quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

A Demanda do Bravo Cavaleiro Dom Quixote - Capítulo XI

XI.

Um best-seller. O debate mediático. Um chega pra lá em Saramago. Couves de Bruxelas. A adoração a Ana Obregon e a Pantoja. A importância de ser open-minded. As meninas da Imagem Mais. Vi Prazeres.



Tinha apenas transcorrido um dia sobre os acontecimentos mas a verdade, e dando razão às melhores expectativas do director editorial, é que o livro de Etelvina Prazeres era já um best seller em todas as livrarias e demais pontos de venda do país. Os jornais e as televisões debatiam o fenómeno literário, escritores com carreira feita escusavam-se a grandes comentários sobre um «objecto» ao qual chamar livro seria sinónimo de muita, mas muito boa vontade, os suplementos culturais concorriam por uma entrevista à autora. Mas, mais surpreendente, o fenómeno atravessara fronteiras e dera mesmo lugar a notícias, ainda que esparsas, em vários países da Europa e até no Brasil, onde um crítico alertava o público para a maior revelação literária depois de Paulo Coelho. «O escriba do rabicho de cavalo que se cuide!», era o título do artigo. Outro dizia: «Prazeres do Diabo (Vermelho?)» E ainda outro: «Etelvina dá um chega pra lá em Saramago». São, de resto, bem conhecidas as propensões brasileiras para estas pérolas jornalísticas.
Em Portugal, a editora multiplicava-se em iniciativas para continuar a promover e divulgar o livro. Colmatado à nascença o problema do desaparecimento dos Dom Quixote das capas dos seu livros, logo, logo, depois de um registo ultra-rápido, a Dom Chicote chegou às bancas e às bocas do mundo. A segunda e terceira edições do «Etelvina Prazeres – A Verdade de Cristal», dadas à estampa apenas numa semana, surgiram já com o novo logotipo do homem nu voltado de costas com uma flor entre as nádegas robustas. Etelvina gostou, disse que se identificava mais com aquela personagem, até porque já não gostava muito de velhinhos com barbas, preferindo os carecas. Nas livrarias, as filas não paravam e nas televisões o caso continuava a fazer a ordem do dia. Uma escritora light dizia que nada daquilo a surpreendia, porque afinal de contas havia lugar para todos e que a velha história de que os portugueses não liam não passava de uma falácia. E acrescentava que, para além de lerem, sabiam muito bem fazer as suas opções de leitura, o que, de resto, deveria servir de exemplo para muitos escritores que se tinham em grande estima e conta própria, mas que, analisadas as coisas, e não seria preciso para tal uma grande lupa, não vendiam praticamente nada, o que só podia ser prova da qualidade da sua escrita e do interesse que os seus livros despertavam no público. A conversa terminou com o jornalista a querer saber o que andava essa escritora a escrever, respondendo ela que era uma história de amor e traição no Parlamento Europeu e que qualquer semelhança com a vida de amigos seus seria pura coincidência, de resto, tal como algumas citações pedidas de empréstimo a meia-dúzia de escritores de renome internacional. E já tinha título em mente? «Sim. “Couves de Bruxelas”».
Quanto ao director editorial, telefonava diariamente a Etelvina dando-lhe conta dos números das vendas, ao mesmo tempo que a convidava para diversas sessões de apresentação do livro de norte a sul do país. Num desses telefonemas, disse-lhe que uma das apresentações agendadas teria lugar numa escola primária, com uma turma de potenciais futuros escritores, perguntando-lhe ele se ela teria disponibilidade para tal, que era importante, ficava bem nas televisões, e, quem sabe, até lhe podia dar alguma ideia para um futuro livro infantil, como a Madonna, quem sabe mesmo uma série... Ao que Etelvina respondeu: «Ai, não sei, e vou ter de ir ao quadro?»... Respondendo-lhe que não, tal como não teria de fazer contas nem ditados, gracejou o director editorial, passou a outro assunto. Disse a Etelvina que tinha recebido um telefonema de um colega espanhol propondo a publicação do seu livro no país vizinho. Etelvina riu-se com a ideia, achou óptimo, fantástico, disse que adorava a Ana Obregon e a Pantoja, que a filha dos príncipes era um amor, o príncipe tinha um bocado cabeça de pepino, mas isso não importava, era bem mais interessante que o príncipe Carlos e as suas orelhas de abano, só que... só que havia um problema: não sabia falar nem escrever espanhol!
Sem mais delongas, o director editorial despediu-se de Etelvina dizendo-lhe que não se preocupasse com nada, que ele mesmo trataria de tudo. Etelvina agradeceu e voltou aos banhos em que se encontrava na praia dos Tomates onde, a todo o momento, algum colunável também ali de férias lhe interrompia o bronze para lhe pedir um autógrafo («Ai, querida, adorei, adorei, adorei, você escreve maravilhosamente, eu, por mim, dava-lhe o Nobel, o Saraiva que me desculpasse!»), não se escusando a convidar a autora para esta e aquela festas nocturnas onde, garantiam, estaria a nata do jet set. Etelvina agradecia a todos com um beijinho na cara e já de novo ao sol que a derretia, como se os raios do meio-dia fossem as labaredas de um dragão enfurecido, pôs-se a matutar no que o director editorial lhe dissera. Não nas criancinhas, que ela adorava, mas na história da Madonna e dos livros infantis. E pôs-se a matutar: «Olha, escrever livros infantis não diria, mas porque não começar uma carreira na música?» E isto pensando, ligou o seu MP3, pondo-se a ouvir o disco de estreia de Michael Carreira.
Sem mãos a medir com encomendas. Era assim na editora como não se via em anos e anos de publicação de romances obscuros de escritores ainda mais obscuros que a cada título pareciam mais e mais obcecados com a morte. Qual Tejo, quais ninfas, quais musas, a sua inspiração não era outra senão a depressão, a melancolia, a morbidez! O director editorial editorial, cada vez mais entusiasmado com o sucesso da Dom Chicote, só se arrependia de não ter ele próprio pensado naquilo há mais tempo, e não ter sido ele mesmo a mandar passear o decrépito Dom Quixote, de não se ter lembrado da Dom Chicote há mais tempo. Mas, enfim, o passado não se pode mudar, e agora o caminho fazia-se para a frente. Havia de inovar, aparecer, estar no centro das notícias. «Fazer acontecer», como escutara em tempos a um orador de um curso de «Reciclagem Editorial para Seniors». Sim, esse era o cerne da questão, o fulcro do negócio, a chave do sucesso. Isso e ser «open minded». O director editorial editorial ouviu e achou que sim, que havia de ser «open minded» e que nada de mais «open minded» haveria do que acolher a literatura de Etelvina Prazeres. Mas era preciso mais, era preciso explorar aquele filão até o fundo, bem a fundo.
Por tudo isso, e com o aval de uma administração mistério, que ninguém conhecia e que ninguém nunca vira, o director editorial deu-se ao luxo de requisitar os serviços uma empresa externa apenas para pensar a questão do marketing em torno de Etelvina Prazeres. Uma decisão bem típica de um director moderno, dir-se-ia. E logo, no dia seguinte, ali foram bater à porta do gabinete do director editorial duas meninas muito bem aparentadas, cheias de pastas e papelada, com muitas ideias para promover o produto, «perdão», disseram, «o livro», bem como a sua autora. Os números, disso se falaria depois, que não se importassem, o mais importante era levar a tarefa a bom porto. As meninas da Imagem Mais – como se chamava a empresa – chegaram manhã bem cedo, assentaram praça no gabinete do director editorial e não o largaram até serem já quase duas da tarde, brindando-o com uma fastidiosa apresentação da sua empresa e depois com uma série de teorizações sobre o gestor moderno e a importância do marketing nos mercados competitivos de hoje.
Que era necessário compreender o perfil dos consumidores, adaptando o produto às suas necessidades específicas, entender o seu perfil histórico de relacionamento com os livros, no caso, criar, em função das conclusões, uma filosofia de promoção que tivesse dos mercados uma visão alargada. E uma das meninas, vendo o franzir de testa do director editorial àquela primeira abordagem, concretizou com um sorriso: «Eu explico-lhe: é que o marketing da actualidade integra análise, planeamento, organização e controlo dos recursos e actividades das empresas e organizações com vista a satisfazer as necessidades e exigências dos mercados alargados, desenvolvendo e mantendo com eles relações e transacções que permitam maximizar o valor que lhes é acrescentado. Tudo, naturalmente, em prol do indivíduo, em prol do produto per si». «Per si»? – perguntou o director, cada vez mais confuso. Depois de muita conversa, depois de muitos termos técnicos, depois de muita teorização, as meninas tranquilizaram o director dizendo-lhe que não se preocupasse com nada, elas tratariam de tudo, para o que necessitariam apenas da sua anuência total às suas propostas. Por fim, pegaram nas suas coisas, nos seus casacos, nas suas malas e despediram-se, não sem antes oferecerem ao director alguns livros que consideravam de leitura obrigatória para o seu sucesso pessoal, um deles, falava de alguém que tinha mexido no queijo de não sei quem, outro era uma espécie de guia para o gestor brilhante.
Já sozinho no seu gabinete o director editorial abriu um dos livros e pasmou com a quantidade de conselhos que ali se davam com vista a ser o tal gestor brilhante. Não ter medo de arregaçar as mangas e intervir, não pensar que é demasiado importante para fazer tarefas banais, não ter um comportamento egoísta, ter cuidado ao criticar colaboradores, ser honesto e falar com franqueza, admitir os erros e pedir desculpa quando necessário, não tentar agradar a todos, tentar não fazer parte da «malta», estar presente, evitar manifestações de comportamento despótico, transmitir uma visão de futuro, ter cuidado com as cedências, evitar a microgestão, gerir os danos, etc. Era um nunca mais acabar de sugestões que logo, logo o fastidiaram, dando-se nesse momento conta de que as meninas afinal se tinham ido embora sem apontarem uma única proposta concreta para a promoção de Etelvina Prazeres.
No dia seguinte, porém, as meninas voltaram ao ataque, regressando ao gabinete do director com uma série de propostas na mão, ou na mala, ou no computador portátil, como era mais moderno, fazendo para o director uma apresentação fascinante em power point. O director parecia convencido, não percebia grande coisa de computadores para além da utilização do mesmo para composição de texto, pelo que aquela apresentação em slides sucessivos, com entradas e saídas do ecrã por baixo e por cima, pelos lados e até na diagonal, lhe pareceu uma coisa muito bem feita e com profissionalismo. A primeira proposta das meninas pareceu-lhe no imediato algo arrojada. Questionavam elas até que ponto o director acharia por bem que o nome de Etelvina Prazeres pudesse ser «melhorado». «Melhorado», perguntou ele, «como assim?» Elas elucidaram: «A verdade é que em termos de mercado o nome Etelvina não é famoso... Não é chique, não está in... O Prazeres, não, o Prazeres achamos óptimo, muito sugestivo e comercial, achamos que é carnal e, como sabe, hoje em dia tudo o que remete para o campo da pele e dos desejos vende. O que acha de em sessões públicas se passar a referir a autora apenas como Vi Prazeres? Temos a certeza de que essa abreviatura aproximaria a autora de uma faixa social com muito poder de compra.»
O director, pasmado mas convencido, lá acabou por aceitar a ideia, pelo que doravante quando se falasse publicamente de Etelvina dir-se-ia, tão-somente, Vi. Quando Vi estava aceite, as meninas passaram a outras propostas. Sugeriram que se mandassem fazer duas grandes faixas vermelhas verticais, nas quais surgiriam a cara e a capa da autora e do livro, as quais se colocariam no exterior do edifício da editora aproveitando a sua localização perfeita e, por conseguinte, a exposição pública constante aos muitos automobilistas e demais transeuntes que por ali passavam. Outra ideia «magnífica», garantiam, era produzir miniaturas de sapatinhos de cristal – que , naturalmente, seria vidro barato – que se ofereceriam ao público em acções de promoção específicas com meninas vestidas de Cinderela, ou talvez de Floribela, porque era uma personagem que estava na moda e havia que criar «sinergias» com outros produtos de sucesso preexistentes. Como slogans de campanha tinham pensado em «Não perca o seu sapatinho, mude a sua vida!» ou então num mais rotundo «De um pontapé na sua vida!» T-Shirts crachás, isqueiros, toalhas de praia, entre muitos outros objectos, fariam o mais na divulgação entre o grande público. O director editorial sorriu e o sorriso só se desvaneceu quando a dona Paula, mais tarde, lhe foi levar a primeira factura deixada pelas meninas para pagamento a quinze dias a título de adiantamento.

E agora para um momento poético...

manhã de vento e chuva saltando os muros
da tua ausência estremece a pele
enquanto o corpo sorri a memória do teu cheiro
o sabor de te ter por dentro
a inundação dos gestos onde à noite caímos
nesse abismo de esquecer que é o amor

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quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Histórias Fulminantes 53

Para comandar a zona franca acabou por ser lógica a contratação de um franco atirador. O Senhor K. exclamou: «Francamente!»

A Demanda do Bravo Cavaleiro Dom Quixote - Capítulo X

X.

Estratégias de sobrevivência. Um desígnio: caucionar a boa literatura. O desaparecimento dos pequeninos Dom Quixote. Vai-se a ver, o gajo veio-se embora com uma indemnização de fazer inveja a qualquer admnistradorzeco de Estado!


Depois de se ter desenvencilhado do empregado da EMEL que queria multar e bloquear o seu Rocinante, Dom Quixote pôs-se de novo ao caminho pela cidade de Lisboa. Desceu até à linha do eléctrico e metendo para a esquerda foi parar ao miradoiro de Santa Luzia. Como estivesse cheio de fome e, por conseguinte, sem energias, sou eu, narrador anónimo, quem de novo pega na escrita para dar conta das suas andanças, pelo menos até ao momento em que ele se dê conta da mudança.
Pois chegou ele ali, ao dito miradoiro, donde se avista toda a largura do Tejo e à esquerda o Panteão Nacional, e a verdade é que nem forças tinha para admirar a paisagem. Dormira mal, sonhara com fantasmas, o chão era deveras incómodo para os seus ossos, pelo que só desejava mesmo era aferroar dente numa bela sanduíche e verter pela goela líquido que prestasse, sumo ou leite, álcool não, agradecia, pois que não era hora, local nem próprio de cavaleiro, para mais com decisões importantes a tomar. Porém, uma vez mais um problema se lhe punha, não tinha mais dinheiro. Que fazer então?
Não teve de pensar muito para ter uma excelente ideia. No dia anterior reparara, ao passar na baixa lisboeta, ali pela Rua Augusta, que dois ou três indivíduos ganhavam a vida de uma estranha maneira, fazendo de estátuas! Se aquilo lá era modo de vida? Estar ali, assim, sem tugir nem mugir, a olhar para o boneco, à espera que lhes caíssem umas moedas à frente, numa latinha posta no chão! Curiosamente, Dom Quixote viu que a coisa até resultava, já que à medida que por ali ia passando na direcção da Sé Velha pôde ouvir por diversas vezes o tilintar de moedas que caíam nas latas. E foi ao pensar nisso que se bem o pensou, iluminado pelo pensamento, melhor o fez! Ora não era ele a figura mais do que indicada para isso, para a encenação da estátua perfeita, muito mais realista até do que os outros? Era, sem dúvida que era, pelo que não se fez rogado; e logo estacou ali em cima da garupa numa pose estudada de cariz dramático. O Rocinante alçando a perna esquerda dianteira e empinando as orelhas, esticando o rabo, e ele levantando o queixo e o braço direito com a lança, meneando ares de grande coragem e valentia. Não tardou muito que começasse a ouvir o som das moedas a cair na pedra à sua frente. E tanto sucesso fez enquanto estátua de si próprio que, passada uma boa meia hora, já dispunha de euros e cêntimos suficientes para um belo repasto. A que logo se predispôs, enchendo a barriga e sobrando mesmo para o seu fiel companheiro.
Depois, como o sol quisesse pôr-se a pino e com modos de desnudar as gentes, Dom Quixote deixou-se ficar por ali à sombra, numa das mesas da esplanada, a beber uma bica e a pensar na vida e no que fazer. Uma coisa era certa, tinha que voltar a arranjar emprego, pois andar sempre à rasca para desencantar uma refeição não era sistema que lhe conviesse, sequer pôr-se a fazer de estátua, logo ele que era um homem de movimento, de acção. A verdade é que depois de muito matutar chegou a uma simples conclusão: só sabia fazer uma coisa, só sabia caucionar a boa literatura. Foi uma conclusão a que se seguiu uma outra: haveria de ir bater às portas de outras editoras e alguma delas iria, por certo, saber fazer bom uso dos seus créditos e méritos editoriais. Sim, porque ele tinha um passado, tinha toda uma história ao serviço da defesa da literatura. Decididamente, só tinha motivos para acreditar no futuro. Vistas bem as coisas, não era um novato qualquer, não era um qualquer herói de trazer por casa que se lembrasse, de um dia para o outro, de editar livros, não, ele era o famoso Dom Quixote e sob a sua lança quantos e quantos leitores já não se tinham estreado no mundo das letras? Quantos e quantos não haviam já alcançado, junto à sua figura, um lugar no panteão dos vates? «Meu velho», dizia ele para consigo, animando-se à falta de quem o fizesse, «nada temas, os livros aguardam o teu contributo, o futuro irá com certeza sorrir-te!»
Mais animado com as considerações que no seu íntimo tecia, determinou-se a não mais perder tempo e partir em busca de uma nova editora que o acolhesse e aos seus préstimos profissionais. Não tinha sequer um currículo consigo, mas isso também não interessava. Iria de porta em porta e certamente que em alguma delas encontraria nova casa, oferecendo, a quem quisesse e soubesse aproveitar, toda a sua experiência acumulada, todo o seu know-how e prestígio. E assim galopou dali para fora descendo de novo ao coração da cidade, fintando o trânsito que uma vez mais se avolumava e comprimia em filas, buzinadelas, gases, imprecações avulsas e o demais burburinho citadino.
Como é sabido, o meio editorial é pequenino, os editores conhecem-se todos, viajam juntos para feiras no estrangeiro, guardam na memória a alegria das patuscadas nocturnas dessas deslocações, cotejam-se uns aos outros e à vista desarmada, para depois, pelas costas, sub-repticiamente se apunhalarem. Ora um se antecipa e compra os direitos de autor que o outro pretendia, ora outro esconde dos demais o seu calendário de edições previstas, ora um critica as traduções de gosto duvidoso do outro, ora um regozija com as críticas negativas aos autores dos outros, ora estes desdenham o grafismo daquele, daqueloutro e dos mais que vierem à contenda. É um salve-se quem puder bem expresso nas duas associações de editores e livreiros que o pequeno país conhece e que, regra geral, vem à baila das redacções de imprensa aquando de cada penosa organização das feiras do livro nas principais cidades do adro.
Dom Quixote, tais os seus créditos, sempre passara, ou cavalgara, à margem dessas questiúnculas intestinais, como se sabe directamente ligadas aos egos, de modo que se dava bem com gregos e troianos, com beltrano e sicrano. A todos conhecia e todos o conheciam. E se, no seu íntimo, ele nem a todos tinha em consideração, a verdade é que, e ao contrário, todos tinham consideração pela sua figura. Meio louco ou não, velho ou não, indistinto no negro da sua efígie ou não, ultrapassado e demodé ou não, a verdade é que ele era um senhor e uma personalidade incontornável no mundo dos livros e da palavra escrita. Era nisto e nestes pensamentos que o Dom Quixote se fiava ao trotar pelas ruas de Lisboa. Contudo, ao passar pela montra de uma livraria e ao percorrer com os olhos alguns livros que nela se encontravam, não conseguiu conter uma lágrima furtiva quando reparou que, em resultado da sua fuga, os livros onde antes aparecia já não tinham a sua triste figura nas capas. Como se por magia, todos os pequeninos Dom Quixote se tinham apagado das capas, deixando os livros como que órfãos de um pai editorial.
Mais incrédulo e triste ficou o cavaleiro quando viu que o livreiro em causa entrava pela vitrina adentro recolhendo à pressa todos os exemplares que se encontravam sem chancela editorial. Certamente que alguém da editora já teria informado os agentes do sector, certamente que, contra todas as directivas emanadas do racionalismo frio do director editorial, alguém, antes do tempo, batera com a língua nos dentes e a notícia já chegara às montras! O vazio que então invadiu o peito de Dom Quixote foi ao ponto de lhe fazer aflorar umas lágrimas fugazes ao canto dos olhos. Dando ares de homem valente e à antiga, de homem que não chora, foi-se dali ainda com mais disposição a ver-se de novo no lugar a que merecia por direito próprio, enfunando peito e alteando barbas nas capas de livros, de belos e bons livros, de preferência.
Quando, depois daquele triste espectáculo, Dom Quixote julgou que já nada o atiraria abaixo, animicamente falando, entenda-se, eis que o destino e língua comprida de bocas delatoras lhe prega nova partida, desta feita, passando ele frente a um quiosque. Num dos jornais, ali estava, em grandes parangonas, a notícia da sua fuga. Fuga, sim, era disso que se falava naquela capa... Naquela? Não só naquela, mas também na outra ao lado, e na outra e na outra e na outra! Todas as capas vinham com a notícia do desaparecimento de Dom Quixote, uma verdadeira «caixa» que vinha fazer estremecer os alicerces do pacato meio editorial português. Num jornal lia-se «O Cavaleiro Inexistente», numa clara alusão ao livro homónimo do escritor italiano Italo Calvino. Outros preferiam o trocadilho: «Dom Quixote em fuga; do cavaleiro nem sombra!» E lá vinha, logo abaixo da sua reprodução, a fotografia do director editorial, sorridente, apesar de tudo, não aparentando tristeza de maior. E nas poucas linhas que se podiam ler junto à sua imagem as seguintes palavras: «No mundo de hoje não há insubstituíveis. Como se sabe, de Espanha nem bom vento nem bom casamento, eu diria mais, nem cavaleiro que traga assento...» Dom Quixote leu e engoliu em seco.
À sua volta, sem que nisso tivesse reparado, amontoara-se um grupinho de curiosos que tendo lido as notícias e verificado que era o protagonista das «gordas» quem ali estava se deixou ficar a ver como aquele reagia, o que fazia ou dizia. E já uns se adiantavam no palpite a respeito do caso, comentando-o com graçolas ou, pura e simplesmente, no que é bem português, batendo ainda mais no ceguinho, duvidando da sua moral. «Hombre, quieque estás esparando? Que te vás a casa que es muy melhor, entonces no sabes que Espanha é que está a diar? Esto por aqui son todos uns cabrones, si esses que eston en el govierno, e os de las empresas la misma cosa... um hombre iega aos sessenta e já lo quieren por en la pratelera a receber pensiones de miséria...», dizia um que trazia colado à lapela um autocolante da CGTP. Já outro, mais desconfiado e sabichão, dizia para aquele como quem não quer a coisa: «Epá, ‘tás praí preocupado com esse gajo, que é mais um espanhol com’osotros, só vêm para cá mamar o deles. Vai-se a ver e o gajo veio-se embora com uma indemnização de fazer inveja a qualquer administradorzeco de empresas do Estado!» O dono do quiosque concordava com este último e já arengava: «Este é que sabe falar, então vocês não vêem que este gajo é como todos, põe-se para aqui a ver o jornal, a ler o que lhe apetece e depois comprar ‘tá quieto!» E já se preparava um outro para perorar a todo este respeito, animando-se os ares e os ânimos, quando Dom Quixote achou por bem trotar dali para fora, deixando atrás de si aquela gente a discutir sobre as vantagens e desvantagens de uma segunda ocupação espanhola. Já tinha visto tudo, já tinha ouvido tudo, já só queria resolver o seu futuro.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Recital poético


Portanto, para quem não consiga ler: Recital de Poesia, dia 14 de Dezembro, às 19h00, no Palácio Fronteira, em Lisboa.

O Homem de La Mancha (1977) - Paulo Autran

A Demanda do Bravo Cavaleiro Dom Quixote - Capítulo IX

IX.

Paula lacrimosa. Uma tragédia que a todos fez estarrecer. Uma homepage sem sombra de cavaleiro. Uma reunião de urgência. E que tal substituir a lança por uma pistola a laser? A Dom Chicote e uns rabiscos ousados. Comprado, disse o director.



Dom Quixote, mil perdões mas agora eu, e definitivamente, tomarei em mãos as rédeas da narrativa, até porque o senhor conduz um cavalo e não se deve tirar as mãos dessas rédeas. No seu gabinete, com a Dona Paula muito chorosa e nervosa à sua frente sentada, o director editorial tentou perceber o que a deixara naqueles preparos, que mais parecia que lhe tinha morrido o homem ou tivesse perdido o emprego. Lacrimosa, Paula chegou-se a ele e olhando-o nos olhos fixamente disse apenas: «O Dom Quixote, o Dom Quixote». «Mas o Dom Quixote o quê, rapariga? O que é que tem o Dom Quixote?», respondeu-lhe ele ainda sem perceber. «Foi-se embora, partiu, o Dom Quixote foi-se embora, director editorial! E eu nada pude fazer para o deter. Não imagina, foi-se daqui que parecia um louco, bem um louco ainda mais louco porque louco, como todos o sabemos, já ele era...» E diz-lhe ele, com ares de quem já não estava a gostar muito da conversa: «Ó P’ala, veja se se acalma que você não está a dizer coisa com coisa. Mas que raio de coisas anda você a ler? Essa imaginação anda um bocado destravada, não?...»
O director editorial só caiu em si quando a Paula se virou para a estante atrás de si e lhe disse para olhar, que olhasse bem lá para cima, para a penúltima prateleira, ali, para o sítio do Dom Quixote, sim, o original, o verdadeiro Dom Quixote, aquele sem o qual nenhum outro livro poderia naquela casa editar-se pois que agora se fora embora e com a sua partida se hipotecavam quaisquer hipóteses de editar outros livros, sequer mesmo fazer reedições de que título fosse! Era o fim, «o fim, director editorial, não sei se está a ver bem a tragédia que nos aconteceu!», dizia a Paula, agora de novo se descontrolando e caindo num berreiro convulso. No gabinete, todos os que ali estavam estremeceram, de resto como o director editorial que ao olhar o pequeno pedestal onde estava o Dom Quixote original se viu, enfim, esfumar-se-lhe do rosto o sorriso que trazia nos lábios desde manhã cedo.
Rapidamente, como se impulsionado por uma mola, pôs as mãos no teclado e olhou para o écran. Acedeu à internet e clicando na barra dos Favoritos linkou para a página da editora. Passados quatro ou cinco segundos de um silêncio expectante, aparecia à sua frente a homepage com as imagens das capas dos livros em destaque e, em cima, do lado esquerdo, lá estava, uma barra negra sem letras e sem nada por cima. Onde antes se lia D. Quixote e em cima se via a sombra do cavaleiro sobre a sua montada, agora nada! Por momentos desanimado, o director editorial caiu sobre o seu cadeirão de braços e pediu a todos que se retirassem. Queria estar um pouco sozinho, precisava de se acalmar, de pensar nas consequências daquele acto, da fuga de Dom Quixote. Antes da Dona Paula sair, o director editorial ainda lhe perguntou se ela lhe ouvira alguma coisa, se ele dera alguma explicação, se justificara de algum modo a sua partida. Que não, respondeu ela, que apenas o ouviu gritar em tom furibundo o nome de Etelvina, Etelvina...
Não demorou muito até que o director editorial percebesse ou adivinhasse o que se tinha passado na cabeça de Dom Quixote. A verdade é que antes de decidir inverter o rumo editorial da empresa, o director editorial, embora muito ao de leve, antevira essa hipótese, embora não tenha acreditado verdadeiramente que o velho cavaleiro tivesse coragem para se ir embora. Agora, confrontado com a realidade, com a deserção do seu logotipo, o director editorial não tinha muito por onde escolher. Uma coisa era certa, tinha que seguir em frente, tinha de encarar o problema de frente e tomar decisões, pois sabe-se que é nessas alturas que se revelam os líderes. Sem perder mais tempo, mandou chamar os seus editores e reuniu com eles, pretendendo saber que opiniões tinham sobre o caso e o que achavam que se devia fazer.
Sentados à volta da mesa da sala de reuniões, o director editorial e cinco editores debateram o caso e disseram de sua justiça sobre o mesmo. A editora dos livros infantis confessou-se estar inconsolável, pois o Dom Quixote era uma personagem muito querida das crianças e ia ser muito difícil substitui-lo. O editor de romances não se mostrou preocupado por aí além, até porque de acordo com o novo desenho editorial da casa os próximos romances a pôr no prelo em pouco tinham que ver com o passado ao qual a figura do Dom Quixote estava intimamente ligada. A editora de poesia, essa lastimou, lastimou bastante a partida do cavaleiro, dizendo que sem a sua efígie a colecção «Moinhos de Vento» estaria condenada. O editor de ensaios, por seu turno, considerou interessante a aposta que o destino lhes punha na mão com o desaparecimento de Quixote e achou mesmo que tal facto poderia suscitar uma série de ensaios muito estimulantes acerca da ingratidão e da moral. Já o editor de banda desenhada exultava com o caso, congeminando já, numa série de folhas brancas à sua frente, uma historieta qualquer que havia de ser um sucesso, vendo-se, num dos desenhos, o Dom Quixote e o Rocinante a saltarem do alto da prateleira do gabinete do director editorial com a Dona Paula aflita de braços no ar.
«O problema, meus caros, o problema é a marca, a marca! O original! Vocês não vêem que a coitada da Dona Paula tem razão, como ela sabe que sem o original não podemos imprimir mais nada?!», perguntou, mais para o ar do que para os que ali estavam, o director editorial com voz grave, pedindo depois, e agora sim aos presentes, «soluções, soluções!» Houve quem sugerisse uma batida repartida pela cidade em busca do cavaleiro, houve que dissesse que o melhor era telefonar para Espanha, que provavelmente apanhariam o homem em casa da Dona Dulcineia, e houve ainda um outro que, mais frio e racional, disse que não adiantava chorar sobre leite derramado e que o melhor era olhar em frente. Quem sabe, escolher um outro cavaleiro, registá-lo e seguir em frente, tanto mais que a partir do marco que era o lançamento do livro de Etelvina muitas batalhas se perfilavam no horizonte. Porque não? Porque não escolher um daqueles guerreiros do cinema ou dos desenhos animados? Podia ser a figura recortada a negro do Mel Gibson, não sabia se estavam a ver, no filme em que fazia de um guerreiro invencível, ou então, quiçá, o Rambo!? Não era uma excelente ideia? Trocar um herói já antigo e cheio de mofo por um herói super-moderno e actual? Substituir a lança por uma pistola a laser? Trocar aquele fato mais do que demodé por um de linhas modernas, num tecido resistente ao suor e bem mais justinho ao corpo?...
A verdade é que nada daquilo convencia o director editorial. Ele esfregava a cabeça, dava voltas e mais voltas ao pensamento, mas só conseguia pensar no livro de Etelvina e nas futuras reedições que sem o Dom Quixote não poderiam fazer-se. Mas como, como resolver o assunto? E o que dizer a Etelvina quando se esgotasse a primeira edição? Que não tinham chancela, que o logotipo lhes fugira com vergonha de se ver impresso junto ao seu nome? E iam dar-se ao luxo de perder mais uns bons milhares de euros, logo agora, logo agora que tinham acertado na mouche depois de tantos e tantos fastidiosos romances de autores melancólico-depressivos que a única coisa que sabiam fazer era entretecer-se em narrativas sincopadas de toada negra e pseudo-poética? Ah, não, não, ele como director editorial, ele que tanto pugnara para chegar até ali, até àquele dia que prenunciava sucesso para a empresa como esta nunca antes, em quase vinte anos de existência, experimentara, ele não iria agora deixar cair tudo por terra só por causa de um cavaleiro de triste figura que se pusera em triste fuga.
Pois se ele não queria enfrentar a realidade editorial, se não desejava emprestar a sua imagem aos novos títulos e autores da casa, então que partisse, mais valia que o fizesse, que eles passariam muito bem. Tratariam, tão cedo como o dia seguinte, de arranjar uma nova chancela, um novo logotipo, não um cavaleiro, não o Mel Gibson ou o Rambo, mas antes uma coisa muito mais arrojada, sim, para dar nas vistas, sem medos ou preconceitos, uma imagem que casasse com os novos livros da editora. E ele, como director editorial, profissional de quem se esperam respostas quando os outros as não encontram, ele tinha já encontrado a solução. Pois se o Dom Quixote lhes voltara as costas, muito mal fizera pois o futuro da editora era dourado. E a todos logo ali, antes de encerrar a reunião, tratou de informar do que também ali, naquele instante, decidira. A Dom Quixote transformar-se-ia em Dom Chicote. Após um curtíssimo silêncio, os editores levantaram-se e aplaudiram, congratulando o director editorial por tão notável ideia, não ao alcance de qualquer mente, antes e tão-só de iluminados como ele que por alguma razão teria chegado a director editorial.
Tinha de ser tudo uma questão de horas, avisou o director editorial antes de deixar sair os editores com algumas indicações de trabalho. Depois, mandou chamar o departamento gráfico e pediu aos criativos que trabalhassem no novo logo que tão logo quanto possível teria de ser registado. Só assim se poderia dar continuidade ao trabalho, só assim se poderiam editar mais livros, só assim o livro de Etelvina veria sucessivas edições nas livrarias, nos hipermercados, nas bombas de gasolina e onde mais calhasse quererem vendê-lo. «Rápido, rápido», pediu o director editorial aos gráficos, dando-lhes umas horas para ver os primeiros «rabiscos» da coisa. «Rabiscos» foi a palavra que o director editorial efectivamente empregou ao enxotar os criativos do seu gabinete e, nem mais adequado ao termo, foi aquilo mesmo que lhe saiu nos ditos «rabiscos» que encomendara com a recomendação de que fossem «ousados». E ousados, como se sabe, é aquilo que os gráficos ou designers, como se lhes queira chamar, mais gostam de ser. Dêem-lhes rédea solta e a sua imaginação não pára. Tanto assim é que naquele caso não parou, bem pelo contrário, o que, passadas umas horas, trouxeram ao director editorial era algo muito à frente, algo verdadeiramente ousado e que deixou o director editorial de boca aberta, mas com olho arregalado, antevendo o grande impacto que tal ousadia iria causar. Pois que lhe tinham então trazido os gráficos? Um homem, um homem de costas, nu, rabinho bem nutrido e de linhas perfeitas, vendo-se preso por entre as duas «badanas» ou nádegas nada mais nada menos do que um chicote! Em baixo: Dom Chicote. Estava «comprado», disse o director editorial, nascia uma nova editora.

sábado, 1 de dezembro de 2007

Music Silence Box - Sound Team

A Demanda do Bravo Cavaleiro Dom Quixote - ou não queremos problemas com a Dom Quixote - Capítulo VIII

VIII.

Dom Quixote de novo com as rédeas da escrita. Uma noite complicada no Castelo de São Jorge. Uma turista inglesa e o Fonseca da EMEL. Paga já, ou vou ter de mandar rebocar o bicho?



Ah, não, meu caro escritor. Não, não, insisto, vai desculpar mas agora quem pega nas rédeas da história sou eu uma vez mais e de uma vez por todas. Convirá! A um ilustre como eu não convém perder a mão, sob pena de eu próprio perder o fio à meada dos factos que eu comecei a narrar, à data encontrando-me ainda no cimo da penúltima prateleira da estante do gabinete do director editorial, como todos recordarão. Com licença, com licença, tomo a palavra e o papel.
Depois de digerido o desagradável episódio que tive com o tal agente Silva, retomei a garupa do meu alazão e fui-me pela Baixa abaixo... se é que posso utilizar a rebarbativa expressão. Segui os trilhos do eléctrico da Rua António Maria Cardoso, segui pela Vítor Cordon (onde tive ganas de me apear para dar uma espreitadela às novidades da Livraria Espanhola sita ali na esquina) e depois, com grande cuidado, continuei descendo a Calçada de São Francisco. Ao fim da rua, pouco andei em diante quando, vendo ao longe um carro de Polícia, achei por bem mudar de rumo para não ter mais azias, digamos assim. Meti para a esquerda e fui dar à desembocadura do Metro da Baixa-Chiado, voltando aí a ser alvo de todas as atenções por parte de pequenos e graúdos.
Passado um bocado, e apercebendo-me de que tão cedo não iria ter tréguas da parte daquela gente toda, olhei para o céu, já como que implorando que me deixassem em paz e sossego, e foi então que vi o Castelo de São Jorge. Foi para lá que decidi partir imediatamente, pois que se ia fazendo tarde e não podia andar nesta vida de andarilho o dia inteiro, de cá para lá, sem poiso certo onde pudesse descansar e pôr as ideias no lugar. Para mais, também havia de ser bom sítio para deixar o Rocinante a dormir. E dali nos fomos uma vez mais em esforço, pois esta Lisboa e as suas colinas são capazes de matar um homem! Ah, nessa altura bem me voltei a lembrar do meu velho amigo e servidor, o escudeiro Sancho Pança, que há anos não vejo nem dele sei notícias. Quando vim para Portugal, foi com alguma relutância que aceitou ficar em terras de Espanha, mas lá acatou e compreendeu a justificação que lhe foi dada pela editora, dizendo que pôr um cavalo e um cavaleiro numa lombada de capa já seria difícil, quanto mais a parelha e um ajudante a atirar para o forte. Que quanto aos livros grandes e grossos não haveria de ser um problema, mas que no caso dos livros mais magrinhos já tudo seria bem mais complicado, compreendesse. E ele, coitado, compreendeu, tendo-se despedido de mim e jurando nunca me esquecer, mesmo quando ao serviço de outro senhor e cavaleiro. As saudades que tenho dele!
Foi neste remoer de memórias que o tempo não gasta, pois a lembrança dos amigos não fenece, que chegámos às cercanias do Castelo. Encaminhei-me para a entrada por uma estrada íngreme e pedregosa, passei por uma escola de circo onde cumprimentei uma palhaça que ali estava em conversa com um jovem casal, e preparava-me para passar adiante através das portas do monumento quando uma voz e respectiva farda me barraram o caminho. Deti-me a ver de onde vinha o grito de «alto lá!». Olhei para a direita e de uma espécie de guarida vejo um guarda a aproximar-se. E logo antes dele: «Senhor guarda, boa tarde, pode-se?...», indicando-lhe com o braço e a lança a entrada do castelo. «Na, na, na!», respondeu-me ele. «Na, na, na?», eu. E ele: «Pois, o cavalinho tem de ficar cá fora, amigo». «O cavalinho?...», comecei eu a encher-me de calores outra vez ao ver assim tratado o meu Rocinante. Consegui, porém, refrear-me e pensar que o melhor era não responder, sob pena de arranjar mais problemas. «Com certeza, senhor guarda, e então onde posso deixá-lo?» «Ó amigo, isso é com o senhor, mas se quiser deixe-o já ali ao pé daquelas árvores.» Assim fiz e disse adeus ao meu companheiro, combinando encontrar-me com ele ali mesmo na manhã seguinte, altura em que já saberia que rumo dar à vida de ambos. Descansasse. O Rocinante resfolegou e pôs-se a enxotar moscas ao ritmo da noite que ia caindo sobre a cidade.
Quanto a mim, fui-me para o castelo. Mas, uma vez mais, as coisas não se mostraram fáceis. O tal guarda voltou ao meu encontro e barrando-me a passagem informou-me de que para entrar teria primeiro de pagar o bilhete. «Bilhete!? Para entrar num castelo que até pode estar assombrado?», disse-lhe eu indignado. «Amigo, com ou sem fantasmas, tem de pagar. A autarquia assim estabeleceu, está estabelecido. A não ser que seja morador... Será, caballero?...», volveu ele de sorriso de soslaio. «Não», respondi-lhe, «não sou morador, acha que tenho cara de morador?» Por fim, anui, revolvendo a bolsa que tinha por debaixo das vestes em procura da única moeda que tinha comigo, a tal de dois euros. Recebendo o dinheiro, o guarda lá me deixou entrar. Caminhei então rumo às ameias do castelo onde se encontravam uns canhonetes apontados sobre a colina, sentando-me aí a apreciar a beleza cálida e luminosa daquele fim de tarde sobre o casario e o Tejo. Depois de alguns minutos, adentrei-me pelas entranhas do castelo, chegando ao seu interior. Escurecia e, aos poucos, os turistas que ali estavam iam deixando o castelo. Às tantas sentei-me num canto mais recôndito a descansar os olhos e a carcaça. Foi quando depois acordei, sem fazer ideias de que horas seriam e quanto tempo teria dormido, que dei por mim numa penumbra algo... algo assustadora! Estava sozinho. Levantei-me e... ninguém! Corri para o exterior das torres, percorri as ameias e nada, ninguém outra vez. Fui até perto da porta de entrada e... fechada! Foi com um leve arrepio que me percorreu a espinha que percebi que tinha ficado ali encerrado, pelo que teria mesmo de passar a noite naquele breu.
Vagueando meio a tactear caminho, encontrei por fim um recanto que achei razoável para dormir. Deitei-me, encostei a cabeça a uma pedra e aos poucos o silêncio envolveu-me. O silêncio e a escuridão que, como todos sabem, não é nada silenciosa, antes pelo contrário, traz com ela inúmeros barulhos, estranhos barulhos, tantos que me fizeram pôr à guarda. Pus o elmo, abri os olhos e meti a lança em riste, não fosse algum inimigo tecê-las. Era já muito noite, quando oiço passos, passos e um revolver de ervas ou folhas, como se alguém me espreitasse por detrás de um arbusto. Depois, depois um ramo que estala, e depois outro e mais outro e mais outro e eu levanto-me de supetão, tropeço duas vezes seguidas mas levanto-me a tempo de lancetar os fantasmas que avançavam sobre mim, grito, corro, grito ainda, corro no encalço de estátuas que também elas animadas de vida se libertam da pedra de que se fazem para se agigantarem sobre mim, mas não as temo, não receio nem estátuas nem fantasmas, não vacilo ante exércitos do mal, eu sou o bravo cavaleiro Dom Quixote e a todos esses seres malignos que ousam afrontar-me enquanto durmo respondo com a força da minha lança, com o vigor da minha...
«Hi, hello! Hello! Excuse me, are you Ok?»… Era uma turista, uma inglesa ruiva que à minha frente se prostava, por pouco não se furtando à fúria da minha lança. Eu, bem eu acordei naquele momento. Estava meio estonteado, suava por dentro da armadura e só passados dois ou três segundos percebi que sonhava. Cerrei os olhos, depois abri-os e olhei a estrangeira que continuava ali a fixar-me na dúvida se eu estaria bem ou não. Era de dia e a luz que já banhava todo o castelo prometia mais um dia de forte calor pela frente. Sorri para a ruiva, disse-lhe que estava «Ok», anuí a tirar uma fotografia com ela e o marido e depois fui-me dali à procura do Rocinante. Quando transpus a porta de entrada do castelo, o guarda do dia anterior olhou-me com algum espanto, ficando a remoer se eu teria ou não passado ali a noite. Eu não lhe liguei e passei-lhe diante das barbas rumo ao meu alazão.
Foi com grande surpresa que quando cheguei ao pé das árvores onde o deixara preso o vi rodeado de mais um outro tipo fardado. Desta feita, não era um polícia, não era um guarda, era... era então o quê? Olho-o nos olhos, depois o peito e é aí, num distintivo, que leio: «Fonseca – EMEL». Fonseca eu ainda conhecia, um apelido como outros, sem nada de especial. Agora EMEL? «Desculpe, o que vem a ser isso de EMEL?», atirei-lhe eu quando aquele, depois de ter posto um papelinho na orelha de Rocinante, se preparava para lhe pôr um estranho objecto nas patas traseiras. E disse o tal Fonseca: «EMEL, amigo, estacionamentos, bloqueios automóveis, não sei se já ouviu falar?... E aqui o seu quadrúpede não tinha ticket!» «Não tem o quê?», pasmo eu. «Amigo, vamos lá a ver se nos entendemos, o senhor estacionou aqui o seu animal e esqueceu-se de tirar o ticket da máquina. Sou obrigado a autuá-lo e como demorava já me via na circunstância de ter de imobilizar o seu animal. Como é que quer fazer? Paga já, ou vou ter de mandar rebocar o bicho?» Confesso, não ouvi mais nada. Quadrúpede? Animal? Bicho? Imobilizá-lo? Rebocar o Rocinante? Tudo aquilo me pareceu muito estapafúrdio, tanto que não fiz mais nada nem estive com falinhas mansas. Baixei o elmo, ergui a lança e arrimei-a fremente de ganas ao rapazola que, então sim, tomou consciência de que dali não ia rebocar ninguém e o melhor que fazia era pôr-se dali a andar o quanto antes melhor para a sua saúde. Meu companheiro, disse para o Rocinante, vamo-nos daqui uma vez mais que começo a achar que nesta cidade são todos malucos e nos querem multar.

Histórias Fulminantes 52

Rimava contra a corrente, de modo que nunca conseguiu o reconhecimento dos seus pares. Na verdade, a rima melhor que conseguiu foi entre tal sorte e a morte.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Editorial

Alice, do blog http://www.atraducaodamemoria.blogspot.pt/ alerta-me, e bem, para o facto de por duas vezes, nos dois primeiros parágrafos do capítulo VII de «A Demanda do Bravo Cavaleiro Dom Quixote», surgir repetida a palavra «editorial». A verdade é que misteriosamente não consigo fazer com isso deixe de acontecer!

A Demanda do Bravo Cavaleiro Dom Quixote - Um livro lixado! Capítulo VII

VII.

Um Pêra Manca que desapareceu até à última gota. Coisas antigas, do Menano e da Severa. Alegria, alegria pura, e Dona Paula berrando ais e aflitos para grande espanto do director editorial.



É quase verdade, mas apenas quase verdade que o director editorial editorial passa este livro inteiro contente. E razões para tanto tinha-as de sobra, como vimos relatando e do relato se vai inferindo. Os horários tinham-se cumprido, os convidados não tinham faltado à chamada, os jornalistas responderam com a sua presença ao isco dos comes e bebes, Etelvina Prazeres não se tinha mostrado mal de todo na sua comunicação, ele próprio gostara assaz do seu discurso introdutório, a cena do Bigodes tinha funcionado, o almoço estava um pitéu, tal como o Pêra Manca que desapareceu das garrafas até à última gota. Porém, cedo se verá que esse seu estado de felicidade não durou para sempre.
Eram quase três da tarde quando Etelvina Prazeres e o director editorial, sempre seguido de perto pelo editor, saíram do Grande Hotel. Lisboa derretia ainda sob um sol inclemente e impiedoso, mais parecendo que se estava em Marrocos. Devidamente escoltada pelos capangas, a feliz autora despediu-se do seu director editorial e do seu editor e entrou no seu BMW, pois que tinha agora de descansar após um tão grande esforço matinal, que, soubessem, era coisa a que não estava muito habituada, o levantar-se cedo, pois, na verdade, estava muito mais habituada a viver a noite que o dia. Desculpassem, sim? Beijando-a nas faces, é claro que os dois desculparam e lhe disseram até à próxima, passe bem, nós vamo-la pondo ao corrente das vendas e contamos consigo para as próximas sessões de divulgação. Depois do BMW arrancar, de novo em grande aceleração, os dois homens dirigiram-se para o carro da relações públicas que os aguardava, pronta a seguirem para a editora.
Assim fizeram. E pouco tinham andado quando, passando pela zona da baixa da cidade, olhando o director editorial pela janela teve uma estranha sensação. Foi assim como se se tivesse assustado com alguma coisa, dando mesmo um leve salto na cadeira, endireitando as costas e abrindo os olhos mecanicamente. Vinham a descer a Rua do Ouro quando, olhando para a sua direita, na rua onde desemboca a estação de Metro da Baixa-Chiado, julgou ver um cavaleiro por entre as muitas pessoas que ali se cruzavam. Como a relações públicas guiava um pouco depressa e o semáforo se tinha posto verde, o director editorial ficou meio na dúvida sobre se efectivamente vira o que julgara ter visto. Ainda olhou para trás, perguntou ao editor se também tinha visto o mesmo, mas aquele... nada! «Cavaleiro? Qual Cavaleiro, director editorial? Não, não vi nada, vai ver foi só uma sugestão de tanto olhar para as nossas capas, isto é, para a capa do livro da Etelvina.» O director editorial concordou. Coçou a testa, estalou a língua e voltou-se para a frente, dizendo: «É, só pode ter sido uma alucinação, não foi uma manhã fácil. Um cavaleiro na Baixa, um Dom Quixote no Rossio, imagine-se, só mesmo eu, mas haveria de ter a sua graça, lá isso haveria...»
O percurso todo de volta até à editora levou-o o director editorial a cantarolar uns fados de que gostava, assim numa espécie de mix, misturando umas coisas antigas, do Menano e da Severa, com outras mais recentes, sobretudo algumas canções cantadas pelo Camané. Da Mariza não, que não gostava da pose encenada da figura, para além de que já não suportava vê-la no programa do Herman, e se era para ouvir cantar bem, bom, então que, nesse caso, preferia a Cristina Branco. «Na rua da solidão,/ Sem alegrias nem dores,/ Habita o meu coração/ À espera dos seus amores./ Meus amores onde estão?/ Uns partiram sem querer,/ Andam perdidos alguns,/ Outros são meus sem os ter/ Como se fossem nenhuns./ Quando e como os posso ver?/ Há castelos, há inimigos,/ Que não os deixam passar,/ Mas sei que não temem perigos/ E sei que me ouvem chamar./ Quero meus os seus castigos!/ Da rua da solidão,/ Onde o sol mal chega às flores,/ Parte, vai, meu coração,/ Em busca dos teus amores./ Meus amores vencerão.» E foi nisto uns bons quilómetros, mudando depois para uma quadra simples em honra da Severa, que já não sabia dizer quem a cantara originalmente: «O fado nasceu/ Num dia de Primavera/ Teve por berço a guitarra/ Por madrinha a Severa.»
Alegria, alegria pura, tanta que o próprio editor e a prestimosa e sorridente relações públicas se entreolharam como que ambos se perguntando se não haveria ali qualquer coisa a mais que falhava. Teria perdido um parafuso? Endoidecido? É bem certo que com o furo que era o livro de Etelvina as coisas, na empresa, muito possivelmente passariam a correr melhor. O livro vender-se-ia aos milhares, nisso todos acreditavam, e podia bem ser que ali estivesse o filão de que a editora necessitava para inverter um rumo de queda na evolução dos gráficos de vendas. Os últimos meses, todos o sabiam, não tinham sido nada fáceis e o futuro não se mostrava prometedor se a empresa continuasse apenas a insistir nos seus autores de sempre, sim, nos seus velhos autores, porque não dizê-lo abertamente?, nesses autores que escreviam muito bem, ninguém duvidava ou isso punha em causa, mas cujos livros, e a realidade contabilística nisso era muito crua, não havia maneira de se venderem, de interessarem ao público. De modo que apostar no livro de Etelvina, apesar de ter sido uma decisão controversa e difícil, ambos concediam, tal como os demais colegas de trabalho na editora, que era um passo não só acertado como necessário à sobrevivência de todos. Para mais, era só um livro! Que mal poderia vir daí ao mundo? A única coisa a que torciam olho, no entanto, era aquele comportamento do seu director editorial que, apesar de justificados motivos, lhes parecia algo excessivo... mas enfim, podia ser que lhe passasse...
Se o editor e a relações públicas se punham nestas dúvidas enquanto não chegavam à empresa e ouviam o seu director editorial numa quase desgarrada fadista, com mais razões de preocupação ficaram logo após terem dado por concluída a viagem. Chegados ao jardim da vivenda, estacionando no local onde estivera parado o BMW, mal saem do carro salta-lhes ao caminho, descendo as escadas a correr, a Dona Paula, berrando ais e aflitos, senhor director editorial para cá, senhor editor nem queira saber para lá, senhor director editorial, ai, o que vai ser de nós... «Mas o que vem a ser isto, P’ala? Acalme-se, mulher, acalme-se, vamos para dentro e conte-me tudo com calma!», diz-lhe o director editorial, pegando-lhe num braço e encaminhando-a para dentro da vivenda. Aos poucos, todos os funcionários da casa foram regressando da sessão de lançamento, e chegando à empresa bem dispostos e confiantes no futuro, logo, logo, ouvindo as lamúrias e desconsolos da Dona Paula, se punham de pulga atrás da orelha, estranhando o que se passava. Pois não era aquele um dia em que haviam todos de estar contentes? Só se compreendia se tivesse falecido um familiar à pobrezinha, aventou como hipótese alguém. Mas também, quem é que haveria de ter o mau gosto de se ir desta vida para a outra logo num dia como aquele, provavelmente o dia mais importante da história da editora?...

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Blogospérolas - Do blog de um taxista brasileiro

Um punhado de corridas soltas
Certos dias a literatura me abandona. Olho para meu dia de trabalho e vejo apenas algumas corridas avulsas. Uma passageira recuperando-se de um câncer de mama. Careca, devido à quimioterapia, ela está indo a uma loja especializada em perucas. Disse que não agüenta mais usar chapéus e lenços. Detalhe: leva junto seu sobrinho, com cabelos além dos ombros, que resolveu doar suas madeixas à tia doente. Professora de escola infantil, a passageira está envolvida em polêmica com pais de alunos que acham que o teatro pode induzir seus filhos ao homossexualismo (?). Casal de idosos discutindo entre si. A intolerância de ambos revela a que ponto pode chegar o desgaste de uma relação. Saíram do táxi tão alterados que esqueceram de pagar a corrida. Tive que chamar a dupla à realidade. Passageira quieta. Deu o destino da corrida e encolheu-se no canto do banco. Arrisquei oferecer-lhe meu livro, o Taxitramas. A partir daí o clima se descontraiu. Ficou com um exemplar para presentear o marido, que é jornalista. Mulher levando a mãe, cega, para passear no Jardim Botânico. A senhora idosa, que perdeu a visão há aproximadamente um ano, revelou que exercita os sentidos que lhe sobraram em meio aos sons, aos aromas, às texturas e aos sabores do parque. "Esta é a época das Pitangas!" Jovem jogador de futebol. Um empresário o trouxe da Bahia para tentar a sorte nas categorias de base do Grêmio. Levei-o até o Estádio Olímpico. Ao notar o desinteresse dos garotos que caçavam autógrafos no portão do estádio, meu passageiro sentenciou: "Um dia, eles vão correr atrás de mim". Histórias a granel, que qualquer taxista colhe em uma hora e tanto de trabalho.

A Arrumação dos Dias


A Demanda do Bravo Cavaleiro Dom Quixote - Eu até publicava isso, mas... Capítulo VI

VI.

Um assobio misterioso. Um tipo de bigodes e figura avantajada. Autores à escala real. Doutora Etelvina, devo dizer-lhe que não leio um livro desde a 1ª classe!... Um escritor deve ter cuidado.

Foi descuido, sim, confesso. Quem quiser que se queixe ao provedor dos leitores de livros... É verdade que há dois capítulos deixei a pairar na atmosfera uma ponta deste novelo narrativo que talvez tenha intrigado alguns dos leitores. Ou talvez não, mas seguramente aqueles mais atentos aos pormenores, também aqueles críticos que esquadrinham um texto ao pormenor tentando agarrar um descuido do escritor, alguma coisita a que se possam agarrar para deitar abaixo a sua obra. Mas, sinto muito, desta vez talvez não tenham sorte, porque recupero aqui e agora a tal ponta do novelo que deixei a pairar lá mais para trás. Exacto, exactamente, o tal assobio misterioso que se ouvia no salão do último piso do Grande Hotel enquanto decorria a sessão de lançamento do livro de Etelvina Prazeres. E o nome dela, da autora, sim, que também alguém gritava com voz forte e sonante.
Volto um pouco mais atrás ainda e peço ao leitor que se recorde da conversa inicial havia entre Etelvina Prazeres e o seu director editorial editorial, essa, essa mesma, a das oito e pouco, ainda bem cedo no escritório da casa editora. Entre dentes e a medo, recordar-se-ão que às tantas Etelvina Prazeres perguntou ao director editorial por um tal de Bigodes – que depois soubemos ser mesmo nome próprio, portanto a passar a grafar-se com maiúscula – e se a coisa estava tratada. Pois, recordar-se-ão também, e não será preciso interromper a leitura para voltar às páginas iniciais, que o director editorial tentou logo ali abafar e matar o assunto dizendo que sim, que a autora não se preocupasse, que estava tudo tratado, que mais não se falasse no assunto e que o livro havia de ser um sucesso, ele tinha a certeza e o mais que disse foi para ali enterrar «a coisa» de uma vez por todas.
O assobio, pois: no meio daqueles convidados todos bem vestidos, um silvo estridente a sair de entre as muitas cabeças presentes e a sobrepor-se ao barulho das palmas. Nesse instante, do primeiro assobio, só mesmo o conviva mais atento poderia ter reparado num rápido piscar de olho que o director editorial lançou, por trás das costas de Etelvina, ao editor, que lhe correspondeu com um ligeiro anuir de cabeça. Não fosse eu, modéstia à parte, narrador atento e também nele não teria reparado. Mas felizmente que reparei, podendo este dado agora transmitir-lhe, caro leitor, e permita-me que o interpele assim de forma tão directa. Pois como adivinhará, esse assobio partiu, nada mais nada menos, do tal Bigodes – frisamos, com maiúscula, pois assim é conhecido e tratado pelos da sua roda –, sendo também ele o autor dos chamamentos por Etelvina.
Ora, o Bigodes. Não uma personagem qualquer, desde logo se avance, antes uma peça a não descurar neste somatório de tantos sucessos havidos num só dia! Tantos que dariam para metade de um livro, acreditem. Era impossível, de resto, não reparar nele ou não tropeçar nele, melhor dizendo, tal o avantajamento de carnes da sua figura. Para mais, o dito fazia-se notar pela farta bigodeira – que a início lhe dera alcunha e, está de ver, mais tarde virara nome próprio –, e pelas vestes que trazia coladas ao corpinho. Vermelho! Todo ele era vermelho, de um vermelho garrido e vivo, assim a lembrar os equipamentos de um clube da capital, um clube com pergaminhos futebolísticos, com feitos históricos de monta, embora, é bem certo, alcançados há muitos anos, que de então para cá tem sido uma seca de títulos maior do que aquela que, em certo momento da história recente, calhara em sorte ao seu rival da mesma cidade, mas esse a trajar de verde.
A chegada do Bigodes ao hotel também não foi pacífica, tendo desde logo alertado os funcionários para a «peça». Chegado ao átrio de entrada, não fez mais nada, dirigiu-se a passos e braços largos e abertos para Etelvina. Quer dizer, para aquela que ele julgava ser a Etelvina, mas que era, afinal, apenas uma «sócia» da autora em cartão feito à escala real. Ou seja, uma coisa muito na moda nalgumas editoras que para promoverem os seus autores, pelo menos aqueles que são considerados best-sellers, tratam de fazer réplicas deles em cartão à escala real, pondo-os depois em locais estratégicos para ajudar às vendas dos seus livros. Há uns tempos, e a este respeito, agora que aqui se fala nisso, ouvi a um jovem escritor algarvio de rendilhada imaginação uma história curiosa que ele congeminara e pensava vir a pôr em livro. Contava ele a história de um livreiro qualquer de província que levava um desses «escritores de cartão» na mala do carro quando, a caminho do Alentejo onde residia, foi mandado parar numa operação STOP da Brigada de Trânsito. Qual não foi o susto dos agentes quando, tendo mandado o homem abrir a bagageira, se depararam com a figura encolhida de Miguel Sousa Tavares, assim meio ao lusco-fusco. Não é que sacaram logo das pistolas e queriam levar o livreiro preso pensando que ele tinha sequestrado o autor do «Equador», tendo sido o cabo das tormentas para os levar a acreditar que não era uma pessoa que ali estava?! É bem verdade, tirem daqui a lição, andar com escritores na mala dos carros, ainda que de cartão, não é coisa recomendável.
De novo no hotel, agora para contar de como o Bigodes, tendo-se apercebido da gaffe que cometera com a figura de cartão de Etelvina, se dirigiu depois ao elevador subindo até ao local do lançamento da inovadora e singular obra-prima que ali se dava a conhecer ao mundo literário. Pois à custa do seu porte teve de subir sozinho com o ascensorista, um desgraçado que levou com a sua barriga e o seu cheiro a suor, e mal chegado à zona do restaurante começou a furar por entre os convidados para se chegar perto da mesa e dos seus três oradores. Deixou-se, a início, ficar a cerca de uns três metros do local e foi daí que lançou as suas assobiadelas e os seus gritos de apoio e incitamento à neófita autora.
No final dos discursos estava prevista a sessão de autógrafos da praxe. Embora ainda levemente nervosa com todo o aparato, a autora prontificou-se à tarefa deixando-se ficar no seu lugar na mesa, onde começou a receber as pessoas em fila, isto é, aquelas que já tinham enchido a barriga quanto baste e ali voltavam para não parecerem mal. De modo que a maior parte deles voltava com o livro numa das mãos e um croquete na outra, ou então uma tâmara enrolada em presunto, quando não mesmo uma suculenta perninha de frango. Curiosamente, quem não vinha com comida nas mãos era o dito Bigodes. Ao contrário, e sendo muito de espantar pois toda a gente conhecia aquele fervoroso adepto do clube encarnado, o Bigodes levava, sem exagero, uns sete ou oito livros em cada mão. Foi facto digno de grande espanto entre os convivas, pois ninguém ignorava que o livro de Etelvina Prazeres atacava fortemente o seu ex-marido, como se sabe, um renomado presidente de um clube do Norte. Era então óbvia, mais do que óbvia, a afronta que a presença do Bigodes ali significava. Ainda para mais com uma data de livros na mão!
Fingindo-se surpreendida, quando chegou a vez de Etelvina Prazeres assinar os livros do Bigodes, a autora fez um compasso de espera, olhando-o nos olhos. Nada se incomodando com isso, o Bigodes sorri-lhe dizendo: «Doutora Etelvina, devo dizer-lhe que não leio um livro desde a primeira classe, quando a isso fui obrigado. Em casa só tenho o livro das glórias do meu clube, que está lá junto aos DVDs e, se não me falha a memória, uma Bíblia que um dia lá deixaram uns rapazitos bem vestidos e de mala a tiracolo que se diziam testemunhas de não sei o quê... Eu disse-lhes que sim, que deixassem o livro já que faziam questão, mas que não os podia atender uma vez que nem sequer tinha visto o acidente... Mas, prontos, Doutora, é só para lhe dizer que apesar disso é com muito prazer e gosto que aqui vim para que me assine estes seus livrinhos. Para quê tantos, ora, ora, para oferecer aos amigos, claro! Faça favor, Doutora, isso, aí está muito bem, pois, pois... Este primeiro é para mim, ponha aí, para o Bigodes. Os outros...»
E esteve naquilo uns dez minutos, tecendo loas à Doutora, dizendo-lhe, um a um, os nomes dos amigos aos quais desejava ofertar a obra. Tudo foi correndo de forma pacífica até que no fim, depois de muita risada e estardalhaço – cumprindo assim a missão «publicitária» que lhe fora encomendada –,tudo ia dando para o torto, quando, já muito farto de ouvir e ver o Bigodes a engalanar-se todo a si e ao seu clube, não se mostrando capaz de engolir a afronta da sua presença ali, um adepto do clube nortenho esteve em vias de ir às trombas do Bigodes, só isso não acontecendo porque os dois capangas da senhora Etelvina intervieram de imediato pondo fim à hipotética contenda que se ficou por umas ofensas e uns palavrões de parte a parte. O Bigodes só dizia: «Anda cá que eu espeto-te um kit no focinho, ó filho da puta»; e o outro: «Bigodes de merda, vê lá é se não te fo...». Bigodes, sim, rimaria com o termo censurado, mas é melhor não entrarmos por aí sob pena de se achincalhar um texto que até agora tem sabido eximir-se a palavrões e asneiras, e, já sabem como é, um escritor tem que ter cuidado com estas coisas pois os críticos andam aí!

Cine-Silêncio Jim Jarmuch - Coffee And Cigarettes

Silence Artnews - O regresso do Cirque du Soleil


Quando ainda se apresenta em palco entre nós está já agendado novo regresso a Portugal do prodigioso Cirque du Soleil. Acontecerá entre 24 de Abril e 11 de Maio, no Passeio Marítimo de Algés. O novo espectáculo chama-se Quidam, pronunciado “key-dam”; vem do latim e significa transeunte anónimo, uma figura solitária numa rua qualquer, alguém que passa à pressa, que se sente sozinho no meio da multidão. Dirigido por Franco Dragone, Quidam transforma um mundo anónimo num espaço de esperança e de relacionamentos. Em palco maiss de 50 artistas de mais de dez países irão combinar arte acrobática, mestria técnica, criações extravagantes e inspiração musical excepcional, harmoniosamente entrelaçadas por um fio emocional dramático. Os bilhetes estão já disponíveis na FNAC, Bulhosa, Bliss, Worten e Abreu e à venda para os membros do Cirque Club em http://www.cirquedusoleil.com/

In Silence Progress - Jorge Martins


De 5 de Dezembro até 18 de Janeiro oportunidade, em Lisboa, na Giefarte, Rua da Arrábida, 54 B/C, para apreciar novo capítulo na pintura de um dos mais destacados pintores nacionais, Jorge Martins. «O Instante de Um Corpo» é o título desta reunião de novos quadros em que o artista se reinventa na procura do dizer.

Tábuas de Silêncio - O Fazedor de Teatro


Hoje e amanhã, às 21h00, no CCB, derradeiras oportunidades para (re)ver a peça «O Fazedor de Teatro», de Thomas Bernhard, que a Companhia de Teatro de Almada repõe com encenação de Joaquim Benite. «O Fazedor de Teatro» ganhou em 2004 o Prémio da Crítica.

Silence Artnews - Hermitage para crianças


Exposição Arte e Cultura do Império Russo nas Colecções do Hermitage
Visita Orientada para Crianças dos 6 aos 10 anos
Todos os Sábados às 15h00
Durante as férias de Natal, dias 17, 18, 20, 21, 27 e 28 de Dezembro às 15h00
Inscrições abertas através do telefone 213650800, ou na bilheteira da exposição no dia da visita

Silence Artnews - Colecção Tempo do Vinil

http://www.photosbyworld.com/e-card/tempodovinil/
À venda a partir de hoje, para rever e coleccionar os grandes marcos da música portuguesa das suas últimas décadas.

Histórias Fulminantes 51

O Senhor K. leu: Na perseguição que moveram ao ladrão as testemunhas oculares tropeçaram e partiram os óculos, pelo que o seu testemunho em tribunal não foi considerado válido.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Outros Silêncios

«O silêncio é invenção da boca humana. O animal levantou-se nas suas duas patas e escutou o não-ruído. O predador furtivo estava perto. O não-ruído é o que precede a caça e o caçador. O não ruído antecipa o uivo e a trituração. As criaturas fizeram então o silêncio para suplantar o não-ruído. A pausa das batidas do coração carnívoro e devorador. Até então a floresta mugia (...) Tristes criaturas guardaram o silêncio contra a morte, o não ruído. Cantam para fazer o silêncio, como os pássaros e as baleias no bojo das trevas. Um silêncio mortal sob o signo da sua finitude, a seta desferida, a certa, despedida.»

Maria Velho da Costa, in «Textos Pretextos», 2004

Pais e Filhos - Eagle-Eye Cherry - Skull Tattoo

Pais e Filhos - Neneh Cherry

Pais e Filhos - Don Cherry com Sonny Rollins

A Demanda do Bravo Cavaleiro Dom Quixote ou Epá ideia do caraças! V Capítulo

V.

Trocas no desfiar do novelo narrativo. Dom Quixote às aranhas por Lisboa, dando ares, ais e uis de poeta. Um prestimoso oficial de segurança pública. Uma opinião discutível enquanto japoneses disparam em fila no Chiado. Ó Silva, epá, deixa o homem!...



Enquanto toda a sessão do lançamento de «Etelvina Prazeres – A Verdade de Cristal» decorreu com franco sucesso, como disso atrás se deu conta e relato, Dom Quixote continuava como se às cegas deambulando pela cidade. Desnorteado, uma vez mais, pois à custa do imbróglio em que se metera na rampa do parque de estacionamento da Gulbenkian, o seu alazão deitara-se dali com ele à garupa desencabrestado pela cidade, fugindo, para onde o galope o levasse, dos automobilistas cujos carros amolgara com os cascos. Destreinado que estava, e como se o último dos automobilistas da fila tivesse feito marcha atrás para vir no encalço deles, Rocinante mal se tinha nas pernas quando, por fim, puderam refrear o passo e descansar um pouco. Mas não foi nada fácil, e a única coisa que os safou do encalço do furibundo automobilista foram os semáforos vermelhos que aquele encontrou pela frente e que Rocinante olimpicamente ignorou, com grande risco para as vidas de montada e cavaleiro.
E neste ponto aproveitamos para de novo passar a palavra ao próprio Dom Quixote, afinal, como ninguém, homem de bela e segura literatura. Creio que nas mãos da sua escrita ficarão bem entregues para atravessarem a leitura deste capítulo. Verdade também se diga, e o seu a seu dono, foi Dom Quixote quem começou este relato, tendo-me eu, narrador, às tantas, apropriado da sua narração sem pedir licença. Por isso mesmo, e desde já, é essa mesma licença que pedirei ao cavaleiro para mais daqui a pouco tomar de novo as rédeas deste relato, nomeadamente das peripécias ocorridas no outro lado da história, isto é, seguindo os passos do director editorial e sua equipa, até porque Dom Quixote já não se encontra perto deles para o poder contar. Mas calo-me, senhor Dom Quixote, a narrativa está por sua conta.
Estava a ver que nunca mais, homem. Eu para aqui perdido, aflito, sem saber para onde ir e o que fazer, e você aí, a entreter o leitor com palavreado. A isto, meu fiel Rocinante, à história antes que um qualquer escritor arrivista venha e se aproprie destas ocorrências, deste caso sui generis havido na edição literária portuguesa. E faço aqui o ponto da situação, até para minha própria contextualização. De outra forma, belisco-me (ai!!!) uma vez mais para confirmar que estou acordado, que tudo aquilo que até agora se contou se passou realmente, que eu, ilustre Dom Quixote de La Mancha, cavaleiro em Portugal há quase duas décadas pugnando pelo bom nome da literatura e da edição em português, me vi na circunstância de ter de me vir embora, envergonhado que estou do rumo editorial a que tentavam agregar o meu nome, a minha silhueta! Eu, na capa de um livro, lado a lado com o nome de Etelvina Prazeres!!! É lá isso possível? Ah, mas não, se pensavam que eu ia comer e calar bem se enganaram, Dom Quixote não cala nem consente porque é filho de boa gente. A moral, a moral e a dignidade acima de tudo, de todas as razões, de todos os propósitos. Maquiavel comigo não! Comigo nunca, que de outra estirpe de homens me faço, ontem, hoje e para todo o sempre, assim o afirmo sobre o nome da minha adorada Dulcineia.
E agora, onde estou? Que raio de cidade esta que já não conheço. Ups, o Marquês, o velho Marquês do Pombal, ah, sim, agora estou a ver onde estou, a velha Rotunda, pois então, se não me engano, para baixo, sim, para sul, deve estar para ali o Tejo. Ala, meu fiel Rocinante, que aqui não é bom sítio para nos determos por muito tempo, cuidado com os carros, ui, ai, vamos, vamos, atenção ao autocarro... Ah, sim, este cheiro, este cheiro, sim, conheço... a água, o rio, a frescura das águas do rio, sim, é o Tejo... Ah, velho e bom Tejo que nasces a beijar as terras de Espanha vindo exilar-te, por entre pedregosas e sinuosas margens que te oprimem, em solo lusitano...
Peço desculpa, mas tenho de interromper novamente o discurso de Dom Quixote, não porque o mesmo não seja interessante, mas antes porque o letrado se demora demasiado nos ais e uis que lhe custou mais este troço da sua fuga citadina em direcção às águas do Tejo. E ainda para mais quando começa a dar em poeta! De modo que, assim ele me desculpe e os leitores, reportarei desse percurso atribulado os acontecimentos mais relevantes para uma boa fluência da história, tentando eu mesmo levá-la doravante até ao fim. Era já hora do almoço e o nosso cavaleiro ainda não tinha levado nada ao estômago. Quer ele, quer o seu cavalo estavam, por assim dizer, esfaimados. De modo que foi a custo que desceram toda a Avenida da Liberdade, não só pelo calor como, voltamos a referi-lo, pelo trânsito que não dava mostras de melhorar.
A sorte do cavaleiro, como já dissemos, foi que todos na cidade que com ele se cruzavam achavam que era apenas um figurante numa qualquer campanha publicitária que os nossos vizinhos espanhóis estivessem a patrocinar em solo português. Provavelmente, a tentarem espetar a primeira lança de uma invasão castelhana em Portugal!, pensavam uns, enquanto que outros, pouco se importando com isso (sobretudo aqueles que até nem viam tal hipótese como algo a descartar – eram, sobretudo, tipos que no antigamente fumavam Ducados, torciam pelos espanhóis no hóquei em patins e, claro, sempre que podiam davam um salto a Badajoz a comprar caramelos e lavanda), dele se aproximavam a ver se lhes calhava um presentito qualquer, um recuerdo, quem sabe uma T-shirt a dizer Viva España, ou então um crachá ou até mesmo um caramelito que fosse...
Incomodado com a fome e com os portugueses que o abordavam no seu portunhol característico («Hombre, tienes presentes para mi?»; «Ó Quixote, o que é que tienes aí para a giente?»), Dom Quixote deles se ia libertando como podia, ora apontando-lhes a lança, ora sugerindo-lhes valente pontapé. «Não pares, meu alazão, não pares, que esta gente é pior do que as moscas à volta da bosta! Mete por aí, vá, vamos por esta rua a ver se os despistamos.» A verdade é que somente a eles, e a mais ninguém, se despistaram novamente, tendo ido parar ao Chiado após íngremes subidas que deixaram Rocinante extenuado. Tinham de parar e foi o que fizeram chegando ao Largo do Chiado, o velho «frade putanheiro», no dizer do grande escritor José Cardoso Pires, que Deus o tenha junto de si no Olimpo literário. E foi junto à estátua do dito frade, sempre na sua pose agoirenta de vendilhão de banha de cobra, que Dom Quixote desceu dos estribos dando alguma folga e descanso ao seu companheiro de fuga. Como se não houvesse ali lugar para deixar a montada Dom Quixote percorreu o lugar em volta com o olhar, até dar de caras com um agente da Polícia de Segurança Pública, que dele se aproximava com um bloquinho de multas na mão.
«Ora muito boa tarde senhor cidadão», disse o agente. «Então o que é que temos aqui?», perguntou ao Quixote como se não soubesse de antemão o que ali tinha e que não era senão um cavalo mal estacionado. «Já sei», respondeu-lhe o Quixote, «aqui não se pode estacionar, não é?» «Correcto, cidadão, é exacto, confirmo». «Ó senhor guarda, mas onde estaciono então o animal que me está prestes a desfalecer não tarda?». Apercebendo-se de que de facto Rocinante não estava nas melhores condições, para espanto e alívio de Quixote, o guarda disse-lhe que desta vez lhe perdoava a multazinha e que, sendo ele membro da direcção da Liga Portuguesa dos Amigos dos Animais, ele próprio teria muito gosto em levar dali o bicho e pô-lo a descansar em sítio apropriado, nas cavalariças da esquadra de Polícia que não era longe, era, imaginasse e visse nisso a sorte com que estava, mesmo ali ao lado, a dois passos!» Dom Quixote agradeceu e aceitou, dizendo ao prestimoso oficial de segurança pública que então daí por uma horazita, pouco mais ou menos, que era só o tempo de ajeitar o estômago, por lá passaria a buscar o animal para depois seguir viagem.
Assim fez e logo ali ao lado se sentou numa mesa que uns estrangeiros, entusiasmados pela cena que haviam testemunhado e fixado em fotografia, tinham acabado de vagar. Foi já sentado e com a lista dos comes e bebes na mão, que o empregado lhe trouxera, que virando-se para o lado deu de caras com Fernando Pessoa. Com Pessoa, vamos lá, enfim, com a estátua do poeta dos heterónimos. E foi coisa de mais espantar, pois era a primeira vez que quem frequentava a esplanada via lado a lado os dois vultos maiores das literaturas ibéricas... Bem, quer dizer, é uma opinião possível, pois certamente que outros a não corroborarão lembrando o narrador, assim pudessem, que outro vulto maior das letras lusas havia e que, por sinal, até bem perto daquela cena se encontrava. Era Camões, pois claro, também em forma de estátua cinquenta metros ao lado, mas, e concedemos neste ponto, com muito maior dignidade, já que a sua estátua não só era muito maior que a de Pessoa, que até se encontrava sentado, mais parecendo um velho que não se aguentasse nas pernas, como também mostrava muito claramente aos olhos do povo quem, de entre os aedos nacionais, era o maior entre os maiores. E quem? Ele, claro, o autor d’«Os Lusíadas», ou não encimasse a sua estátua o pedestal onde se encontrava, tendo abaixo de si, e a toda a sua volta, os outros lentes literários, numa clara posição subalterna.
Dom Quixote escolheu o bom e o melhor que constava na carta. E, claro, não familiarizado com a novidade dos euros não fez contas à despesa final. Verdade se diga que mesmo que as quisesse ter feito, não sei se teria conseguido chegar a valor fidedigno, ou não fosse ele um poeta, um escritor, um homem de letras e não de números! Mas adiante, para confirmar que estavam boas as entradinhas de presunto e cogumelos fatiados, que o strogonoff não lhe pareceu mau de todo (face à zona turística onde se encontrava) e que o gelado lhe caiu que nem ginjas, que por acaso também as tinha, no topo, em vez da costumeira, cereja. Lambeu os lábios por diversas vezes, afagou o estômago e limpou barbas e bigodes, dando-se por refeito de energias e satisfeito quanto baste. Quando olhou em frente, muito espantado ficou com uma fileira de japoneses que, uns ajoelhados, outros de pé, lhe tiravam fotografias a torto e a direito. Indignado por aquela invasão de privacidade, Quixote pegou instintivamente no elmo que estava na cadeira à sua frente e fez-lhes o gesto de quem lhes iria atirar-lho, acompanhando o acto de um sonoro Xôooo. Foi o suficiente para que todos, a rir a aos pulinhos, se fossem dali para diante a fotografar o mais que entendessem, detendo-se agora num pedinte com uns sete cães à sua volta que todos certamente acharam muito curioso e muito típico.
Como a sua figura teve o condão de chamar à esplanada inúmeros outros clientes, a gerência do estabelecimento de restauração fez o obséquio ou teve a delicadeza de deixar a conta de Dom Quixote por conta da casa, passe a redundância. Só quando isso mesmo lhe foi transmitido é que Dom Quixote se lembrou de que não tinha um tostão furado, ou deveria dizer um euro furado? Bem, ter até tinha, mas era pouca coisa, uma moeda de dois euros que trouxera de cima da secretária do Director editorial... Menos mal, agradecia muito ao gerente e até mais ver que tinha de ir buscar o seu alazão. Pegou no elmo e pôs-se a caminhar pela rua que ia dar ao Teatro Nacional de São Carlos. Perguntou a um transeunte pela esquadra e devidamente encaminhado para lá se dirigiu sem mais demoras. Chegado à esquadra, a coisa começou por não correr muito bem, já que o sargento que estava de plantão à porta não quis acreditar na sua história, para mais quando Quixote lhe diz que era, nem mais nem menos, Quixote, o próprio, em carne e osso, e que vinha buscar Rocinante que um colega do sargento para ali tinha trazido. «Pois, pois, tu és o Quixote e eu sou o Camões», atira-lhe o sargento em tom de graçola retorcendo o olho, fazendo de cegueta como o poeta de quinhentos. Que não, que não, que era verdade, jurava-lhe Dom Quixote, mas o outro nada, apenas lhe dizendo: «Epá, ó Quixote, já me estás a dar calores, zarpa daqui antes que te enfie a lança num certo sítio e vás daqui a arder para a tua terra, não sei se estás a perceber.» Ouvindo isto, Dom Quixote pôs-se aos berros, enxovalhado na alma que estava como não se lembrava havia muito tempo. Lá de dentro do pátio do quartel, ouvindo a berraria, surgiu então o agente que tinha levado o Rocinante para ali e, vendo a cena, logo tratou de tudo esclarecer e apaziguar os ânimos. «Ó Silva, epá deixa o homem que ele está a dizer a verdade... Quer dizer, a verdade sobre o cavalo. Agora, se diz que é o Quixote, epá deixa-o dizer, cada maluco com a sua fisgada! Tu não te lembras do agente Ramos que às tantas deu em dizer que era o Cesário Verde?» E por ali se ficou a conversa. Quixote e o agente de segurança foram aos estábulos buscar Rocinante e de novo o nosso homem se pôs ao caminho. Ainda que de rumo desconhecido. Fazia-se tarde, havia que encontrar rapidamente um local para passar a noite e com a calma suficiente para poder ordenar ideias, pensando no que fazer no dia seguinte.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Don Quijote de La Mancha

A Demanda do Bravo Cavaleiro Dom Quixote - Epá, grande ideia! - capítulo IV

IV.

Coisa diplomática, visita de Estado e outras pressas ministeriais. Interesses superiores, Etelvina e os capangas. Aperitivos, drinks e jet set. Uma sessão que foi um sucesso, apesar da inexperiência da autora que em tempos imitara Whitney Houston.



Seis, sete quilómetros, por aí terá ficado a distância percorrida pela caravana editorial que naquela manhã deixara o escritório com grande estrépito de rodas comendo o asfalto. Batedores da GNR à frente e outros atrás, lá conseguiu o BMW atravessar o trânsito citadino e chegar a tempo e horas à recepção agendada para os convidados ilustres no Grande Hotel da capital. Parecia coisa diplomática, visita de Estado ou então as habituais pressas ministeriais, sempre a grande velocidade, mais do que a permitida por lei, justificada, claro está, pelas superiores razões de Estado, que a tudo servem, está de ver, quando necessário. E pelas ruas por onde passaram sempre a mesma indignação dos automobilistas, obrigados a parar para ceder passagem à comitiva. Os impropérios foram de índole diversa, não convém aqui reproduzi-los de modo a não tornar a escrita ou a leitura desagradáveis. Curiosamente, houve também alguns transeuntes que à passagem dos motociclistas e do BMW acenavam para os mesmos, provavelmente pensando que no seu interior era alguma figura de Estado estrangeira que se encontrasse de visita ao país. Tão eufórico e fora de si com tudo isto estava o director editorial que, às tantas, não resistiu mesmo, abrindo uma janela e com o braço de fora lá foi retribuindo acenos aqui e acolá. Parecia agora um candidato político em campanha e não fosse a senhora Etelvina ter-se queixado do vento excessivo que lhe perigava o penteado e ele teria continuado naquela «festa eleitoral» até final do percurso.
Tinham enfim chegado. O director editorial estava feliz, os horários cumpriam-se com pontualidade britânica graças à batida policial. Haveria, de resto, e oportunamente, de agradecer em pessoa ao comissário Lemos Matoso a disponibilidade própria e do seu pessoal para atendimento deste caso, sabendo, no imediato, intuir-lhe e reconhecer-lhe o seu interesse superior. Ao lado do director editorial, durante todo o percurso, a senhora Etelvina sempre de óculos escuros, agora nisso como que se solidarizando com os seus dois «capangas» que seguiam também no carro, um à frente e outro no banco de trás.
Quando todos deixaram o carro, foi, desta feita, a vez do pessoal do hotel se prontificar para lhes fazer escolta até ao átrio de entrada, onde já se encontravam dois ou três convidados mais madrugadores. Vendo a distinta comitiva, os turistas que por ali também se encontravam por mera casualidade, preparando-se para o pequeno-almoço ou para uma passeata a pé pela cidade, muito se admiraram com o que aos seus olhos se deparava. Um deles, um inglês ruivo e de ar leitoso, mais curioso, não fosse estar ali a cruzar-se com uma alta individualidade do país anfitrião, chegou-se ao pé de uma assessora de Imprensa e diz-lhe: «Who are they? The prime-minister’s wife?» Ao que ela, sorrindo: «Oh, no, no, much more important than that, a writer» (ficando na dúvida se deveria ter antes dito novelist). E acrescentou: «In fact, our prime-minister is not married.» «Oh», volveu o inglês, tendo certamente ficado a pensar que nem na sua Inglaterra se tratavam tão bem os escritores. E mais disse, pondo-se a andar para o sol exterior, ainda relanceando de novo o aparato da cena voltando a cara para trás: «Must be a very important one, who knows may be the next Saramago...» O director editorial nada disto ouviu, mas provavelmente teria gostado de o ouvir...
Beijinho para cá, beijinho para lá, muitas felicitações e os parabéns da praxe, a senhora Etelvina, já sem óculos, tentava agora, uma vez mais, descontrair. Um a um, o director editorial ia-a apresentando, orgulhoso, aos diversos convidados que iam chegando. «A nossa autora», dizia ele, aos que os outros e a senhora Etelvina sorriam com algum desconforto, apertando as mãos, no caso dos homens, beijando as faces no caso feminino. A todos os que iam chegando, num dos lados do salão de entrada do hotel, uma menina de farda vermelha e sorriso Pepsodent oferecia um exemplar do «Etelvina Prazeres – A Verdade de Cristal». E todos, à vez, contentes com o seu exemplar se dirigiam agora para uma das suas portas do elevador onde um impecável ascensorista as aguardava para subirem até ao último andar do edifício, onde, no restaurante panorâmico, teria lugar o lançamento do livro propriamente dito. Em baixo, e como o tempo avançasse, também o director editorial, o editor e a autora se dirigiram prestes a um dos elevadores. Para trás, ficavam agora apenas a menina da banca de livros improvisada, e duas assessoras de Imprensas encarregues de receber os senhores e senhoras jornalistas, assim fossem chegando, aos quais entregariam um dossier de Imprensa. O livro, esse, teriam, posteriormente, de pedi-lo para os escritórios, assim o desejassem, pois aqueles exemplares que tinham trazido destinavam-se a oferta aos convidados.
No topo do edifício, com a luz alfacinha a trespassar as enormes e largas vidraças, inundando todo o ambiente, encontravam-se agora convidados e jornalistas em suficiência para que pudesse dar início à sessão. Antes disso, e enquanto empregados do hotel, serviam, de cá para lá, e de lá para a cozinha e regresso, uns aperitivos e uns drinks, conversava-se animadamente, uns de livro aberto, outros de olho nos acepipes, outros ainda, sobretudo esses malandros dos jornalistas, de olho na mesa dos mariscos. Junto à autora e ao director editorial, uma figura do jet set, aí dos seus sessenta bem entrados e plasticamente mantida em forma para a fotografia, referia, com ares doutos de crítica literária: «Querida, está óptimo, você nem imagina o prazer que eu tive ao ler o seu livro. Hummm..., a sério, mais emoção mesmo só nos livros da Susanna Tamaro e do outro... ai, como é que se chama?... aquele, ajude-me, ai... e eu que gosto tanto dele, o... o...» «Coelho? Paulo Coelho», ajuda-a a autora, mostrando assim os seus vastos conhecimentos literários e a abrangência das suas leituras. «O Paulo, sim!», responde-lhe a outra, tratando o escritor brasileiro como se o conhecesse lá de casa. E continuava, agora para o director editorial: «Parabéns pela aposta ganha. Acho maravilhoso dar voz a pessoas aqui como a senhora Etelvina, pessoas com algo de verdadeiramente interessante a dizer, pessoas que o meio editorial sempre calou afastando-se da realidade. Sim, porque eu acho que a literatura portuguesa já merecia autores assim. Parabéns, muitos parabéns querido.» E foi-se dali com o seu sorriso sempre ligado, como se se tivesse engasgado e estivesse aflita, de olhos esbugalhados.
O director editorial, também ele, parecia ter aprendido rápido com aquela gente da socialite lusa, que por tudo e por nada distribuía sorrisos e dizia, sem ter porquê a respeito do que fosse, «acho óptimo, óptimo, óptimo.» Apertos de mão, abraços à companheiro comuna aos mais próximos, o homem estava feliz, verdade se diga, e verdade se diga como havia muitos anos não o viam aqueles que com ele privavam diariamente. Aquilo, quanto a mim, que o conheci como poucos – tanto mais que foi com ele que trabalhei desde que vim para este país defender a dama da literatura –, não era apenas um caso de deslumbre editorial ante a possibilidade de ter agarrado em mãos um best-seller. Não, a coisa parecia-me, sinceramente, bem mais grave, coisa talvez mesmo a merecer visita a psicólogo ou a psiquiatra – sim, não espantem, pois não estão hoje tão na moda estes profissionais médicos, a quem quase já não existe quem não recorra por dá cá aquela palha! Pois a mim, parecia-me caso digno disso, era, claramente, uma patologia a merecer moldura clínica.
E agora que penso nisso, recrimino-me por não o ter notado mais cedo. Sim, logo quando, há cerca de um ano, o director editorial resolvera começar a frequentar um curso para reciclagem editorial à luz dos novos mercados, uma coisa que lhe chegou ao conhecimento por correio simples, num prospecto banal onde se convidavam os profissionais da área a frequentarem cursos diversos. Se a princípio achei por bem que o fizesse, até porque se encaminhava a passos largos para os sessenta anos, e pôr-se a par de novidades do mundo editorial parecia-me uma maneira acertada de não perder passo face aos últimos avanços na matéria, mais tarde, quando começou a frequentar feiras do livro «alternativas» e a comprar direitos sobre livros «duvidosos», de cariz esotérico e outros, aí, bem aí, eu devia ter-me apercebido de que alguma coisa dentro daquela cabeça não corria bem. Agora, agora parece tarde de mais; aquele brilho no olhar já não é o mesmo, já não lhe denoto o gozo literário que antes expressava e de que se orgulhava como poucos, mas antes um brilho que reluz como o raio de sol batendo no ouro dos cifrões, ou, para sermos mais contemporâneos, no brilho dos euros.
Embora com uma pequena décalage em relação aos horários estabelecidos, a sessão teve, enfim, começo. Na mesa, ao centro, o director editorial, a seu lado, a autora, do outro lado, o editor. À sua frente, um vasto auditório, agora muito bem composto, caras conhecidas, boa apresentação, e também os jornalistas, menos compostos, é certo, como é da classe, todos petiscando de copo na mão, agora fazendo silêncio para as palavras que o director editorial se preparava para dizer dando a sessão por aberta. Chamando a si as atenções, os microfones e os holofotes das televisões presentes, o director editorial, na primeira pessoa: «Meus amigos, senhoras e senhores, ilustres convidados, senhores jornalistas, começo estas breves palavras de apresentação do livro «Etelvina Prazeres – A Verdade de Cristal», por agradecer, em primeiro lugar, e naturalmente, à autora. Agradecer o ter-nos escolhido para ser a sua editora, a sua casa editorial (querendo com isto dizer que é, doravante, como se em sua casa que entre nós queremos que se sinta), agradecer a sua disponibilidade demonstrada ao longo de todo o processo de preparação da obra e, sobretudo, a sua confiança nos nossos profissionais, desde o senhor editor aqui ao nosso lado, cuja presença e trabalho desenvolvido aproveito igualmente para felicitar, até aos designers que pensaram a capa, passando por todas as outras pessoas que, de uma forma ou de outra, se empenharam para que este livro viesse hoje a estar aqui, nas nossas mãos, pronto para chegar ao público, afinal de contas, razão última, e primeira, do nosso trabalho, do nosso existir. Etelvina Prazeres, como todos saberão, é uma mulher de armas – e não querendo, desde já, desvendar os segredos do livro, tirando-vos o prazer da leitura, posso, no entanto, dizer que passagens há que ilustram cabalmente isto que acabo de dizer. E, por conseguinte, Etelvina Prazeres não teme. Não teme pôr a verdade preto no branco, não teme dar a cara por esta sua verdade de cristal. Verdade de Cristal porquê? Porque se trata de uma verdade, a sua, que sendo cristalina também se revela capaz de quebrar com muitas outras verdades falsamente instaladas. Creio que para além disso, para além desses aspectos, mais ligados à vida do futebol nacional, nomeadamente aos momentos vividos com o senhor presidente de um conhecido clube nortenho que todos conhecem, este livro colhe, repito, este livro colhe igualmente por via da sua faceta sensível, por encobrir, descobrindo, nas entrelinhas do texto um outro cristal, um cristal que não é senão a personalidade simultaneamente dura e frágil de Etelvina Prazeres. Uma vida, em breves palavras, arrancada a pulso e com muito jogo de cintura, uma vida galgada degrau a degrau, amparando golpes sobre golpes, daqueles que a invejavam pelo modo como, subindo, conseguia manter a sua aura de integridade. Creio que a prova maior dessa sua inteligência na escalada da vida é o modo despretensioso como se revela neste livro, nesta obra que é a sua vida, a sua experiência, a sua cara. Espero que todos vós, tal como eu experimentei, sintam o mesmo prazer na sua leitura. À nossa nova autora, uma vez mais, o nosso obrigado».
Tendo-se contido, o discurso não durou muito mais de dez minutos. Os flashes dos repórteres fotográficos encheram a sala, tentando captar as reacções dos oradores e dos Vips presentes na sala, que, com grande probabilidade, fariam as capas das próximas edições das revistas cor-de-rosa. O auditório pareceu ter gostado do que ouviu e retribuiu com um caloroso aplauso. Do meio das palmas, ouviu-se mesmo um forte assobio e alguém que gritava bem alto «Etelvina, Etelvina, Etelvina...» O director editorial, com os braços esticados para diante pedindo de novo silêncio na sala, passou de imediato a palavra ao editor. Que disse, dizendo que o seu director editorial já praticamente tudo dissera: «Bom dia a todos... Eu queria apenas também agradecer à Etelvina a oportunidade profissional que me concedeu ao trabalhar comigo na realização deste trabalho. Creio que o resultado está à vista e é uma obra que honra o percurso de ambos. Devo, contudo, dizer que a maior parte do mérito pertence-lhe a ela, já que eu me limitei a sugerir este ou aquele enquadramento temático, este ou aquele prisma de apreciação, este ou aquele estilo de escrita. Etelvina, muitos parabéns!» Um novo aplauso entusiástico percorreu a sala, momento que os jornalistas aproveitaram para lançarem novo punhado de cajus e amendoins à boca. E nesse ínterim, de novo uma forte assobiadela e de novo o nome da autora ressoando entre as palmas: «Etelvina, Etelvina, Etelvina!!!» Novamente, o director editorial teve de intervir, desta feita, levantando-se mesmo e pedindo silêncio à audiência. Teria a palavra a autora, fizesse favor, o microfone era todo seu.
Com o micro à frente da cara, Etelvina mostrou-se à-vontade com o objecto. Quis mesmo segurá-lo com as mãos, aproximou a boca demasiado e o som das primeiras palavras soou algo distorcido. Dando-lhe uma dica em voz baixa, o director editorial explicou que não era necessário segurar o microfone e que poderia falar sem dele se aproximar em demasia. Etelvina sorriu e lá disse: «Peço perdão, não estou habituada a este tipo de objectos, a única vez que peguei num microfone foi quando servia à mesa e o dono do bar me pediu que subisse a palco para fazer uma imitação da Whitney Houston, que é uma cantora que eu adoro... E... e... prontos... eu peço desculpa, mas tudo isto é novo para mim... enfim... acho que o que vos queria dizer, para além de agradecer a vossa presença e o vosso apoio, é que estou muito contente, muito feliz mesmo com este livro, que considero um passo em frente na minha vida. Devo dizer que nunca pensei em escrever um livro, que era um objectivo que não estava nos meus planos, e que foi graças a estas pessoas ao meu lado que esse livro hoje existe e é uma realidade palpável. Eu sei, eu sei que vai ser uma coisa que vai suscitar muita polémica, mas eu tinha que o fazer, tinha que dizer a minha verdade, contar o meu lado da história. E, estou em posição de vos garantir, toda essa verdade de que vos falo no livro é verdadeira. Resolvi dar a cara porque acho que o passado não pode ser construído apenas sobre a verdade de alguns, para mais quando essa ou essas verdades são mentiras e fogem à verdade. Bom... não quero maçar-vos mais, acho que tudo aquilo que quererão saber se encontra respondido no livro, resta-me convidar-vos à sua leitura. Espero que gostem. Muito obrigada a todos pelo apoio.» Tendo falado num tom cálido e sentido, Etelvina pareceu ter chegado ao coração dos presentes que, uma vez mais – e já parecia estar-se num concurso televisivo –, brindaram a sala com uma ovação; desta vez mais breve, pois todos estavam com uma grande fome e ávidos de se atirarem às mesas. Foi o que aconteceu, saltando fila para os mariscos e uma outra para a zona da picanha, do peitinho e salcichinha brasileira. Escusado será dizer que os jornalistas foram os primeiros a tomar dianteira, deixando para o final as entrevistas à autora. O que esta achou bem, uma vez que temia os ditos profissionais, sendo que, a enfrentá-los, preferia fazê-lo já com uns copitos vertidos, tanto mais que a escolha vinícola prometia, «Pêra Manca», vendo-se que a editora não olhara a preços para que tudo corresse de feição. Não restavam dúvidas, o director editorial tinha aprendido alguma coisa em matéria de news management. O termo era novo no meio editorial nacional, mas fora recentemente introduzido por via de um jornalista-escritor, assim tipo Dan Brown, que em certa ocasião se mostrara reticente quanto aos métodos de promoção levados a cabo pelas editoras nacionais, segundo ele, errados, pois o mais que bastava era dar uma festança com comes e bebes para assim, e só assim, conseguir arrancar das redacções os tolos dos jornalistas. De outro modo não havia maneira, e os livros corriam o risco de morrerem à nascença. Não, dizia ele, o dito jornalista-escritor, mas jornalista de TV, «lá fora é que sabem, garanto-vos porque eu já lá estive e sei como é!». Certo ou errado, a verdade é que o lançamento da senhora Etelvina, havido em moldes que tais, portanto, internacionais, fora um sucesso. Todos, por conseguinte, tinham motivos e razões de sobra para estarem contentes e agora a encherem os estômagos com sincero e basto apetite. Os jornalistas primeiro que todos, claro.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Coisas de Doutor Lobo

Agora o Miguel Veloso é lindo!... Mais um rabinho de cavalo e qualquer dia deixo de ser do Sporting.

Coisas de Doutor Lobo

Nem sei que achar desta palermice de chamar ao estádio de futebol (um estádio de futebol!) do Manchester United «teatro dos sonhos»... Que são todos uns actores, a inventar faltas e penaltis... bem, deve ser por aí. Só pode ser por aí.

Ganda poster de Ana de Amsterdam, com sua licença

«O João entrou no quarto no preciso instante em que eu chamava cabrão ao Octávio Teixeira que, na antena 1, logo pela manhã, se masturbava publicamente a falar do Hugo Chávez. Lançava o homem jactos espasmódicos de esperma bolorento, louvando a revolução venezuelana, os índices de alfabetização, a reforma agrária e a diminuição da pobreza. O meu filho olhou-me de viés, censurando-me a linguagem. Expliquei-lhe que metade do meu corpo é alentejano, metade do meu corpo gosta de açorda, coentros, poejos e beldroegas, metade do meu corpo sabe jogar ao jangro, metade do meu corpo vive na charneca de terras arenosas onde as alcagoitas ainda crescem entre os tomateiros e uma menina já morta penteia os cabelos longos de uma mãe que se chama Umbelina. Metade do meu corpo, disse-lhe eu, exausta, é alentejano e no Alentejo cabrão não é asneira. “E eu? Também sou um bocadinho alentejano? Também posso dizer cabrão?”, perguntou. Respondi-lhe que nem pensar, que nunca, mas nunca, se atrevesse a dizer cabrão à minha frente. Ter apenas um quarto do corpo alentejano, uma insignificância, não dá direito a tais liberdades linguísticas.»

Aprender a Rezar


É já amanhã, dia 27, terça, que irá ser lançado o novo romance de Gonçalo M. Tavares: «Aprender a Rezar na Era da Técnica» (Caminho). Vai acontecer na sala Veneza do Hotel Roma, na avenida homónima, ao número 33. No lançamento, para além do autor, vão estar, em debate sobre o assunto que dá título ao livro, António Mega Ferreira, José Pacheco Pereira e Manuel Gusmão. Ide!

O Viciado

Reparem. Segundo a Alice, este, com uma máquina fotográfica e apanhado em acção, sou eu. E chama-me viciado! A mim, que só por mero acaso e sorte, me apanhou a tirar-lhe uma fotografia!...

E agora para um momento foto-poético...


estava cansado
demasiado cansado
e à falta de lugares para estacionar
ali mesmo adormeceu
ainda assim abrindo os braços
como pedia o sinal
um para cada
lado lado
tentando a brasileira
compaixão do fiscal da emel
de sua graça Judas

do caso não se sabe
se houve direito a multa
ou a perdão

Prévert - As Grandes Famílias

Luís I
Luís II
Luís III
Luís IV
Luís V
Luís VI
Luís VII
Luís VIII
Luís IX
Luís X (cognominado o Teimoso)
Luís XI
Luís XII
Luís XIII
Luís XIV
Luís XV
Luís XVI
Luís XVIII
e depois mais ninguém... mais nada...
que raio de gente é esta
que não é capaz
de contar até vinte?

Jacques Prévert, «Palavras», Sextante

E agora para um momento poético...

colombo
sabes colombo
domingo pois claro
as grandes viagens fazem-se hoje
circunavegando o mapa dos shopings

até porque
lá fora o dia negro lá em casa
o drum & bass
o drama em baixo
e em cima o trip
hop a trip via pescoço via osso
via radar que afinal todo o bairro
vocês sabem a jungle é questádar

de modo que colombo
assim em grandes desembarques aos domingos
com os índios todos chegando
uns em chagas outros a chagar
bmcliogolfgtpunto ou corsa
kitados naturalmente que os semáforos
que as estradas
vê se andas seu camelo... a da tua mãe
e assim como assim a tarde faz-se tarde
e
mulher tocandar
pra casa que o futebol
não espera
putos
bóra
deixa essa merda manel
o pai inda quer passar o totoloto no café e depois
chekar no carlinhos suéleron já chegou

sónia quéque temos pro jantar?
pai pai vistaquelas naiquerJordan?

Histórias Fulminantes 50

Andava triste e cinzento na vida. Como uma velha bota abandonada junto ao esgoto. Decidiu sair em grande: vestiu-se com as cores da família e saiu para a rua num dia de sol a perder-se nas cores do arco-íris.

Serralves 4










De modo que temos ainda muito a aprender com a Natureza.