinante fizera) por chegar à morada pretendida. Ficava numa das ruelas que subia rumo a Monsanto, num primeiro piso modesto que, de resto, se coadunava com o percurso ainda em crescendo de afirmação no mercado editorial. A editora chamava-se Escrever Direito por Linhas Tortas e Dom Quixote tocou à campainha, deixando Rocinante lá em baixo, preso a uma árvore.
Tocou, tocou, voltou a tocar até que mais uma menina de carinha laroca lhe abriu a porta. Dom Quixote começava a ver que o mundo editorial estava cheio de meninas de cara bonita, o que talvez pronunciasse o divórcio da literatura com aquelas figuras cinzentonas com ar pesado, cheiro bafiento e óculos com lentes fundo de garrafa. «Dom Quixote, menina, venho falar com o director», anunciou-se o cavaleiro levantando a viseira do elmo. A menina, mal abriu a porta e se deparou com o figurão, assustou-se e deixou escapar um gritinho nervoso. Depois estranhou e fez cara de desconhecimento com o nome de quem ali se apresentava. «Dom quê? Da parte de quem? Qual é a empresa? É cobranças ou vem entregar encomenda?» O Dom Quixote logo se encheu de calores e volveu-lhe: «Quixote, menina, Quixote, de La Mancha, Cervantes, Cervantes, nunca ouviu falar? Nunca leu? Que mancha no seu currículo, que nódoa! Apresente-me apenas como Dom Quixote, Dom Qui-xo-te! Quer que escreva?» A menina ficou que nem varas verdes, fez o que o cavaleiro lhe ordenava e mais tarde, ao almoço, queixar-se-ia a uma colega da brutalidade do homem, que não sabia por que raio havia ela de ter lido não sabia que mancha de um tal Servente ou trolha, ela sabia lá, só sabia é que não estava para aguentar gente como aquela e que havia de se queixar ao director, que o que lhe pagavam não pagava tamanhas injúrias, e que se não houvesse medidas que se punha dali a andar era certinho, certinho.
À informação de que tinha na recepção Dom Quixote, o director editorial da Escrever Direito por Linhas Tortas levantou-se e predispôs-se a vir buscá-lo em pessoa. Que fizesse o favor, que entrasse, entrasse, estivesse como em sua casa, que muito gosto tinham em receber tão ilustre figura e que sim, já estavam ao corrente do sucedido, que vinha tudo nos jornais e não havia como passar ao lado do caso. O director só não percebera muito bem era o porquê da atitude de Dom Quixote e talvez ele pudesse explicar-lho, faria o obséquio. Dom Quixote acomodou-se na cadeira em frente à secretária do director, o qual, antes de mais conversa e de ouvir as explicações e os porquês da visita de Dom Quixote pelo próprio, pediu pelo telefone dois cafezitos à menina da recepção.
Dom Quixote não estava de todo acostumado àquelas situações. Jamais pensou sequer que um dia teria de enfrentar semelhante situação, sempre desconfortável, sempre desequilibrada: de um lado, um editor ou director editorial todo-poderoso, com a faca e o queijo da edição na mão; e do outro, alguém numa posição algo inferiorizada de ter de sugerir ao outro, nas entrelinhas do discurso, os seus préstimos, pôr-lhe à disposição o seu engenho e saber. Em suma, pedir emprego. Porque era disso mesmo que se tratava. Dom Quixote estava desempregado e necessitava urgentemente de encontrar quem lhe desse trabalho para sustento, que um homem, por mais que seja meramente ilustrativo ou personagem literária, tem sempre os seus gastos, sejam para gozo da alma, dos sentidos ou do corpo, que não fosse o corpo do seu Rocinante, que tinha de se alimentar e o feno ao preço dos dias de hoje não se mostrava abaixo do custo do litro do gasóleo. Ora, como não desejava inscrever-se em Centro de Emprego, o que provavelmente nem conseguiria, pois não lhe constava que alguma vez em seu nome tivessem efectuado quaisquer descontos para o fisco, e como se achava ainda em pleno vigor das suas capacidades intelectuais, Quixote ali estava, pelejando o seu futuro, «sem vergonhas de assumir o seu momentâneo estado de necessidade».
O director editorial, um rapaz jovem, vestindo fato e gravata, ouviu com atenção o cavaleiro de La Mancha. Quando aquele terminou o seu discurso, e tendo ficado bem claro aquilo que pretendia, foi algo a custo que o director abordou a difícil questão. Disse que compreendia muito bem aquilo que se estava a passar, que não era indiferente aos seus argumentos de superioridade moral literária, e que, no fundo, achava normal que uma pessoa com a sua craveira e a sua experiência não visse com bons olhos a mudança das prioridades na editora que deixara órfã. Depois, começou a desculpar-se, dizendo que o mercado não estava nada famoso, que os portugueses não liam, que o livro era tratado como batatas e que, para sobreviver neste meio canibalesco, onde apenas os mais fortes e astutos conseguem vingar, também a Escrever Direito Por Linhas Tortas» tinha que fazer as suas cedências em matéria de crivo literário e, por conseguinte, fazer as suas opções, de resto, de acordo com as expectativas traçadas pela Administração. Dizia ele: «Senhor Quixote, creia que eu teria o maior gosto em poder ajudá-lo, eu por mim, sei lá, era capaz de criar uma colecção própria com o seu nome, para novos autores ou até clássicos, o que fosse... mas, mas a verdade é que não estou em condições para o fazer. Temos neste momento medidas restritivas de contenção de gastos e eu não tenho carta branca senão para editar livros que vendam e vendam bem. Dir-me-á, então e a literatura, a verdadeira literatura?... E eu dir-lhe-ei que terá toda a razão, mas razão nenhuma excede a razão dos números. Infelizmente, assim é. Mais um cafezinho?...»
Dom Quixote nem queria acreditar no que ouvia. A «razão dos números? Mas é lá isso razoável tratando-se de livros, do desígnio maior da literatura, da beleza maior das palavras?» Apercebendo-se de que aquele não era chão que desse uvas, levantando a armadura, no que o jovem director o ajudou achando que as pernas do cavaleiro já não teriam forças para tanto por si mesmas, Dom Quixote rejeitou a ajuda com um leve safanão e dispôs-se a peneirar sorte noutras águas que aquelas, estava mais que visto, não lhe correriam de feição. Baixando a viseira com estrépito e pegando na sua lança, abriu a porta e fez-se ao caminho, não sem antes se virar para trás e dizer ao director que ajeitava a sua gravata e acertava os botões de punho: «Os números! Os números! E que tal mudar o nome da editora para Escrever Dinheiro Por Linhas Tortas?» E saiu, tonitruante, todo ele a chiar, pois a armadura dava mostras de precisar de ser oleada nas juntas, coisa que ele já tinha notado e que o vinha atormentando sobremaneira. À sua passagem, a menina de cara laroca não resistiu mais e desatou num choro abundante, só se acalmando com o abraço pronto do senhor director.
«Vamo-nos daqui, Rocinante, que aqui não merecem a nossa presença. Ao caminho, que ainda não é desta que nos vencem. A outras portas iremos bater, alguma nos há-de abrir com grata satisfação por a termos escolhido, sabendo reconhecer-nos o devido valor. Com sorte, meu fiel companheiro, uma há-de ser que tenha um jardim, com árvores e boas sombras, com boa relva também, onde tu possas pernoitar e descansar quando de ti não precise. Eia!» E dali se foi o cavaleiro, tomando a direcção do rio, pois muito alterado de humores se encontrava e naquelas alturas só a placidez do rio o conseguia acalmar. De qualquer modo, fazia-se tarde, havia que pensar em novo poiso para passar a noite. Havia de ser perto do rio e, jurava ele, também no dia seguinte haveria de pôr termo à maldita chiadeira que a todo o instante o atormentava.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Doutor Lobo

«Mugabe fintou jornalistas e ninguém o viu chegar». Nuno Gomes: «Benfica ainda tem hipótese de ser campeão». Conclusão: Veiga está atento às notícias e prepara contratações antes do defeso.

A Demanda do Bravo Cavaleiro Dom Quixote - Capítulo XI

XI.

Um best-seller. O debate mediático. Um chega pra lá em Saramago. Couves de Bruxelas. A adoração a Ana Obregon e a Pantoja. A importância de ser open-minded. As meninas da Imagem Mais. Vi Prazeres.



Tinha apenas transcorrido um dia sobre os acontecimentos mas a verdade, e dando razão às melhores expectativas do director editorial, é que o livro de Etelvina Prazeres era já um best seller em todas as livrarias e demais pontos de venda do país. Os jornais e as televisões debatiam o fenómeno literário, escritores com carreira feita escusavam-se a grandes comentários sobre um «objecto» ao qual chamar livro seria sinónimo de muita, mas muito boa vontade, os suplementos culturais concorriam por uma entrevista à autora. Mas, mais surpreendente, o fenómeno atravessara fronteiras e dera mesmo lugar a notícias, ainda que esparsas, em vários países da Europa e até no Brasil, onde um crítico alertava o público para a maior revelação literária depois de Paulo Coelho. «O escriba do rabicho de cavalo que se cuide!», era o título do artigo. Outro dizia: «Prazeres do Diabo (Vermelho?)» E ainda outro: «Etelvina dá um chega pra lá em Saramago». São, de resto, bem conhecidas as propensões brasileiras para estas pérolas jornalísticas.
Em Portugal, a editora multiplicava-se em iniciativas para continuar a promover e divulgar o livro. Colmatado à nascença o problema do desaparecimento dos Dom Quixote das capas dos seu livros, logo, logo, depois de um registo ultra-rápido, a Dom Chicote chegou às bancas e às bocas do mundo. A segunda e terceira edições do «Etelvina Prazeres – A Verdade de Cristal», dadas à estampa apenas numa semana, surgiram já com o novo logotipo do homem nu voltado de costas com uma flor entre as nádegas robustas. Etelvina gostou, disse que se identificava mais com aquela personagem, até porque já não gostava muito de velhinhos com barbas, preferindo os carecas. Nas livrarias, as filas não paravam e nas televisões o caso continuava a fazer a ordem do dia. Uma escritora light dizia que nada daquilo a surpreendia, porque afinal de contas havia lugar para todos e que a velha história de que os portugueses não liam não passava de uma falácia. E acrescentava que, para além de lerem, sabiam muito bem fazer as suas opções de leitura, o que, de resto, deveria servir de exemplo para muitos escritores que se tinham em grande estima e conta própria, mas que, analisadas as coisas, e não seria preciso para tal uma grande lupa, não vendiam praticamente nada, o que só podia ser prova da qualidade da sua escrita e do interesse que os seus livros despertavam no público. A conversa terminou com o jornalista a querer saber o que andava essa escritora a escrever, respondendo ela que era uma história de amor e traição no Parlamento Europeu e que qualquer semelhança com a vida de amigos seus seria pura coincidência, de resto, tal como algumas citações pedidas de empréstimo a meia-dúzia de escritores de renome internacional. E já tinha título em mente? «Sim. “Couves de Bruxelas”».
Quanto ao director editorial, telefonava diariamente a Etelvina dando-lhe conta dos números das vendas, ao mesmo tempo que a convidava para diversas sessões de apresentação do livro de norte a sul do país. Num desses telefonemas, disse-lhe que uma das apresentações agendadas teria lugar numa escola primária, com uma turma de potenciais futuros escritores, perguntando-lhe ele se ela teria disponibilidade para tal, que era importante, ficava bem nas televisões, e, quem sabe, até lhe podia dar alguma ideia para um futuro livro infantil, como a Madonna, quem sabe mesmo uma série... Ao que Etelvina respondeu: «Ai, não sei, e vou ter de ir ao quadro?»... Respondendo-lhe que não, tal como não teria de fazer contas nem ditados, gracejou o director editorial, passou a outro assunto. Disse a Etelvina que tinha recebido um telefonema de um colega espanhol propondo a publicação do seu livro no país vizinho. Etelvina riu-se com a ideia, achou óptimo, fantástico, disse que adorava a Ana Obregon e a Pantoja, que a filha dos príncipes era um amor, o príncipe tinha um bocado cabeça de pepino, mas isso não importava, era bem mais interessante que o príncipe Carlos e as suas orelhas de abano, só que... só que havia um problema: não sabia falar nem escrever espanhol!
Sem mais delongas, o director editorial despediu-se de Etelvina dizendo-lhe que não se preocupasse com nada, que ele mesmo trataria de tudo. Etelvina agradeceu e voltou aos banhos em que se encontrava na praia dos Tomates onde, a todo o momento, algum colunável também ali de férias lhe interrompia o bronze para lhe pedir um autógrafo («Ai, querida, adorei, adorei, adorei, você escreve maravilhosamente, eu, por mim, dava-lhe o Nobel, o Saraiva que me desculpasse!»), não se escusando a convidar a autora para esta e aquela festas nocturnas onde, garantiam, estaria a nata do jet set. Etelvina agradecia a todos com um beijinho na cara e já de novo ao sol que a derretia, como se os raios do meio-dia fossem as labaredas de um dragão enfurecido, pôs-se a matutar no que o director editorial lhe dissera. Não nas criancinhas, que ela adorava, mas na história da Madonna e dos livros infantis. E pôs-se a matutar: «Olha, escrever livros infantis não diria, mas porque não começar uma carreira na música?» E isto pensando, ligou o seu MP3, pondo-se a ouvir o disco de estreia de Michael Carreira.
Sem mãos a medir com encomendas. Era assim na editora como não se via em anos e anos de publicação de romances obscuros de escritores ainda mais obscuros que a cada título pareciam mais e mais obcecados com a morte. Qual Tejo, quais ninfas, quais musas, a sua inspiração não era outra senão a depressão, a melancolia, a morbidez! O director editorial editorial, cada vez mais entusiasmado com o sucesso da Dom Chicote, só se arrependia de não ter ele próprio pensado naquilo há mais tempo, e não ter sido ele mesmo a mandar passear o decrépito Dom Quixote, de não se ter lembrado da Dom Chicote há mais tempo. Mas, enfim, o passado não se pode mudar, e agora o caminho fazia-se para a frente. Havia de inovar, aparecer, estar no centro das notícias. «Fazer acontecer», como escutara em tempos a um orador de um curso de «Reciclagem Editorial para Seniors». Sim, esse era o cerne da questão, o fulcro do negócio, a chave do sucesso. Isso e ser «open minded». O director editorial editorial ouviu e achou que sim, que havia de ser «open minded» e que nada de mais «open minded» haveria do que acolher a literatura de Etelvina Prazeres. Mas era preciso mais, era preciso explorar aquele filão até o fundo, bem a fundo.
Por tudo isso, e com o aval de uma administração mistério, que ninguém conhecia e que ninguém nunca vira, o director editorial deu-se ao luxo de requisitar os serviços uma empresa externa apenas para pensar a questão do marketing em torno de Etelvina Prazeres. Uma decisão bem típica de um director moderno, dir-se-ia. E logo, no dia seguinte, ali foram bater à porta do gabinete do director editorial duas meninas muito bem aparentadas, cheias de pastas e papelada, com muitas ideias para promover o produto, «perdão», disseram, «o livro», bem como a sua autora. Os números, disso se falaria depois, que não se importassem, o mais importante era levar a tarefa a bom porto. As meninas da Imagem Mais – como se chamava a empresa – chegaram manhã bem cedo, assentaram praça no gabinete do director editorial e não o largaram até serem já quase duas da tarde, brindando-o com uma fastidiosa apresentação da sua empresa e depois com uma série de teorizações sobre o gestor moderno e a importância do marketing nos mercados competitivos de hoje.
Que era necessário compreender o perfil dos consumidores, adaptando o produto às suas necessidades específicas, entender o seu perfil histórico de relacionamento com os livros, no caso, criar, em função das conclusões, uma filosofia de promoção que tivesse dos mercados uma visão alargada. E uma das meninas, vendo o franzir de testa do director editorial àquela primeira abordagem, concretizou com um sorriso: «Eu explico-lhe: é que o marketing da actualidade integra análise, planeamento, organização e controlo dos recursos e actividades das empresas e organizações com vista a satisfazer as necessidades e exigências dos mercados alargados, desenvolvendo e mantendo com eles relações e transacções que permitam maximizar o valor que lhes é acrescentado. Tudo, naturalmente, em prol do indivíduo, em prol do produto per si». «Per si»? – perguntou o director, cada vez mais confuso. Depois de muita conversa, depois de muitos termos técnicos, depois de muita teorização, as meninas tranquilizaram o director dizendo-lhe que não se preocupasse com nada, elas tratariam de tudo, para o que necessitariam apenas da sua anuência total às suas propostas. Por fim, pegaram nas suas coisas, nos seus casacos, nas suas malas e despediram-se, não sem antes oferecerem ao director alguns livros que consideravam de leitura obrigatória para o seu sucesso pessoal, um deles, falava de alguém que tinha mexido no queijo de não sei quem, outro era uma espécie de guia para o gestor brilhante.
Já sozinho no seu gabinete o director editorial abriu um dos livros e pasmou com a quantidade de conselhos que ali se davam com vista a ser o tal gestor brilhante. Não ter medo de arregaçar as mangas e intervir, não pensar que é demasiado importante para fazer tarefas banais, não ter um comportamento egoísta, ter cuidado ao criticar colaboradores, ser honesto e falar com franqueza, admitir os erros e pedir desculpa quando necessário, não tentar agradar a todos, tentar não fazer parte da «malta», estar presente, evitar manifestações de comportamento despótico, transmitir uma visão de futuro, ter cuidado com as cedências, evitar a microgestão, gerir os danos, etc. Era um nunca mais acabar de sugestões que logo, logo o fastidiaram, dando-se nesse momento conta de que as meninas afinal se tinham ido embora sem apontarem uma única proposta concreta para a promoção de Etelvina Prazeres.
No dia seguinte, porém, as meninas voltaram ao ataque, regressando ao gabinete do director com uma série de propostas na mão, ou na mala, ou no computador portátil, como era mais moderno, fazendo para o director uma apresentação fascinante em power point. O director parecia convencido, não percebia grande coisa de computadores para além da utilização do mesmo para composição de texto, pelo que aquela apresentação em slides sucessivos, com entradas e saídas do ecrã por baixo e por cima, pelos lados e até na diagonal, lhe pareceu uma coisa muito bem feita e com profissionalismo. A primeira proposta das meninas pareceu-lhe no imediato algo arrojada. Questionavam elas até que ponto o director acharia por bem que o nome de Etelvina Prazeres pudesse ser «melhorado». «Melhorado», perguntou ele, «como assim?» Elas elucidaram: «A verdade é que em termos de mercado o nome Etelvina não é famoso... Não é chique, não está in... O Prazeres, não, o Prazeres achamos óptimo, muito sugestivo e comercial, achamos que é carnal e, como sabe, hoje em dia tudo o que remete para o campo da pele e dos desejos vende. O que acha de em sessões públicas se passar a referir a autora apenas como Vi Prazeres? Temos a certeza de que essa abreviatura aproximaria a autora de uma faixa social com muito poder de compra.»
O director, pasmado mas convencido, lá acabou por aceitar a ideia, pelo que doravante quando se falasse publicamente de Etelvina dir-se-ia, tão-somente, Vi. Quando Vi estava aceite, as meninas passaram a outras propostas. Sugeriram que se mandassem fazer duas grandes faixas vermelhas verticais, nas quais surgiriam a cara e a capa da autora e do livro, as quais se colocariam no exterior do edifício da editora aproveitando a sua localização perfeita e, por conseguinte, a exposição pública constante aos muitos automobilistas e demais transeuntes que por ali passavam. Outra ideia «magnífica», garantiam, era produzir miniaturas de sapatinhos de cristal – que , naturalmente, seria vidro barato – que se ofereceriam ao público em acções de promoção específicas com meninas vestidas de Cinderela, ou talvez de Floribela, porque era uma personagem que estava na moda e havia que criar «sinergias» com outros produtos de sucesso preexistentes. Como slogans de campanha tinham pensado em «Não perca o seu sapatinho, mude a sua vida!» ou então num mais rotundo «De um pontapé na sua vida!» T-Shirts crachás, isqueiros, toalhas de praia, entre muitos outros objectos, fariam o mais na divulgação entre o grande público. O director editorial sorriu e o sorriso só se desvaneceu quando a dona Paula, mais tarde, lhe foi levar a primeira factura deixada pelas meninas para pagamento a quinze dias a título de adiantamento.

E agora para um momento poético...

manhã de vento e chuva saltando os muros
da tua ausência estremece a pele
enquanto o corpo sorri a memória do teu cheiro
o sabor de te ter por dentro
a inundação dos gestos onde à noite caímos
nesse abismo de esquecer que é o amor

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quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Histórias Fulminantes 53

Para comandar a zona franca acabou por ser lógica a contratação de um franco atirador. O Senhor K. exclamou: «Francamente!»

A Demanda do Bravo Cavaleiro Dom Quixote - Capítulo X

X.

Estratégias de sobrevivência. Um desígnio: caucionar a boa literatura. O desaparecimento dos pequeninos Dom Quixote. Vai-se a ver, o gajo veio-se embora com uma indemnização de fazer inveja a qualquer admnistradorzeco de Estado!


Depois de se ter desenvencilhado do empregado da EMEL que queria multar e bloquear o seu Rocinante, Dom Quixote pôs-se de novo ao caminho pela cidade de Lisboa. Desceu até à linha do eléctrico e metendo para a esquerda foi parar ao miradoiro de Santa Luzia. Como estivesse cheio de fome e, por conseguinte, sem energias, sou eu, narrador anónimo, quem de novo pega na escrita para dar conta das suas andanças, pelo menos até ao momento em que ele se dê conta da mudança.
Pois chegou ele ali, ao dito miradoiro, donde se avista toda a largura do Tejo e à esquerda o Panteão Nacional, e a verdade é que nem forças tinha para admirar a paisagem. Dormira mal, sonhara com fantasmas, o chão era deveras incómodo para os seus ossos, pelo que só desejava mesmo era aferroar dente numa bela sanduíche e verter pela goela líquido que prestasse, sumo ou leite, álcool não, agradecia, pois que não era hora, local nem próprio de cavaleiro, para mais com decisões importantes a tomar. Porém, uma vez mais um problema se lhe punha, não tinha mais dinheiro. Que fazer então?
Não teve de pensar muito para ter uma excelente ideia. No dia anterior reparara, ao passar na baixa lisboeta, ali pela Rua Augusta, que dois ou três indivíduos ganhavam a vida de uma estranha maneira, fazendo de estátuas! Se aquilo lá era modo de vida? Estar ali, assim, sem tugir nem mugir, a olhar para o boneco, à espera que lhes caíssem umas moedas à frente, numa latinha posta no chão! Curiosamente, Dom Quixote viu que a coisa até resultava, já que à medida que por ali ia passando na direcção da Sé Velha pôde ouvir por diversas vezes o tilintar de moedas que caíam nas latas. E foi ao pensar nisso que se bem o pensou, iluminado pelo pensamento, melhor o fez! Ora não era ele a figura mais do que indicada para isso, para a encenação da estátua perfeita, muito mais realista até do que os outros? Era, sem dúvida que era, pelo que não se fez rogado; e logo estacou ali em cima da garupa numa pose estudada de cariz dramático. O Rocinante alçando a perna esquerda dianteira e empinando as orelhas, esticando o rabo, e ele levantando o queixo e o braço direito com a lança, meneando ares de grande coragem e valentia. Não tardou muito que começasse a ouvir o som das moedas a cair na pedra à sua frente. E tanto sucesso fez enquanto estátua de si próprio que, passada uma boa meia hora, já dispunha de euros e cêntimos suficientes para um belo repasto. A que logo se predispôs, enchendo a barriga e sobrando mesmo para o seu fiel companheiro.
Depois, como o sol quisesse pôr-se a pino e com modos de desnudar as gentes, Dom Quixote deixou-se ficar por ali à sombra, numa das mesas da esplanada, a beber uma bica e a pensar na vida e no que fazer. Uma coisa era certa, tinha que voltar a arranjar emprego, pois andar sempre à rasca para desencantar uma refeição não era sistema que lhe conviesse, sequer pôr-se a fazer de estátua, logo ele que era um homem de movimento, de acção. A verdade é que depois de muito matutar chegou a uma simples conclusão: só sabia fazer uma coisa, só sabia caucionar a boa literatura. Foi uma conclusão a que se seguiu uma outra: haveria de ir bater às portas de outras editoras e alguma delas iria, por certo, saber fazer bom uso dos seus créditos e méritos editoriais. Sim, porque ele tinha um passado, tinha toda uma história ao serviço da defesa da literatura. Decididamente, só tinha motivos para acreditar no futuro. Vistas bem as coisas, não era um novato qualquer, não era um qualquer herói de trazer por casa que se lembrasse, de um dia para o outro, de editar livros, não, ele era o famoso Dom Quixote e sob a sua lança quantos e quantos leitores já não se tinham estreado no mundo das letras? Quantos e quantos não haviam já alcançado, junto à sua figura, um lugar no panteão dos vates? «Meu velho», dizia ele para consigo, animando-se à falta de quem o fizesse, «nada temas, os livros aguardam o teu contributo, o futuro irá com certeza sorrir-te!»
Mais animado com as considerações que no seu íntimo tecia, determinou-se a não mais perder tempo e partir em busca de uma nova editora que o acolhesse e aos seus préstimos profissionais. Não tinha sequer um currículo consigo, mas isso também não interessava. Iria de porta em porta e certamente que em alguma delas encontraria nova casa, oferecendo, a quem quisesse e soubesse aproveitar, toda a sua experiência acumulada, todo o seu know-how e prestígio. E assim galopou dali para fora descendo de novo ao coração da cidade, fintando o trânsito que uma vez mais se avolumava e comprimia em filas, buzinadelas, gases, imprecações avulsas e o demais burburinho citadino.
Como é sabido, o meio editorial é pequenino, os editores conhecem-se todos, viajam juntos para feiras no estrangeiro, guardam na memória a alegria das patuscadas nocturnas dessas deslocações, cotejam-se uns aos outros e à vista desarmada, para depois, pelas costas, sub-repticiamente se apunhalarem. Ora um se antecipa e compra os direitos de autor que o outro pretendia, ora outro esconde dos demais o seu calendário de edições previstas, ora um critica as traduções de gosto duvidoso do outro, ora um regozija com as críticas negativas aos autores dos outros, ora estes desdenham o grafismo daquele, daqueloutro e dos mais que vierem à contenda. É um salve-se quem puder bem expresso nas duas associações de editores e livreiros que o pequeno país conhece e que, regra geral, vem à baila das redacções de imprensa aquando de cada penosa organização das feiras do livro nas principais cidades do adro.
Dom Quixote, tais os seus créditos, sempre passara, ou cavalgara, à margem dessas questiúnculas intestinais, como se sabe directamente ligadas aos egos, de modo que se dava bem com gregos e troianos, com beltrano e sicrano. A todos conhecia e todos o conheciam. E se, no seu íntimo, ele nem a todos tinha em consideração, a verdade é que, e ao contrário, todos tinham consideração pela sua figura. Meio louco ou não, velho ou não, indistinto no negro da sua efígie ou não, ultrapassado e demodé ou não, a verdade é que ele era um senhor e uma personalidade incontornável no mundo dos livros e da palavra escrita. Era nisto e nestes pensamentos que o Dom Quixote se fiava ao trotar pelas ruas de Lisboa. Contudo, ao passar pela montra de uma livraria e ao percorrer com os olhos alguns livros que nela se encontravam, não conseguiu conter uma lágrima furtiva quando reparou que, em resultado da sua fuga, os livros onde antes aparecia já não tinham a sua triste figura nas capas. Como se por magia, todos os pequeninos Dom Quixote se tinham apagado das capas, deixando os livros como que órfãos de um pai editorial.
Mais incrédulo e triste ficou o cavaleiro quando viu que o livreiro em causa entrava pela vitrina adentro recolhendo à pressa todos os exemplares que se encontravam sem chancela editorial. Certamente que alguém da editora já teria informado os agentes do sector, certamente que, contra todas as directivas emanadas do racionalismo frio do director editorial, alguém, antes do tempo, batera com a língua nos dentes e a notícia já chegara às montras! O vazio que então invadiu o peito de Dom Quixote foi ao ponto de lhe fazer aflorar umas lágrimas fugazes ao canto dos olhos. Dando ares de homem valente e à antiga, de homem que não chora, foi-se dali ainda com mais disposição a ver-se de novo no lugar a que merecia por direito próprio, enfunando peito e alteando barbas nas capas de livros, de belos e bons livros, de preferência.
Quando, depois daquele triste espectáculo, Dom Quixote julgou que já nada o atiraria abaixo, animicamente falando, entenda-se, eis que o destino e língua comprida de bocas delatoras lhe prega nova partida, desta feita, passando ele frente a um quiosque. Num dos jornais, ali estava, em grandes parangonas, a notícia da sua fuga. Fuga, sim, era disso que se falava naquela capa... Naquela? Não só naquela, mas também na outra ao lado, e na outra e na outra e na outra! Todas as capas vinham com a notícia do desaparecimento de Dom Quixote, uma verdadeira «caixa» que vinha fazer estremecer os alicerces do pacato meio editorial português. Num jornal lia-se «O Cavaleiro Inexistente», numa clara alusão ao livro homónimo do escritor italiano Italo Calvino. Outros preferiam o trocadilho: «Dom Quixote em fuga; do cavaleiro nem sombra!» E lá vinha, logo abaixo da sua reprodução, a fotografia do director editorial, sorridente, apesar de tudo, não aparentando tristeza de maior. E nas poucas linhas que se podiam ler junto à sua imagem as seguintes palavras: «No mundo de hoje não há insubstituíveis. Como se sabe, de Espanha nem bom vento nem bom casamento, eu diria mais, nem cavaleiro que traga assento...» Dom Quixote leu e engoliu em seco.
À sua volta, sem que nisso tivesse reparado, amontoara-se um grupinho de curiosos que tendo lido as notícias e verificado que era o protagonista das «gordas» quem ali estava se deixou ficar a ver como aquele reagia, o que fazia ou dizia. E já uns se adiantavam no palpite a respeito do caso, comentando-o com graçolas ou, pura e simplesmente, no que é bem português, batendo ainda mais no ceguinho, duvidando da sua moral. «Hombre, quieque estás esparando? Que te vás a casa que es muy melhor, entonces no sabes que Espanha é que está a diar? Esto por aqui son todos uns cabrones, si esses que eston en el govierno, e os de las empresas la misma cosa... um hombre iega aos sessenta e já lo quieren por en la pratelera a receber pensiones de miséria...», dizia um que trazia colado à lapela um autocolante da CGTP. Já outro, mais desconfiado e sabichão, dizia para aquele como quem não quer a coisa: «Epá, ‘tás praí preocupado com esse gajo, que é mais um espanhol com’osotros, só vêm para cá mamar o deles. Vai-se a ver e o gajo veio-se embora com uma indemnização de fazer inveja a qualquer administradorzeco de empresas do Estado!» O dono do quiosque concordava com este último e já arengava: «Este é que sabe falar, então vocês não vêem que este gajo é como todos, põe-se para aqui a ver o jornal, a ler o que lhe apetece e depois comprar ‘tá quieto!» E já se preparava um outro para perorar a todo este respeito, animando-se os ares e os ânimos, quando Dom Quixote achou por bem trotar dali para fora, deixando atrás de si aquela gente a discutir sobre as vantagens e desvantagens de uma segunda ocupação espanhola. Já tinha visto tudo, já tinha ouvido tudo, já só queria resolver o seu futuro.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Recital poético


Portanto, para quem não consiga ler: Recital de Poesia, dia 14 de Dezembro, às 19h00, no Palácio Fronteira, em Lisboa.

O Homem de La Mancha (1977) - Paulo Autran

A Demanda do Bravo Cavaleiro Dom Quixote - Capítulo IX

IX.

Paula lacrimosa. Uma tragédia que a todos fez estarrecer. Uma homepage sem sombra de cavaleiro. Uma reunião de urgência. E que tal substituir a lança por uma pistola a laser? A Dom Chicote e uns rabiscos ousados. Comprado, disse o director.



Dom Quixote, mil perdões mas agora eu, e definitivamente, tomarei em mãos as rédeas da narrativa, até porque o senhor conduz um cavalo e não se deve tirar as mãos dessas rédeas. No seu gabinete, com a Dona Paula muito chorosa e nervosa à sua frente sentada, o director editorial tentou perceber o que a deixara naqueles preparos, que mais parecia que lhe tinha morrido o homem ou tivesse perdido o emprego. Lacrimosa, Paula chegou-se a ele e olhando-o nos olhos fixamente disse apenas: «O Dom Quixote, o Dom Quixote». «Mas o Dom Quixote o quê, rapariga? O que é que tem o Dom Quixote?», respondeu-lhe ele ainda sem perceber. «Foi-se embora, partiu, o Dom Quixote foi-se embora, director editorial! E eu nada pude fazer para o deter. Não imagina, foi-se daqui que parecia um louco, bem um louco ainda mais louco porque louco, como todos o sabemos, já ele era...» E diz-lhe ele, com ares de quem já não estava a gostar muito da conversa: «Ó P’ala, veja se se acalma que você não está a dizer coisa com coisa. Mas que raio de coisas anda você a ler? Essa imaginação anda um bocado destravada, não?...»
O director editorial só caiu em si quando a Paula se virou para a estante atrás de si e lhe disse para olhar, que olhasse bem lá para cima, para a penúltima prateleira, ali, para o sítio do Dom Quixote, sim, o original, o verdadeiro Dom Quixote, aquele sem o qual nenhum outro livro poderia naquela casa editar-se pois que agora se fora embora e com a sua partida se hipotecavam quaisquer hipóteses de editar outros livros, sequer mesmo fazer reedições de que título fosse! Era o fim, «o fim, director editorial, não sei se está a ver bem a tragédia que nos aconteceu!», dizia a Paula, agora de novo se descontrolando e caindo num berreiro convulso. No gabinete, todos os que ali estavam estremeceram, de resto como o director editorial que ao olhar o pequeno pedestal onde estava o Dom Quixote original se viu, enfim, esfumar-se-lhe do rosto o sorriso que trazia nos lábios desde manhã cedo.
Rapidamente, como se impulsionado por uma mola, pôs as mãos no teclado e olhou para o écran. Acedeu à internet e clicando na barra dos Favoritos linkou para a página da editora. Passados quatro ou cinco segundos de um silêncio expectante, aparecia à sua frente a homepage com as imagens das capas dos livros em destaque e, em cima, do lado esquerdo, lá estava, uma barra negra sem letras e sem nada por cima. Onde antes se lia D. Quixote e em cima se via a sombra do cavaleiro sobre a sua montada, agora nada! Por momentos desanimado, o director editorial caiu sobre o seu cadeirão de braços e pediu a todos que se retirassem. Queria estar um pouco sozinho, precisava de se acalmar, de pensar nas consequências daquele acto, da fuga de Dom Quixote. Antes da Dona Paula sair, o director editorial ainda lhe perguntou se ela lhe ouvira alguma coisa, se ele dera alguma explicação, se justificara de algum modo a sua partida. Que não, respondeu ela, que apenas o ouviu gritar em tom furibundo o nome de Etelvina, Etelvina...
Não demorou muito até que o director editorial percebesse ou adivinhasse o que se tinha passado na cabeça de Dom Quixote. A verdade é que antes de decidir inverter o rumo editorial da empresa, o director editorial, embora muito ao de leve, antevira essa hipótese, embora não tenha acreditado verdadeiramente que o velho cavaleiro tivesse coragem para se ir embora. Agora, confrontado com a realidade, com a deserção do seu logotipo, o director editorial não tinha muito por onde escolher. Uma coisa era certa, tinha que seguir em frente, tinha de encarar o problema de frente e tomar decisões, pois sabe-se que é nessas alturas que se revelam os líderes. Sem perder mais tempo, mandou chamar os seus editores e reuniu com eles, pretendendo saber que opiniões tinham sobre o caso e o que achavam que se devia fazer.
Sentados à volta da mesa da sala de reuniões, o director editorial e cinco editores debateram o caso e disseram de sua justiça sobre o mesmo. A editora dos livros infantis confessou-se estar inconsolável, pois o Dom Quixote era uma personagem muito querida das crianças e ia ser muito difícil substitui-lo. O editor de romances não se mostrou preocupado por aí além, até porque de acordo com o novo desenho editorial da casa os próximos romances a pôr no prelo em pouco tinham que ver com o passado ao qual a figura do Dom Quixote estava intimamente ligada. A editora de poesia, essa lastimou, lastimou bastante a partida do cavaleiro, dizendo que sem a sua efígie a colecção «Moinhos de Vento» estaria condenada. O editor de ensaios, por seu turno, considerou interessante a aposta que o destino lhes punha na mão com o desaparecimento de Quixote e achou mesmo que tal facto poderia suscitar uma série de ensaios muito estimulantes acerca da ingratidão e da moral. Já o editor de banda desenhada exultava com o caso, congeminando já, numa série de folhas brancas à sua frente, uma historieta qualquer que havia de ser um sucesso, vendo-se, num dos desenhos, o Dom Quixote e o Rocinante a saltarem do alto da prateleira do gabinete do director editorial com a Dona Paula aflita de braços no ar.
«O problema, meus caros, o problema é a marca, a marca! O original! Vocês não vêem que a coitada da Dona Paula tem razão, como ela sabe que sem o original não podemos imprimir mais nada?!», perguntou, mais para o ar do que para os que ali estavam, o director editorial com voz grave, pedindo depois, e agora sim aos presentes, «soluções, soluções!» Houve quem sugerisse uma batida repartida pela cidade em busca do cavaleiro, houve que dissesse que o melhor era telefonar para Espanha, que provavelmente apanhariam o homem em casa da Dona Dulcineia, e houve ainda um outro que, mais frio e racional, disse que não adiantava chorar sobre leite derramado e que o melhor era olhar em frente. Quem sabe, escolher um outro cavaleiro, registá-lo e seguir em frente, tanto mais que a partir do marco que era o lançamento do livro de Etelvina muitas batalhas se perfilavam no horizonte. Porque não? Porque não escolher um daqueles guerreiros do cinema ou dos desenhos animados? Podia ser a figura recortada a negro do Mel Gibson, não sabia se estavam a ver, no filme em que fazia de um guerreiro invencível, ou então, quiçá, o Rambo!? Não era uma excelente ideia? Trocar um herói já antigo e cheio de mofo por um herói super-moderno e actual? Substituir a lança por uma pistola a laser? Trocar aquele fato mais do que demodé por um de linhas modernas, num tecido resistente ao suor e bem mais justinho ao corpo?...
A verdade é que nada daquilo convencia o director editorial. Ele esfregava a cabeça, dava voltas e mais voltas ao pensamento, mas só conseguia pensar no livro de Etelvina e nas futuras reedições que sem o Dom Quixote não poderiam fazer-se. Mas como, como resolver o assunto? E o que dizer a Etelvina quando se esgotasse a primeira edição? Que não tinham chancela, que o logotipo lhes fugira com vergonha de se ver impresso junto ao seu nome? E iam dar-se ao luxo de perder mais uns bons milhares de euros, logo agora, logo agora que tinham acertado na mouche depois de tantos e tantos fastidiosos romances de autores melancólico-depressivos que a única coisa que sabiam fazer era entretecer-se em narrativas sincopadas de toada negra e pseudo-poética? Ah, não, não, ele como director editorial, ele que tanto pugnara para chegar até ali, até àquele dia que prenunciava sucesso para a empresa como esta nunca antes, em quase vinte anos de existência, experimentara, ele não iria agora deixar cair tudo por terra só por causa de um cavaleiro de triste figura que se pusera em triste fuga.
Pois se ele não queria enfrentar a realidade editorial, se não desejava emprestar a sua imagem aos novos títulos e autores da casa, então que partisse, mais valia que o fizesse, que eles passariam muito bem. Tratariam, tão cedo como o dia seguinte, de arranjar uma nova chancela, um novo logotipo, não um cavaleiro, não o Mel Gibson ou o Rambo, mas antes uma coisa muito mais arrojada, sim, para dar nas vistas, sem medos ou preconceitos, uma imagem que casasse com os novos livros da editora. E ele, como director editorial, profissional de quem se esperam respostas quando os outros as não encontram, ele tinha já encontrado a solução. Pois se o Dom Quixote lhes voltara as costas, muito mal fizera pois o futuro da editora era dourado. E a todos logo ali, antes de encerrar a reunião, tratou de informar do que também ali, naquele instante, decidira. A Dom Quixote transformar-se-ia em Dom Chicote. Após um curtíssimo silêncio, os editores levantaram-se e aplaudiram, congratulando o director editorial por tão notável ideia, não ao alcance de qualquer mente, antes e tão-só de iluminados como ele que por alguma razão teria chegado a director editorial.
Tinha de ser tudo uma questão de horas, avisou o director editorial antes de deixar sair os editores com algumas indicações de trabalho. Depois, mandou chamar o departamento gráfico e pediu aos criativos que trabalhassem no novo logo que tão logo quanto possível teria de ser registado. Só assim se poderia dar continuidade ao trabalho, só assim se poderiam editar mais livros, só assim o livro de Etelvina veria sucessivas edições nas livrarias, nos hipermercados, nas bombas de gasolina e onde mais calhasse quererem vendê-lo. «Rápido, rápido», pediu o director editorial aos gráficos, dando-lhes umas horas para ver os primeiros «rabiscos» da coisa. «Rabiscos» foi a palavra que o director editorial efectivamente empregou ao enxotar os criativos do seu gabinete e, nem mais adequado ao termo, foi aquilo mesmo que lhe saiu nos ditos «rabiscos» que encomendara com a recomendação de que fossem «ousados». E ousados, como se sabe, é aquilo que os gráficos ou designers, como se lhes queira chamar, mais gostam de ser. Dêem-lhes rédea solta e a sua imaginação não pára. Tanto assim é que naquele caso não parou, bem pelo contrário, o que, passadas umas horas, trouxeram ao director editorial era algo muito à frente, algo verdadeiramente ousado e que deixou o director editorial de boca aberta, mas com olho arregalado, antevendo o grande impacto que tal ousadia iria causar. Pois que lhe tinham então trazido os gráficos? Um homem, um homem de costas, nu, rabinho bem nutrido e de linhas perfeitas, vendo-se preso por entre as duas «badanas» ou nádegas nada mais nada menos do que um chicote! Em baixo: Dom Chicote. Estava «comprado», disse o director editorial, nascia uma nova editora.

sábado, 1 de dezembro de 2007

Music Silence Box - Sound Team

A Demanda do Bravo Cavaleiro Dom Quixote - ou não queremos problemas com a Dom Quixote - Capítulo VIII

VIII.

Dom Quixote de novo com as rédeas da escrita. Uma noite complicada no Castelo de São Jorge. Uma turista inglesa e o Fonseca da EMEL. Paga já, ou vou ter de mandar rebocar o bicho?



Ah, não, meu caro escritor. Não, não, insisto, vai desculpar mas agora quem pega nas rédeas da história sou eu uma vez mais e de uma vez por todas. Convirá! A um ilustre como eu não convém perder a mão, sob pena de eu próprio perder o fio à meada dos factos que eu comecei a narrar, à data encontrando-me ainda no cimo da penúltima prateleira da estante do gabinete do director editorial, como todos recordarão. Com licença, com licença, tomo a palavra e o papel.
Depois de digerido o desagradável episódio que tive com o tal agente Silva, retomei a garupa do meu alazão e fui-me pela Baixa abaixo... se é que posso utilizar a rebarbativa expressão. Segui os trilhos do eléctrico da Rua António Maria Cardoso, segui pela Vítor Cordon (onde tive ganas de me apear para dar uma espreitadela às novidades da Livraria Espanhola sita ali na esquina) e depois, com grande cuidado, continuei descendo a Calçada de São Francisco. Ao fim da rua, pouco andei em diante quando, vendo ao longe um carro de Polícia, achei por bem mudar de rumo para não ter mais azias, digamos assim. Meti para a esquerda e fui dar à desembocadura do Metro da Baixa-Chiado, voltando aí a ser alvo de todas as atenções por parte de pequenos e graúdos.
Passado um bocado, e apercebendo-me de que tão cedo não iria ter tréguas da parte daquela gente toda, olhei para o céu, já como que implorando que me deixassem em paz e sossego, e foi então que vi o Castelo de São Jorge. Foi para lá que decidi partir imediatamente, pois que se ia fazendo tarde e não podia andar nesta vida de andarilho o dia inteiro, de cá para lá, sem poiso certo onde pudesse descansar e pôr as ideias no lugar. Para mais, também havia de ser bom sítio para deixar o Rocinante a dormir. E dali nos fomos uma vez mais em esforço, pois esta Lisboa e as suas colinas são capazes de matar um homem! Ah, nessa altura bem me voltei a lembrar do meu velho amigo e servidor, o escudeiro Sancho Pança, que há anos não vejo nem dele sei notícias. Quando vim para Portugal, foi com alguma relutância que aceitou ficar em terras de Espanha, mas lá acatou e compreendeu a justificação que lhe foi dada pela editora, dizendo que pôr um cavalo e um cavaleiro numa lombada de capa já seria difícil, quanto mais a parelha e um ajudante a atirar para o forte. Que quanto aos livros grandes e grossos não haveria de ser um problema, mas que no caso dos livros mais magrinhos já tudo seria bem mais complicado, compreendesse. E ele, coitado, compreendeu, tendo-se despedido de mim e jurando nunca me esquecer, mesmo quando ao serviço de outro senhor e cavaleiro. As saudades que tenho dele!
Foi neste remoer de memórias que o tempo não gasta, pois a lembrança dos amigos não fenece, que chegámos às cercanias do Castelo. Encaminhei-me para a entrada por uma estrada íngreme e pedregosa, passei por uma escola de circo onde cumprimentei uma palhaça que ali estava em conversa com um jovem casal, e preparava-me para passar adiante através das portas do monumento quando uma voz e respectiva farda me barraram o caminho. Deti-me a ver de onde vinha o grito de «alto lá!». Olhei para a direita e de uma espécie de guarida vejo um guarda a aproximar-se. E logo antes dele: «Senhor guarda, boa tarde, pode-se?...», indicando-lhe com o braço e a lança a entrada do castelo. «Na, na, na!», respondeu-me ele. «Na, na, na?», eu. E ele: «Pois, o cavalinho tem de ficar cá fora, amigo». «O cavalinho?...», comecei eu a encher-me de calores outra vez ao ver assim tratado o meu Rocinante. Consegui, porém, refrear-me e pensar que o melhor era não responder, sob pena de arranjar mais problemas. «Com certeza, senhor guarda, e então onde posso deixá-lo?» «Ó amigo, isso é com o senhor, mas se quiser deixe-o já ali ao pé daquelas árvores.» Assim fiz e disse adeus ao meu companheiro, combinando encontrar-me com ele ali mesmo na manhã seguinte, altura em que já saberia que rumo dar à vida de ambos. Descansasse. O Rocinante resfolegou e pôs-se a enxotar moscas ao ritmo da noite que ia caindo sobre a cidade.
Quanto a mim, fui-me para o castelo. Mas, uma vez mais, as coisas não se mostraram fáceis. O tal guarda voltou ao meu encontro e barrando-me a passagem informou-me de que para entrar teria primeiro de pagar o bilhete. «Bilhete!? Para entrar num castelo que até pode estar assombrado?», disse-lhe eu indignado. «Amigo, com ou sem fantasmas, tem de pagar. A autarquia assim estabeleceu, está estabelecido. A não ser que seja morador... Será, caballero?...», volveu ele de sorriso de soslaio. «Não», respondi-lhe, «não sou morador, acha que tenho cara de morador?» Por fim, anui, revolvendo a bolsa que tinha por debaixo das vestes em procura da única moeda que tinha comigo, a tal de dois euros. Recebendo o dinheiro, o guarda lá me deixou entrar. Caminhei então rumo às ameias do castelo onde se encontravam uns canhonetes apontados sobre a colina, sentando-me aí a apreciar a beleza cálida e luminosa daquele fim de tarde sobre o casario e o Tejo. Depois de alguns minutos, adentrei-me pelas entranhas do castelo, chegando ao seu interior. Escurecia e, aos poucos, os turistas que ali estavam iam deixando o castelo. Às tantas sentei-me num canto mais recôndito a descansar os olhos e a carcaça. Foi quando depois acordei, sem fazer ideias de que horas seriam e quanto tempo teria dormido, que dei por mim numa penumbra algo... algo assustadora! Estava sozinho. Levantei-me e... ninguém! Corri para o exterior das torres, percorri as ameias e nada, ninguém outra vez. Fui até perto da porta de entrada e... fechada! Foi com um leve arrepio que me percorreu a espinha que percebi que tinha ficado ali encerrado, pelo que teria mesmo de passar a noite naquele breu.
Vagueando meio a tactear caminho, encontrei por fim um recanto que achei razoável para dormir. Deitei-me, encostei a cabeça a uma pedra e aos poucos o silêncio envolveu-me. O silêncio e a escuridão que, como todos sabem, não é nada silenciosa, antes pelo contrário, traz com ela inúmeros barulhos, estranhos barulhos, tantos que me fizeram pôr à guarda. Pus o elmo, abri os olhos e meti a lança em riste, não fosse algum inimigo tecê-las. Era já muito noite, quando oiço passos, passos e um revolver de ervas ou folhas, como se alguém me espreitasse por detrás de um arbusto. Depois, depois um ramo que estala, e depois outro e mais outro e mais outro e eu levanto-me de supetão, tropeço duas vezes seguidas mas levanto-me a tempo de lancetar os fantasmas que avançavam sobre mim, grito, corro, grito ainda, corro no encalço de estátuas que também elas animadas de vida se libertam da pedra de que se fazem para se agigantarem sobre mim, mas não as temo, não receio nem estátuas nem fantasmas, não vacilo ante exércitos do mal, eu sou o bravo cavaleiro Dom Quixote e a todos esses seres malignos que ousam afrontar-me enquanto durmo respondo com a força da minha lança, com o vigor da minha...
«Hi, hello! Hello! Excuse me, are you Ok?»… Era uma turista, uma inglesa ruiva que à minha frente se prostava, por pouco não se furtando à fúria da minha lança. Eu, bem eu acordei naquele momento. Estava meio estonteado, suava por dentro da armadura e só passados dois ou três segundos percebi que sonhava. Cerrei os olhos, depois abri-os e olhei a estrangeira que continuava ali a fixar-me na dúvida se eu estaria bem ou não. Era de dia e a luz que já banhava todo o castelo prometia mais um dia de forte calor pela frente. Sorri para a ruiva, disse-lhe que estava «Ok», anuí a tirar uma fotografia com ela e o marido e depois fui-me dali à procura do Rocinante. Quando transpus a porta de entrada do castelo, o guarda do dia anterior olhou-me com algum espanto, ficando a remoer se eu teria ou não passado ali a noite. Eu não lhe liguei e passei-lhe diante das barbas rumo ao meu alazão.
Foi com grande surpresa que quando cheguei ao pé das árvores onde o deixara preso o vi rodeado de mais um outro tipo fardado. Desta feita, não era um polícia, não era um guarda, era... era então o quê? Olho-o nos olhos, depois o peito e é aí, num distintivo, que leio: «Fonseca – EMEL». Fonseca eu ainda conhecia, um apelido como outros, sem nada de especial. Agora EMEL? «Desculpe, o que vem a ser isso de EMEL?», atirei-lhe eu quando aquele, depois de ter posto um papelinho na orelha de Rocinante, se preparava para lhe pôr um estranho objecto nas patas traseiras. E disse o tal Fonseca: «EMEL, amigo, estacionamentos, bloqueios automóveis, não sei se já ouviu falar?... E aqui o seu quadrúpede não tinha ticket!» «Não tem o quê?», pasmo eu. «Amigo, vamos lá a ver se nos entendemos, o senhor estacionou aqui o seu animal e esqueceu-se de tirar o ticket da máquina. Sou obrigado a autuá-lo e como demorava já me via na circunstância de ter de imobilizar o seu animal. Como é que quer fazer? Paga já, ou vou ter de mandar rebocar o bicho?» Confesso, não ouvi mais nada. Quadrúpede? Animal? Bicho? Imobilizá-lo? Rebocar o Rocinante? Tudo aquilo me pareceu muito estapafúrdio, tanto que não fiz mais nada nem estive com falinhas mansas. Baixei o elmo, ergui a lança e arrimei-a fremente de ganas ao rapazola que, então sim, tomou consciência de que dali não ia rebocar ninguém e o melhor que fazia era pôr-se dali a andar o quanto antes melhor para a sua saúde. Meu companheiro, disse para o Rocinante, vamo-nos daqui uma vez mais que começo a achar que nesta cidade são todos malucos e nos querem multar.

Histórias Fulminantes 52

Rimava contra a corrente, de modo que nunca conseguiu o reconhecimento dos seus pares. Na verdade, a rima melhor que conseguiu foi entre tal sorte e a morte.