sábado, 24 de novembro de 2007
A Demanda do Bravo Cavaleiro Dom Quixote - ou epá não podemos ficar de mal com ninguém! - Capítulo II
II.
Abraços e bacalhauzadas. Algumas técnicas de descontracção. Dona Paula e um pobre e jovem autor. Rocinante nervoso. O destino da Princesa. Os fantasmas da escrita, um sapão de todo o tamanho e uma agradável surpresa de arrasar.
Ainda antes de deixarem o escritório, consegui perceber que toda aquela azáfama ainda não tinha acabado. Mal a porta se tinha aberto todos quantos lá fora se encontravam, no hall de entrada da editora, se abateram sobre a senhora Etelvina e o director editorial. Uns, cumprimentavam a distinta, parabenizavam-na, como gostam de dizer os brasileiros, outros, avançavam mesmo de livro em mão, pedindo-lhe o autógrafo da praxe. É como vos digo, parecia cena digna de estrela de Hollywood. E logo os capangas da «autora», afastando com os braços quem se aproximasse demasiado, apenas vociferando entre dentes e por trás do escuro das lentes, «calma, calma, calminha». O director editorial sorria e também ele era cumprimentado pelo pessoal da editora. Ali estava ele, a receber também os abraços e as bacalhauzadas como se, uma vez mais, ele, capitão de navio, houvesse descoberto fórmula ou tesouro capaz de endireitar o barco que chefiava levando-o a deixar para trás mares revoltos ou perigosas correntezas que se aprestassem a levar o navio ao fundo. Sim, a senhora Etelvina era, aos olhos de toda aquela gente, a terra firme havia muito ansiada, o farol que haveria de nortear, daí por diante, os novos e luminosos destinos da casa editorial. Numa palavra, a salvação.
Os capangas faziam o seu trabalho com eficácia, pelo que logo, logo, após meia-dúzia de autógrafos, a senhora Etelvina e o director editorial, seguido de perto pelos dois editores, e agora também por uma prestável relações públicas, se encaminharam, passos largos, para o BMW que já se encontrava com o motor a roncar, preparado, adivinhava-se, para um arranque em grande. De resto, à saída do portão da vivenda, também já os batedores da Polícia se tinham encarregue de parar o trânsito, não fosse a comitiva chegar atrasada ao seu próximo destino. Qual? O lançamento editorial, num grande hotel da capital, como logo a seguir confirmei espreitando uma folha A4 que o director editorial, na sua exaltação desmedida, esquecera em cima da secretária. Era o alinhamento dos planos para o dia e lá estava: «8h00 – Recepção nas instalações da senhora Etelvina»; «8h30 – Chegada dos primeiros exemplares da gráfica»; «9h00 – Pequeno-almoço com convidados no Hotel Lisboa XXI»; «10h00 – Recepção à Imprensa»; «10h30 – Lançamento editorial». Acabo de ler e ouço lá fora o chiar dos pneus do BM a que se juntaram algumas buzinadelas de protesto dos automobilistas que tinham sido mandados parar pela Polícia e que nada percebiam do que se estava a passar. «Parece qu’isto é São Bento», disse um, enquanto um taxista gritava pela janela: «Filhos da puta, deixem trabalhar quem quer trabalhar!»
Abstraí-me da cena, do trânsito que se avolumara e agora demorava em retomar o fluxo normal, e peguei num dos livros de um dos maços que ali fora deixado. Li novamente, a como se confirmar aquilo que não queria confirmar: «Etelvina Prazeres – A Verdade de Cristal». Até este momento estive, como se adivinha, num grande processo de contenção. Usei para tanto, de todos os estratagemas que me lembrei. Fiz mesmo uso das técnicas de descontracção aconselhadas àquelas pessoas que sofrem de ataques de pânico e que, mal começam a sentir que o comando sobre a mente lhes foge, iniciam esses exercícios de fuga para a frente, para fintar a força do psicológico. Bem vistas as coisas, nada mais nada menos do que tentar entreter o espírito com outras coisas que não a ideia fixa de que, de um segundo para o outro, podem vir a desfalecer, a sentir-se descontrolados, a não mais conseguir aguentar-se nas pernas. E então lá começam, antes do tremer dos braços, do peito, das pernas, assim, por exemplo, a contar para si «um, dois, três, quatro, cinco, seis , sete, oito ,nove , dez, onze...» e por aí adiante até que o espírito acalme, até que a cabeça retome o juízo e deixe de «macaquear». Pois foi isso que fiz, tal a comichão que aquela cena me estava a dar. Não contei os números, mas inspirei bem fundo a ver se me varriam os nervos e se me acalmava.
Tudo, enfim, estava mais pacificado. O ambiente tornara à quietude habitual. Nesse entretanto, batera à porta um escritor, que vinha ver as provas do seu livro, que dizia ter isso mesmo combinado, ainda no dia anterior, com o editor, e que, está de ver, bateu com a porta na cara. Que teria de voltar no dia seguinte, foi o que lhe disse friamente a Dona Paula, a coitada da recepcionista que foi a única a ter de permanecer nas instalações para dar seguimento aos serviços mínimos. Um pouco contristada, terá sido mesmo um pouco ríspida para com aquele jovem autor que ali se apresentara, ávido de pôr os olhos no seu primeiro livro. Nessas ocasiões, quando um aspirante a escritor não é ainda nada mais do que isso, o peso de uma recepcionista sobre um potencial jovem autor é enorme. Não sei mesmo se uma resposta daquelas pode levar ao claudicar do ânimo para empreender uma relação com o mundo da literatura, pelo menos uma relação que não tenha como mero objectivo o escrever para a gaveta. E faço aqui um parênteses para falar nessa questão. Mas alguém acredita que alguém escreve para a gaveta? Só se for para a gaveta dos outros! Sejamos sérios, se as pessoas escrevessem para a gaveta certamente que já existiria no mercado uma editora com esse nome, uma editora com fundos inesgotáveis, claro está, ou melhor, uma editora sem fundo... Não, escrever para a gaveta ninguém escreve, quando muito para o baú, como o Pessoa, mas esse era quem era, e não havia também gaveta que lhe aguentasse o espólio!
Agora perdi-me... Ia na dona Paula, creio, pois, e o pobre do jovem autor que ainda não fora naquele dia que vira as provas há tanto ansiadas. Uma carreira em risco, depois daquela resposta, acreditem, uma carreira em risco! Mas, pronto, desconte-se o mau humor à Dona Paula, triste que se encontrava por ter sido a única a ter de ficar para trás, a «aguentar o barco da casa», o correio que chega, os telefonemas, os cheques, as facturas que chegam, as miudezas do dia-a-dia, está de ver. Também, verdade, verdade é que o senhor Pinto também ficou, embora lá fora, no jardim, a cuidar das plantas e das flores, provavelmente contente por à noite já ter assunto de conversa em casa. Adiante. Voltei então ao livro em mãos. Lá me tinha conseguido acalmar, o que ficara a dever a alguns exercícios de relaxamento. Mais difícil foi conter a inquietação ao meu fiel Rocinante. Os animais são assim, é sabido que pressentem o estado de espírito dos seus donos, tomando-lhes a exacta ou exactas emoções, animando-se também eles do mesmo ânimo. Se estamos maldispostos tornam-se belicosos, e no caso dos cavalos se não temos cuidado arriscamo-nos a sofrer um coice. Já se estamos contentes, felizes, tornam-se dóceis a afectuosos, podendo qualquer um acariciá-los sem qualquer risco. Pois, o meu Rocinante estava nervoso, visivelmente nervoso, tal como eu estava e nisso não o culpo, senão a mim. Mas lá me acalmei e lá o acalmei, descendo-lhe o dorso devagar, dando-lhe umas palmadinhas afectuosas no pescoço, fazendo-lhe festas nas crinas. «Calma, meu velho amigo, calma, não há-de ser nada. Havemos de seguir adiante de cabeça erguida, não te preocupes, havemos de seguir adiante.»
Já não sou um homem propriamente novo. Vivi muito, vi muito e muito dei já que contar nas minhas aventuras que o mundo inteiro conhece. E pelejei como nenhuns, pelejei até moinhos, pelejei ventos e fantasmas, dir-se-ia que a mim próprio me pelejei... Pelo menos, assim o terão em conta aqueles que me julgam louco. Quando me reformei, julguei que a vida se tinha acabado e que terminaria os meus dias em paz e sossego junto com a minha Dulcineia. Ah, mas não, não era isso que o futuro me reservava, que aos grandes homens outro destino se encontra traçado que não o das existências que não deixam rasto nesta vida, que não o daqueles que se acomodam ao passar rotineiro e cinzento dos dias, dos meses, dos anos! Não, a mim esperavam-me ainda outros voos, outros moinhos se perfilavam no horizonte da minha errância. A convite de portugueses foi com grande dificuldade, embora com não menos sentido de responsabilidade e do dever, que tomei a opção de deixar as minhas terras castelhanas e vir para o país vizinho, pondo assim os meus créditos e valor à disposição de nova empreitada na defesa de uma nova dama, a literatura.
Mas foi isso há coisa de vinte anos, pouco mais, pouco menos. Agora, pesam-me as pernas, já os braços e os músculos não me obedecem como antes. Por isso, e apenas por isso mal desmontei o meu fiel Rocinante e logo tomei uma cadeira onde me sentei a ver o livro de vos falei... «A Verdade de Cristal»... Bem, nisto tive que conceder, se o director editorial poderia ter perdido a lucidez e a sanidade mental em matéria de escolhas editoriais, já não posso dizer que tivesse perdido o jeito para a escolha de títulos. Pois, pois... «Etelvina Prazeres», naturalmente, o nome próprio e apelido, a convocar no imediato todos os que conhecem a figura, todos ansiando revelações explosivas, algumas eventualmente sórdidas, picantes até... E depois o inteligente subtítulo, «A Verdade de Cristal» e as diversas possíveis leituras da palavra «cristal». Por um lado, a remeter para uma vida de princesa, neste caso sabe-se lá oriunda de que mundos ou submundos, e logo a presunção de um cristal frágil, prestes a quebrar-se a qualquer instante, mas prestes também a quebrar tudo à sua volta no momento da sua própria quebra. Uma, a dama de ferro, esta a dama de cristal, querem ver... cogitei. Atrevi-me enfim a avançar, folheando as primeiras páginas.
Não foram precisas muitas linhas de leitura para logo confirmar as minhas piores suspeitas. O prefácio, de resto, mostrou-se elucidativo, cristalino quanto ao teor da «obra». Dizia assim: «O desatar corajoso de alguns dos nós mais apertados da sociedade portuguesa. Os pontos nos iis por parte de quem os viveu e sofreu na pele. Um testemunho arrepiante sobre os bastidores do futebol nacional. O bê-á-bá do poder jogado fora das quatro linhas. O sofrimento de uma mulher que foi princesa e agora querem ver na ruína. Um profundo soco no estômago daqueles que pensavam que calar seria a opção. Também um olhar sensível sobre o mundo dos relvados e os homens do apito. Um abrir de portas aos balneários de uma vida a dois.» Assinava a pérola introdutória um brasileiro que, não me falhem os conhecimentos futebolísticos, era seleccionador nacional. Nessa altura, já não sabia se haveria de rir ou chorar. Ergui alto as sobrancelhas, inspirei fundo e lá continuei, abrindo ao acaso as páginas, deitando vista por aquelas linhas certamente inauguradoras de um novo e elevado capítulo da literatura nacional...
Eu ria e chorava, ria e chorava com o que ia lendo. Eram estórias do arco da velha as que ali se encontravam. Despudoradamente, a senhora Etelvina desfiava a teia do seu passado, abrindo luz sobre momentos difíceis da sua vida. Os primeiros anos de labuta passados a trabalhar honestamente num bar nocturno e de fauna duvidosa, o desunhar-se para encontrar pão para a boca, etc. e tal, e, mais adiante, algumas lágrimas depois, explicitando os pormenores acerca do momento em que conhecera o presidente do tal clube com impacto na Liga nacional com quem, primeiro, viria a amigar-se e pouco depois viria mesmo a coabitar. Foi amor à primeira vista, depreendi das suas palavras emocionadas e da lembrança dos pequenos gestos de amor que ele tivera para com ela, como homem nenhum antes houvera tido a gentileza. Que a esse tempo era um perfeito cavalheiro, um gentleman. Certo é que pouco tempo depois a então jovem incógnita deixaria o anonimato para passar a ser a mais importante senhora a norte do país. Transformada numa autêntica princesa (lá está, a tal ideia do cristal), retirada ao mundo infame onde prestava serviços, a nova senhora que nascera para o mundo dava agora novos mundos e alegrias ao sequioso mundo da Imprensa cor-de-rosa. Sim, para trás tinham ficado a miséria de uma vida cheia de espinhos a agruras, o presente fazia-se de muita elegância e discrição quanto baste, de muitos vestidos e jóias, de muita maqueáge e horas gastas em spas. Comportar-se-ia como uma verdadeira dama e nisso pusera todas as suas forças e empenho.
Era pois o destino a traçar linhas correctas à sua vida, que ela merecia isso e muito mais. Finalmente, o destino fizera justiça aos seus esforços de mudança, à sua persistência em lutar por um lugar ao sol, ainda que não a sul, mas a norte. E pelo meio do emocionado e emocionante relato, os pormenores sublimes, amorosos, deliciosos... Os problemas aerofágicos do seu mais que tudo, a sua comunidade de pontos negros, enfim, a vida íntima do casal ali, completamente aberta, desflorada como uma inocente virgem. «Quero ser um livro aberto», era o título de um dos capítulos. Outro era: «Não abro mão dos meus direitos». E ainda outro: «Abrir o passado para ganhar o futuro». O verbo abrir era, curiosamente, e ao longo de todo o livro, uma estranha constante, vá lá saber-se porquê. Também assaz interessante era um capítulo intitulado «Pernas para que te quero!» Ao que percebi, nele se dava conta de uma história de contornos macabros e policiescos. Até aí nada de novo ou de muito espantar, até porque um homem como eu já viu de tudo nesta vida. A coisa, porém, tomava foros de incredulidade no ponto em que Etelvina Prazeres se autodenunciava num caso de suposto linchamento encomendado. Dizia ela que quando, a páginas tantas, o seu esposo quis dar uma lição a um certo «filho da puta» – e as aspas denunciavam que a expressão saíra da boca do esposo, não da dela, que nunca dizia asneiras – que o andava querer incriminar numas patranhas havidas com o mundo não menos aconselhável da arbitragem, ela própria se disponibilizara para levar a tarefa a bom porto, isto é, contratando os pulhas que, por tuta e meia, tratariam de levar o tal do «filho da puta» à razão e ao bom senso. Mais dizia que a coisa se tinha feito sem dificuldades de maior, ou não fossem aqueles que ela contactara verdadeiros profissionais, gente de valor inquestionável na matéria, e que, de resto, nunca a tinham deixado ficar mal em nenhuma circunstância. Só não especificava quais.
E lá vinha tudo, tintim por tintim, como se fosse um receituário médico ou um descritivo contabilístico, com o deve e o a ver, neste caso, com as somas implicadas no «negócio», o montante avançado e o mais entregue depois de efectivado o trabalho, o local, a data, fulano tal, beltrano e sicrano que, sim senhora, garantia e isso mesmo estava disposta a afirmar, necessário fosse, perante as autoridades, também ali tinham estado e atestado mão ao supracitado «filho da puta», novamente entre aspas, não fossem dizer que ela não era pessoa de bem ou a quem faltasse decoro ou educação. Confesso, custou-me a crer que tudo aquilo fosse verdade, isto por mais pantanoso que fosse o charco do nosso futebol que tantas alegrias tinha dado ao povo no ainda fresquinho na memória campeonato do mundo da Alemanha. Mas depois pensei, não, algum fundo de verdade isto há-de ter, pois não é por dá cá aquela palha que alguém, como esta pobre Etelvina, a si próprio se denuncia correndo riscos de ir parar à prisão. Das duas uma, ou é pura mentira e tudo o que escreve não passa de pura invenção a reboque de primários instintos de vingança agora que já não era primeira dama, tendo, em consequência, perdido uma série de privilégios, ou é pura verdade e, uma vez mais, é ainda o instinto de vingança, elevado ao máximo, que a anima para a levar a testemunhos que tais. Uma espécie de amok, tal como o diagnosticou literariamente Stefan Zweig, só que, neste caso, não derivado de um estado de amor, mas antes de uma falta de amor tremenda; ao outro e a ela própria.
Outra parte do livro que me deixou de rastos, leia-se prestes a cair da cadeira, foi o posfácio, no qual o editor relatava, de forma não muito extensa, o processo de trabalho com a «autora» até dar o livro por terminado. E dizia ele que não, que ao contrário do que se poderia esperar, ou do que muitos poderiam julgar, por má fé ou mera inveja, a senhora Etelvina tinha sido uma agradável surpresa! E que ela própria fora a primeira a assumir não ser escritora, pondo imensas reservas sempre que entregava um capítulo. A verdade é que tínhamos escritora, tínhamos mão! Mão? – pergunto eu. Mão!? Pois não reconheci eu logo à primeira leitura de um ou outro parágrafo que a única mão que ali estava nas entrelinhas era a do escritor-fantasma que trabalhava para a editora! Uma vergonha! Então a senhora tinha mão! Mão invisível, só se for. No caso concreto, a do José Salvador. Não sei se será o melhor momento, mas até acho que seja uma boa altura para dizer uma palavra de agrado a estes homens, a estes fantasmas da escrita. Uns tipos que até sabem o que fazem, que sabem escrever, que escrevem os livros aos quais os outros dão a cara e não se importam com isso, com que os outros ganhem fama e proveito enquanto eles se ficam com o magro salário do mês, longe das entrevistas, dos jornais, dos programas televisivos com a menina que se encosta às estantes num namoro literário de mau gosto. Coitado do Salvador! Um tipo curioso, sim, deixem-me também que vos diga, um companheiro de muitas noites. Um tanto ou quanto pálido, de feições esbranquiçadas, ar leitoso, por vezes meio assustador, mas pronto, creio que isso acaba por ser natural na sua profissão... Esquisito, agora que penso nisso, é ele só trabalhar à noite. Pois é, é curioso, não me lembro de alguma vez o ter visto por cá de dia...
Mas pronto, era o que vos dizia, «uma agradável surpresa» e que «tínhamos mão». Esta última arrasou-me, devo confessar. Um homem como eu já viveu muito para saber que durante a vida tem de se saber engolir muitos sapos, agora há sapos e sapos, e este nem uma coisa nem outra, este era um sapão de todo o tamanho, um sapo que não havia estômago que aguentasse. Rocinante, disse para o meu velho companheiro de estrada, creio que, uma vez mais, é chegada a hora de mudar de caminho, de trilhar novos rumos que estes em que nos plantamos em nada nos merecem já. Pelo contrário, desmerecem-nos! Desmerecem-nos!
Abraços e bacalhauzadas. Algumas técnicas de descontracção. Dona Paula e um pobre e jovem autor. Rocinante nervoso. O destino da Princesa. Os fantasmas da escrita, um sapão de todo o tamanho e uma agradável surpresa de arrasar.
Ainda antes de deixarem o escritório, consegui perceber que toda aquela azáfama ainda não tinha acabado. Mal a porta se tinha aberto todos quantos lá fora se encontravam, no hall de entrada da editora, se abateram sobre a senhora Etelvina e o director editorial. Uns, cumprimentavam a distinta, parabenizavam-na, como gostam de dizer os brasileiros, outros, avançavam mesmo de livro em mão, pedindo-lhe o autógrafo da praxe. É como vos digo, parecia cena digna de estrela de Hollywood. E logo os capangas da «autora», afastando com os braços quem se aproximasse demasiado, apenas vociferando entre dentes e por trás do escuro das lentes, «calma, calma, calminha». O director editorial sorria e também ele era cumprimentado pelo pessoal da editora. Ali estava ele, a receber também os abraços e as bacalhauzadas como se, uma vez mais, ele, capitão de navio, houvesse descoberto fórmula ou tesouro capaz de endireitar o barco que chefiava levando-o a deixar para trás mares revoltos ou perigosas correntezas que se aprestassem a levar o navio ao fundo. Sim, a senhora Etelvina era, aos olhos de toda aquela gente, a terra firme havia muito ansiada, o farol que haveria de nortear, daí por diante, os novos e luminosos destinos da casa editorial. Numa palavra, a salvação.
Os capangas faziam o seu trabalho com eficácia, pelo que logo, logo, após meia-dúzia de autógrafos, a senhora Etelvina e o director editorial, seguido de perto pelos dois editores, e agora também por uma prestável relações públicas, se encaminharam, passos largos, para o BMW que já se encontrava com o motor a roncar, preparado, adivinhava-se, para um arranque em grande. De resto, à saída do portão da vivenda, também já os batedores da Polícia se tinham encarregue de parar o trânsito, não fosse a comitiva chegar atrasada ao seu próximo destino. Qual? O lançamento editorial, num grande hotel da capital, como logo a seguir confirmei espreitando uma folha A4 que o director editorial, na sua exaltação desmedida, esquecera em cima da secretária. Era o alinhamento dos planos para o dia e lá estava: «8h00 – Recepção nas instalações da senhora Etelvina»; «8h30 – Chegada dos primeiros exemplares da gráfica»; «9h00 – Pequeno-almoço com convidados no Hotel Lisboa XXI»; «10h00 – Recepção à Imprensa»; «10h30 – Lançamento editorial». Acabo de ler e ouço lá fora o chiar dos pneus do BM a que se juntaram algumas buzinadelas de protesto dos automobilistas que tinham sido mandados parar pela Polícia e que nada percebiam do que se estava a passar. «Parece qu’isto é São Bento», disse um, enquanto um taxista gritava pela janela: «Filhos da puta, deixem trabalhar quem quer trabalhar!»
Abstraí-me da cena, do trânsito que se avolumara e agora demorava em retomar o fluxo normal, e peguei num dos livros de um dos maços que ali fora deixado. Li novamente, a como se confirmar aquilo que não queria confirmar: «Etelvina Prazeres – A Verdade de Cristal». Até este momento estive, como se adivinha, num grande processo de contenção. Usei para tanto, de todos os estratagemas que me lembrei. Fiz mesmo uso das técnicas de descontracção aconselhadas àquelas pessoas que sofrem de ataques de pânico e que, mal começam a sentir que o comando sobre a mente lhes foge, iniciam esses exercícios de fuga para a frente, para fintar a força do psicológico. Bem vistas as coisas, nada mais nada menos do que tentar entreter o espírito com outras coisas que não a ideia fixa de que, de um segundo para o outro, podem vir a desfalecer, a sentir-se descontrolados, a não mais conseguir aguentar-se nas pernas. E então lá começam, antes do tremer dos braços, do peito, das pernas, assim, por exemplo, a contar para si «um, dois, três, quatro, cinco, seis , sete, oito ,nove , dez, onze...» e por aí adiante até que o espírito acalme, até que a cabeça retome o juízo e deixe de «macaquear». Pois foi isso que fiz, tal a comichão que aquela cena me estava a dar. Não contei os números, mas inspirei bem fundo a ver se me varriam os nervos e se me acalmava.
Tudo, enfim, estava mais pacificado. O ambiente tornara à quietude habitual. Nesse entretanto, batera à porta um escritor, que vinha ver as provas do seu livro, que dizia ter isso mesmo combinado, ainda no dia anterior, com o editor, e que, está de ver, bateu com a porta na cara. Que teria de voltar no dia seguinte, foi o que lhe disse friamente a Dona Paula, a coitada da recepcionista que foi a única a ter de permanecer nas instalações para dar seguimento aos serviços mínimos. Um pouco contristada, terá sido mesmo um pouco ríspida para com aquele jovem autor que ali se apresentara, ávido de pôr os olhos no seu primeiro livro. Nessas ocasiões, quando um aspirante a escritor não é ainda nada mais do que isso, o peso de uma recepcionista sobre um potencial jovem autor é enorme. Não sei mesmo se uma resposta daquelas pode levar ao claudicar do ânimo para empreender uma relação com o mundo da literatura, pelo menos uma relação que não tenha como mero objectivo o escrever para a gaveta. E faço aqui um parênteses para falar nessa questão. Mas alguém acredita que alguém escreve para a gaveta? Só se for para a gaveta dos outros! Sejamos sérios, se as pessoas escrevessem para a gaveta certamente que já existiria no mercado uma editora com esse nome, uma editora com fundos inesgotáveis, claro está, ou melhor, uma editora sem fundo... Não, escrever para a gaveta ninguém escreve, quando muito para o baú, como o Pessoa, mas esse era quem era, e não havia também gaveta que lhe aguentasse o espólio!
Agora perdi-me... Ia na dona Paula, creio, pois, e o pobre do jovem autor que ainda não fora naquele dia que vira as provas há tanto ansiadas. Uma carreira em risco, depois daquela resposta, acreditem, uma carreira em risco! Mas, pronto, desconte-se o mau humor à Dona Paula, triste que se encontrava por ter sido a única a ter de ficar para trás, a «aguentar o barco da casa», o correio que chega, os telefonemas, os cheques, as facturas que chegam, as miudezas do dia-a-dia, está de ver. Também, verdade, verdade é que o senhor Pinto também ficou, embora lá fora, no jardim, a cuidar das plantas e das flores, provavelmente contente por à noite já ter assunto de conversa em casa. Adiante. Voltei então ao livro em mãos. Lá me tinha conseguido acalmar, o que ficara a dever a alguns exercícios de relaxamento. Mais difícil foi conter a inquietação ao meu fiel Rocinante. Os animais são assim, é sabido que pressentem o estado de espírito dos seus donos, tomando-lhes a exacta ou exactas emoções, animando-se também eles do mesmo ânimo. Se estamos maldispostos tornam-se belicosos, e no caso dos cavalos se não temos cuidado arriscamo-nos a sofrer um coice. Já se estamos contentes, felizes, tornam-se dóceis a afectuosos, podendo qualquer um acariciá-los sem qualquer risco. Pois, o meu Rocinante estava nervoso, visivelmente nervoso, tal como eu estava e nisso não o culpo, senão a mim. Mas lá me acalmei e lá o acalmei, descendo-lhe o dorso devagar, dando-lhe umas palmadinhas afectuosas no pescoço, fazendo-lhe festas nas crinas. «Calma, meu velho amigo, calma, não há-de ser nada. Havemos de seguir adiante de cabeça erguida, não te preocupes, havemos de seguir adiante.»
Já não sou um homem propriamente novo. Vivi muito, vi muito e muito dei já que contar nas minhas aventuras que o mundo inteiro conhece. E pelejei como nenhuns, pelejei até moinhos, pelejei ventos e fantasmas, dir-se-ia que a mim próprio me pelejei... Pelo menos, assim o terão em conta aqueles que me julgam louco. Quando me reformei, julguei que a vida se tinha acabado e que terminaria os meus dias em paz e sossego junto com a minha Dulcineia. Ah, mas não, não era isso que o futuro me reservava, que aos grandes homens outro destino se encontra traçado que não o das existências que não deixam rasto nesta vida, que não o daqueles que se acomodam ao passar rotineiro e cinzento dos dias, dos meses, dos anos! Não, a mim esperavam-me ainda outros voos, outros moinhos se perfilavam no horizonte da minha errância. A convite de portugueses foi com grande dificuldade, embora com não menos sentido de responsabilidade e do dever, que tomei a opção de deixar as minhas terras castelhanas e vir para o país vizinho, pondo assim os meus créditos e valor à disposição de nova empreitada na defesa de uma nova dama, a literatura.
Mas foi isso há coisa de vinte anos, pouco mais, pouco menos. Agora, pesam-me as pernas, já os braços e os músculos não me obedecem como antes. Por isso, e apenas por isso mal desmontei o meu fiel Rocinante e logo tomei uma cadeira onde me sentei a ver o livro de vos falei... «A Verdade de Cristal»... Bem, nisto tive que conceder, se o director editorial poderia ter perdido a lucidez e a sanidade mental em matéria de escolhas editoriais, já não posso dizer que tivesse perdido o jeito para a escolha de títulos. Pois, pois... «Etelvina Prazeres», naturalmente, o nome próprio e apelido, a convocar no imediato todos os que conhecem a figura, todos ansiando revelações explosivas, algumas eventualmente sórdidas, picantes até... E depois o inteligente subtítulo, «A Verdade de Cristal» e as diversas possíveis leituras da palavra «cristal». Por um lado, a remeter para uma vida de princesa, neste caso sabe-se lá oriunda de que mundos ou submundos, e logo a presunção de um cristal frágil, prestes a quebrar-se a qualquer instante, mas prestes também a quebrar tudo à sua volta no momento da sua própria quebra. Uma, a dama de ferro, esta a dama de cristal, querem ver... cogitei. Atrevi-me enfim a avançar, folheando as primeiras páginas.
Não foram precisas muitas linhas de leitura para logo confirmar as minhas piores suspeitas. O prefácio, de resto, mostrou-se elucidativo, cristalino quanto ao teor da «obra». Dizia assim: «O desatar corajoso de alguns dos nós mais apertados da sociedade portuguesa. Os pontos nos iis por parte de quem os viveu e sofreu na pele. Um testemunho arrepiante sobre os bastidores do futebol nacional. O bê-á-bá do poder jogado fora das quatro linhas. O sofrimento de uma mulher que foi princesa e agora querem ver na ruína. Um profundo soco no estômago daqueles que pensavam que calar seria a opção. Também um olhar sensível sobre o mundo dos relvados e os homens do apito. Um abrir de portas aos balneários de uma vida a dois.» Assinava a pérola introdutória um brasileiro que, não me falhem os conhecimentos futebolísticos, era seleccionador nacional. Nessa altura, já não sabia se haveria de rir ou chorar. Ergui alto as sobrancelhas, inspirei fundo e lá continuei, abrindo ao acaso as páginas, deitando vista por aquelas linhas certamente inauguradoras de um novo e elevado capítulo da literatura nacional...
Eu ria e chorava, ria e chorava com o que ia lendo. Eram estórias do arco da velha as que ali se encontravam. Despudoradamente, a senhora Etelvina desfiava a teia do seu passado, abrindo luz sobre momentos difíceis da sua vida. Os primeiros anos de labuta passados a trabalhar honestamente num bar nocturno e de fauna duvidosa, o desunhar-se para encontrar pão para a boca, etc. e tal, e, mais adiante, algumas lágrimas depois, explicitando os pormenores acerca do momento em que conhecera o presidente do tal clube com impacto na Liga nacional com quem, primeiro, viria a amigar-se e pouco depois viria mesmo a coabitar. Foi amor à primeira vista, depreendi das suas palavras emocionadas e da lembrança dos pequenos gestos de amor que ele tivera para com ela, como homem nenhum antes houvera tido a gentileza. Que a esse tempo era um perfeito cavalheiro, um gentleman. Certo é que pouco tempo depois a então jovem incógnita deixaria o anonimato para passar a ser a mais importante senhora a norte do país. Transformada numa autêntica princesa (lá está, a tal ideia do cristal), retirada ao mundo infame onde prestava serviços, a nova senhora que nascera para o mundo dava agora novos mundos e alegrias ao sequioso mundo da Imprensa cor-de-rosa. Sim, para trás tinham ficado a miséria de uma vida cheia de espinhos a agruras, o presente fazia-se de muita elegância e discrição quanto baste, de muitos vestidos e jóias, de muita maqueáge e horas gastas em spas. Comportar-se-ia como uma verdadeira dama e nisso pusera todas as suas forças e empenho.
Era pois o destino a traçar linhas correctas à sua vida, que ela merecia isso e muito mais. Finalmente, o destino fizera justiça aos seus esforços de mudança, à sua persistência em lutar por um lugar ao sol, ainda que não a sul, mas a norte. E pelo meio do emocionado e emocionante relato, os pormenores sublimes, amorosos, deliciosos... Os problemas aerofágicos do seu mais que tudo, a sua comunidade de pontos negros, enfim, a vida íntima do casal ali, completamente aberta, desflorada como uma inocente virgem. «Quero ser um livro aberto», era o título de um dos capítulos. Outro era: «Não abro mão dos meus direitos». E ainda outro: «Abrir o passado para ganhar o futuro». O verbo abrir era, curiosamente, e ao longo de todo o livro, uma estranha constante, vá lá saber-se porquê. Também assaz interessante era um capítulo intitulado «Pernas para que te quero!» Ao que percebi, nele se dava conta de uma história de contornos macabros e policiescos. Até aí nada de novo ou de muito espantar, até porque um homem como eu já viu de tudo nesta vida. A coisa, porém, tomava foros de incredulidade no ponto em que Etelvina Prazeres se autodenunciava num caso de suposto linchamento encomendado. Dizia ela que quando, a páginas tantas, o seu esposo quis dar uma lição a um certo «filho da puta» – e as aspas denunciavam que a expressão saíra da boca do esposo, não da dela, que nunca dizia asneiras – que o andava querer incriminar numas patranhas havidas com o mundo não menos aconselhável da arbitragem, ela própria se disponibilizara para levar a tarefa a bom porto, isto é, contratando os pulhas que, por tuta e meia, tratariam de levar o tal do «filho da puta» à razão e ao bom senso. Mais dizia que a coisa se tinha feito sem dificuldades de maior, ou não fossem aqueles que ela contactara verdadeiros profissionais, gente de valor inquestionável na matéria, e que, de resto, nunca a tinham deixado ficar mal em nenhuma circunstância. Só não especificava quais.
E lá vinha tudo, tintim por tintim, como se fosse um receituário médico ou um descritivo contabilístico, com o deve e o a ver, neste caso, com as somas implicadas no «negócio», o montante avançado e o mais entregue depois de efectivado o trabalho, o local, a data, fulano tal, beltrano e sicrano que, sim senhora, garantia e isso mesmo estava disposta a afirmar, necessário fosse, perante as autoridades, também ali tinham estado e atestado mão ao supracitado «filho da puta», novamente entre aspas, não fossem dizer que ela não era pessoa de bem ou a quem faltasse decoro ou educação. Confesso, custou-me a crer que tudo aquilo fosse verdade, isto por mais pantanoso que fosse o charco do nosso futebol que tantas alegrias tinha dado ao povo no ainda fresquinho na memória campeonato do mundo da Alemanha. Mas depois pensei, não, algum fundo de verdade isto há-de ter, pois não é por dá cá aquela palha que alguém, como esta pobre Etelvina, a si próprio se denuncia correndo riscos de ir parar à prisão. Das duas uma, ou é pura mentira e tudo o que escreve não passa de pura invenção a reboque de primários instintos de vingança agora que já não era primeira dama, tendo, em consequência, perdido uma série de privilégios, ou é pura verdade e, uma vez mais, é ainda o instinto de vingança, elevado ao máximo, que a anima para a levar a testemunhos que tais. Uma espécie de amok, tal como o diagnosticou literariamente Stefan Zweig, só que, neste caso, não derivado de um estado de amor, mas antes de uma falta de amor tremenda; ao outro e a ela própria.
Outra parte do livro que me deixou de rastos, leia-se prestes a cair da cadeira, foi o posfácio, no qual o editor relatava, de forma não muito extensa, o processo de trabalho com a «autora» até dar o livro por terminado. E dizia ele que não, que ao contrário do que se poderia esperar, ou do que muitos poderiam julgar, por má fé ou mera inveja, a senhora Etelvina tinha sido uma agradável surpresa! E que ela própria fora a primeira a assumir não ser escritora, pondo imensas reservas sempre que entregava um capítulo. A verdade é que tínhamos escritora, tínhamos mão! Mão? – pergunto eu. Mão!? Pois não reconheci eu logo à primeira leitura de um ou outro parágrafo que a única mão que ali estava nas entrelinhas era a do escritor-fantasma que trabalhava para a editora! Uma vergonha! Então a senhora tinha mão! Mão invisível, só se for. No caso concreto, a do José Salvador. Não sei se será o melhor momento, mas até acho que seja uma boa altura para dizer uma palavra de agrado a estes homens, a estes fantasmas da escrita. Uns tipos que até sabem o que fazem, que sabem escrever, que escrevem os livros aos quais os outros dão a cara e não se importam com isso, com que os outros ganhem fama e proveito enquanto eles se ficam com o magro salário do mês, longe das entrevistas, dos jornais, dos programas televisivos com a menina que se encosta às estantes num namoro literário de mau gosto. Coitado do Salvador! Um tipo curioso, sim, deixem-me também que vos diga, um companheiro de muitas noites. Um tanto ou quanto pálido, de feições esbranquiçadas, ar leitoso, por vezes meio assustador, mas pronto, creio que isso acaba por ser natural na sua profissão... Esquisito, agora que penso nisso, é ele só trabalhar à noite. Pois é, é curioso, não me lembro de alguma vez o ter visto por cá de dia...
Mas pronto, era o que vos dizia, «uma agradável surpresa» e que «tínhamos mão». Esta última arrasou-me, devo confessar. Um homem como eu já viveu muito para saber que durante a vida tem de se saber engolir muitos sapos, agora há sapos e sapos, e este nem uma coisa nem outra, este era um sapão de todo o tamanho, um sapo que não havia estômago que aguentasse. Rocinante, disse para o meu velho companheiro de estrada, creio que, uma vez mais, é chegada a hora de mudar de caminho, de trilhar novos rumos que estes em que nos plantamos em nada nos merecem já. Pelo contrário, desmerecem-nos! Desmerecem-nos!
Radar
Não há bela sem senão. António Sérgio, prescindido numa rádio reles há coisa de meses, ingressa agora na melhor rádio da região lisboeta, a Radar. Com programa novo a ir para o ar já a partir de 3 de Dezembro, creio que diraiamente, excepto fins-de-semana, entre as 23h00 e a 01h00. Se não for assim depois corrijo.
Comemorações
Começam hoje, creio, manifestações públicas celebrando os 200 anos passados sobre as Invasões Francesas (que, diz António Pedro Vicente, hoje, no «Expresso», afinal foram quatro, se às três clássicas aprendidas no Ciclo juntarmos uma primeira, feita pelos espanhóis (concertados com as tropas francesas) e que originaria a Guerra das Laranjas. Tudo muito bem. Só não percebo esta mania de celebrar factos e marcos históricos que nos foram nefastos. Tal como me custa perceber a mania de se celebrarem os não-sei-quantos-anos-passados sobre a morte de fulano e sicrano!
sexta-feira, 23 de novembro de 2007
Eu, Carolina, Eu, Etelvina
O António Manuel Venda (blog florestadosul, ver hiperligação na barra lateral em Bloguário) propõe para as aventuras do meu bravo cavaleiro Dom Quixote o mais vendável e comercial título «Eu, Carolina, Eu, Etelvina». Está comprado! Haverá por aí editor que queira encaixar umas massas? Um já me disse que não, que não se podiam arranjar problemas...
E agora para um momento poético
conselhos a um filho por vir
por exemplo a vida
deita-te com ela e sobretudo
não faças da existência um X.
desenruga os dias
oferece um pássaro a uma árvore
chama-lhe tua chama-lhe terra.
por exemplo antes de saíres
certifica-te do nível do ó
cio. confia mas fiado.
ri-te de cara lavada nunca
de mão estendida. o silêncio
respeita-lhe os dentes. ama
mas com o cuidado que é costume
ter-se com os tendões
com a coluna e com a calúnia
com o siso e com a sisa.
não dês conselhos aconselha-te
desconfia dos números
e já agora agasalha-te.
por exemplo a vida
deita-te com ela e sobretudo
não faças da existência um X.
desenruga os dias
oferece um pássaro a uma árvore
chama-lhe tua chama-lhe terra.
por exemplo antes de saíres
certifica-te do nível do ó
cio. confia mas fiado.
ri-te de cara lavada nunca
de mão estendida. o silêncio
respeita-lhe os dentes. ama
mas com o cuidado que é costume
ter-se com os tendões
com a coluna e com a calúnia
com o siso e com a sisa.
não dês conselhos aconselha-te
desconfia dos números
e já agora agasalha-te.
A Demanda do Bravo Cavaleiro Dom Quixote - Um sério divertimento - Publicação on line de um livro recusado por não querer incomodar - Capítulo I
I.
Manhã cedo. O director editorial fora do horário habitual. A Grã Cruz, o Nobel, o treinador do Benfica que ainda acreditava e um BMW perigosamente ameaçando o canteiro de jarros do senhor Pinto. Encómios a Etelvina, dita autora. Um livro ainda a cheirar a tinta.
Não sei bem porquê, mas qualquer coisa no ar, naquela manhã de uma semana de trabalho que até aí decorrera em perfeita normalidade, me fez pressentir que algo se passava ou iria passar-se, retirando aos amplos espaços do escritório a pacatez habitual e modorrenta em que as horas e os dias decorriam. Estranhei. Estranhei logo quando a empregada de limpeza veio trabalhar nesse dia. A dona Ifigénia só tinha por hábito vir às sextas-feiras, no final de semana, como era lógico, após cinco dias de trabalho, de muita lufa-lufa pelas salas e corredores, depois de muita gente calcorrear aquele chão de alcatifa já gasta, descolorida e puída. Agora, quarta-feira – confirmei no calendário de parede, onde surgiam em grande plano, e a cada mês, as fotografias dos doze escritores best-sellers da casa –, mal o sol nascera e já ela por ali cirandava de esfregona e balde à ilharga, pano do pó e líquido limpa-vidros dentro, respectivamente, dos dois bolsos do avental que trazia vestido. Esteve para ali cerca de umas duas horas, saindo pouco depois da chegada do director editorial que lhe confirmou o bom trabalho efectuado, dando-lhe carta de alforria para se pôr dali para fora e até à próxima, Dona Ifigénia, que agora tenho coisas para fazer.
O director editorial, portanto. Ali, às nove da manhã – bem mais cedo do que o seu horário habitual de chegada! Mas mais, encontrava-se desperto e cheio de energia. Ao invés da sua aparência rotineira, de algum enfado e declarado desânimo face a uma actividade que já não lhe arrancava grandes euforias, antes muitos desaires e descrenças no mundo à sua volta, no seu universo profissional e em concreto na sorte do seu destino, o director editorial, naquela manhã, parecia um jovem. Sim, um daqueles rapazes novos, acabados se de licenciarem, julgando ainda poderem vir a mudar e ganhar o mundo, sonhando com elevadas empresas, grandes feitos e grandes conseguimentos profissionais. Pois era assim, animado desse estado de espírito, que entrou pelo gabinete adentro, despindo o casaco, pondo-o despreocupadamente sobre as costas da cadeira e esfregando as mãos no imediato como se tivesse acabado de chegar à empresa, tivesse vinte anos e se preparasse para encabeçar uma revolução.
Pela porta que o director editorial deixara propositadamente entreaberta, como se esperasse alguma personalidade mediática a todo o momento e não quisesse perder um só segundo em recebê-la, vislumbrei também nesse momento um corrupio lá fora, no hall de entrada, junto à máquina do café, bem ao lado da secretária da Dona Paula, a telefonista e recepcionista, também secretária do director. Seriam o quê agora? Nove e meia? Dez, vá lá?... Não, nove e meia, sim, ouvi claramente nas notícias intercalares da rádio que entretanto o director editorial ligara para ouvir as «gordas» do dia. O habitual: que o aumento dos impostos estava à porta; que a gasolina ia aumentar; que mais três explosões tinham deflagrado no centro de Bagdade; que o treinador do Benfica ainda acreditava ser capaz de vencer o campeonato, etc. Em notícia de última hora – susceptível por isso de posteriores desenvolvimentos que os jornalistas daquela rádio se encarregariam de acompanhar a todo o instante –, ouvi ainda falar de umas também já corriqueiras notícias acerca de suspeitas de suborno a árbitros de futebol. Interessado que estava em perceber o que se passava à entrada do escritório, com tanta gente ali a falar animadamente logo àquela hora, não consegui perceber, no imediato, a ligação entre aquela última notícia e a edição de um livro qualquer assinado por uma senhora, cujo nome também não logrei entender, mas que, concluía o jornalista com voz grave, iria, certamente, «ser uma bomba».
Por momentos ainda pensei que estivesse a fazer confusão, que a tal referência à bomba não fosse mais do que um qualquer desenvolvimento, também de última hora, às informações antes avançadas sobre o Iraque. De modo que me abstraí desse pensamento. De outra forma não poderia ser, de resto, pois a correria naquele escritório não parecia deixar de aumentar. O director editorial atarefava-se em arrumar ao milímetro os objectos sobre a sua secretária, compondo a sua geometria, alinhando o telefone com as linhas do cinzeiro, posicionando o teclado do computador de forma a estabelecer uma paralela perfeita com o écran, alinhando com apuro as três molduras onde surgiam, sorridentes, as fotografias da mulher e das três filhas. Depois, as estantes. Com um dedo, e afastando levemente para trás a cara acompanhando o gesto de um fechar do olho direito, como quem faz pontaria com arco e flecha ou espingarda, subtilmente tratou de alinhar todas as lombadas, passando depois, último acto, o dedo indicador direito sobre a largura da madeira a confirmar a ausência de pó. Por último, não menos importante, endireitou também os três quadros que se encontravam na parede por trás da sua cadeira, todos eles ostentando fotografias ampliadas. Num, via-se ele próprio lado a lado com o Presidente da República, por ocasião de uma sessão havida há já vários anos em que fora agraciado com a Grã Cruz de Mérito Cultural, em virtude, disse-se e leu-se na circunstância, «dos excepcionais serviços prestados à cultura nacional». Noutro, também ele surgia, agora abraçado ao Nobel poucas horas depois de este ter recebido a distinção da Academia Sueca, em Estocolmo. Na última moldura, uma vez mais surgia ele, desta feita, fazendo-se acompanhar de um grupo de escritores da casa. Não sei porquê, mas esta imagem sempre me fez uma espécie de comichão, creio que por via dos sorrisos que os escritores mostravam, não porque não soubessem sorrir mas porque se denotava que eram risos forçados. Até porque, conhecendo as suas obras, não batia a bota com a perdigota. Os seus livros eram negros, cifrados, herméticos, tristes e isso, acredito, muito havia de revelar sobre as suas almas ou estados de espírito. O que é facto é que riam, vá lá saber-se porquê, riam. Por causa dos números de exemplares vendidos dos seus livros é que não era de certeza. De modo que... estão a ver, uma comichão...
Não andasse eu nisto há quase já uma vida inteira e dar-me-ia por parvo, não percebendo ou suspeitando o que se passava. Enfim, não é que nunca tivesse acontecido, mas, se bem me lembro, pelas minhas contas... duas... três, sim, talvez umas três vezes nos últimos vinte anos. Estou a falar deste engalanar, destes preparativos, como se ali fosse ter lugar um qualquer casamento. Mas não, topei logo o que devia estar a preparar-se. Não diria que fosse a visita do Santo Papa, mas era capaz de apostar que pela porta de entrada do escritório muito em breve, coisa de minutos (ou horas, a fazer fé nos atrasos habituais), entraria peixe graúdo. Escritor, não. Não me cheirava que fosse escritor, que fosse quem ele fosse não haveria de merecer tamanhos preparos. Nem sequer o Nobel, porque esse, sabia eu, havia muito que não deixava a ilha onde se exilara, e quando o fazia o mais das vezes era para participar em lançamentos de livros em locais estrategicamente pensados para o efeito – de resto, era impensável que tais momentos decorressem ali no escritório. Seguindo as ideias de um escritor-jornalista mediático, tornadas públicas aquando de um lançamento de um livro seu, lançar um livro tinha de ser coisa feita como em Espanha, no Brasil ou no estrangeiro, resumia. Isto é, em sede própria para levar os jornalistas a saírem das suas redacções, e isso, dizia com um sorriso jocoso, só se conseguia com festas e bolos. Resumindo, a si próprio se chamava tolo!
O facto é que o director editorial fisgou aquela ideia ao ler na Imprensa escrita as opiniões iluminadas do dito escritor em fase de aceitação crescente no mercado dos tops nacionais. «Pois se assim é, e ele lá deve sabê-lo, porque anda lá por fora, havemos de fazer da mesma maneira», pensou. E assim se fez doravante. Voltando um pouco atrás, dizia eu que haveria de ser coisa de vulto, figura política, por certo, talvez um ex-primeiro-ministro ou se calhar até mesmo o novo Presidente da República. Sim, talvez que ele estivesse já a pensar em publicar o tomo primeiro das suas grandes memórias, talvez já tivesse a coisa feita – em segredo, naturalmente, que é para que a coisa depois funcione em termos de efeito surpresa, porque nestas coisas dos livros o timming é fundamental. Pois estava capaz de apostar que seria o Presidente da República, tanto mais que agora me lembrava que, em recente visita à Índia, ele acabara de ser doutorado honoris causae em Literatura. Nem mais, era isso com certeza. Aproveitando a maré de aceitação dos seus méritos literários, quer em matéria de conhecimentos quer no que a obra feita respeita, o Presidente aprestava-se a lançar no mercado o primeiro volume das suas memórias. Enfim, é verdade que não estava no cargo há muito tempo, tinham passado apenas seis meses, mas enfim, o conselho editorial, reunido de emergência, provavelmente chegara à conclusão de que ali se desenhava uma boa oportunidade de negócio. Depois, era só questão de arranjar um nome minimamente intelectualizado para a obra e o prestígio do nome do senhor Presidente faria o resto. A decidir eu, iria por um título assim do género... «Seis Meses e Um Dia». Era mais do que certo que seria um sucesso. Por um lado, os seis meses a darem conta de meio ano de trabalho ininterrupto, de muita frescura nos acontecimentos, por outro, aquele «um dia» a suscitar nos leitores a curiosidade, a instilar no ar a ideia de que algo de especial se passara naquele dia... Sei lá!, como diria a outra. Sei é que ou muito me enganava ou seria mesmo a visita do senhor Presiden...
Não. E palavra que nesse instante quase me engasgo! Não era o Presidente. Estava eu naquelas minhas elucubrações divinatórias quando, seriam já as oito da manhã, ouço grande zunzum no exterior do edifício. Cá do alto, deito olho pela janela e que vejo? Motas, motas de polícia azuis e brancas! Batedores policiais fazendo guarda e abrindo caminho para a entrada nos jardins de um enorme BMW preto metalizado que avançava agora aos poucos conduzido por um tipo de ar soturno, a lembrar um gangster dos tempos modernos. Via-se que vestia todo de negro, sobretudo comprido sobre camisola de gola alta também preta, uns óculos escuros de marca compunham a figura. Lembrei-me logo de uma cena vista há uns meses na televisão, em que no aeroporto de Lisboa uns tipos que tais foram esperar um empresário da redondinha para lhe fazerem uma espera. Ali mesmo, na gare das Chegadas internacionais, à frente das câmaras de televisão e dos olhos incrédulos de quem quisesse assistir à cena. Conversa para cá e para lá, percebendo-se que ao embrulho estava um tal guarda-redes brasileiro que viera jogar para um clube alfacinha de implantação internacional, salta estalada de meia-noite! Coisa digna de registo em país terceiro-mundista e que acabou e bem, mais tarde, por ir parar ao livro de um escritor que se propusera escrever sobre figuras de vulto desse emblema. O livro tivera algum sucesso de vendas, quer por parte das hostes do clube em causa, quer nas fileiras das equipas adversárias. Os primeiros abriram as carteiras pensando ir ao encontro de uma galeria de textos jubilatórios dos seus heróis, os outros leram a coisa de maneira diversa e compraram para «gozar o prato». Chamava-se «Seres Benfiquistas» e na altura em que foi editado suscitou alguma polémica, originou alguns programas televisivos de debate acirrado, mas que logo, logo se dissipou quando, algumas fins-de-semana depois, o «roubo» de um pénalti escandaloso num derby do campeonato inverteu as agulhas do engalfinhamento público.
Nestas coisas do futebol o melhor é mesmo uma pessoa não se meter, sob pena de perder a cabeça e sob pena de perder o fio à meada narrativa. De modo que continuo a relatar o que vi no exterior do escritório, numa altura em que o supracitado BMW topo de gama (esta, outra expressão que sempre me deu que pensar, pois o «gama» sempre me levava a pensar no verbo gamar...) se imobilizava sobre o relvado com um enorme pneu ameaçando perigosamente um canteiro de Jarros que o senhor Pinto ali cultivara ia para um par de meses. De sacho às costas, testemunhando a cena mudo e quedo, o senhor Pinto não queria acreditar no que via.
Nem eu! Mas não, não era pelos Jarros que o bom homem se ensimesmava enrugando a testa de espanto. Era porque, tão-só, ali a dois singelos passos dos seus olhinhos que a terra (a mesma onde cresciam as flores) havia de comer, se encontrava a dona Etelvina Prazeres. Nem mais, ela, ali, em pessoa, a sair pela porta o carro exibindo um ar de gravidade, como se à sua roda se respirasse um clima de perigo iminente. E quem não a reconheceria das muitas vezes que aparecera nas televisões e nas revistas cor de rosa acompanhando o seu distinto ex-companheiro de casa e cama, o presidente de um clube nortenho de grande flama e conquistas futebolísticas nas últimas duas décadas? Todos certamente, eu incluído, embora, como talvez já tenham notado, seja alguém que só liga ao futebol à distância, enojado que ando com esse meio de suborno e corrupção que todos concordam em existir mas ao qual ninguém parece interessado em pôr cobro. E agora, agora sai-me esta ao alcance da visão, que, juro-vos, eu não queria acreditar no que via.
Esbaforido, que outra palavra melhor não encontro para traduzir o seu ar, o director editorial sai porta do gabinete fora, olhos esgalgados, todo ele sorrisos e floreados, desce até ao jardim e beija a mão à senhora Etelvina Prazeres. Coisa digna de recepção monárquica – embasbaquei. Não tardou muito até que os dois subissem os poucos degraus que levavam ao escritório e entrassem pelo gabinete onde me encontro adentro, o gabinete do director editorial, portanto, que agora se desfaz em galanteios e encómios à senhora Etelvina, dando-lhe a conhecer, em breves e vaidosas apresentações, os cantos ao gabinete. «Esta fotografia foi tirada aqui... esta acoli... aquela acolá...» Confesso que não percebi ao que ali se encontrava. Vistas as coisas, não errara por muito, sempre era alguém ligado a um presidente, bom, embora não o da República, mas sempre um presidente... Mas porquê ali? A que vinha? De onde vinha? Para onde ia toda aquela cena que já me estava a corroer de inquietação?
Que sim, que estava muito bonito, que tinham feito um belo trabalho, com muito apuro e cuidados, de resto, como a obra era merecedora, que, enfim, «não se preocupasse, antes relaxasse, talvez um copo de água?, não?, um sumo? de laranja. Natural? Sim? Sim, óptimo, óptimo. Só um momento» – pegando no telefone. «P’ala... sim, sou eu, traga um sumo de laranja fresquinho para a senhora Etelvina, por favor, obrigado, até já, até já.» Mas a senhora Etelvina não dava mostras de se acalmar. Trazia o espírito, notava-se, em estado de altercação, percebia-se logo que no íntimo do seu peito volumoso alguma coisa a perturbava, e todo esse leve mal-estar o seu rosto denunciava, todo ele pesaroso e amedrontado, numa preocupação latente, uma qualquer coisa que a afligia... «Sabe, é a primeira vez. Vão crucificar-me! Tenho receio das reacções...» «Ora, ora, minha senhora, deixe isso por nossa conta, então, afinal estamos no mercado há quase duas décadas, somos profissionais. Não se preocupe que tudo está previsto, tudo se vai passar bem e conforme previsto. A propósito, recebeu a nossa nota informativa acerca dos horários, o lançamento, os locais e tal...» «Sim, sim, quanto a isso estou descansada. Tenho é receio das manifestações...» «Mas quais manifestações? Manifestações, vai ver, só as terá de apreço, de regozijo pela sua coragem.» «Acha?» «Tenho a certeza.» «Ainda bem. E... você sabe... aquele... aquele tipo dos bigodes crescidos... o do outro clube... sempre...» «Schuuu... es-que-ça! Não fale nisso... é coisa que não aconteceu... que nunca se passou. Quer dizer, passou-se mas não se passou se me faço entender. Sei que irá lá estar e não se fala mais nisso.» «Mas terá dinheiro para comprar quantos exemplares?...» «Ui, ui, ui, menina, esqueça isso, por favor, já lhe disse que a coisa está tratada. Digamos que o que a gente vai poupar em publicidade investiu-se nisso...»
Estavam nisto – o director editorial mais dois editores, que aquele mandara chamar –, num apaparicar da senhora que não parecia ter fim, como se a distinta fosse a primeira dama do país, quando batem à porta. De um salto, o director editorial põe-se em pé e dirige-se ansioso para a porta. Qual não é o meu espanto, vejo entrar por ali dentro duas secretárias carregando dois maços de livros, ainda com cheiro a tinta e devidamente embalados pela gráfica, de onde, notava-se, vinham acabadinhos de chegar. Bem sei que nestas coisas de livros novos há sempre, por parte de quem os trabalha, uma curiosidade enorme, uma ansiedade, diria mesmo, em ver o resultado final. Isto é, em ver os livros, tocar o objecto, apalpá-los, fazer correr-lhes as páginas, vê-los e observá-los em todos os seus pormenores, admirando o primor do trabalho, os bons acabamentos, o brilho correcto do verniz, a escolha acertada das cores. Tudo isto, claro está, com grande dose de orgulho à medida e um não dissimulado medo em encontrar-lhes alguma gralha de impressão.
Batem novamente à porta. Solícita e sorridente, Paula (ou P’ala, como dizia de forma afectada o director editorial) pede licença para entrar com uma bandejinha na mão onde equilibrava um copo com sumo de laranja e dois pratinhos com aperitivos salgados: amêndoas descascadas, amendoins torrados, pistácios, cajus e era tudo. «Obrigado, P’ala, pode sair.» Diz-lhe o director editorial, não parando, por isso, de admirar a obra em mãos acabada de sair do prelo. Lá fora, o mesmo burburinho irritante, com restantes editores, gráficos, designers, secretárias, telefonista e os demais funcionários da editora, todos eles em pulos. Ao lado deles, os capangas da senhora Etelvina Prazeres, firmes e hirtos que nem estátuas, ali, encostados à parede perto da porta do gabinete, sempre de óculos escuros nas carantonhas, com ar de poucos amigos, a postos para o que desse e viesse não fosse certamente alguém atentar contra a integridade da patroa. Percebi então que também do outro lado da porta toda aquela gente já entretecia comentários a propósito de um livro que passava de mãos em mãos. Gunchinhos, ais e uis, sorrisos disfarçados, lábios mordidos em espanto por esta ou aquela passagem que liam na diagonal, a coisa haveria de ser deveras interessante.
Só eu, até então, nada ainda percebera do que se passava. Quer dizer, soube logo quem era a dita senhora e percebi depois que estaria, de alguma forma, ligada àquele livro misterioso que agora, também ela, afagava nas mãos delicadas sobre os joelhos, detendo, aqui e ali, numa ou noutra páginas ao acaso, o dedo indicador da mão direita, contrastando o vermelho vivo do seu verniz com o branco seco das páginas. E pela primeira vez, sorriu. Sorriu ao voltar a fechar o livro e ao ver novamente a sua fotografia na capa, bem como ao ouvir os outros dizendo que estava «maravilhosa, óptima, fantástica, uma verdadeira senhora»... disse o director editorial, corrigindo: «Bem, perdão, naturalmente que uma senhora já é!» E para disfarçar estendeu-lhe o exemplar que tinha nas suas mãos pedindo-lhe no imediato um autógrafo. A senhora Etelvina Prazeres, nesse momento inaugural da sua carreira literária, não conseguiu disfarçar a vaidade que já a roía no peito. «Com certeza, senhor director editorial, onde é que assino?» «Onde entender, cara autora», volveu-lhe o prestimoso director editorial, abrindo-lhe o livro nas páginas iniciais. «Aí, aí, pode ser aí», apontou com o dedo da mão esquerda enquanto com a outra levava à boca um punhado valente de cajus. «Ai, sabe como é isto, um vício, começa-se a comer e não se consegue parar...»
Etelvina Prazeres lá apôs o seu nome na terceira página do livro, uma daquelas que se deixa em branco no início, regra geral onde aparecem as dedicatórias ou as epígrafes. Ali, no caso, não havia epígrafe, o que era de estranhar. Ao contrário, no final do livro a autora fazia os seus agradecimentos da praxe a quem a ajudara a tomar em mãos e levar a bom porto tal empresa, de que ela jamais se suspeitara capaz, reiterou quando acabava a assinatura. «Ora, ora», disse-lhe logo o director editorial desvalorizando a questão, «minha querida autora, soubesse você a quantidade de escritores que para aí andam e não sabem alinhar meia-dúzia de frases com lógica umas atrás das outras. Imaginasse você a quantidade deles que não faz ideia do que seja uma frase com sujeito, verbo e complemento! E as concordâncias? Ai as concordâncias!». Etelvina sorriu, mais descontraída, e de novo todos se puseram a gabar a excelência da obra em mãos. E o director editorial naquilo, como eu nunca vira em anos e anos de trabalho. Autora para aqui, autora para ali, que o sucesso estava garantido e que se ela assim o entendesse desde já poderiam começar a pensar num novo volume. Ao que ela: «Ai, não sei, talvez seja demasiado cedo, queria primeiro ver a reacção do público, dos leitores, da crítica, quem sabe. Mas obrigada desde já, obrigada por acreditar em mim».
Não penso que o director editorial verdadeiramente acreditasse nela. Quer dizer, pelo menos como autora, como futuro vulto ou promessa da literatura nacional. A verdade é que não parecia o mesmo, não podia tratar-se do mesmo profissional exigente que eu conhecia, de anos e anos de trabalho de autêntica prospecção literária, de descoberta de novos valores, daquele director editorial sob cujos auspícios haviam nascido, ao longo de cerca de duas décadas, tantos e tão bons autores. No romance, no teatro, na poesia, no ensaio... E agora!? Agora ali, babando-se com a senhora Etelvina Prazeres e com aquela que, percebi, seria ou era a sua primeira obra literária. Quando, depois de muitas trocas de palavras, os dois se levantaram, acompanhados pelos editores presentes, para saírem do escritório, consegui por fim aperceber-me de que género de livro se tratava. Virando-se de costas para o local onde me encontrava, o director editorial pegou no livro com a mão esquerda e levantou-o no ar, repetindo «Um sucesso! Um sucesso!» Foi então que vi, foi então que vi tudo, vi e não queria acreditar. Era eu, sim, eu, eu mesmo, eu ali na capa daquele livro com autoria da senhora Etelvina Prazeres. E por cima de mim, um pouco abaixo do título, que era, tão-só, o nome da dita cuja, o subtítulo da «obra» que, ao lê-lo de relance, de imediato algo me elucidou sobre o seu cariz: «Verdades Verdadeiras».
Manhã cedo. O director editorial fora do horário habitual. A Grã Cruz, o Nobel, o treinador do Benfica que ainda acreditava e um BMW perigosamente ameaçando o canteiro de jarros do senhor Pinto. Encómios a Etelvina, dita autora. Um livro ainda a cheirar a tinta.
Não sei bem porquê, mas qualquer coisa no ar, naquela manhã de uma semana de trabalho que até aí decorrera em perfeita normalidade, me fez pressentir que algo se passava ou iria passar-se, retirando aos amplos espaços do escritório a pacatez habitual e modorrenta em que as horas e os dias decorriam. Estranhei. Estranhei logo quando a empregada de limpeza veio trabalhar nesse dia. A dona Ifigénia só tinha por hábito vir às sextas-feiras, no final de semana, como era lógico, após cinco dias de trabalho, de muita lufa-lufa pelas salas e corredores, depois de muita gente calcorrear aquele chão de alcatifa já gasta, descolorida e puída. Agora, quarta-feira – confirmei no calendário de parede, onde surgiam em grande plano, e a cada mês, as fotografias dos doze escritores best-sellers da casa –, mal o sol nascera e já ela por ali cirandava de esfregona e balde à ilharga, pano do pó e líquido limpa-vidros dentro, respectivamente, dos dois bolsos do avental que trazia vestido. Esteve para ali cerca de umas duas horas, saindo pouco depois da chegada do director editorial que lhe confirmou o bom trabalho efectuado, dando-lhe carta de alforria para se pôr dali para fora e até à próxima, Dona Ifigénia, que agora tenho coisas para fazer.
O director editorial, portanto. Ali, às nove da manhã – bem mais cedo do que o seu horário habitual de chegada! Mas mais, encontrava-se desperto e cheio de energia. Ao invés da sua aparência rotineira, de algum enfado e declarado desânimo face a uma actividade que já não lhe arrancava grandes euforias, antes muitos desaires e descrenças no mundo à sua volta, no seu universo profissional e em concreto na sorte do seu destino, o director editorial, naquela manhã, parecia um jovem. Sim, um daqueles rapazes novos, acabados se de licenciarem, julgando ainda poderem vir a mudar e ganhar o mundo, sonhando com elevadas empresas, grandes feitos e grandes conseguimentos profissionais. Pois era assim, animado desse estado de espírito, que entrou pelo gabinete adentro, despindo o casaco, pondo-o despreocupadamente sobre as costas da cadeira e esfregando as mãos no imediato como se tivesse acabado de chegar à empresa, tivesse vinte anos e se preparasse para encabeçar uma revolução.
Pela porta que o director editorial deixara propositadamente entreaberta, como se esperasse alguma personalidade mediática a todo o momento e não quisesse perder um só segundo em recebê-la, vislumbrei também nesse momento um corrupio lá fora, no hall de entrada, junto à máquina do café, bem ao lado da secretária da Dona Paula, a telefonista e recepcionista, também secretária do director. Seriam o quê agora? Nove e meia? Dez, vá lá?... Não, nove e meia, sim, ouvi claramente nas notícias intercalares da rádio que entretanto o director editorial ligara para ouvir as «gordas» do dia. O habitual: que o aumento dos impostos estava à porta; que a gasolina ia aumentar; que mais três explosões tinham deflagrado no centro de Bagdade; que o treinador do Benfica ainda acreditava ser capaz de vencer o campeonato, etc. Em notícia de última hora – susceptível por isso de posteriores desenvolvimentos que os jornalistas daquela rádio se encarregariam de acompanhar a todo o instante –, ouvi ainda falar de umas também já corriqueiras notícias acerca de suspeitas de suborno a árbitros de futebol. Interessado que estava em perceber o que se passava à entrada do escritório, com tanta gente ali a falar animadamente logo àquela hora, não consegui perceber, no imediato, a ligação entre aquela última notícia e a edição de um livro qualquer assinado por uma senhora, cujo nome também não logrei entender, mas que, concluía o jornalista com voz grave, iria, certamente, «ser uma bomba».
Por momentos ainda pensei que estivesse a fazer confusão, que a tal referência à bomba não fosse mais do que um qualquer desenvolvimento, também de última hora, às informações antes avançadas sobre o Iraque. De modo que me abstraí desse pensamento. De outra forma não poderia ser, de resto, pois a correria naquele escritório não parecia deixar de aumentar. O director editorial atarefava-se em arrumar ao milímetro os objectos sobre a sua secretária, compondo a sua geometria, alinhando o telefone com as linhas do cinzeiro, posicionando o teclado do computador de forma a estabelecer uma paralela perfeita com o écran, alinhando com apuro as três molduras onde surgiam, sorridentes, as fotografias da mulher e das três filhas. Depois, as estantes. Com um dedo, e afastando levemente para trás a cara acompanhando o gesto de um fechar do olho direito, como quem faz pontaria com arco e flecha ou espingarda, subtilmente tratou de alinhar todas as lombadas, passando depois, último acto, o dedo indicador direito sobre a largura da madeira a confirmar a ausência de pó. Por último, não menos importante, endireitou também os três quadros que se encontravam na parede por trás da sua cadeira, todos eles ostentando fotografias ampliadas. Num, via-se ele próprio lado a lado com o Presidente da República, por ocasião de uma sessão havida há já vários anos em que fora agraciado com a Grã Cruz de Mérito Cultural, em virtude, disse-se e leu-se na circunstância, «dos excepcionais serviços prestados à cultura nacional». Noutro, também ele surgia, agora abraçado ao Nobel poucas horas depois de este ter recebido a distinção da Academia Sueca, em Estocolmo. Na última moldura, uma vez mais surgia ele, desta feita, fazendo-se acompanhar de um grupo de escritores da casa. Não sei porquê, mas esta imagem sempre me fez uma espécie de comichão, creio que por via dos sorrisos que os escritores mostravam, não porque não soubessem sorrir mas porque se denotava que eram risos forçados. Até porque, conhecendo as suas obras, não batia a bota com a perdigota. Os seus livros eram negros, cifrados, herméticos, tristes e isso, acredito, muito havia de revelar sobre as suas almas ou estados de espírito. O que é facto é que riam, vá lá saber-se porquê, riam. Por causa dos números de exemplares vendidos dos seus livros é que não era de certeza. De modo que... estão a ver, uma comichão...
Não andasse eu nisto há quase já uma vida inteira e dar-me-ia por parvo, não percebendo ou suspeitando o que se passava. Enfim, não é que nunca tivesse acontecido, mas, se bem me lembro, pelas minhas contas... duas... três, sim, talvez umas três vezes nos últimos vinte anos. Estou a falar deste engalanar, destes preparativos, como se ali fosse ter lugar um qualquer casamento. Mas não, topei logo o que devia estar a preparar-se. Não diria que fosse a visita do Santo Papa, mas era capaz de apostar que pela porta de entrada do escritório muito em breve, coisa de minutos (ou horas, a fazer fé nos atrasos habituais), entraria peixe graúdo. Escritor, não. Não me cheirava que fosse escritor, que fosse quem ele fosse não haveria de merecer tamanhos preparos. Nem sequer o Nobel, porque esse, sabia eu, havia muito que não deixava a ilha onde se exilara, e quando o fazia o mais das vezes era para participar em lançamentos de livros em locais estrategicamente pensados para o efeito – de resto, era impensável que tais momentos decorressem ali no escritório. Seguindo as ideias de um escritor-jornalista mediático, tornadas públicas aquando de um lançamento de um livro seu, lançar um livro tinha de ser coisa feita como em Espanha, no Brasil ou no estrangeiro, resumia. Isto é, em sede própria para levar os jornalistas a saírem das suas redacções, e isso, dizia com um sorriso jocoso, só se conseguia com festas e bolos. Resumindo, a si próprio se chamava tolo!
O facto é que o director editorial fisgou aquela ideia ao ler na Imprensa escrita as opiniões iluminadas do dito escritor em fase de aceitação crescente no mercado dos tops nacionais. «Pois se assim é, e ele lá deve sabê-lo, porque anda lá por fora, havemos de fazer da mesma maneira», pensou. E assim se fez doravante. Voltando um pouco atrás, dizia eu que haveria de ser coisa de vulto, figura política, por certo, talvez um ex-primeiro-ministro ou se calhar até mesmo o novo Presidente da República. Sim, talvez que ele estivesse já a pensar em publicar o tomo primeiro das suas grandes memórias, talvez já tivesse a coisa feita – em segredo, naturalmente, que é para que a coisa depois funcione em termos de efeito surpresa, porque nestas coisas dos livros o timming é fundamental. Pois estava capaz de apostar que seria o Presidente da República, tanto mais que agora me lembrava que, em recente visita à Índia, ele acabara de ser doutorado honoris causae em Literatura. Nem mais, era isso com certeza. Aproveitando a maré de aceitação dos seus méritos literários, quer em matéria de conhecimentos quer no que a obra feita respeita, o Presidente aprestava-se a lançar no mercado o primeiro volume das suas memórias. Enfim, é verdade que não estava no cargo há muito tempo, tinham passado apenas seis meses, mas enfim, o conselho editorial, reunido de emergência, provavelmente chegara à conclusão de que ali se desenhava uma boa oportunidade de negócio. Depois, era só questão de arranjar um nome minimamente intelectualizado para a obra e o prestígio do nome do senhor Presidente faria o resto. A decidir eu, iria por um título assim do género... «Seis Meses e Um Dia». Era mais do que certo que seria um sucesso. Por um lado, os seis meses a darem conta de meio ano de trabalho ininterrupto, de muita frescura nos acontecimentos, por outro, aquele «um dia» a suscitar nos leitores a curiosidade, a instilar no ar a ideia de que algo de especial se passara naquele dia... Sei lá!, como diria a outra. Sei é que ou muito me enganava ou seria mesmo a visita do senhor Presiden...
Não. E palavra que nesse instante quase me engasgo! Não era o Presidente. Estava eu naquelas minhas elucubrações divinatórias quando, seriam já as oito da manhã, ouço grande zunzum no exterior do edifício. Cá do alto, deito olho pela janela e que vejo? Motas, motas de polícia azuis e brancas! Batedores policiais fazendo guarda e abrindo caminho para a entrada nos jardins de um enorme BMW preto metalizado que avançava agora aos poucos conduzido por um tipo de ar soturno, a lembrar um gangster dos tempos modernos. Via-se que vestia todo de negro, sobretudo comprido sobre camisola de gola alta também preta, uns óculos escuros de marca compunham a figura. Lembrei-me logo de uma cena vista há uns meses na televisão, em que no aeroporto de Lisboa uns tipos que tais foram esperar um empresário da redondinha para lhe fazerem uma espera. Ali mesmo, na gare das Chegadas internacionais, à frente das câmaras de televisão e dos olhos incrédulos de quem quisesse assistir à cena. Conversa para cá e para lá, percebendo-se que ao embrulho estava um tal guarda-redes brasileiro que viera jogar para um clube alfacinha de implantação internacional, salta estalada de meia-noite! Coisa digna de registo em país terceiro-mundista e que acabou e bem, mais tarde, por ir parar ao livro de um escritor que se propusera escrever sobre figuras de vulto desse emblema. O livro tivera algum sucesso de vendas, quer por parte das hostes do clube em causa, quer nas fileiras das equipas adversárias. Os primeiros abriram as carteiras pensando ir ao encontro de uma galeria de textos jubilatórios dos seus heróis, os outros leram a coisa de maneira diversa e compraram para «gozar o prato». Chamava-se «Seres Benfiquistas» e na altura em que foi editado suscitou alguma polémica, originou alguns programas televisivos de debate acirrado, mas que logo, logo se dissipou quando, algumas fins-de-semana depois, o «roubo» de um pénalti escandaloso num derby do campeonato inverteu as agulhas do engalfinhamento público.
Nestas coisas do futebol o melhor é mesmo uma pessoa não se meter, sob pena de perder a cabeça e sob pena de perder o fio à meada narrativa. De modo que continuo a relatar o que vi no exterior do escritório, numa altura em que o supracitado BMW topo de gama (esta, outra expressão que sempre me deu que pensar, pois o «gama» sempre me levava a pensar no verbo gamar...) se imobilizava sobre o relvado com um enorme pneu ameaçando perigosamente um canteiro de Jarros que o senhor Pinto ali cultivara ia para um par de meses. De sacho às costas, testemunhando a cena mudo e quedo, o senhor Pinto não queria acreditar no que via.
Nem eu! Mas não, não era pelos Jarros que o bom homem se ensimesmava enrugando a testa de espanto. Era porque, tão-só, ali a dois singelos passos dos seus olhinhos que a terra (a mesma onde cresciam as flores) havia de comer, se encontrava a dona Etelvina Prazeres. Nem mais, ela, ali, em pessoa, a sair pela porta o carro exibindo um ar de gravidade, como se à sua roda se respirasse um clima de perigo iminente. E quem não a reconheceria das muitas vezes que aparecera nas televisões e nas revistas cor de rosa acompanhando o seu distinto ex-companheiro de casa e cama, o presidente de um clube nortenho de grande flama e conquistas futebolísticas nas últimas duas décadas? Todos certamente, eu incluído, embora, como talvez já tenham notado, seja alguém que só liga ao futebol à distância, enojado que ando com esse meio de suborno e corrupção que todos concordam em existir mas ao qual ninguém parece interessado em pôr cobro. E agora, agora sai-me esta ao alcance da visão, que, juro-vos, eu não queria acreditar no que via.
Esbaforido, que outra palavra melhor não encontro para traduzir o seu ar, o director editorial sai porta do gabinete fora, olhos esgalgados, todo ele sorrisos e floreados, desce até ao jardim e beija a mão à senhora Etelvina Prazeres. Coisa digna de recepção monárquica – embasbaquei. Não tardou muito até que os dois subissem os poucos degraus que levavam ao escritório e entrassem pelo gabinete onde me encontro adentro, o gabinete do director editorial, portanto, que agora se desfaz em galanteios e encómios à senhora Etelvina, dando-lhe a conhecer, em breves e vaidosas apresentações, os cantos ao gabinete. «Esta fotografia foi tirada aqui... esta acoli... aquela acolá...» Confesso que não percebi ao que ali se encontrava. Vistas as coisas, não errara por muito, sempre era alguém ligado a um presidente, bom, embora não o da República, mas sempre um presidente... Mas porquê ali? A que vinha? De onde vinha? Para onde ia toda aquela cena que já me estava a corroer de inquietação?
Que sim, que estava muito bonito, que tinham feito um belo trabalho, com muito apuro e cuidados, de resto, como a obra era merecedora, que, enfim, «não se preocupasse, antes relaxasse, talvez um copo de água?, não?, um sumo? de laranja. Natural? Sim? Sim, óptimo, óptimo. Só um momento» – pegando no telefone. «P’ala... sim, sou eu, traga um sumo de laranja fresquinho para a senhora Etelvina, por favor, obrigado, até já, até já.» Mas a senhora Etelvina não dava mostras de se acalmar. Trazia o espírito, notava-se, em estado de altercação, percebia-se logo que no íntimo do seu peito volumoso alguma coisa a perturbava, e todo esse leve mal-estar o seu rosto denunciava, todo ele pesaroso e amedrontado, numa preocupação latente, uma qualquer coisa que a afligia... «Sabe, é a primeira vez. Vão crucificar-me! Tenho receio das reacções...» «Ora, ora, minha senhora, deixe isso por nossa conta, então, afinal estamos no mercado há quase duas décadas, somos profissionais. Não se preocupe que tudo está previsto, tudo se vai passar bem e conforme previsto. A propósito, recebeu a nossa nota informativa acerca dos horários, o lançamento, os locais e tal...» «Sim, sim, quanto a isso estou descansada. Tenho é receio das manifestações...» «Mas quais manifestações? Manifestações, vai ver, só as terá de apreço, de regozijo pela sua coragem.» «Acha?» «Tenho a certeza.» «Ainda bem. E... você sabe... aquele... aquele tipo dos bigodes crescidos... o do outro clube... sempre...» «Schuuu... es-que-ça! Não fale nisso... é coisa que não aconteceu... que nunca se passou. Quer dizer, passou-se mas não se passou se me faço entender. Sei que irá lá estar e não se fala mais nisso.» «Mas terá dinheiro para comprar quantos exemplares?...» «Ui, ui, ui, menina, esqueça isso, por favor, já lhe disse que a coisa está tratada. Digamos que o que a gente vai poupar em publicidade investiu-se nisso...»
Estavam nisto – o director editorial mais dois editores, que aquele mandara chamar –, num apaparicar da senhora que não parecia ter fim, como se a distinta fosse a primeira dama do país, quando batem à porta. De um salto, o director editorial põe-se em pé e dirige-se ansioso para a porta. Qual não é o meu espanto, vejo entrar por ali dentro duas secretárias carregando dois maços de livros, ainda com cheiro a tinta e devidamente embalados pela gráfica, de onde, notava-se, vinham acabadinhos de chegar. Bem sei que nestas coisas de livros novos há sempre, por parte de quem os trabalha, uma curiosidade enorme, uma ansiedade, diria mesmo, em ver o resultado final. Isto é, em ver os livros, tocar o objecto, apalpá-los, fazer correr-lhes as páginas, vê-los e observá-los em todos os seus pormenores, admirando o primor do trabalho, os bons acabamentos, o brilho correcto do verniz, a escolha acertada das cores. Tudo isto, claro está, com grande dose de orgulho à medida e um não dissimulado medo em encontrar-lhes alguma gralha de impressão.
Batem novamente à porta. Solícita e sorridente, Paula (ou P’ala, como dizia de forma afectada o director editorial) pede licença para entrar com uma bandejinha na mão onde equilibrava um copo com sumo de laranja e dois pratinhos com aperitivos salgados: amêndoas descascadas, amendoins torrados, pistácios, cajus e era tudo. «Obrigado, P’ala, pode sair.» Diz-lhe o director editorial, não parando, por isso, de admirar a obra em mãos acabada de sair do prelo. Lá fora, o mesmo burburinho irritante, com restantes editores, gráficos, designers, secretárias, telefonista e os demais funcionários da editora, todos eles em pulos. Ao lado deles, os capangas da senhora Etelvina Prazeres, firmes e hirtos que nem estátuas, ali, encostados à parede perto da porta do gabinete, sempre de óculos escuros nas carantonhas, com ar de poucos amigos, a postos para o que desse e viesse não fosse certamente alguém atentar contra a integridade da patroa. Percebi então que também do outro lado da porta toda aquela gente já entretecia comentários a propósito de um livro que passava de mãos em mãos. Gunchinhos, ais e uis, sorrisos disfarçados, lábios mordidos em espanto por esta ou aquela passagem que liam na diagonal, a coisa haveria de ser deveras interessante.
Só eu, até então, nada ainda percebera do que se passava. Quer dizer, soube logo quem era a dita senhora e percebi depois que estaria, de alguma forma, ligada àquele livro misterioso que agora, também ela, afagava nas mãos delicadas sobre os joelhos, detendo, aqui e ali, numa ou noutra páginas ao acaso, o dedo indicador da mão direita, contrastando o vermelho vivo do seu verniz com o branco seco das páginas. E pela primeira vez, sorriu. Sorriu ao voltar a fechar o livro e ao ver novamente a sua fotografia na capa, bem como ao ouvir os outros dizendo que estava «maravilhosa, óptima, fantástica, uma verdadeira senhora»... disse o director editorial, corrigindo: «Bem, perdão, naturalmente que uma senhora já é!» E para disfarçar estendeu-lhe o exemplar que tinha nas suas mãos pedindo-lhe no imediato um autógrafo. A senhora Etelvina Prazeres, nesse momento inaugural da sua carreira literária, não conseguiu disfarçar a vaidade que já a roía no peito. «Com certeza, senhor director editorial, onde é que assino?» «Onde entender, cara autora», volveu-lhe o prestimoso director editorial, abrindo-lhe o livro nas páginas iniciais. «Aí, aí, pode ser aí», apontou com o dedo da mão esquerda enquanto com a outra levava à boca um punhado valente de cajus. «Ai, sabe como é isto, um vício, começa-se a comer e não se consegue parar...»
Etelvina Prazeres lá apôs o seu nome na terceira página do livro, uma daquelas que se deixa em branco no início, regra geral onde aparecem as dedicatórias ou as epígrafes. Ali, no caso, não havia epígrafe, o que era de estranhar. Ao contrário, no final do livro a autora fazia os seus agradecimentos da praxe a quem a ajudara a tomar em mãos e levar a bom porto tal empresa, de que ela jamais se suspeitara capaz, reiterou quando acabava a assinatura. «Ora, ora», disse-lhe logo o director editorial desvalorizando a questão, «minha querida autora, soubesse você a quantidade de escritores que para aí andam e não sabem alinhar meia-dúzia de frases com lógica umas atrás das outras. Imaginasse você a quantidade deles que não faz ideia do que seja uma frase com sujeito, verbo e complemento! E as concordâncias? Ai as concordâncias!». Etelvina sorriu, mais descontraída, e de novo todos se puseram a gabar a excelência da obra em mãos. E o director editorial naquilo, como eu nunca vira em anos e anos de trabalho. Autora para aqui, autora para ali, que o sucesso estava garantido e que se ela assim o entendesse desde já poderiam começar a pensar num novo volume. Ao que ela: «Ai, não sei, talvez seja demasiado cedo, queria primeiro ver a reacção do público, dos leitores, da crítica, quem sabe. Mas obrigada desde já, obrigada por acreditar em mim».
Não penso que o director editorial verdadeiramente acreditasse nela. Quer dizer, pelo menos como autora, como futuro vulto ou promessa da literatura nacional. A verdade é que não parecia o mesmo, não podia tratar-se do mesmo profissional exigente que eu conhecia, de anos e anos de trabalho de autêntica prospecção literária, de descoberta de novos valores, daquele director editorial sob cujos auspícios haviam nascido, ao longo de cerca de duas décadas, tantos e tão bons autores. No romance, no teatro, na poesia, no ensaio... E agora!? Agora ali, babando-se com a senhora Etelvina Prazeres e com aquela que, percebi, seria ou era a sua primeira obra literária. Quando, depois de muitas trocas de palavras, os dois se levantaram, acompanhados pelos editores presentes, para saírem do escritório, consegui por fim aperceber-me de que género de livro se tratava. Virando-se de costas para o local onde me encontrava, o director editorial pegou no livro com a mão esquerda e levantou-o no ar, repetindo «Um sucesso! Um sucesso!» Foi então que vi, foi então que vi tudo, vi e não queria acreditar. Era eu, sim, eu, eu mesmo, eu ali na capa daquele livro com autoria da senhora Etelvina Prazeres. E por cima de mim, um pouco abaixo do título, que era, tão-só, o nome da dita cuja, o subtítulo da «obra» que, ao lê-lo de relance, de imediato algo me elucidou sobre o seu cariz: «Verdades Verdadeiras».
Histórias Fulminantes 49
Os caracóis na cabeça do Senhor K. eram tantos que não conseguia evitar a morosidade dos seus pensamentos.
quinta-feira, 22 de novembro de 2007
Silence Music Box
Pintéus?!
Ontem também, princípio de tarde passado no Palácio de Pintéus (Loures), casa do fadista João Ferreira Rosa. Um Favaios, uma aguardente velha oferecida, muitos insultos à república, vivas à Monarquia, e muitas obras de arte nesta «casa» que devia ser património de visita obrigatória. E, de passagem, reconhecem o rapazito sentado ao lado de Ferreira Rosa?
O cinema é um posto?

Ontem vi o novo filme de Manoel de Oliveira. Chama-se «Cristóvão Colombo - O Enigma» e é aquilo a que eu chamaria um filme falhado. Mais, um delírio insano e o verdadeiro enigma é saber como é que o MC e o ICAM concedem dinheiros públicos para este tipo de devaneios auto-biográficos em família. Triste, chega a ser triste e pesaroso. Dê-se lugar a quem vem atrás, com ideias e sangue novo. Na política como na arte também é preciso saber sair. Curioso estou é para ver o que vai escrever a crítica especializada!...
Juízes sem juízo
VERGONHA é o que sinto perante estes juízes/algozes que têm em mãos o caso Esmeralda e o caso do cozinheiro de um hotel despedido por ser seropositivo. Assim decidem estes herdeiros da inquisição, subsumindo-se, servis, ao estrito e cego enquadramento legal, longe, muito longe, naturalmente, dos interesses dos cidadãos. Bem podem dizer que têm de se ater ao que diz a lei para as suas decisões, a verdade é que nenhuma destas alminhas, que detêm o supremo poder de decisão sobre a vida de terceiros, se revela com coragem suficiente para, perante um texto legalista, cuja letra se mostra contrária à moral e ao espírito dos tempos, dizer não. A revolta começa por aí, pela coragem de dizer não. Tal como o fez, há dias, aquele pobre condutor de um camião do lixo que, por solidariedade com os seus colegas grevistas, e contrariando as ordens superiores, se encheu de coragem e disse não; não, não entro, não descarrego, não pactuo, não vendo a minha moral, e ali mesmo, perante as câmaras de televisão, se apeou do volante correndo o risco de lhe ser movido um processo qualquer que o mande para o desemprego. Um acto, senhores juízes, que os senhores jamais teriam coragem para fazer.
terça-feira, 20 de novembro de 2007
Estante-Instante - Luísa Costa Gomes
«Setembro e Outros Contos», de Luísa Costa Gomes, pela Dom Quixote. Escrita aprimorada e sopesada ao máximo, o primeiro conto, que dá nome ao volume, tipifica e congrega bem o tom da leitura: histórias ao correr dos dias, suspensas do espaço e tempo onde decorrem, linhas e personagens que intricam trama romanesca com a própria essência do criar e do escrever. São contos de matriz tchekoviana, como se irrompendo do nada que é o viver, contos que a si próprios se dizem e revelam, fervilhando vida, emoções, sentimentos, estados de espírito. E sempre o mesmo e apurado trabalho de linguagem, da literatura, da auto-inquirição enquanto matéria.
Histórias Fulminantes 48
Como lhe tivessem dito, no Hospital, que não se preocupasse, pois que o tempo tudo cura, o senhor K. Foi para casa descansar e nunca mais pensou no assunto. Nunca mais sequer se dignou a visitar o seu médico, pelo que três meses depois foi encontrado morto em sua casa.
Semana Espanha in MusicBox Lisboa



Já a partir de amanhã, e até 24 de Novembro, convocam-se espectadores para a primeira edição da Semana Espanha in MusicBox Lisboa, ali ao Cais do Sodré. Para ver, um leque de propostas musicais e um Festival de Curtas-Metragens, o de La Boca del Lobo. Aqui ficam algumas sugestões musicais: The Sweet Vandals (22/11, 23h); Cadencia (23/11, 00h00); El Plateao (21/11, 23h00); Tomas San Miguel e Txalaporta (24/11, 00h00).
Edward Burtinsky
As extraordinárias fotografias são de Edward Burtinsky e fazem parte de dois projectos/ livros que o fotógrafo canadiano editou recentemente na Steidl e que exibiu na Paris Photo. «China», de 2005, e «Quarries», de 2007, obrigam o espectador a mergulhar silenciosamente na desmesura da sua grandeza de planos, levando-o a pensar o peso demolidor da acção humana sobre o Meio Ambiente, a Natureza, a Paisagem. São, por conseguinte, paisagens «manufacturadas», como muito bem lhes chamou a realizadora Jennifer Baichwall, que acompanhou o fotógrafo numa das suas viagens à China actual de todas as revoluções tecnológicas. Burtynsky nasceu em 1955, em St. Catharines, Ontário.
O rei e o tirano
E porque é que não se calam todos? Ou porque é que não calam os dois? Bem, um eu percebo, é por causa do petróleo. O outro? Já lá vai o tempo!
Não me Lynchem
Pois, eu também não percebi. A convite de Paulo Branco e do seu novo festival de cinema, um dos meus realizadores preferidos, David Lynch, veio ao Estoril. Pensava eu que para falar de cinema, do seu cinema, mas não. Para espanto, pelo menos meu, Lynch põe-se a falar de Meditação Transcendental (MT) e do seu fundador, Maharishi Mahesh Yogi! Por coincidência, recebo um mail a anunciar/ convidar para um curso de Reiki tradicional... Epá, como diria o outro, o reikosparta!
segunda-feira, 19 de novembro de 2007
Histórias Fulminantes 47
Levava a adaga escondida por dentro da camisola, junto ao coração. Já se precipitava sobre a vítima quando quis o destino que escorregasse. Batendo com o peito no chão, faleceu nesse exacto instante, trespassado pela lâmina afiada. A sua pretensa vítima, aliviada, concluiu sabiamente: não guardes o ódio junto ao coração.
O espírito do Natal
Que bom que temos a maior árvore de Natal da Europa! Não estão todos tão contentes? Que fantástico! Que o feito é de suma importância para o país, não se põe em causa, agora só não consigo é imaginar esta gente a confirmar que é a maior árvore. Como é? Põe-se um ministro a telefonar para os seus congéneres e a perguntar: «Ouça lá, de que tamanho é a vossa árvore de Natal este ano?»
Atirar Barro(so) à Parede
Como quem atira barro à parede, a ver se cola aos olhos dos incautos, um lacónico e Calimeriano Durão Barroso veio anunciar, em entrevista pública, que não sabia, que foi enganado, que achou que agiu muito bem quando decidiu acolher a Cimeira dos Açores. E, com um ar muito sério, assim como que se desculpava; mas, pasme-se, de coisa nenhuma! Porque, disse, «Portugal não perdeu nada». É barro da pior estirpe, diga-se, este que alija as responsabilidades para os ombros de um big brother a três vozes (americana, inglesa e espanhola - «Sim, Espanha!», vincou o Calimero) que, olhando para o irmão mais pequeno e fraco (Portugal), lhe mente e pede para fazer esta ou aquela travessura. No caso, que acolhesse uma cimeira que ratificaria uma guerra que até hoje fez mais de 500 mil mortos e milhares de desalojados, milhares de órfãos, e lançou um país para um fosso de ódio e dor do qual não se sabe quando irá sair, se é que alguma vez dele se livrará. Arrepender-me? De quê? Então não privo com os maiores do mundo desde muito cedo? Então, não sou Presidente da Comissão Europeia? Morreram 500 mil pessoas mas eu não sabia, fui enganado... Pois, o que eu sei de há muito é que a hipocrisia é um dos atributos maiores da política. Cheira mal, cheira a cherne!
sexta-feira, 16 de novembro de 2007
Arte
«Em Londres, a artista sul-africana Laura Cinti exibiu um cacto transgénico que contém material genético humano e no qual cresce pêlo humano. Cinti disse: «O cacto com todo o seu pêlo a crescer exibe todos os desejos, todos os sinais de sexualidade. Não quer ser encurralado. Quer ser livre.»
Michael Crichton, «Next», Dom Quixote
Histórias Fulminantes 46
Era um carteiro peculiar. Anunciava-se pelo arrulho, vestia-se sempre de cinzento e insistia para que lhe chamassem pombo-correio.
Hipocrisia
«Falha grave», diz o conselho deontológico do doutor Nunes. Um poeta, está de ver. Outros chamarão à curiosa metáfora simplesmente hipocrisia. Eu gosto da palavra hipotrofia.
Outros Silêncios
«Ponde o vosso silêncio
de acordo com o Grande
Silêncio das coisas.»
de acordo com o Grande
Silêncio das coisas.»
Leonardo Coimbra, «A Alegria, a Dor e a Graça»
quinta-feira, 15 de novembro de 2007
Blogospérola - Adeus GG
«Gilberto Gil deixa o Ministério da Cultura em 2008. Frank Aguiar, apresenta-se como forte candidato ao cargo, pois é muito amigo do presidente Lula. Frank é o autor, entre outras pérolas, da música Mulher Madura, Lavou, Tá Nova. » Quem o anuncia é a brasileira Marta Bellini, «Professora concursada da Universidade Estadual de Maringá», que mais diz, como programa individual de combate: «Não posso desistir de lutar. Afinal no Brasil nosso destino é esse.»
Marta Bellini, http://blogdamartabellini.blogspot.com
A propósito de Finlândia - Acho que a Saija está farta do noivo ou o problema dos chicos finlandeses!
«Cómo son los chicos finlandeses? Es una pregunta que he pienso mucho ultimamente.He notado muchas cosas que los hacen difentente como chicos de otros partes de Europa. Aúnque las mujeres y los hombres son igual en mí país, hay algunos costumbres que deberían ser diferentes. Por ejemplo, sí tengo que llevar muchas cosas conmigo, los chicos finlandeses no van a ayudarme nada, sí no los pregunto por su ayuda. En Finlandia algunas mujeres cumplen el servicio militar y nuestra presidenta es un mujer, que significan que tenemos la igualdad de sexos, más o menos. Pero por supuesto, esta cosa tiene sus pros y contras tambien. Y creo que por eso los chicos finlandeses no llaman bastante atención cuando alguien necesita un poco de ayuda. Siempre piensen que es su propio problema.Y mi novio es muy típical. Y ahora lo me exaspera. (...) Y no sé que va a pasar con mi novio. No quiero siempre sentirme estresada y angustiada por él. Por ejemplo, el pasado sabado bebó tan mucho que no pudó estar de pie, y le tuvimos que llevar afuera. Y es siempre como así. Pero bueno, no le he contado todavia que seguramente voy a quedarme en España algunos meses más. Ahora sólo tengo que hacer la resolución.»
Kalevala

«Firme velho Vanamoinen,
esse bardo sempiterno,
vai seus dedos preparando,
vai seus polegares esfregando.
Senta em pedra da alegria,
põe-se em rocha de cantar,
num outeiro prateado,
sobre a colina doirada.
Toma instrumento em seus dedos,
vira o curvado nas pedras,
o kantele em suas mãos;
disse um dito e assim falou:
"Deixai vir para ouvir
a quem nunca tenha ouvido
de eterno bardo a alegria,
a sonãncia do kantele."»
Está a chegar às livrarias a primeira edição portuguesa do «Kalevala», o mítico, épico e também marco fundador da identidade finlandesa. Muitos chamam-lhe «Os Lusíadas» finlandeses, mas não é assim tanto, a começar pelo facto de este ser um livro composto a múltiplas vozes anónimas, enquanto que «Os Lusíadas» tiveram apenas Camões por autor. De qualquer modo, há semelhanças, pois nas suas páginas, nos seus cerca de vinte mil versos, se glosam o espírito e a alma de um povo, em concreto, aquele da região da Carélia, a Norte. Kalevala (publicado pela primeira vez em 1835, depois aumentado em 1949 - edição que serviu de base à presente tradução) provém, segundo o autor original desta reunião de canções de tradição popular, Ellias Lönnrot, de Kaleva, dito «o mais antigo herói finlandês». A edição é da Ministério dos Livros.
E agora um momento poético
faço a minha parte
(deixo outro tanto para os deuses)
bato palmas no final do poema
(palmas)
para que outros versos
regressem.
(deixo outro tanto para os deuses)
bato palmas no final do poema
(palmas)
para que outros versos
regressem.
Histórias Fulminantes 45
Notícia: um actor foi devorado ao chegar-se demasiado perto da boca de cena.
quarta-feira, 14 de novembro de 2007
Fotografia a Norte
Outros Silêncios
«How silent must that sea have been; how ready for the wonder of the world.»
George Steiner, «The Poet and de Silence»
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