quarta-feira, 28 de novembro de 2007

A Demanda do Bravo Cavaleiro Dom Quixote ou Epá ideia do caraças! V Capítulo

V.

Trocas no desfiar do novelo narrativo. Dom Quixote às aranhas por Lisboa, dando ares, ais e uis de poeta. Um prestimoso oficial de segurança pública. Uma opinião discutível enquanto japoneses disparam em fila no Chiado. Ó Silva, epá, deixa o homem!...



Enquanto toda a sessão do lançamento de «Etelvina Prazeres – A Verdade de Cristal» decorreu com franco sucesso, como disso atrás se deu conta e relato, Dom Quixote continuava como se às cegas deambulando pela cidade. Desnorteado, uma vez mais, pois à custa do imbróglio em que se metera na rampa do parque de estacionamento da Gulbenkian, o seu alazão deitara-se dali com ele à garupa desencabrestado pela cidade, fugindo, para onde o galope o levasse, dos automobilistas cujos carros amolgara com os cascos. Destreinado que estava, e como se o último dos automobilistas da fila tivesse feito marcha atrás para vir no encalço deles, Rocinante mal se tinha nas pernas quando, por fim, puderam refrear o passo e descansar um pouco. Mas não foi nada fácil, e a única coisa que os safou do encalço do furibundo automobilista foram os semáforos vermelhos que aquele encontrou pela frente e que Rocinante olimpicamente ignorou, com grande risco para as vidas de montada e cavaleiro.
E neste ponto aproveitamos para de novo passar a palavra ao próprio Dom Quixote, afinal, como ninguém, homem de bela e segura literatura. Creio que nas mãos da sua escrita ficarão bem entregues para atravessarem a leitura deste capítulo. Verdade também se diga, e o seu a seu dono, foi Dom Quixote quem começou este relato, tendo-me eu, narrador, às tantas, apropriado da sua narração sem pedir licença. Por isso mesmo, e desde já, é essa mesma licença que pedirei ao cavaleiro para mais daqui a pouco tomar de novo as rédeas deste relato, nomeadamente das peripécias ocorridas no outro lado da história, isto é, seguindo os passos do director editorial e sua equipa, até porque Dom Quixote já não se encontra perto deles para o poder contar. Mas calo-me, senhor Dom Quixote, a narrativa está por sua conta.
Estava a ver que nunca mais, homem. Eu para aqui perdido, aflito, sem saber para onde ir e o que fazer, e você aí, a entreter o leitor com palavreado. A isto, meu fiel Rocinante, à história antes que um qualquer escritor arrivista venha e se aproprie destas ocorrências, deste caso sui generis havido na edição literária portuguesa. E faço aqui o ponto da situação, até para minha própria contextualização. De outra forma, belisco-me (ai!!!) uma vez mais para confirmar que estou acordado, que tudo aquilo que até agora se contou se passou realmente, que eu, ilustre Dom Quixote de La Mancha, cavaleiro em Portugal há quase duas décadas pugnando pelo bom nome da literatura e da edição em português, me vi na circunstância de ter de me vir embora, envergonhado que estou do rumo editorial a que tentavam agregar o meu nome, a minha silhueta! Eu, na capa de um livro, lado a lado com o nome de Etelvina Prazeres!!! É lá isso possível? Ah, mas não, se pensavam que eu ia comer e calar bem se enganaram, Dom Quixote não cala nem consente porque é filho de boa gente. A moral, a moral e a dignidade acima de tudo, de todas as razões, de todos os propósitos. Maquiavel comigo não! Comigo nunca, que de outra estirpe de homens me faço, ontem, hoje e para todo o sempre, assim o afirmo sobre o nome da minha adorada Dulcineia.
E agora, onde estou? Que raio de cidade esta que já não conheço. Ups, o Marquês, o velho Marquês do Pombal, ah, sim, agora estou a ver onde estou, a velha Rotunda, pois então, se não me engano, para baixo, sim, para sul, deve estar para ali o Tejo. Ala, meu fiel Rocinante, que aqui não é bom sítio para nos determos por muito tempo, cuidado com os carros, ui, ai, vamos, vamos, atenção ao autocarro... Ah, sim, este cheiro, este cheiro, sim, conheço... a água, o rio, a frescura das águas do rio, sim, é o Tejo... Ah, velho e bom Tejo que nasces a beijar as terras de Espanha vindo exilar-te, por entre pedregosas e sinuosas margens que te oprimem, em solo lusitano...
Peço desculpa, mas tenho de interromper novamente o discurso de Dom Quixote, não porque o mesmo não seja interessante, mas antes porque o letrado se demora demasiado nos ais e uis que lhe custou mais este troço da sua fuga citadina em direcção às águas do Tejo. E ainda para mais quando começa a dar em poeta! De modo que, assim ele me desculpe e os leitores, reportarei desse percurso atribulado os acontecimentos mais relevantes para uma boa fluência da história, tentando eu mesmo levá-la doravante até ao fim. Era já hora do almoço e o nosso cavaleiro ainda não tinha levado nada ao estômago. Quer ele, quer o seu cavalo estavam, por assim dizer, esfaimados. De modo que foi a custo que desceram toda a Avenida da Liberdade, não só pelo calor como, voltamos a referi-lo, pelo trânsito que não dava mostras de melhorar.
A sorte do cavaleiro, como já dissemos, foi que todos na cidade que com ele se cruzavam achavam que era apenas um figurante numa qualquer campanha publicitária que os nossos vizinhos espanhóis estivessem a patrocinar em solo português. Provavelmente, a tentarem espetar a primeira lança de uma invasão castelhana em Portugal!, pensavam uns, enquanto que outros, pouco se importando com isso (sobretudo aqueles que até nem viam tal hipótese como algo a descartar – eram, sobretudo, tipos que no antigamente fumavam Ducados, torciam pelos espanhóis no hóquei em patins e, claro, sempre que podiam davam um salto a Badajoz a comprar caramelos e lavanda), dele se aproximavam a ver se lhes calhava um presentito qualquer, um recuerdo, quem sabe uma T-shirt a dizer Viva España, ou então um crachá ou até mesmo um caramelito que fosse...
Incomodado com a fome e com os portugueses que o abordavam no seu portunhol característico («Hombre, tienes presentes para mi?»; «Ó Quixote, o que é que tienes aí para a giente?»), Dom Quixote deles se ia libertando como podia, ora apontando-lhes a lança, ora sugerindo-lhes valente pontapé. «Não pares, meu alazão, não pares, que esta gente é pior do que as moscas à volta da bosta! Mete por aí, vá, vamos por esta rua a ver se os despistamos.» A verdade é que somente a eles, e a mais ninguém, se despistaram novamente, tendo ido parar ao Chiado após íngremes subidas que deixaram Rocinante extenuado. Tinham de parar e foi o que fizeram chegando ao Largo do Chiado, o velho «frade putanheiro», no dizer do grande escritor José Cardoso Pires, que Deus o tenha junto de si no Olimpo literário. E foi junto à estátua do dito frade, sempre na sua pose agoirenta de vendilhão de banha de cobra, que Dom Quixote desceu dos estribos dando alguma folga e descanso ao seu companheiro de fuga. Como se não houvesse ali lugar para deixar a montada Dom Quixote percorreu o lugar em volta com o olhar, até dar de caras com um agente da Polícia de Segurança Pública, que dele se aproximava com um bloquinho de multas na mão.
«Ora muito boa tarde senhor cidadão», disse o agente. «Então o que é que temos aqui?», perguntou ao Quixote como se não soubesse de antemão o que ali tinha e que não era senão um cavalo mal estacionado. «Já sei», respondeu-lhe o Quixote, «aqui não se pode estacionar, não é?» «Correcto, cidadão, é exacto, confirmo». «Ó senhor guarda, mas onde estaciono então o animal que me está prestes a desfalecer não tarda?». Apercebendo-se de que de facto Rocinante não estava nas melhores condições, para espanto e alívio de Quixote, o guarda disse-lhe que desta vez lhe perdoava a multazinha e que, sendo ele membro da direcção da Liga Portuguesa dos Amigos dos Animais, ele próprio teria muito gosto em levar dali o bicho e pô-lo a descansar em sítio apropriado, nas cavalariças da esquadra de Polícia que não era longe, era, imaginasse e visse nisso a sorte com que estava, mesmo ali ao lado, a dois passos!» Dom Quixote agradeceu e aceitou, dizendo ao prestimoso oficial de segurança pública que então daí por uma horazita, pouco mais ou menos, que era só o tempo de ajeitar o estômago, por lá passaria a buscar o animal para depois seguir viagem.
Assim fez e logo ali ao lado se sentou numa mesa que uns estrangeiros, entusiasmados pela cena que haviam testemunhado e fixado em fotografia, tinham acabado de vagar. Foi já sentado e com a lista dos comes e bebes na mão, que o empregado lhe trouxera, que virando-se para o lado deu de caras com Fernando Pessoa. Com Pessoa, vamos lá, enfim, com a estátua do poeta dos heterónimos. E foi coisa de mais espantar, pois era a primeira vez que quem frequentava a esplanada via lado a lado os dois vultos maiores das literaturas ibéricas... Bem, quer dizer, é uma opinião possível, pois certamente que outros a não corroborarão lembrando o narrador, assim pudessem, que outro vulto maior das letras lusas havia e que, por sinal, até bem perto daquela cena se encontrava. Era Camões, pois claro, também em forma de estátua cinquenta metros ao lado, mas, e concedemos neste ponto, com muito maior dignidade, já que a sua estátua não só era muito maior que a de Pessoa, que até se encontrava sentado, mais parecendo um velho que não se aguentasse nas pernas, como também mostrava muito claramente aos olhos do povo quem, de entre os aedos nacionais, era o maior entre os maiores. E quem? Ele, claro, o autor d’«Os Lusíadas», ou não encimasse a sua estátua o pedestal onde se encontrava, tendo abaixo de si, e a toda a sua volta, os outros lentes literários, numa clara posição subalterna.
Dom Quixote escolheu o bom e o melhor que constava na carta. E, claro, não familiarizado com a novidade dos euros não fez contas à despesa final. Verdade se diga que mesmo que as quisesse ter feito, não sei se teria conseguido chegar a valor fidedigno, ou não fosse ele um poeta, um escritor, um homem de letras e não de números! Mas adiante, para confirmar que estavam boas as entradinhas de presunto e cogumelos fatiados, que o strogonoff não lhe pareceu mau de todo (face à zona turística onde se encontrava) e que o gelado lhe caiu que nem ginjas, que por acaso também as tinha, no topo, em vez da costumeira, cereja. Lambeu os lábios por diversas vezes, afagou o estômago e limpou barbas e bigodes, dando-se por refeito de energias e satisfeito quanto baste. Quando olhou em frente, muito espantado ficou com uma fileira de japoneses que, uns ajoelhados, outros de pé, lhe tiravam fotografias a torto e a direito. Indignado por aquela invasão de privacidade, Quixote pegou instintivamente no elmo que estava na cadeira à sua frente e fez-lhes o gesto de quem lhes iria atirar-lho, acompanhando o acto de um sonoro Xôooo. Foi o suficiente para que todos, a rir a aos pulinhos, se fossem dali para diante a fotografar o mais que entendessem, detendo-se agora num pedinte com uns sete cães à sua volta que todos certamente acharam muito curioso e muito típico.
Como a sua figura teve o condão de chamar à esplanada inúmeros outros clientes, a gerência do estabelecimento de restauração fez o obséquio ou teve a delicadeza de deixar a conta de Dom Quixote por conta da casa, passe a redundância. Só quando isso mesmo lhe foi transmitido é que Dom Quixote se lembrou de que não tinha um tostão furado, ou deveria dizer um euro furado? Bem, ter até tinha, mas era pouca coisa, uma moeda de dois euros que trouxera de cima da secretária do Director editorial... Menos mal, agradecia muito ao gerente e até mais ver que tinha de ir buscar o seu alazão. Pegou no elmo e pôs-se a caminhar pela rua que ia dar ao Teatro Nacional de São Carlos. Perguntou a um transeunte pela esquadra e devidamente encaminhado para lá se dirigiu sem mais demoras. Chegado à esquadra, a coisa começou por não correr muito bem, já que o sargento que estava de plantão à porta não quis acreditar na sua história, para mais quando Quixote lhe diz que era, nem mais nem menos, Quixote, o próprio, em carne e osso, e que vinha buscar Rocinante que um colega do sargento para ali tinha trazido. «Pois, pois, tu és o Quixote e eu sou o Camões», atira-lhe o sargento em tom de graçola retorcendo o olho, fazendo de cegueta como o poeta de quinhentos. Que não, que não, que era verdade, jurava-lhe Dom Quixote, mas o outro nada, apenas lhe dizendo: «Epá, ó Quixote, já me estás a dar calores, zarpa daqui antes que te enfie a lança num certo sítio e vás daqui a arder para a tua terra, não sei se estás a perceber.» Ouvindo isto, Dom Quixote pôs-se aos berros, enxovalhado na alma que estava como não se lembrava havia muito tempo. Lá de dentro do pátio do quartel, ouvindo a berraria, surgiu então o agente que tinha levado o Rocinante para ali e, vendo a cena, logo tratou de tudo esclarecer e apaziguar os ânimos. «Ó Silva, epá deixa o homem que ele está a dizer a verdade... Quer dizer, a verdade sobre o cavalo. Agora, se diz que é o Quixote, epá deixa-o dizer, cada maluco com a sua fisgada! Tu não te lembras do agente Ramos que às tantas deu em dizer que era o Cesário Verde?» E por ali se ficou a conversa. Quixote e o agente de segurança foram aos estábulos buscar Rocinante e de novo o nosso homem se pôs ao caminho. Ainda que de rumo desconhecido. Fazia-se tarde, havia que encontrar rapidamente um local para passar a noite e com a calma suficiente para poder ordenar ideias, pensando no que fazer no dia seguinte.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Don Quijote de La Mancha

A Demanda do Bravo Cavaleiro Dom Quixote - Epá, grande ideia! - capítulo IV

IV.

Coisa diplomática, visita de Estado e outras pressas ministeriais. Interesses superiores, Etelvina e os capangas. Aperitivos, drinks e jet set. Uma sessão que foi um sucesso, apesar da inexperiência da autora que em tempos imitara Whitney Houston.



Seis, sete quilómetros, por aí terá ficado a distância percorrida pela caravana editorial que naquela manhã deixara o escritório com grande estrépito de rodas comendo o asfalto. Batedores da GNR à frente e outros atrás, lá conseguiu o BMW atravessar o trânsito citadino e chegar a tempo e horas à recepção agendada para os convidados ilustres no Grande Hotel da capital. Parecia coisa diplomática, visita de Estado ou então as habituais pressas ministeriais, sempre a grande velocidade, mais do que a permitida por lei, justificada, claro está, pelas superiores razões de Estado, que a tudo servem, está de ver, quando necessário. E pelas ruas por onde passaram sempre a mesma indignação dos automobilistas, obrigados a parar para ceder passagem à comitiva. Os impropérios foram de índole diversa, não convém aqui reproduzi-los de modo a não tornar a escrita ou a leitura desagradáveis. Curiosamente, houve também alguns transeuntes que à passagem dos motociclistas e do BMW acenavam para os mesmos, provavelmente pensando que no seu interior era alguma figura de Estado estrangeira que se encontrasse de visita ao país. Tão eufórico e fora de si com tudo isto estava o director editorial que, às tantas, não resistiu mesmo, abrindo uma janela e com o braço de fora lá foi retribuindo acenos aqui e acolá. Parecia agora um candidato político em campanha e não fosse a senhora Etelvina ter-se queixado do vento excessivo que lhe perigava o penteado e ele teria continuado naquela «festa eleitoral» até final do percurso.
Tinham enfim chegado. O director editorial estava feliz, os horários cumpriam-se com pontualidade britânica graças à batida policial. Haveria, de resto, e oportunamente, de agradecer em pessoa ao comissário Lemos Matoso a disponibilidade própria e do seu pessoal para atendimento deste caso, sabendo, no imediato, intuir-lhe e reconhecer-lhe o seu interesse superior. Ao lado do director editorial, durante todo o percurso, a senhora Etelvina sempre de óculos escuros, agora nisso como que se solidarizando com os seus dois «capangas» que seguiam também no carro, um à frente e outro no banco de trás.
Quando todos deixaram o carro, foi, desta feita, a vez do pessoal do hotel se prontificar para lhes fazer escolta até ao átrio de entrada, onde já se encontravam dois ou três convidados mais madrugadores. Vendo a distinta comitiva, os turistas que por ali também se encontravam por mera casualidade, preparando-se para o pequeno-almoço ou para uma passeata a pé pela cidade, muito se admiraram com o que aos seus olhos se deparava. Um deles, um inglês ruivo e de ar leitoso, mais curioso, não fosse estar ali a cruzar-se com uma alta individualidade do país anfitrião, chegou-se ao pé de uma assessora de Imprensa e diz-lhe: «Who are they? The prime-minister’s wife?» Ao que ela, sorrindo: «Oh, no, no, much more important than that, a writer» (ficando na dúvida se deveria ter antes dito novelist). E acrescentou: «In fact, our prime-minister is not married.» «Oh», volveu o inglês, tendo certamente ficado a pensar que nem na sua Inglaterra se tratavam tão bem os escritores. E mais disse, pondo-se a andar para o sol exterior, ainda relanceando de novo o aparato da cena voltando a cara para trás: «Must be a very important one, who knows may be the next Saramago...» O director editorial nada disto ouviu, mas provavelmente teria gostado de o ouvir...
Beijinho para cá, beijinho para lá, muitas felicitações e os parabéns da praxe, a senhora Etelvina, já sem óculos, tentava agora, uma vez mais, descontrair. Um a um, o director editorial ia-a apresentando, orgulhoso, aos diversos convidados que iam chegando. «A nossa autora», dizia ele, aos que os outros e a senhora Etelvina sorriam com algum desconforto, apertando as mãos, no caso dos homens, beijando as faces no caso feminino. A todos os que iam chegando, num dos lados do salão de entrada do hotel, uma menina de farda vermelha e sorriso Pepsodent oferecia um exemplar do «Etelvina Prazeres – A Verdade de Cristal». E todos, à vez, contentes com o seu exemplar se dirigiam agora para uma das suas portas do elevador onde um impecável ascensorista as aguardava para subirem até ao último andar do edifício, onde, no restaurante panorâmico, teria lugar o lançamento do livro propriamente dito. Em baixo, e como o tempo avançasse, também o director editorial, o editor e a autora se dirigiram prestes a um dos elevadores. Para trás, ficavam agora apenas a menina da banca de livros improvisada, e duas assessoras de Imprensas encarregues de receber os senhores e senhoras jornalistas, assim fossem chegando, aos quais entregariam um dossier de Imprensa. O livro, esse, teriam, posteriormente, de pedi-lo para os escritórios, assim o desejassem, pois aqueles exemplares que tinham trazido destinavam-se a oferta aos convidados.
No topo do edifício, com a luz alfacinha a trespassar as enormes e largas vidraças, inundando todo o ambiente, encontravam-se agora convidados e jornalistas em suficiência para que pudesse dar início à sessão. Antes disso, e enquanto empregados do hotel, serviam, de cá para lá, e de lá para a cozinha e regresso, uns aperitivos e uns drinks, conversava-se animadamente, uns de livro aberto, outros de olho nos acepipes, outros ainda, sobretudo esses malandros dos jornalistas, de olho na mesa dos mariscos. Junto à autora e ao director editorial, uma figura do jet set, aí dos seus sessenta bem entrados e plasticamente mantida em forma para a fotografia, referia, com ares doutos de crítica literária: «Querida, está óptimo, você nem imagina o prazer que eu tive ao ler o seu livro. Hummm..., a sério, mais emoção mesmo só nos livros da Susanna Tamaro e do outro... ai, como é que se chama?... aquele, ajude-me, ai... e eu que gosto tanto dele, o... o...» «Coelho? Paulo Coelho», ajuda-a a autora, mostrando assim os seus vastos conhecimentos literários e a abrangência das suas leituras. «O Paulo, sim!», responde-lhe a outra, tratando o escritor brasileiro como se o conhecesse lá de casa. E continuava, agora para o director editorial: «Parabéns pela aposta ganha. Acho maravilhoso dar voz a pessoas aqui como a senhora Etelvina, pessoas com algo de verdadeiramente interessante a dizer, pessoas que o meio editorial sempre calou afastando-se da realidade. Sim, porque eu acho que a literatura portuguesa já merecia autores assim. Parabéns, muitos parabéns querido.» E foi-se dali com o seu sorriso sempre ligado, como se se tivesse engasgado e estivesse aflita, de olhos esbugalhados.
O director editorial, também ele, parecia ter aprendido rápido com aquela gente da socialite lusa, que por tudo e por nada distribuía sorrisos e dizia, sem ter porquê a respeito do que fosse, «acho óptimo, óptimo, óptimo.» Apertos de mão, abraços à companheiro comuna aos mais próximos, o homem estava feliz, verdade se diga, e verdade se diga como havia muitos anos não o viam aqueles que com ele privavam diariamente. Aquilo, quanto a mim, que o conheci como poucos – tanto mais que foi com ele que trabalhei desde que vim para este país defender a dama da literatura –, não era apenas um caso de deslumbre editorial ante a possibilidade de ter agarrado em mãos um best-seller. Não, a coisa parecia-me, sinceramente, bem mais grave, coisa talvez mesmo a merecer visita a psicólogo ou a psiquiatra – sim, não espantem, pois não estão hoje tão na moda estes profissionais médicos, a quem quase já não existe quem não recorra por dá cá aquela palha! Pois a mim, parecia-me caso digno disso, era, claramente, uma patologia a merecer moldura clínica.
E agora que penso nisso, recrimino-me por não o ter notado mais cedo. Sim, logo quando, há cerca de um ano, o director editorial resolvera começar a frequentar um curso para reciclagem editorial à luz dos novos mercados, uma coisa que lhe chegou ao conhecimento por correio simples, num prospecto banal onde se convidavam os profissionais da área a frequentarem cursos diversos. Se a princípio achei por bem que o fizesse, até porque se encaminhava a passos largos para os sessenta anos, e pôr-se a par de novidades do mundo editorial parecia-me uma maneira acertada de não perder passo face aos últimos avanços na matéria, mais tarde, quando começou a frequentar feiras do livro «alternativas» e a comprar direitos sobre livros «duvidosos», de cariz esotérico e outros, aí, bem aí, eu devia ter-me apercebido de que alguma coisa dentro daquela cabeça não corria bem. Agora, agora parece tarde de mais; aquele brilho no olhar já não é o mesmo, já não lhe denoto o gozo literário que antes expressava e de que se orgulhava como poucos, mas antes um brilho que reluz como o raio de sol batendo no ouro dos cifrões, ou, para sermos mais contemporâneos, no brilho dos euros.
Embora com uma pequena décalage em relação aos horários estabelecidos, a sessão teve, enfim, começo. Na mesa, ao centro, o director editorial, a seu lado, a autora, do outro lado, o editor. À sua frente, um vasto auditório, agora muito bem composto, caras conhecidas, boa apresentação, e também os jornalistas, menos compostos, é certo, como é da classe, todos petiscando de copo na mão, agora fazendo silêncio para as palavras que o director editorial se preparava para dizer dando a sessão por aberta. Chamando a si as atenções, os microfones e os holofotes das televisões presentes, o director editorial, na primeira pessoa: «Meus amigos, senhoras e senhores, ilustres convidados, senhores jornalistas, começo estas breves palavras de apresentação do livro «Etelvina Prazeres – A Verdade de Cristal», por agradecer, em primeiro lugar, e naturalmente, à autora. Agradecer o ter-nos escolhido para ser a sua editora, a sua casa editorial (querendo com isto dizer que é, doravante, como se em sua casa que entre nós queremos que se sinta), agradecer a sua disponibilidade demonstrada ao longo de todo o processo de preparação da obra e, sobretudo, a sua confiança nos nossos profissionais, desde o senhor editor aqui ao nosso lado, cuja presença e trabalho desenvolvido aproveito igualmente para felicitar, até aos designers que pensaram a capa, passando por todas as outras pessoas que, de uma forma ou de outra, se empenharam para que este livro viesse hoje a estar aqui, nas nossas mãos, pronto para chegar ao público, afinal de contas, razão última, e primeira, do nosso trabalho, do nosso existir. Etelvina Prazeres, como todos saberão, é uma mulher de armas – e não querendo, desde já, desvendar os segredos do livro, tirando-vos o prazer da leitura, posso, no entanto, dizer que passagens há que ilustram cabalmente isto que acabo de dizer. E, por conseguinte, Etelvina Prazeres não teme. Não teme pôr a verdade preto no branco, não teme dar a cara por esta sua verdade de cristal. Verdade de Cristal porquê? Porque se trata de uma verdade, a sua, que sendo cristalina também se revela capaz de quebrar com muitas outras verdades falsamente instaladas. Creio que para além disso, para além desses aspectos, mais ligados à vida do futebol nacional, nomeadamente aos momentos vividos com o senhor presidente de um conhecido clube nortenho que todos conhecem, este livro colhe, repito, este livro colhe igualmente por via da sua faceta sensível, por encobrir, descobrindo, nas entrelinhas do texto um outro cristal, um cristal que não é senão a personalidade simultaneamente dura e frágil de Etelvina Prazeres. Uma vida, em breves palavras, arrancada a pulso e com muito jogo de cintura, uma vida galgada degrau a degrau, amparando golpes sobre golpes, daqueles que a invejavam pelo modo como, subindo, conseguia manter a sua aura de integridade. Creio que a prova maior dessa sua inteligência na escalada da vida é o modo despretensioso como se revela neste livro, nesta obra que é a sua vida, a sua experiência, a sua cara. Espero que todos vós, tal como eu experimentei, sintam o mesmo prazer na sua leitura. À nossa nova autora, uma vez mais, o nosso obrigado».
Tendo-se contido, o discurso não durou muito mais de dez minutos. Os flashes dos repórteres fotográficos encheram a sala, tentando captar as reacções dos oradores e dos Vips presentes na sala, que, com grande probabilidade, fariam as capas das próximas edições das revistas cor-de-rosa. O auditório pareceu ter gostado do que ouviu e retribuiu com um caloroso aplauso. Do meio das palmas, ouviu-se mesmo um forte assobio e alguém que gritava bem alto «Etelvina, Etelvina, Etelvina...» O director editorial, com os braços esticados para diante pedindo de novo silêncio na sala, passou de imediato a palavra ao editor. Que disse, dizendo que o seu director editorial já praticamente tudo dissera: «Bom dia a todos... Eu queria apenas também agradecer à Etelvina a oportunidade profissional que me concedeu ao trabalhar comigo na realização deste trabalho. Creio que o resultado está à vista e é uma obra que honra o percurso de ambos. Devo, contudo, dizer que a maior parte do mérito pertence-lhe a ela, já que eu me limitei a sugerir este ou aquele enquadramento temático, este ou aquele prisma de apreciação, este ou aquele estilo de escrita. Etelvina, muitos parabéns!» Um novo aplauso entusiástico percorreu a sala, momento que os jornalistas aproveitaram para lançarem novo punhado de cajus e amendoins à boca. E nesse ínterim, de novo uma forte assobiadela e de novo o nome da autora ressoando entre as palmas: «Etelvina, Etelvina, Etelvina!!!» Novamente, o director editorial teve de intervir, desta feita, levantando-se mesmo e pedindo silêncio à audiência. Teria a palavra a autora, fizesse favor, o microfone era todo seu.
Com o micro à frente da cara, Etelvina mostrou-se à-vontade com o objecto. Quis mesmo segurá-lo com as mãos, aproximou a boca demasiado e o som das primeiras palavras soou algo distorcido. Dando-lhe uma dica em voz baixa, o director editorial explicou que não era necessário segurar o microfone e que poderia falar sem dele se aproximar em demasia. Etelvina sorriu e lá disse: «Peço perdão, não estou habituada a este tipo de objectos, a única vez que peguei num microfone foi quando servia à mesa e o dono do bar me pediu que subisse a palco para fazer uma imitação da Whitney Houston, que é uma cantora que eu adoro... E... e... prontos... eu peço desculpa, mas tudo isto é novo para mim... enfim... acho que o que vos queria dizer, para além de agradecer a vossa presença e o vosso apoio, é que estou muito contente, muito feliz mesmo com este livro, que considero um passo em frente na minha vida. Devo dizer que nunca pensei em escrever um livro, que era um objectivo que não estava nos meus planos, e que foi graças a estas pessoas ao meu lado que esse livro hoje existe e é uma realidade palpável. Eu sei, eu sei que vai ser uma coisa que vai suscitar muita polémica, mas eu tinha que o fazer, tinha que dizer a minha verdade, contar o meu lado da história. E, estou em posição de vos garantir, toda essa verdade de que vos falo no livro é verdadeira. Resolvi dar a cara porque acho que o passado não pode ser construído apenas sobre a verdade de alguns, para mais quando essa ou essas verdades são mentiras e fogem à verdade. Bom... não quero maçar-vos mais, acho que tudo aquilo que quererão saber se encontra respondido no livro, resta-me convidar-vos à sua leitura. Espero que gostem. Muito obrigada a todos pelo apoio.» Tendo falado num tom cálido e sentido, Etelvina pareceu ter chegado ao coração dos presentes que, uma vez mais – e já parecia estar-se num concurso televisivo –, brindaram a sala com uma ovação; desta vez mais breve, pois todos estavam com uma grande fome e ávidos de se atirarem às mesas. Foi o que aconteceu, saltando fila para os mariscos e uma outra para a zona da picanha, do peitinho e salcichinha brasileira. Escusado será dizer que os jornalistas foram os primeiros a tomar dianteira, deixando para o final as entrevistas à autora. O que esta achou bem, uma vez que temia os ditos profissionais, sendo que, a enfrentá-los, preferia fazê-lo já com uns copitos vertidos, tanto mais que a escolha vinícola prometia, «Pêra Manca», vendo-se que a editora não olhara a preços para que tudo corresse de feição. Não restavam dúvidas, o director editorial tinha aprendido alguma coisa em matéria de news management. O termo era novo no meio editorial nacional, mas fora recentemente introduzido por via de um jornalista-escritor, assim tipo Dan Brown, que em certa ocasião se mostrara reticente quanto aos métodos de promoção levados a cabo pelas editoras nacionais, segundo ele, errados, pois o mais que bastava era dar uma festança com comes e bebes para assim, e só assim, conseguir arrancar das redacções os tolos dos jornalistas. De outro modo não havia maneira, e os livros corriam o risco de morrerem à nascença. Não, dizia ele, o dito jornalista-escritor, mas jornalista de TV, «lá fora é que sabem, garanto-vos porque eu já lá estive e sei como é!». Certo ou errado, a verdade é que o lançamento da senhora Etelvina, havido em moldes que tais, portanto, internacionais, fora um sucesso. Todos, por conseguinte, tinham motivos e razões de sobra para estarem contentes e agora a encherem os estômagos com sincero e basto apetite. Os jornalistas primeiro que todos, claro.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Coisas de Doutor Lobo

Agora o Miguel Veloso é lindo!... Mais um rabinho de cavalo e qualquer dia deixo de ser do Sporting.

Coisas de Doutor Lobo

Nem sei que achar desta palermice de chamar ao estádio de futebol (um estádio de futebol!) do Manchester United «teatro dos sonhos»... Que são todos uns actores, a inventar faltas e penaltis... bem, deve ser por aí. Só pode ser por aí.

Ganda poster de Ana de Amsterdam, com sua licença

«O João entrou no quarto no preciso instante em que eu chamava cabrão ao Octávio Teixeira que, na antena 1, logo pela manhã, se masturbava publicamente a falar do Hugo Chávez. Lançava o homem jactos espasmódicos de esperma bolorento, louvando a revolução venezuelana, os índices de alfabetização, a reforma agrária e a diminuição da pobreza. O meu filho olhou-me de viés, censurando-me a linguagem. Expliquei-lhe que metade do meu corpo é alentejano, metade do meu corpo gosta de açorda, coentros, poejos e beldroegas, metade do meu corpo sabe jogar ao jangro, metade do meu corpo vive na charneca de terras arenosas onde as alcagoitas ainda crescem entre os tomateiros e uma menina já morta penteia os cabelos longos de uma mãe que se chama Umbelina. Metade do meu corpo, disse-lhe eu, exausta, é alentejano e no Alentejo cabrão não é asneira. “E eu? Também sou um bocadinho alentejano? Também posso dizer cabrão?”, perguntou. Respondi-lhe que nem pensar, que nunca, mas nunca, se atrevesse a dizer cabrão à minha frente. Ter apenas um quarto do corpo alentejano, uma insignificância, não dá direito a tais liberdades linguísticas.»

Aprender a Rezar


É já amanhã, dia 27, terça, que irá ser lançado o novo romance de Gonçalo M. Tavares: «Aprender a Rezar na Era da Técnica» (Caminho). Vai acontecer na sala Veneza do Hotel Roma, na avenida homónima, ao número 33. No lançamento, para além do autor, vão estar, em debate sobre o assunto que dá título ao livro, António Mega Ferreira, José Pacheco Pereira e Manuel Gusmão. Ide!

O Viciado

Reparem. Segundo a Alice, este, com uma máquina fotográfica e apanhado em acção, sou eu. E chama-me viciado! A mim, que só por mero acaso e sorte, me apanhou a tirar-lhe uma fotografia!...

E agora para um momento foto-poético...


estava cansado
demasiado cansado
e à falta de lugares para estacionar
ali mesmo adormeceu
ainda assim abrindo os braços
como pedia o sinal
um para cada
lado lado
tentando a brasileira
compaixão do fiscal da emel
de sua graça Judas

do caso não se sabe
se houve direito a multa
ou a perdão

Prévert - As Grandes Famílias

Luís I
Luís II
Luís III
Luís IV
Luís V
Luís VI
Luís VII
Luís VIII
Luís IX
Luís X (cognominado o Teimoso)
Luís XI
Luís XII
Luís XIII
Luís XIV
Luís XV
Luís XVI
Luís XVIII
e depois mais ninguém... mais nada...
que raio de gente é esta
que não é capaz
de contar até vinte?

Jacques Prévert, «Palavras», Sextante

E agora para um momento poético...

colombo
sabes colombo
domingo pois claro
as grandes viagens fazem-se hoje
circunavegando o mapa dos shopings

até porque
lá fora o dia negro lá em casa
o drum & bass
o drama em baixo
e em cima o trip
hop a trip via pescoço via osso
via radar que afinal todo o bairro
vocês sabem a jungle é questádar

de modo que colombo
assim em grandes desembarques aos domingos
com os índios todos chegando
uns em chagas outros a chagar
bmcliogolfgtpunto ou corsa
kitados naturalmente que os semáforos
que as estradas
vê se andas seu camelo... a da tua mãe
e assim como assim a tarde faz-se tarde
e
mulher tocandar
pra casa que o futebol
não espera
putos
bóra
deixa essa merda manel
o pai inda quer passar o totoloto no café e depois
chekar no carlinhos suéleron já chegou

sónia quéque temos pro jantar?
pai pai vistaquelas naiquerJordan?

Histórias Fulminantes 50

Andava triste e cinzento na vida. Como uma velha bota abandonada junto ao esgoto. Decidiu sair em grande: vestiu-se com as cores da família e saiu para a rua num dia de sol a perder-se nas cores do arco-íris.

Serralves 4










De modo que temos ainda muito a aprender com a Natureza.

Serralves 3


E a resposta é:

Serralves 2

Não. O que nos leva à seguinte questão: existe arte na «arte» que não desperta emoções?

Serralves 1

Sejamos sinceros: o barco em que seguiam as obras de Robert Rauschenberg naufraga entre os Estados Unidos e Portugal. Alguém choraria uma lágrima que fosse?

Serralves

Questão a levantar, assim se pudesse, aos artistas que actualmente expõem em Serralves: Do you, at this stage, have any ideia of where you want to go to?

A Demanda do Bravo Cavaleiro Dom Quixote - ou Está bem escrito mas... Capítulo III


III.

Uma decisão a 180 graus. Ó Senhor Dom Quixote, olhe que se constipa. Um trânsito infernal, Amadeo de relance, um bilhete por pagar, apitos enervantes e duas caras que mais pareciam
de críticos de arte.



E foi então que tomei mais uma decisão, uma outra decisão que novamente iria fazer com que minha vida desse uma volta de 360 graus... Bem, 360 não, porque assim voltaria ao mesmo ponto de partida... eh... 180, pronto, 180 graus. Em suma, decidi partir. Que um homem que não parte fica, e um homem que fica é um homem que se resigna! – disse ainda para o Rocinante que anuiu com a cabeça em forma de aprovação. E fui-me dali, daquela casa onde permaneci durante quase duas décadas, assistindo a um trabalho digno, exigente, válido, louvável, pois que tantos bons escritores e tantos belos livros dera ao burgo literário lusitano.
Tantos livros, tantas capas, tantas páginas, tantas palavras, tantas histórias, tantos poemas, tanta vida vivida assistindo ao parto de cada uma daquelas obras de que agora me preparava para despedir, ali no gabinete do director editorial, onde eu, no cimo de uma prateleira, me encontrava e me achava como se em casa. Mas, não, disse não, resolvi insurgir-me contra a imoralidade editorial que alastrava como febre pelo país. Afinal eu era Quixote e Quixote jamais poderia compactuar com este estado de coisas. E não, não fossem dizer que era o ar dos tempos, a inevitabilidade no rumo do negócio, que ou seria desse modo ou não seria, que era a única forma de inverter um rumo de queda, que a editora precisava de se adaptar aos tempos difíceis, que precisavam de títulos assim, de obras que dessem lucro, lucro, lucro. Podiam dizer o que quisessem, não podiam era aviltar a minha imagem apondo-me a efígie, de mim e do meu fiel Rocinante, num destes objectos em forma e com aparência de livro, mas que, na verdade, mais não são do que reles afrontas ao livro enquanto objecto.
Não, aquilo era um negócio, uma mera negociata com vista à obtenção de lucros fáceis... e sim, agora entendo o que dizia o director editorial quando a «autora» Etelvina lhe perguntava se estava tudo tratado com o tal adepto das bigodes, que só podia ser o famoso Bigodes... Que o livro fosse um negócio, sim, sem objecções, mas um negócio de paixões, de afectos, de amor ao livro e à literatura. Ora, eu, eu enquanto personagem maior da literatura mundial não poderia ficar ali, alinhando com aquela perversão do conceito de livro, ainda por cima emprestando a minha imagem a uma «coisa» que me recusava a chamar livro. Não, gente de bem, não chamaria livro a uma coisa tão abjecta e repugnante. Rocinante, vamo-nos daqui para outras empreitadas, vamo-nos para outras demandas, que aqui já não nos merecem. Bem dito, melhor feito. Levantei-me de um pulo, como se animado de novo fôlego, e, com a ajuda de uma das prateleiras da estante, saltei para a garupa do Rocinante. Também ao meu fiel companheiro pareceu agradar-lhe esta minha súbita decisão. Nada que eu não esperasse de um alazão destes, também ele pouco dado ao imobilismo e aos ares de um gabinete que padecia de arejamento o quanto antes. Ali por mais umas horas, naquele ar conspurcado pelo cheiro a tinta do livro da senhora Etelvina, e um homem e um alazão eram capazes de desfalecer!
Ajeitei o elmo na cabeça, peguei no escudo e na lança, esporeei ao de leve a barriga do Rocinante e investi de rompante contra a porta, dando-lhe uma estocada que a rebentou para grande susto da Dona Paula que, coitada, aproveitava a ausência do patrão para fazer uns telefonemas às amigas. A pobre senhora nem tentou impedir-me, tão assustada estava ao levar com a minha figura pela frente. O mais que disse, depois de se recompor ligeiramente, foi qualquer coisa do género: «Ó senhor Dom Quixote, então isso é coisa que se faça, pregar-me assim um susto desses? Olhe que isso não se faz, olhe que a filha de uma vizinha minha, outro dia, até tinha acabado de sair de minha casa, e quando pôs o pé na rua, veio um palerma numa mota e passou-lhe a um centímetro dos pés, o senhor Dom Quixote nem queira acreditar. Até hoje está que parece uma tontinha! Ai, mas onde é que o senhor vai assim vestido, de elmo e tudo com este calor? O senhor Dom Quixote olhe que se constipa...»
Deixei-a a falar, melhor, a matraquear sozinha e fiz-me ao caminho. Quer dizer, à estrada... e que estrada! A avenida onde se encontrava sediada a editora estava completamente engarrafada, ao que pude perceber, vendo ao longe as luzes de uma ambulância, devido a um acidente qualquer. Foi pois, com grande dificuldade e também habilidade, que avançámos, eu e o meu fiel Rocinante, por entre os carros parados, entre queixas e insultos, pois que, diziam, não era a melhor altura para fazer campanhas publicitárias e que não sei que não sei que mais, até mesmo que eu devia ser preso por estar a usar um animal para propósitos comerciais! Propósitos comerciais, eu? Essa não me entrava nem à lei da bala e logo dei ao meu fiel Rocinante permissão para que na roda dianteira do dito automobilista imprecador se aliviasse ele de quantos líquidos na bexiga tivesse. Assim o fez e o que vos digo é que o coitado devia estar aflito há muito tempo.
A progressão, porém, no meio daquele caos e com o asfalto quente e escorregadio não era fácil, nada fácil, perigoso mesmo, tendo eu por diversas vezes chegado a pensar que ia ao chão. Não aconteceu e lá nos aguentámos, subindo a avenida até uma rotunda próxima. A princípio não sabia para onde me dirigir. Sabia apenas que queria ir-me dali e encontrar um lugar calmo onde pudesse assentar ideias e pensar no que iria fazer de futuro. É como vos disse, passei despercebido por entre os muitos automobilistas e transeuntes apenas porque todos pensavam que eu não passava de mais uma daquelas campanhas publicitárias modernas, em que se faz tudo e mais alguma coisa para chamar a atenção das pessoas. Tipo pôr meninas descascadas a oferecer laranjadas ou coisa que o valha. Pois aqui todos pensaram que haveria de ser mais uma lança espanhola a entrar no mercado português, desta feita, uma coisa metaforizada por via da minha figura. «Olha, olha, lá vem o Dom Quixote a invadir Portugal», «Ó bacano, o que é que tienes para oferecer-me, chico?», «Ouve lá, ó espanhol, sai da frente, deves pensar qu’isto já é tudo teu, não?», «Ó arreda, coño de mierda, vai prá tua terra»... Foram apenas algumas preciosidades linguísticas que ouvi, para não vos maçar mais os ouvidos com a terminologia automobilística lusitana.
Mas de tráfego ainda eu não tinha visto nada, que não havia de me conseguir pôr dali para fora tão cedo quanto desejava. Um inferno, aquele trânsito que tive o azar de encontrar e mais ainda no qual tive a desdita de em enredar. Digo bem, enredar, já que aquilo era pior que um teia de aranha. Pois eu queria seguir a direito e já o trânsito me levava por outra direcção, pois eu queria então sair noutra rua e logo uma fila de carros me levava para outro lado, e assim consecutivamente que creio bem para percorrer uns quinhentos metros estive naquele frenesim cerca de uma hora e picos. O pior é que eu já nem sabia onde estava. Como havia tantos anos não saía da editora já não conhecia o mapa da cidade. Melhor, conhecia algumas coisas, tinha uns certos pontos de referência, um ou outro edifício que se mantinham – bem certo, agora lado a lado com novos prédios em betão e vidro –, um ou outro jardim, uma estátua aqui, outra acolá, mas a verdade é que me perdi com tanta rotunda encontrei pela frente. Juro-vos que por momentos cheguei a pensar que todo o país estivesse agora transformado numa gigantesca rotunda! Não havia dúvidas, a ver pela amostra da capital, a febre das rotundas apanhara todos os autarcas e não admirava que o trânsito e os automobilistas entrassem em parafuso. Os automobilistas e os editores, pelos vistos, disse para comigo voltando a relembrar-me do porquê da minha fuga.
Com muito esforço e suor, que o sol forte a bater-me na chapa da armadura e do elmo mais instilava no meu corpo, cheguei por fim a local que reconheci por se manter praticamente inalterado no seu contexto físico. O trânsito tinha-me atirado – é este o termo – para uma rua ao fundo da qual divisei uns amplos e frondosos jardins. Sim, só podia ser a Gulbenkian, era certamente a Gulbenkian. Foi para lá que a galope me dirigi com o meu fiel Rocinante. Farto que estava de ter tanta gente em polvorosa à minha volta, apaziguou-me a ideia de aí poder vir a descansar alguns momentos, antes de decidir que rumo dar à vida. Porém, qual não foi o meu espanto quando, aí chegado, dei de elmo, ou de caras, com uma pequena multidão que à entrada da fundação se aglomerava com um prospecto na mão. Já a trote e depois a passo, aproximei-me, e uma vez mais poucos foram aqueles que me ligaram por aí além. Só um ou outro aproveitaram para tirar umas fotografias, que não pude impedir, ainda por mais que deteste aparecer nelas, pois acho-me sempre muito magro e isso enerva-me, tanto mais que nunca percebi porque não engordava já que comia como se fosse um rei ou ministro.
Mas logo, logo percebi ao que ali estavam. Entusiasmava-os um tal de Amadeo, que, ao que percebi, era pintor e ali via a sua obra exposta numa grande retrospectiva. Perguntei a uma das pessoas que ali estavam se o homem pintava coisa de jeito, coisa que se visse, assim uma bonecada de jeito, como o Dalí ou o Picasso, os pintores espanhóis, se conhecia?... O homem olhou-me com desdém e quase indignação dizendo apenas, «santa ignorância»! Passei adiante, que ali não haveria de colher grandes ensinamentos. Dirigi-me antes para as traseiras da fundação, para os jardins onde me recordava existir um belo lago com patinhos e cisnes. Com sorte ainda ali estava e nada mais a calhar uma vez que o Rocinante se encontrava sequioso. Estava o meu bravo alazão a matar a desmedida sede quando se aproxima um guarda, fato cinzento, óculos escuros, crachá ao peito (dizendo: Silva Cardo – Segurança) e walkie-talkie na mão a fazer zumbido. Como o homem viesse por trás do Rocinante, e ouvindo este o dito zumbido, pensa tratar-se de varejeira que se lhe aproximasse do lombo e zás, nem o pensa duas vezes, alça a pata direita e tunga, coice no desgraçado guarda que só tem tempo para mandar um grito, mais parecendo um pavão. Sorte a dele, que a patada o apanha de raspão, ainda assim não o livrando de tamanho susto que o leitor bem pode imaginar. Eu próprio suei as estopinhas quando lhe vi os cascos a lamberem a farda!
Quando tudo poderia ter acabado mal, com queixa e voz de prisão e essas coisas todas desagradáveis, sobretudo para um estrangeiro em Portugal, para mais sem papéis – por mais conhecido ou célebre que seja; pois que raio lhe haveria de interessar que eu fosse ou deixasse de ser o celebérrimo cavaleiro de la Mancha, provavelmente a personagem literária mais conhecida de todos os tempos e em todos os lugares... –, a verdade é que nem me posso queixar, já que o supracitado Silva Cardo, apesar dos seus apelidos pouco convidativos ao trato, se revelou um belo compincha. Que sim, que percebia que estava um calor danado, coisa como não se via ia para não sei quantos anos no país, e que já tinham morrido não sei quantos velhotes no Alentejo, alguns também até mesmo lá para cima, para o Norte, onde a chaga dos incêndios não havia modos de se combater, gado nem se fala, e que, de facto, os animais sofrem muito, têm uma sede danada e que coitadinho do bicho, que compreendia, efectivamente, mas que... tinha ordens! E ordens, amigo, disse ele, são para cumprir. «Pacta sunt servanta», rematou feliz a ver se eu sacava que tinha tido alguns estudos em leis e latim. «Ora, nem mais», disse-lhe eu, «e que ordens vêm a ser essas, amigo?...» (ensaboando-lhe o pêlo) «É muito simples, o senhor só tem de estacionar o animal no parqueamento!» Nem regateei, que com esta gente é melhor não pedir muito, sobretudo quando têm as tais «ordens» enfiadas na cabeça. «Vamos, alazão, a estacionar no parque, quem sabe é fresquinho e ao menos tens sombra!» O Rocinante anuiu, mas contrafeito, o que era compreensível já os parques eram para veículos motorizados e ele de motor só tinha quatro patas. A vida, porém, é feita destas surpresas e menor não tive quando cheguei à rampa do parque e me quiseram fazer pagar bilhete! Recusei-me e dei meia volta. Mas foi o início de mais um problema, pois atrás de mim estavam já dois carros em espera com condutores cujos rostos de amigáveis nada tinham, mas mesmo nada; dir-se-ia, não fossem os potentes carros, que eram críticos de arte. Apitadelas mais apitadelas, põe-se nervoso o Rocinante e sai-me dali a escoicinhar por tudo o que é lado, aferroando, posso assegurar, não menos que uma boa meia-dúzia de coices na chapa dos carros o que, naturalmente, mais enfureceu os seus ocupantes que já se aprestavam a sair do seu interior para ajuste de contas na base do corpo a corpo, e este, meus caros, não está nem estava para tanto. «Rocinante, ainda não há-de ser aqui que descansamos, força nesses cascos e vamo-nos daqui a galope enquanto é tempo.»

sábado, 24 de novembro de 2007

Digo eu

Antes internado a ter uma interna.

Dom Quixote, Acto I, Nina Ananiashvili e Alksei Fadeyetchev

A Demanda do Bravo Cavaleiro Dom Quixote - ou epá não podemos ficar de mal com ninguém! - Capítulo II

II.

Abraços e bacalhauzadas. Algumas técnicas de descontracção. Dona Paula e um pobre e jovem autor. Rocinante nervoso. O destino da Princesa. Os fantasmas da escrita, um sapão de todo o tamanho e uma agradável surpresa de arrasar.



Ainda antes de deixarem o escritório, consegui perceber que toda aquela azáfama ainda não tinha acabado. Mal a porta se tinha aberto todos quantos lá fora se encontravam, no hall de entrada da editora, se abateram sobre a senhora Etelvina e o director editorial. Uns, cumprimentavam a distinta, parabenizavam-na, como gostam de dizer os brasileiros, outros, avançavam mesmo de livro em mão, pedindo-lhe o autógrafo da praxe. É como vos digo, parecia cena digna de estrela de Hollywood. E logo os capangas da «autora», afastando com os braços quem se aproximasse demasiado, apenas vociferando entre dentes e por trás do escuro das lentes, «calma, calma, calminha». O director editorial sorria e também ele era cumprimentado pelo pessoal da editora. Ali estava ele, a receber também os abraços e as bacalhauzadas como se, uma vez mais, ele, capitão de navio, houvesse descoberto fórmula ou tesouro capaz de endireitar o barco que chefiava levando-o a deixar para trás mares revoltos ou perigosas correntezas que se aprestassem a levar o navio ao fundo. Sim, a senhora Etelvina era, aos olhos de toda aquela gente, a terra firme havia muito ansiada, o farol que haveria de nortear, daí por diante, os novos e luminosos destinos da casa editorial. Numa palavra, a salvação.
Os capangas faziam o seu trabalho com eficácia, pelo que logo, logo, após meia-dúzia de autógrafos, a senhora Etelvina e o director editorial, seguido de perto pelos dois editores, e agora também por uma prestável relações públicas, se encaminharam, passos largos, para o BMW que já se encontrava com o motor a roncar, preparado, adivinhava-se, para um arranque em grande. De resto, à saída do portão da vivenda, também já os batedores da Polícia se tinham encarregue de parar o trânsito, não fosse a comitiva chegar atrasada ao seu próximo destino. Qual? O lançamento editorial, num grande hotel da capital, como logo a seguir confirmei espreitando uma folha A4 que o director editorial, na sua exaltação desmedida, esquecera em cima da secretária. Era o alinhamento dos planos para o dia e lá estava: «8h00 – Recepção nas instalações da senhora Etelvina»; «8h30 – Chegada dos primeiros exemplares da gráfica»; «9h00 – Pequeno-almoço com convidados no Hotel Lisboa XXI»; «10h00 – Recepção à Imprensa»; «10h30 – Lançamento editorial». Acabo de ler e ouço lá fora o chiar dos pneus do BM a que se juntaram algumas buzinadelas de protesto dos automobilistas que tinham sido mandados parar pela Polícia e que nada percebiam do que se estava a passar. «Parece qu’isto é São Bento», disse um, enquanto um taxista gritava pela janela: «Filhos da puta, deixem trabalhar quem quer trabalhar!»
Abstraí-me da cena, do trânsito que se avolumara e agora demorava em retomar o fluxo normal, e peguei num dos livros de um dos maços que ali fora deixado. Li novamente, a como se confirmar aquilo que não queria confirmar: «Etelvina Prazeres – A Verdade de Cristal». Até este momento estive, como se adivinha, num grande processo de contenção. Usei para tanto, de todos os estratagemas que me lembrei. Fiz mesmo uso das técnicas de descontracção aconselhadas àquelas pessoas que sofrem de ataques de pânico e que, mal começam a sentir que o comando sobre a mente lhes foge, iniciam esses exercícios de fuga para a frente, para fintar a força do psicológico. Bem vistas as coisas, nada mais nada menos do que tentar entreter o espírito com outras coisas que não a ideia fixa de que, de um segundo para o outro, podem vir a desfalecer, a sentir-se descontrolados, a não mais conseguir aguentar-se nas pernas. E então lá começam, antes do tremer dos braços, do peito, das pernas, assim, por exemplo, a contar para si «um, dois, três, quatro, cinco, seis , sete, oito ,nove , dez, onze...» e por aí adiante até que o espírito acalme, até que a cabeça retome o juízo e deixe de «macaquear». Pois foi isso que fiz, tal a comichão que aquela cena me estava a dar. Não contei os números, mas inspirei bem fundo a ver se me varriam os nervos e se me acalmava.
Tudo, enfim, estava mais pacificado. O ambiente tornara à quietude habitual. Nesse entretanto, batera à porta um escritor, que vinha ver as provas do seu livro, que dizia ter isso mesmo combinado, ainda no dia anterior, com o editor, e que, está de ver, bateu com a porta na cara. Que teria de voltar no dia seguinte, foi o que lhe disse friamente a Dona Paula, a coitada da recepcionista que foi a única a ter de permanecer nas instalações para dar seguimento aos serviços mínimos. Um pouco contristada, terá sido mesmo um pouco ríspida para com aquele jovem autor que ali se apresentara, ávido de pôr os olhos no seu primeiro livro. Nessas ocasiões, quando um aspirante a escritor não é ainda nada mais do que isso, o peso de uma recepcionista sobre um potencial jovem autor é enorme. Não sei mesmo se uma resposta daquelas pode levar ao claudicar do ânimo para empreender uma relação com o mundo da literatura, pelo menos uma relação que não tenha como mero objectivo o escrever para a gaveta. E faço aqui um parênteses para falar nessa questão. Mas alguém acredita que alguém escreve para a gaveta? Só se for para a gaveta dos outros! Sejamos sérios, se as pessoas escrevessem para a gaveta certamente que já existiria no mercado uma editora com esse nome, uma editora com fundos inesgotáveis, claro está, ou melhor, uma editora sem fundo... Não, escrever para a gaveta ninguém escreve, quando muito para o baú, como o Pessoa, mas esse era quem era, e não havia também gaveta que lhe aguentasse o espólio!
Agora perdi-me... Ia na dona Paula, creio, pois, e o pobre do jovem autor que ainda não fora naquele dia que vira as provas há tanto ansiadas. Uma carreira em risco, depois daquela resposta, acreditem, uma carreira em risco! Mas, pronto, desconte-se o mau humor à Dona Paula, triste que se encontrava por ter sido a única a ter de ficar para trás, a «aguentar o barco da casa», o correio que chega, os telefonemas, os cheques, as facturas que chegam, as miudezas do dia-a-dia, está de ver. Também, verdade, verdade é que o senhor Pinto também ficou, embora lá fora, no jardim, a cuidar das plantas e das flores, provavelmente contente por à noite já ter assunto de conversa em casa. Adiante. Voltei então ao livro em mãos. Lá me tinha conseguido acalmar, o que ficara a dever a alguns exercícios de relaxamento. Mais difícil foi conter a inquietação ao meu fiel Rocinante. Os animais são assim, é sabido que pressentem o estado de espírito dos seus donos, tomando-lhes a exacta ou exactas emoções, animando-se também eles do mesmo ânimo. Se estamos maldispostos tornam-se belicosos, e no caso dos cavalos se não temos cuidado arriscamo-nos a sofrer um coice. Já se estamos contentes, felizes, tornam-se dóceis a afectuosos, podendo qualquer um acariciá-los sem qualquer risco. Pois, o meu Rocinante estava nervoso, visivelmente nervoso, tal como eu estava e nisso não o culpo, senão a mim. Mas lá me acalmei e lá o acalmei, descendo-lhe o dorso devagar, dando-lhe umas palmadinhas afectuosas no pescoço, fazendo-lhe festas nas crinas. «Calma, meu velho amigo, calma, não há-de ser nada. Havemos de seguir adiante de cabeça erguida, não te preocupes, havemos de seguir adiante.»
Já não sou um homem propriamente novo. Vivi muito, vi muito e muito dei já que contar nas minhas aventuras que o mundo inteiro conhece. E pelejei como nenhuns, pelejei até moinhos, pelejei ventos e fantasmas, dir-se-ia que a mim próprio me pelejei... Pelo menos, assim o terão em conta aqueles que me julgam louco. Quando me reformei, julguei que a vida se tinha acabado e que terminaria os meus dias em paz e sossego junto com a minha Dulcineia. Ah, mas não, não era isso que o futuro me reservava, que aos grandes homens outro destino se encontra traçado que não o das existências que não deixam rasto nesta vida, que não o daqueles que se acomodam ao passar rotineiro e cinzento dos dias, dos meses, dos anos! Não, a mim esperavam-me ainda outros voos, outros moinhos se perfilavam no horizonte da minha errância. A convite de portugueses foi com grande dificuldade, embora com não menos sentido de responsabilidade e do dever, que tomei a opção de deixar as minhas terras castelhanas e vir para o país vizinho, pondo assim os meus créditos e valor à disposição de nova empreitada na defesa de uma nova dama, a literatura.
Mas foi isso há coisa de vinte anos, pouco mais, pouco menos. Agora, pesam-me as pernas, já os braços e os músculos não me obedecem como antes. Por isso, e apenas por isso mal desmontei o meu fiel Rocinante e logo tomei uma cadeira onde me sentei a ver o livro de vos falei... «A Verdade de Cristal»... Bem, nisto tive que conceder, se o director editorial poderia ter perdido a lucidez e a sanidade mental em matéria de escolhas editoriais, já não posso dizer que tivesse perdido o jeito para a escolha de títulos. Pois, pois... «Etelvina Prazeres», naturalmente, o nome próprio e apelido, a convocar no imediato todos os que conhecem a figura, todos ansiando revelações explosivas, algumas eventualmente sórdidas, picantes até... E depois o inteligente subtítulo, «A Verdade de Cristal» e as diversas possíveis leituras da palavra «cristal». Por um lado, a remeter para uma vida de princesa, neste caso sabe-se lá oriunda de que mundos ou submundos, e logo a presunção de um cristal frágil, prestes a quebrar-se a qualquer instante, mas prestes também a quebrar tudo à sua volta no momento da sua própria quebra. Uma, a dama de ferro, esta a dama de cristal, querem ver... cogitei. Atrevi-me enfim a avançar, folheando as primeiras páginas.
Não foram precisas muitas linhas de leitura para logo confirmar as minhas piores suspeitas. O prefácio, de resto, mostrou-se elucidativo, cristalino quanto ao teor da «obra». Dizia assim: «O desatar corajoso de alguns dos nós mais apertados da sociedade portuguesa. Os pontos nos iis por parte de quem os viveu e sofreu na pele. Um testemunho arrepiante sobre os bastidores do futebol nacional. O bê-á-bá do poder jogado fora das quatro linhas. O sofrimento de uma mulher que foi princesa e agora querem ver na ruína. Um profundo soco no estômago daqueles que pensavam que calar seria a opção. Também um olhar sensível sobre o mundo dos relvados e os homens do apito. Um abrir de portas aos balneários de uma vida a dois.» Assinava a pérola introdutória um brasileiro que, não me falhem os conhecimentos futebolísticos, era seleccionador nacional. Nessa altura, já não sabia se haveria de rir ou chorar. Ergui alto as sobrancelhas, inspirei fundo e lá continuei, abrindo ao acaso as páginas, deitando vista por aquelas linhas certamente inauguradoras de um novo e elevado capítulo da literatura nacional...
Eu ria e chorava, ria e chorava com o que ia lendo. Eram estórias do arco da velha as que ali se encontravam. Despudoradamente, a senhora Etelvina desfiava a teia do seu passado, abrindo luz sobre momentos difíceis da sua vida. Os primeiros anos de labuta passados a trabalhar honestamente num bar nocturno e de fauna duvidosa, o desunhar-se para encontrar pão para a boca, etc. e tal, e, mais adiante, algumas lágrimas depois, explicitando os pormenores acerca do momento em que conhecera o presidente do tal clube com impacto na Liga nacional com quem, primeiro, viria a amigar-se e pouco depois viria mesmo a coabitar. Foi amor à primeira vista, depreendi das suas palavras emocionadas e da lembrança dos pequenos gestos de amor que ele tivera para com ela, como homem nenhum antes houvera tido a gentileza. Que a esse tempo era um perfeito cavalheiro, um gentleman. Certo é que pouco tempo depois a então jovem incógnita deixaria o anonimato para passar a ser a mais importante senhora a norte do país. Transformada numa autêntica princesa (lá está, a tal ideia do cristal), retirada ao mundo infame onde prestava serviços, a nova senhora que nascera para o mundo dava agora novos mundos e alegrias ao sequioso mundo da Imprensa cor-de-rosa. Sim, para trás tinham ficado a miséria de uma vida cheia de espinhos a agruras, o presente fazia-se de muita elegância e discrição quanto baste, de muitos vestidos e jóias, de muita maqueáge e horas gastas em spas. Comportar-se-ia como uma verdadeira dama e nisso pusera todas as suas forças e empenho.
Era pois o destino a traçar linhas correctas à sua vida, que ela merecia isso e muito mais. Finalmente, o destino fizera justiça aos seus esforços de mudança, à sua persistência em lutar por um lugar ao sol, ainda que não a sul, mas a norte. E pelo meio do emocionado e emocionante relato, os pormenores sublimes, amorosos, deliciosos... Os problemas aerofágicos do seu mais que tudo, a sua comunidade de pontos negros, enfim, a vida íntima do casal ali, completamente aberta, desflorada como uma inocente virgem. «Quero ser um livro aberto», era o título de um dos capítulos. Outro era: «Não abro mão dos meus direitos». E ainda outro: «Abrir o passado para ganhar o futuro». O verbo abrir era, curiosamente, e ao longo de todo o livro, uma estranha constante, vá lá saber-se porquê. Também assaz interessante era um capítulo intitulado «Pernas para que te quero!» Ao que percebi, nele se dava conta de uma história de contornos macabros e policiescos. Até aí nada de novo ou de muito espantar, até porque um homem como eu já viu de tudo nesta vida. A coisa, porém, tomava foros de incredulidade no ponto em que Etelvina Prazeres se autodenunciava num caso de suposto linchamento encomendado. Dizia ela que quando, a páginas tantas, o seu esposo quis dar uma lição a um certo «filho da puta» – e as aspas denunciavam que a expressão saíra da boca do esposo, não da dela, que nunca dizia asneiras – que o andava querer incriminar numas patranhas havidas com o mundo não menos aconselhável da arbitragem, ela própria se disponibilizara para levar a tarefa a bom porto, isto é, contratando os pulhas que, por tuta e meia, tratariam de levar o tal do «filho da puta» à razão e ao bom senso. Mais dizia que a coisa se tinha feito sem dificuldades de maior, ou não fossem aqueles que ela contactara verdadeiros profissionais, gente de valor inquestionável na matéria, e que, de resto, nunca a tinham deixado ficar mal em nenhuma circunstância. Só não especificava quais.
E lá vinha tudo, tintim por tintim, como se fosse um receituário médico ou um descritivo contabilístico, com o deve e o a ver, neste caso, com as somas implicadas no «negócio», o montante avançado e o mais entregue depois de efectivado o trabalho, o local, a data, fulano tal, beltrano e sicrano que, sim senhora, garantia e isso mesmo estava disposta a afirmar, necessário fosse, perante as autoridades, também ali tinham estado e atestado mão ao supracitado «filho da puta», novamente entre aspas, não fossem dizer que ela não era pessoa de bem ou a quem faltasse decoro ou educação. Confesso, custou-me a crer que tudo aquilo fosse verdade, isto por mais pantanoso que fosse o charco do nosso futebol que tantas alegrias tinha dado ao povo no ainda fresquinho na memória campeonato do mundo da Alemanha. Mas depois pensei, não, algum fundo de verdade isto há-de ter, pois não é por dá cá aquela palha que alguém, como esta pobre Etelvina, a si próprio se denuncia correndo riscos de ir parar à prisão. Das duas uma, ou é pura mentira e tudo o que escreve não passa de pura invenção a reboque de primários instintos de vingança agora que já não era primeira dama, tendo, em consequência, perdido uma série de privilégios, ou é pura verdade e, uma vez mais, é ainda o instinto de vingança, elevado ao máximo, que a anima para a levar a testemunhos que tais. Uma espécie de amok, tal como o diagnosticou literariamente Stefan Zweig, só que, neste caso, não derivado de um estado de amor, mas antes de uma falta de amor tremenda; ao outro e a ela própria.
Outra parte do livro que me deixou de rastos, leia-se prestes a cair da cadeira, foi o posfácio, no qual o editor relatava, de forma não muito extensa, o processo de trabalho com a «autora» até dar o livro por terminado. E dizia ele que não, que ao contrário do que se poderia esperar, ou do que muitos poderiam julgar, por má fé ou mera inveja, a senhora Etelvina tinha sido uma agradável surpresa! E que ela própria fora a primeira a assumir não ser escritora, pondo imensas reservas sempre que entregava um capítulo. A verdade é que tínhamos escritora, tínhamos mão! Mão? – pergunto eu. Mão!? Pois não reconheci eu logo à primeira leitura de um ou outro parágrafo que a única mão que ali estava nas entrelinhas era a do escritor-fantasma que trabalhava para a editora! Uma vergonha! Então a senhora tinha mão! Mão invisível, só se for. No caso concreto, a do José Salvador. Não sei se será o melhor momento, mas até acho que seja uma boa altura para dizer uma palavra de agrado a estes homens, a estes fantasmas da escrita. Uns tipos que até sabem o que fazem, que sabem escrever, que escrevem os livros aos quais os outros dão a cara e não se importam com isso, com que os outros ganhem fama e proveito enquanto eles se ficam com o magro salário do mês, longe das entrevistas, dos jornais, dos programas televisivos com a menina que se encosta às estantes num namoro literário de mau gosto. Coitado do Salvador! Um tipo curioso, sim, deixem-me também que vos diga, um companheiro de muitas noites. Um tanto ou quanto pálido, de feições esbranquiçadas, ar leitoso, por vezes meio assustador, mas pronto, creio que isso acaba por ser natural na sua profissão... Esquisito, agora que penso nisso, é ele só trabalhar à noite. Pois é, é curioso, não me lembro de alguma vez o ter visto por cá de dia...
Mas pronto, era o que vos dizia, «uma agradável surpresa» e que «tínhamos mão». Esta última arrasou-me, devo confessar. Um homem como eu já viveu muito para saber que durante a vida tem de se saber engolir muitos sapos, agora há sapos e sapos, e este nem uma coisa nem outra, este era um sapão de todo o tamanho, um sapo que não havia estômago que aguentasse. Rocinante, disse para o meu velho companheiro de estrada, creio que, uma vez mais, é chegada a hora de mudar de caminho, de trilhar novos rumos que estes em que nos plantamos em nada nos merecem já. Pelo contrário, desmerecem-nos! Desmerecem-nos!

Radar

Não há bela sem senão. António Sérgio, prescindido numa rádio reles há coisa de meses, ingressa agora na melhor rádio da região lisboeta, a Radar. Com programa novo a ir para o ar já a partir de 3 de Dezembro, creio que diraiamente, excepto fins-de-semana, entre as 23h00 e a 01h00. Se não for assim depois corrijo.

Um dia vou escrever um conto chamado...

Salazar de Bolso

Comemorações

Começam hoje, creio, manifestações públicas celebrando os 200 anos passados sobre as Invasões Francesas (que, diz António Pedro Vicente, hoje, no «Expresso», afinal foram quatro, se às três clássicas aprendidas no Ciclo juntarmos uma primeira, feita pelos espanhóis (concertados com as tropas francesas) e que originaria a Guerra das Laranjas. Tudo muito bem. Só não percebo esta mania de celebrar factos e marcos históricos que nos foram nefastos. Tal como me custa perceber a mania de se celebrarem os não-sei-quantos-anos-passados sobre a morte de fulano e sicrano!

Dalton

As cores do blog, porque o leitor tem (quase) sempre razão.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Eu, Carolina, Eu, Etelvina

O António Manuel Venda (blog florestadosul, ver hiperligação na barra lateral em Bloguário) propõe para as aventuras do meu bravo cavaleiro Dom Quixote o mais vendável e comercial título «Eu, Carolina, Eu, Etelvina». Está comprado! Haverá por aí editor que queira encaixar umas massas? Um já me disse que não, que não se podiam arranjar problemas...

E agora para um momento poético

conselhos a um filho por vir

por exemplo a vida
deita-te com ela e sobretudo
não faças da existência um X.

desenruga os dias
oferece um pássaro a uma árvore
chama-lhe tua chama-lhe terra.

por exemplo antes de saíres
certifica-te do nível do ó
cio. confia mas fiado.

ri-te de cara lavada nunca
de mão estendida. o silêncio
respeita-lhe os dentes. ama

mas com o cuidado que é costume

ter-se com os tendões
com a coluna e com a calúnia
com o siso e com a sisa.

não dês conselhos aconselha-te
desconfia dos números
e já agora agasalha-te.

Don Quijote de La Mancha (1979)

A Demanda do Bravo Cavaleiro Dom Quixote - Um sério divertimento - Publicação on line de um livro recusado por não querer incomodar - Capítulo I

I.

Manhã cedo. O director editorial fora do horário habitual. A Grã Cruz, o Nobel, o treinador do Benfica que ainda acreditava e um BMW perigosamente ameaçando o canteiro de jarros do senhor Pinto. Encómios a Etelvina, dita autora. Um livro ainda a cheirar a tinta.


Não sei bem porquê, mas qualquer coisa no ar, naquela manhã de uma semana de trabalho que até aí decorrera em perfeita normalidade, me fez pressentir que algo se passava ou iria passar-se, retirando aos amplos espaços do escritório a pacatez habitual e modorrenta em que as horas e os dias decorriam. Estranhei. Estranhei logo quando a empregada de limpeza veio trabalhar nesse dia. A dona Ifigénia só tinha por hábito vir às sextas-feiras, no final de semana, como era lógico, após cinco dias de trabalho, de muita lufa-lufa pelas salas e corredores, depois de muita gente calcorrear aquele chão de alcatifa já gasta, descolorida e puída. Agora, quarta-feira – confirmei no calendário de parede, onde surgiam em grande plano, e a cada mês, as fotografias dos doze escritores best-sellers da casa –, mal o sol nascera e já ela por ali cirandava de esfregona e balde à ilharga, pano do pó e líquido limpa-vidros dentro, respectivamente, dos dois bolsos do avental que trazia vestido. Esteve para ali cerca de umas duas horas, saindo pouco depois da chegada do director editorial que lhe confirmou o bom trabalho efectuado, dando-lhe carta de alforria para se pôr dali para fora e até à próxima, Dona Ifigénia, que agora tenho coisas para fazer.
O director editorial, portanto. Ali, às nove da manhã – bem mais cedo do que o seu horário habitual de chegada! Mas mais, encontrava-se desperto e cheio de energia. Ao invés da sua aparência rotineira, de algum enfado e declarado desânimo face a uma actividade que já não lhe arrancava grandes euforias, antes muitos desaires e descrenças no mundo à sua volta, no seu universo profissional e em concreto na sorte do seu destino, o director editorial, naquela manhã, parecia um jovem. Sim, um daqueles rapazes novos, acabados se de licenciarem, julgando ainda poderem vir a mudar e ganhar o mundo, sonhando com elevadas empresas, grandes feitos e grandes conseguimentos profissionais. Pois era assim, animado desse estado de espírito, que entrou pelo gabinete adentro, despindo o casaco, pondo-o despreocupadamente sobre as costas da cadeira e esfregando as mãos no imediato como se tivesse acabado de chegar à empresa, tivesse vinte anos e se preparasse para encabeçar uma revolução.
Pela porta que o director editorial deixara propositadamente entreaberta, como se esperasse alguma personalidade mediática a todo o momento e não quisesse perder um só segundo em recebê-la, vislumbrei também nesse momento um corrupio lá fora, no hall de entrada, junto à máquina do café, bem ao lado da secretária da Dona Paula, a telefonista e recepcionista, também secretária do director. Seriam o quê agora? Nove e meia? Dez, vá lá?... Não, nove e meia, sim, ouvi claramente nas notícias intercalares da rádio que entretanto o director editorial ligara para ouvir as «gordas» do dia. O habitual: que o aumento dos impostos estava à porta; que a gasolina ia aumentar; que mais três explosões tinham deflagrado no centro de Bagdade; que o treinador do Benfica ainda acreditava ser capaz de vencer o campeonato, etc. Em notícia de última hora – susceptível por isso de posteriores desenvolvimentos que os jornalistas daquela rádio se encarregariam de acompanhar a todo o instante –, ouvi ainda falar de umas também já corriqueiras notícias acerca de suspeitas de suborno a árbitros de futebol. Interessado que estava em perceber o que se passava à entrada do escritório, com tanta gente ali a falar animadamente logo àquela hora, não consegui perceber, no imediato, a ligação entre aquela última notícia e a edição de um livro qualquer assinado por uma senhora, cujo nome também não logrei entender, mas que, concluía o jornalista com voz grave, iria, certamente, «ser uma bomba».
Por momentos ainda pensei que estivesse a fazer confusão, que a tal referência à bomba não fosse mais do que um qualquer desenvolvimento, também de última hora, às informações antes avançadas sobre o Iraque. De modo que me abstraí desse pensamento. De outra forma não poderia ser, de resto, pois a correria naquele escritório não parecia deixar de aumentar. O director editorial atarefava-se em arrumar ao milímetro os objectos sobre a sua secretária, compondo a sua geometria, alinhando o telefone com as linhas do cinzeiro, posicionando o teclado do computador de forma a estabelecer uma paralela perfeita com o écran, alinhando com apuro as três molduras onde surgiam, sorridentes, as fotografias da mulher e das três filhas. Depois, as estantes. Com um dedo, e afastando levemente para trás a cara acompanhando o gesto de um fechar do olho direito, como quem faz pontaria com arco e flecha ou espingarda, subtilmente tratou de alinhar todas as lombadas, passando depois, último acto, o dedo indicador direito sobre a largura da madeira a confirmar a ausência de pó. Por último, não menos importante, endireitou também os três quadros que se encontravam na parede por trás da sua cadeira, todos eles ostentando fotografias ampliadas. Num, via-se ele próprio lado a lado com o Presidente da República, por ocasião de uma sessão havida há já vários anos em que fora agraciado com a Grã Cruz de Mérito Cultural, em virtude, disse-se e leu-se na circunstância, «dos excepcionais serviços prestados à cultura nacional». Noutro, também ele surgia, agora abraçado ao Nobel poucas horas depois de este ter recebido a distinção da Academia Sueca, em Estocolmo. Na última moldura, uma vez mais surgia ele, desta feita, fazendo-se acompanhar de um grupo de escritores da casa. Não sei porquê, mas esta imagem sempre me fez uma espécie de comichão, creio que por via dos sorrisos que os escritores mostravam, não porque não soubessem sorrir mas porque se denotava que eram risos forçados. Até porque, conhecendo as suas obras, não batia a bota com a perdigota. Os seus livros eram negros, cifrados, herméticos, tristes e isso, acredito, muito havia de revelar sobre as suas almas ou estados de espírito. O que é facto é que riam, vá lá saber-se porquê, riam. Por causa dos números de exemplares vendidos dos seus livros é que não era de certeza. De modo que... estão a ver, uma comichão...
Não andasse eu nisto há quase já uma vida inteira e dar-me-ia por parvo, não percebendo ou suspeitando o que se passava. Enfim, não é que nunca tivesse acontecido, mas, se bem me lembro, pelas minhas contas... duas... três, sim, talvez umas três vezes nos últimos vinte anos. Estou a falar deste engalanar, destes preparativos, como se ali fosse ter lugar um qualquer casamento. Mas não, topei logo o que devia estar a preparar-se. Não diria que fosse a visita do Santo Papa, mas era capaz de apostar que pela porta de entrada do escritório muito em breve, coisa de minutos (ou horas, a fazer fé nos atrasos habituais), entraria peixe graúdo. Escritor, não. Não me cheirava que fosse escritor, que fosse quem ele fosse não haveria de merecer tamanhos preparos. Nem sequer o Nobel, porque esse, sabia eu, havia muito que não deixava a ilha onde se exilara, e quando o fazia o mais das vezes era para participar em lançamentos de livros em locais estrategicamente pensados para o efeito – de resto, era impensável que tais momentos decorressem ali no escritório. Seguindo as ideias de um escritor-jornalista mediático, tornadas públicas aquando de um lançamento de um livro seu, lançar um livro tinha de ser coisa feita como em Espanha, no Brasil ou no estrangeiro, resumia. Isto é, em sede própria para levar os jornalistas a saírem das suas redacções, e isso, dizia com um sorriso jocoso, só se conseguia com festas e bolos. Resumindo, a si próprio se chamava tolo!
O facto é que o director editorial fisgou aquela ideia ao ler na Imprensa escrita as opiniões iluminadas do dito escritor em fase de aceitação crescente no mercado dos tops nacionais. «Pois se assim é, e ele lá deve sabê-lo, porque anda lá por fora, havemos de fazer da mesma maneira», pensou. E assim se fez doravante. Voltando um pouco atrás, dizia eu que haveria de ser coisa de vulto, figura política, por certo, talvez um ex-primeiro-ministro ou se calhar até mesmo o novo Presidente da República. Sim, talvez que ele estivesse já a pensar em publicar o tomo primeiro das suas grandes memórias, talvez já tivesse a coisa feita – em segredo, naturalmente, que é para que a coisa depois funcione em termos de efeito surpresa, porque nestas coisas dos livros o timming é fundamental. Pois estava capaz de apostar que seria o Presidente da República, tanto mais que agora me lembrava que, em recente visita à Índia, ele acabara de ser doutorado honoris causae em Literatura. Nem mais, era isso com certeza. Aproveitando a maré de aceitação dos seus méritos literários, quer em matéria de conhecimentos quer no que a obra feita respeita, o Presidente aprestava-se a lançar no mercado o primeiro volume das suas memórias. Enfim, é verdade que não estava no cargo há muito tempo, tinham passado apenas seis meses, mas enfim, o conselho editorial, reunido de emergência, provavelmente chegara à conclusão de que ali se desenhava uma boa oportunidade de negócio. Depois, era só questão de arranjar um nome minimamente intelectualizado para a obra e o prestígio do nome do senhor Presidente faria o resto. A decidir eu, iria por um título assim do género... «Seis Meses e Um Dia». Era mais do que certo que seria um sucesso. Por um lado, os seis meses a darem conta de meio ano de trabalho ininterrupto, de muita frescura nos acontecimentos, por outro, aquele «um dia» a suscitar nos leitores a curiosidade, a instilar no ar a ideia de que algo de especial se passara naquele dia... Sei lá!, como diria a outra. Sei é que ou muito me enganava ou seria mesmo a visita do senhor Presiden...
Não. E palavra que nesse instante quase me engasgo! Não era o Presidente. Estava eu naquelas minhas elucubrações divinatórias quando, seriam já as oito da manhã, ouço grande zunzum no exterior do edifício. Cá do alto, deito olho pela janela e que vejo? Motas, motas de polícia azuis e brancas! Batedores policiais fazendo guarda e abrindo caminho para a entrada nos jardins de um enorme BMW preto metalizado que avançava agora aos poucos conduzido por um tipo de ar soturno, a lembrar um gangster dos tempos modernos. Via-se que vestia todo de negro, sobretudo comprido sobre camisola de gola alta também preta, uns óculos escuros de marca compunham a figura. Lembrei-me logo de uma cena vista há uns meses na televisão, em que no aeroporto de Lisboa uns tipos que tais foram esperar um empresário da redondinha para lhe fazerem uma espera. Ali mesmo, na gare das Chegadas internacionais, à frente das câmaras de televisão e dos olhos incrédulos de quem quisesse assistir à cena. Conversa para cá e para lá, percebendo-se que ao embrulho estava um tal guarda-redes brasileiro que viera jogar para um clube alfacinha de implantação internacional, salta estalada de meia-noite! Coisa digna de registo em país terceiro-mundista e que acabou e bem, mais tarde, por ir parar ao livro de um escritor que se propusera escrever sobre figuras de vulto desse emblema. O livro tivera algum sucesso de vendas, quer por parte das hostes do clube em causa, quer nas fileiras das equipas adversárias. Os primeiros abriram as carteiras pensando ir ao encontro de uma galeria de textos jubilatórios dos seus heróis, os outros leram a coisa de maneira diversa e compraram para «gozar o prato». Chamava-se «Seres Benfiquistas» e na altura em que foi editado suscitou alguma polémica, originou alguns programas televisivos de debate acirrado, mas que logo, logo se dissipou quando, algumas fins-de-semana depois, o «roubo» de um pénalti escandaloso num derby do campeonato inverteu as agulhas do engalfinhamento público.
Nestas coisas do futebol o melhor é mesmo uma pessoa não se meter, sob pena de perder a cabeça e sob pena de perder o fio à meada narrativa. De modo que continuo a relatar o que vi no exterior do escritório, numa altura em que o supracitado BMW topo de gama (esta, outra expressão que sempre me deu que pensar, pois o «gama» sempre me levava a pensar no verbo gamar...) se imobilizava sobre o relvado com um enorme pneu ameaçando perigosamente um canteiro de Jarros que o senhor Pinto ali cultivara ia para um par de meses. De sacho às costas, testemunhando a cena mudo e quedo, o senhor Pinto não queria acreditar no que via.
Nem eu! Mas não, não era pelos Jarros que o bom homem se ensimesmava enrugando a testa de espanto. Era porque, tão-só, ali a dois singelos passos dos seus olhinhos que a terra (a mesma onde cresciam as flores) havia de comer, se encontrava a dona Etelvina Prazeres. Nem mais, ela, ali, em pessoa, a sair pela porta o carro exibindo um ar de gravidade, como se à sua roda se respirasse um clima de perigo iminente. E quem não a reconheceria das muitas vezes que aparecera nas televisões e nas revistas cor de rosa acompanhando o seu distinto ex-companheiro de casa e cama, o presidente de um clube nortenho de grande flama e conquistas futebolísticas nas últimas duas décadas? Todos certamente, eu incluído, embora, como talvez já tenham notado, seja alguém que só liga ao futebol à distância, enojado que ando com esse meio de suborno e corrupção que todos concordam em existir mas ao qual ninguém parece interessado em pôr cobro. E agora, agora sai-me esta ao alcance da visão, que, juro-vos, eu não queria acreditar no que via.
Esbaforido, que outra palavra melhor não encontro para traduzir o seu ar, o director editorial sai porta do gabinete fora, olhos esgalgados, todo ele sorrisos e floreados, desce até ao jardim e beija a mão à senhora Etelvina Prazeres. Coisa digna de recepção monárquica – embasbaquei. Não tardou muito até que os dois subissem os poucos degraus que levavam ao escritório e entrassem pelo gabinete onde me encontro adentro, o gabinete do director editorial, portanto, que agora se desfaz em galanteios e encómios à senhora Etelvina, dando-lhe a conhecer, em breves e vaidosas apresentações, os cantos ao gabinete. «Esta fotografia foi tirada aqui... esta acoli... aquela acolá...» Confesso que não percebi ao que ali se encontrava. Vistas as coisas, não errara por muito, sempre era alguém ligado a um presidente, bom, embora não o da República, mas sempre um presidente... Mas porquê ali? A que vinha? De onde vinha? Para onde ia toda aquela cena que já me estava a corroer de inquietação?
Que sim, que estava muito bonito, que tinham feito um belo trabalho, com muito apuro e cuidados, de resto, como a obra era merecedora, que, enfim, «não se preocupasse, antes relaxasse, talvez um copo de água?, não?, um sumo? de laranja. Natural? Sim? Sim, óptimo, óptimo. Só um momento» – pegando no telefone. «P’ala... sim, sou eu, traga um sumo de laranja fresquinho para a senhora Etelvina, por favor, obrigado, até já, até já.» Mas a senhora Etelvina não dava mostras de se acalmar. Trazia o espírito, notava-se, em estado de altercação, percebia-se logo que no íntimo do seu peito volumoso alguma coisa a perturbava, e todo esse leve mal-estar o seu rosto denunciava, todo ele pesaroso e amedrontado, numa preocupação latente, uma qualquer coisa que a afligia... «Sabe, é a primeira vez. Vão crucificar-me! Tenho receio das reacções...» «Ora, ora, minha senhora, deixe isso por nossa conta, então, afinal estamos no mercado há quase duas décadas, somos profissionais. Não se preocupe que tudo está previsto, tudo se vai passar bem e conforme previsto. A propósito, recebeu a nossa nota informativa acerca dos horários, o lançamento, os locais e tal...» «Sim, sim, quanto a isso estou descansada. Tenho é receio das manifestações...» «Mas quais manifestações? Manifestações, vai ver, só as terá de apreço, de regozijo pela sua coragem.» «Acha?» «Tenho a certeza.» «Ainda bem. E... você sabe... aquele... aquele tipo dos bigodes crescidos... o do outro clube... sempre...» «Schuuu... es-que-ça! Não fale nisso... é coisa que não aconteceu... que nunca se passou. Quer dizer, passou-se mas não se passou se me faço entender. Sei que irá lá estar e não se fala mais nisso.» «Mas terá dinheiro para comprar quantos exemplares?...» «Ui, ui, ui, menina, esqueça isso, por favor, já lhe disse que a coisa está tratada. Digamos que o que a gente vai poupar em publicidade investiu-se nisso...»
Estavam nisto – o director editorial mais dois editores, que aquele mandara chamar –, num apaparicar da senhora que não parecia ter fim, como se a distinta fosse a primeira dama do país, quando batem à porta. De um salto, o director editorial põe-se em pé e dirige-se ansioso para a porta. Qual não é o meu espanto, vejo entrar por ali dentro duas secretárias carregando dois maços de livros, ainda com cheiro a tinta e devidamente embalados pela gráfica, de onde, notava-se, vinham acabadinhos de chegar. Bem sei que nestas coisas de livros novos há sempre, por parte de quem os trabalha, uma curiosidade enorme, uma ansiedade, diria mesmo, em ver o resultado final. Isto é, em ver os livros, tocar o objecto, apalpá-los, fazer correr-lhes as páginas, vê-los e observá-los em todos os seus pormenores, admirando o primor do trabalho, os bons acabamentos, o brilho correcto do verniz, a escolha acertada das cores. Tudo isto, claro está, com grande dose de orgulho à medida e um não dissimulado medo em encontrar-lhes alguma gralha de impressão.
Batem novamente à porta. Solícita e sorridente, Paula (ou P’ala, como dizia de forma afectada o director editorial) pede licença para entrar com uma bandejinha na mão onde equilibrava um copo com sumo de laranja e dois pratinhos com aperitivos salgados: amêndoas descascadas, amendoins torrados, pistácios, cajus e era tudo. «Obrigado, P’ala, pode sair.» Diz-lhe o director editorial, não parando, por isso, de admirar a obra em mãos acabada de sair do prelo. Lá fora, o mesmo burburinho irritante, com restantes editores, gráficos, designers, secretárias, telefonista e os demais funcionários da editora, todos eles em pulos. Ao lado deles, os capangas da senhora Etelvina Prazeres, firmes e hirtos que nem estátuas, ali, encostados à parede perto da porta do gabinete, sempre de óculos escuros nas carantonhas, com ar de poucos amigos, a postos para o que desse e viesse não fosse certamente alguém atentar contra a integridade da patroa. Percebi então que também do outro lado da porta toda aquela gente já entretecia comentários a propósito de um livro que passava de mãos em mãos. Gunchinhos, ais e uis, sorrisos disfarçados, lábios mordidos em espanto por esta ou aquela passagem que liam na diagonal, a coisa haveria de ser deveras interessante.
Só eu, até então, nada ainda percebera do que se passava. Quer dizer, soube logo quem era a dita senhora e percebi depois que estaria, de alguma forma, ligada àquele livro misterioso que agora, também ela, afagava nas mãos delicadas sobre os joelhos, detendo, aqui e ali, numa ou noutra páginas ao acaso, o dedo indicador da mão direita, contrastando o vermelho vivo do seu verniz com o branco seco das páginas. E pela primeira vez, sorriu. Sorriu ao voltar a fechar o livro e ao ver novamente a sua fotografia na capa, bem como ao ouvir os outros dizendo que estava «maravilhosa, óptima, fantástica, uma verdadeira senhora»... disse o director editorial, corrigindo: «Bem, perdão, naturalmente que uma senhora já é!» E para disfarçar estendeu-lhe o exemplar que tinha nas suas mãos pedindo-lhe no imediato um autógrafo. A senhora Etelvina Prazeres, nesse momento inaugural da sua carreira literária, não conseguiu disfarçar a vaidade que já a roía no peito. «Com certeza, senhor director editorial, onde é que assino?» «Onde entender, cara autora», volveu-lhe o prestimoso director editorial, abrindo-lhe o livro nas páginas iniciais. «Aí, aí, pode ser aí», apontou com o dedo da mão esquerda enquanto com a outra levava à boca um punhado valente de cajus. «Ai, sabe como é isto, um vício, começa-se a comer e não se consegue parar...»
Etelvina Prazeres lá apôs o seu nome na terceira página do livro, uma daquelas que se deixa em branco no início, regra geral onde aparecem as dedicatórias ou as epígrafes. Ali, no caso, não havia epígrafe, o que era de estranhar. Ao contrário, no final do livro a autora fazia os seus agradecimentos da praxe a quem a ajudara a tomar em mãos e levar a bom porto tal empresa, de que ela jamais se suspeitara capaz, reiterou quando acabava a assinatura. «Ora, ora», disse-lhe logo o director editorial desvalorizando a questão, «minha querida autora, soubesse você a quantidade de escritores que para aí andam e não sabem alinhar meia-dúzia de frases com lógica umas atrás das outras. Imaginasse você a quantidade deles que não faz ideia do que seja uma frase com sujeito, verbo e complemento! E as concordâncias? Ai as concordâncias!». Etelvina sorriu, mais descontraída, e de novo todos se puseram a gabar a excelência da obra em mãos. E o director editorial naquilo, como eu nunca vira em anos e anos de trabalho. Autora para aqui, autora para ali, que o sucesso estava garantido e que se ela assim o entendesse desde já poderiam começar a pensar num novo volume. Ao que ela: «Ai, não sei, talvez seja demasiado cedo, queria primeiro ver a reacção do público, dos leitores, da crítica, quem sabe. Mas obrigada desde já, obrigada por acreditar em mim».
Não penso que o director editorial verdadeiramente acreditasse nela. Quer dizer, pelo menos como autora, como futuro vulto ou promessa da literatura nacional. A verdade é que não parecia o mesmo, não podia tratar-se do mesmo profissional exigente que eu conhecia, de anos e anos de trabalho de autêntica prospecção literária, de descoberta de novos valores, daquele director editorial sob cujos auspícios haviam nascido, ao longo de cerca de duas décadas, tantos e tão bons autores. No romance, no teatro, na poesia, no ensaio... E agora!? Agora ali, babando-se com a senhora Etelvina Prazeres e com aquela que, percebi, seria ou era a sua primeira obra literária. Quando, depois de muitas trocas de palavras, os dois se levantaram, acompanhados pelos editores presentes, para saírem do escritório, consegui por fim aperceber-me de que género de livro se tratava. Virando-se de costas para o local onde me encontrava, o director editorial pegou no livro com a mão esquerda e levantou-o no ar, repetindo «Um sucesso! Um sucesso!» Foi então que vi, foi então que vi tudo, vi e não queria acreditar. Era eu, sim, eu, eu mesmo, eu ali na capa daquele livro com autoria da senhora Etelvina Prazeres. E por cima de mim, um pouco abaixo do título, que era, tão-só, o nome da dita cuja, o subtítulo da «obra» que, ao lê-lo de relance, de imediato algo me elucidou sobre o seu cariz: «Verdades Verdadeiras».

Pais e Filhos - Charlotte Gainsbourg/ The Songs That We Sing

Pais e Filhos - Serge Gainsbourg/ Ballade de Melody Nelson - Serge Gainsbourg

Histórias Fulminantes 49

Os caracóis na cabeça do Senhor K. eram tantos que não conseguia evitar a morosidade dos seus pensamentos.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Silence Music Box


Bonnie Prince Billy sim, poderia fazer todos os anos um disco até aos cem anos. O senhor Will Oldham não sabe senão fazer excelentes músicas. Eis o novo EP, «Ask Forgiveness».

Pintéus?!







Ontem também, princípio de tarde passado no Palácio de Pintéus (Loures), casa do fadista João Ferreira Rosa. Um Favaios, uma aguardente velha oferecida, muitos insultos à república, vivas à Monarquia, e muitas obras de arte nesta «casa» que devia ser património de visita obrigatória. E, de passagem, reconhecem o rapazito sentado ao lado de Ferreira Rosa?