sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Don Quijote de La Mancha (1979)

A Demanda do Bravo Cavaleiro Dom Quixote - Um sério divertimento - Publicação on line de um livro recusado por não querer incomodar - Capítulo I

I.

Manhã cedo. O director editorial fora do horário habitual. A Grã Cruz, o Nobel, o treinador do Benfica que ainda acreditava e um BMW perigosamente ameaçando o canteiro de jarros do senhor Pinto. Encómios a Etelvina, dita autora. Um livro ainda a cheirar a tinta.


Não sei bem porquê, mas qualquer coisa no ar, naquela manhã de uma semana de trabalho que até aí decorrera em perfeita normalidade, me fez pressentir que algo se passava ou iria passar-se, retirando aos amplos espaços do escritório a pacatez habitual e modorrenta em que as horas e os dias decorriam. Estranhei. Estranhei logo quando a empregada de limpeza veio trabalhar nesse dia. A dona Ifigénia só tinha por hábito vir às sextas-feiras, no final de semana, como era lógico, após cinco dias de trabalho, de muita lufa-lufa pelas salas e corredores, depois de muita gente calcorrear aquele chão de alcatifa já gasta, descolorida e puída. Agora, quarta-feira – confirmei no calendário de parede, onde surgiam em grande plano, e a cada mês, as fotografias dos doze escritores best-sellers da casa –, mal o sol nascera e já ela por ali cirandava de esfregona e balde à ilharga, pano do pó e líquido limpa-vidros dentro, respectivamente, dos dois bolsos do avental que trazia vestido. Esteve para ali cerca de umas duas horas, saindo pouco depois da chegada do director editorial que lhe confirmou o bom trabalho efectuado, dando-lhe carta de alforria para se pôr dali para fora e até à próxima, Dona Ifigénia, que agora tenho coisas para fazer.
O director editorial, portanto. Ali, às nove da manhã – bem mais cedo do que o seu horário habitual de chegada! Mas mais, encontrava-se desperto e cheio de energia. Ao invés da sua aparência rotineira, de algum enfado e declarado desânimo face a uma actividade que já não lhe arrancava grandes euforias, antes muitos desaires e descrenças no mundo à sua volta, no seu universo profissional e em concreto na sorte do seu destino, o director editorial, naquela manhã, parecia um jovem. Sim, um daqueles rapazes novos, acabados se de licenciarem, julgando ainda poderem vir a mudar e ganhar o mundo, sonhando com elevadas empresas, grandes feitos e grandes conseguimentos profissionais. Pois era assim, animado desse estado de espírito, que entrou pelo gabinete adentro, despindo o casaco, pondo-o despreocupadamente sobre as costas da cadeira e esfregando as mãos no imediato como se tivesse acabado de chegar à empresa, tivesse vinte anos e se preparasse para encabeçar uma revolução.
Pela porta que o director editorial deixara propositadamente entreaberta, como se esperasse alguma personalidade mediática a todo o momento e não quisesse perder um só segundo em recebê-la, vislumbrei também nesse momento um corrupio lá fora, no hall de entrada, junto à máquina do café, bem ao lado da secretária da Dona Paula, a telefonista e recepcionista, também secretária do director. Seriam o quê agora? Nove e meia? Dez, vá lá?... Não, nove e meia, sim, ouvi claramente nas notícias intercalares da rádio que entretanto o director editorial ligara para ouvir as «gordas» do dia. O habitual: que o aumento dos impostos estava à porta; que a gasolina ia aumentar; que mais três explosões tinham deflagrado no centro de Bagdade; que o treinador do Benfica ainda acreditava ser capaz de vencer o campeonato, etc. Em notícia de última hora – susceptível por isso de posteriores desenvolvimentos que os jornalistas daquela rádio se encarregariam de acompanhar a todo o instante –, ouvi ainda falar de umas também já corriqueiras notícias acerca de suspeitas de suborno a árbitros de futebol. Interessado que estava em perceber o que se passava à entrada do escritório, com tanta gente ali a falar animadamente logo àquela hora, não consegui perceber, no imediato, a ligação entre aquela última notícia e a edição de um livro qualquer assinado por uma senhora, cujo nome também não logrei entender, mas que, concluía o jornalista com voz grave, iria, certamente, «ser uma bomba».
Por momentos ainda pensei que estivesse a fazer confusão, que a tal referência à bomba não fosse mais do que um qualquer desenvolvimento, também de última hora, às informações antes avançadas sobre o Iraque. De modo que me abstraí desse pensamento. De outra forma não poderia ser, de resto, pois a correria naquele escritório não parecia deixar de aumentar. O director editorial atarefava-se em arrumar ao milímetro os objectos sobre a sua secretária, compondo a sua geometria, alinhando o telefone com as linhas do cinzeiro, posicionando o teclado do computador de forma a estabelecer uma paralela perfeita com o écran, alinhando com apuro as três molduras onde surgiam, sorridentes, as fotografias da mulher e das três filhas. Depois, as estantes. Com um dedo, e afastando levemente para trás a cara acompanhando o gesto de um fechar do olho direito, como quem faz pontaria com arco e flecha ou espingarda, subtilmente tratou de alinhar todas as lombadas, passando depois, último acto, o dedo indicador direito sobre a largura da madeira a confirmar a ausência de pó. Por último, não menos importante, endireitou também os três quadros que se encontravam na parede por trás da sua cadeira, todos eles ostentando fotografias ampliadas. Num, via-se ele próprio lado a lado com o Presidente da República, por ocasião de uma sessão havida há já vários anos em que fora agraciado com a Grã Cruz de Mérito Cultural, em virtude, disse-se e leu-se na circunstância, «dos excepcionais serviços prestados à cultura nacional». Noutro, também ele surgia, agora abraçado ao Nobel poucas horas depois de este ter recebido a distinção da Academia Sueca, em Estocolmo. Na última moldura, uma vez mais surgia ele, desta feita, fazendo-se acompanhar de um grupo de escritores da casa. Não sei porquê, mas esta imagem sempre me fez uma espécie de comichão, creio que por via dos sorrisos que os escritores mostravam, não porque não soubessem sorrir mas porque se denotava que eram risos forçados. Até porque, conhecendo as suas obras, não batia a bota com a perdigota. Os seus livros eram negros, cifrados, herméticos, tristes e isso, acredito, muito havia de revelar sobre as suas almas ou estados de espírito. O que é facto é que riam, vá lá saber-se porquê, riam. Por causa dos números de exemplares vendidos dos seus livros é que não era de certeza. De modo que... estão a ver, uma comichão...
Não andasse eu nisto há quase já uma vida inteira e dar-me-ia por parvo, não percebendo ou suspeitando o que se passava. Enfim, não é que nunca tivesse acontecido, mas, se bem me lembro, pelas minhas contas... duas... três, sim, talvez umas três vezes nos últimos vinte anos. Estou a falar deste engalanar, destes preparativos, como se ali fosse ter lugar um qualquer casamento. Mas não, topei logo o que devia estar a preparar-se. Não diria que fosse a visita do Santo Papa, mas era capaz de apostar que pela porta de entrada do escritório muito em breve, coisa de minutos (ou horas, a fazer fé nos atrasos habituais), entraria peixe graúdo. Escritor, não. Não me cheirava que fosse escritor, que fosse quem ele fosse não haveria de merecer tamanhos preparos. Nem sequer o Nobel, porque esse, sabia eu, havia muito que não deixava a ilha onde se exilara, e quando o fazia o mais das vezes era para participar em lançamentos de livros em locais estrategicamente pensados para o efeito – de resto, era impensável que tais momentos decorressem ali no escritório. Seguindo as ideias de um escritor-jornalista mediático, tornadas públicas aquando de um lançamento de um livro seu, lançar um livro tinha de ser coisa feita como em Espanha, no Brasil ou no estrangeiro, resumia. Isto é, em sede própria para levar os jornalistas a saírem das suas redacções, e isso, dizia com um sorriso jocoso, só se conseguia com festas e bolos. Resumindo, a si próprio se chamava tolo!
O facto é que o director editorial fisgou aquela ideia ao ler na Imprensa escrita as opiniões iluminadas do dito escritor em fase de aceitação crescente no mercado dos tops nacionais. «Pois se assim é, e ele lá deve sabê-lo, porque anda lá por fora, havemos de fazer da mesma maneira», pensou. E assim se fez doravante. Voltando um pouco atrás, dizia eu que haveria de ser coisa de vulto, figura política, por certo, talvez um ex-primeiro-ministro ou se calhar até mesmo o novo Presidente da República. Sim, talvez que ele estivesse já a pensar em publicar o tomo primeiro das suas grandes memórias, talvez já tivesse a coisa feita – em segredo, naturalmente, que é para que a coisa depois funcione em termos de efeito surpresa, porque nestas coisas dos livros o timming é fundamental. Pois estava capaz de apostar que seria o Presidente da República, tanto mais que agora me lembrava que, em recente visita à Índia, ele acabara de ser doutorado honoris causae em Literatura. Nem mais, era isso com certeza. Aproveitando a maré de aceitação dos seus méritos literários, quer em matéria de conhecimentos quer no que a obra feita respeita, o Presidente aprestava-se a lançar no mercado o primeiro volume das suas memórias. Enfim, é verdade que não estava no cargo há muito tempo, tinham passado apenas seis meses, mas enfim, o conselho editorial, reunido de emergência, provavelmente chegara à conclusão de que ali se desenhava uma boa oportunidade de negócio. Depois, era só questão de arranjar um nome minimamente intelectualizado para a obra e o prestígio do nome do senhor Presidente faria o resto. A decidir eu, iria por um título assim do género... «Seis Meses e Um Dia». Era mais do que certo que seria um sucesso. Por um lado, os seis meses a darem conta de meio ano de trabalho ininterrupto, de muita frescura nos acontecimentos, por outro, aquele «um dia» a suscitar nos leitores a curiosidade, a instilar no ar a ideia de que algo de especial se passara naquele dia... Sei lá!, como diria a outra. Sei é que ou muito me enganava ou seria mesmo a visita do senhor Presiden...
Não. E palavra que nesse instante quase me engasgo! Não era o Presidente. Estava eu naquelas minhas elucubrações divinatórias quando, seriam já as oito da manhã, ouço grande zunzum no exterior do edifício. Cá do alto, deito olho pela janela e que vejo? Motas, motas de polícia azuis e brancas! Batedores policiais fazendo guarda e abrindo caminho para a entrada nos jardins de um enorme BMW preto metalizado que avançava agora aos poucos conduzido por um tipo de ar soturno, a lembrar um gangster dos tempos modernos. Via-se que vestia todo de negro, sobretudo comprido sobre camisola de gola alta também preta, uns óculos escuros de marca compunham a figura. Lembrei-me logo de uma cena vista há uns meses na televisão, em que no aeroporto de Lisboa uns tipos que tais foram esperar um empresário da redondinha para lhe fazerem uma espera. Ali mesmo, na gare das Chegadas internacionais, à frente das câmaras de televisão e dos olhos incrédulos de quem quisesse assistir à cena. Conversa para cá e para lá, percebendo-se que ao embrulho estava um tal guarda-redes brasileiro que viera jogar para um clube alfacinha de implantação internacional, salta estalada de meia-noite! Coisa digna de registo em país terceiro-mundista e que acabou e bem, mais tarde, por ir parar ao livro de um escritor que se propusera escrever sobre figuras de vulto desse emblema. O livro tivera algum sucesso de vendas, quer por parte das hostes do clube em causa, quer nas fileiras das equipas adversárias. Os primeiros abriram as carteiras pensando ir ao encontro de uma galeria de textos jubilatórios dos seus heróis, os outros leram a coisa de maneira diversa e compraram para «gozar o prato». Chamava-se «Seres Benfiquistas» e na altura em que foi editado suscitou alguma polémica, originou alguns programas televisivos de debate acirrado, mas que logo, logo se dissipou quando, algumas fins-de-semana depois, o «roubo» de um pénalti escandaloso num derby do campeonato inverteu as agulhas do engalfinhamento público.
Nestas coisas do futebol o melhor é mesmo uma pessoa não se meter, sob pena de perder a cabeça e sob pena de perder o fio à meada narrativa. De modo que continuo a relatar o que vi no exterior do escritório, numa altura em que o supracitado BMW topo de gama (esta, outra expressão que sempre me deu que pensar, pois o «gama» sempre me levava a pensar no verbo gamar...) se imobilizava sobre o relvado com um enorme pneu ameaçando perigosamente um canteiro de Jarros que o senhor Pinto ali cultivara ia para um par de meses. De sacho às costas, testemunhando a cena mudo e quedo, o senhor Pinto não queria acreditar no que via.
Nem eu! Mas não, não era pelos Jarros que o bom homem se ensimesmava enrugando a testa de espanto. Era porque, tão-só, ali a dois singelos passos dos seus olhinhos que a terra (a mesma onde cresciam as flores) havia de comer, se encontrava a dona Etelvina Prazeres. Nem mais, ela, ali, em pessoa, a sair pela porta o carro exibindo um ar de gravidade, como se à sua roda se respirasse um clima de perigo iminente. E quem não a reconheceria das muitas vezes que aparecera nas televisões e nas revistas cor de rosa acompanhando o seu distinto ex-companheiro de casa e cama, o presidente de um clube nortenho de grande flama e conquistas futebolísticas nas últimas duas décadas? Todos certamente, eu incluído, embora, como talvez já tenham notado, seja alguém que só liga ao futebol à distância, enojado que ando com esse meio de suborno e corrupção que todos concordam em existir mas ao qual ninguém parece interessado em pôr cobro. E agora, agora sai-me esta ao alcance da visão, que, juro-vos, eu não queria acreditar no que via.
Esbaforido, que outra palavra melhor não encontro para traduzir o seu ar, o director editorial sai porta do gabinete fora, olhos esgalgados, todo ele sorrisos e floreados, desce até ao jardim e beija a mão à senhora Etelvina Prazeres. Coisa digna de recepção monárquica – embasbaquei. Não tardou muito até que os dois subissem os poucos degraus que levavam ao escritório e entrassem pelo gabinete onde me encontro adentro, o gabinete do director editorial, portanto, que agora se desfaz em galanteios e encómios à senhora Etelvina, dando-lhe a conhecer, em breves e vaidosas apresentações, os cantos ao gabinete. «Esta fotografia foi tirada aqui... esta acoli... aquela acolá...» Confesso que não percebi ao que ali se encontrava. Vistas as coisas, não errara por muito, sempre era alguém ligado a um presidente, bom, embora não o da República, mas sempre um presidente... Mas porquê ali? A que vinha? De onde vinha? Para onde ia toda aquela cena que já me estava a corroer de inquietação?
Que sim, que estava muito bonito, que tinham feito um belo trabalho, com muito apuro e cuidados, de resto, como a obra era merecedora, que, enfim, «não se preocupasse, antes relaxasse, talvez um copo de água?, não?, um sumo? de laranja. Natural? Sim? Sim, óptimo, óptimo. Só um momento» – pegando no telefone. «P’ala... sim, sou eu, traga um sumo de laranja fresquinho para a senhora Etelvina, por favor, obrigado, até já, até já.» Mas a senhora Etelvina não dava mostras de se acalmar. Trazia o espírito, notava-se, em estado de altercação, percebia-se logo que no íntimo do seu peito volumoso alguma coisa a perturbava, e todo esse leve mal-estar o seu rosto denunciava, todo ele pesaroso e amedrontado, numa preocupação latente, uma qualquer coisa que a afligia... «Sabe, é a primeira vez. Vão crucificar-me! Tenho receio das reacções...» «Ora, ora, minha senhora, deixe isso por nossa conta, então, afinal estamos no mercado há quase duas décadas, somos profissionais. Não se preocupe que tudo está previsto, tudo se vai passar bem e conforme previsto. A propósito, recebeu a nossa nota informativa acerca dos horários, o lançamento, os locais e tal...» «Sim, sim, quanto a isso estou descansada. Tenho é receio das manifestações...» «Mas quais manifestações? Manifestações, vai ver, só as terá de apreço, de regozijo pela sua coragem.» «Acha?» «Tenho a certeza.» «Ainda bem. E... você sabe... aquele... aquele tipo dos bigodes crescidos... o do outro clube... sempre...» «Schuuu... es-que-ça! Não fale nisso... é coisa que não aconteceu... que nunca se passou. Quer dizer, passou-se mas não se passou se me faço entender. Sei que irá lá estar e não se fala mais nisso.» «Mas terá dinheiro para comprar quantos exemplares?...» «Ui, ui, ui, menina, esqueça isso, por favor, já lhe disse que a coisa está tratada. Digamos que o que a gente vai poupar em publicidade investiu-se nisso...»
Estavam nisto – o director editorial mais dois editores, que aquele mandara chamar –, num apaparicar da senhora que não parecia ter fim, como se a distinta fosse a primeira dama do país, quando batem à porta. De um salto, o director editorial põe-se em pé e dirige-se ansioso para a porta. Qual não é o meu espanto, vejo entrar por ali dentro duas secretárias carregando dois maços de livros, ainda com cheiro a tinta e devidamente embalados pela gráfica, de onde, notava-se, vinham acabadinhos de chegar. Bem sei que nestas coisas de livros novos há sempre, por parte de quem os trabalha, uma curiosidade enorme, uma ansiedade, diria mesmo, em ver o resultado final. Isto é, em ver os livros, tocar o objecto, apalpá-los, fazer correr-lhes as páginas, vê-los e observá-los em todos os seus pormenores, admirando o primor do trabalho, os bons acabamentos, o brilho correcto do verniz, a escolha acertada das cores. Tudo isto, claro está, com grande dose de orgulho à medida e um não dissimulado medo em encontrar-lhes alguma gralha de impressão.
Batem novamente à porta. Solícita e sorridente, Paula (ou P’ala, como dizia de forma afectada o director editorial) pede licença para entrar com uma bandejinha na mão onde equilibrava um copo com sumo de laranja e dois pratinhos com aperitivos salgados: amêndoas descascadas, amendoins torrados, pistácios, cajus e era tudo. «Obrigado, P’ala, pode sair.» Diz-lhe o director editorial, não parando, por isso, de admirar a obra em mãos acabada de sair do prelo. Lá fora, o mesmo burburinho irritante, com restantes editores, gráficos, designers, secretárias, telefonista e os demais funcionários da editora, todos eles em pulos. Ao lado deles, os capangas da senhora Etelvina Prazeres, firmes e hirtos que nem estátuas, ali, encostados à parede perto da porta do gabinete, sempre de óculos escuros nas carantonhas, com ar de poucos amigos, a postos para o que desse e viesse não fosse certamente alguém atentar contra a integridade da patroa. Percebi então que também do outro lado da porta toda aquela gente já entretecia comentários a propósito de um livro que passava de mãos em mãos. Gunchinhos, ais e uis, sorrisos disfarçados, lábios mordidos em espanto por esta ou aquela passagem que liam na diagonal, a coisa haveria de ser deveras interessante.
Só eu, até então, nada ainda percebera do que se passava. Quer dizer, soube logo quem era a dita senhora e percebi depois que estaria, de alguma forma, ligada àquele livro misterioso que agora, também ela, afagava nas mãos delicadas sobre os joelhos, detendo, aqui e ali, numa ou noutra páginas ao acaso, o dedo indicador da mão direita, contrastando o vermelho vivo do seu verniz com o branco seco das páginas. E pela primeira vez, sorriu. Sorriu ao voltar a fechar o livro e ao ver novamente a sua fotografia na capa, bem como ao ouvir os outros dizendo que estava «maravilhosa, óptima, fantástica, uma verdadeira senhora»... disse o director editorial, corrigindo: «Bem, perdão, naturalmente que uma senhora já é!» E para disfarçar estendeu-lhe o exemplar que tinha nas suas mãos pedindo-lhe no imediato um autógrafo. A senhora Etelvina Prazeres, nesse momento inaugural da sua carreira literária, não conseguiu disfarçar a vaidade que já a roía no peito. «Com certeza, senhor director editorial, onde é que assino?» «Onde entender, cara autora», volveu-lhe o prestimoso director editorial, abrindo-lhe o livro nas páginas iniciais. «Aí, aí, pode ser aí», apontou com o dedo da mão esquerda enquanto com a outra levava à boca um punhado valente de cajus. «Ai, sabe como é isto, um vício, começa-se a comer e não se consegue parar...»
Etelvina Prazeres lá apôs o seu nome na terceira página do livro, uma daquelas que se deixa em branco no início, regra geral onde aparecem as dedicatórias ou as epígrafes. Ali, no caso, não havia epígrafe, o que era de estranhar. Ao contrário, no final do livro a autora fazia os seus agradecimentos da praxe a quem a ajudara a tomar em mãos e levar a bom porto tal empresa, de que ela jamais se suspeitara capaz, reiterou quando acabava a assinatura. «Ora, ora», disse-lhe logo o director editorial desvalorizando a questão, «minha querida autora, soubesse você a quantidade de escritores que para aí andam e não sabem alinhar meia-dúzia de frases com lógica umas atrás das outras. Imaginasse você a quantidade deles que não faz ideia do que seja uma frase com sujeito, verbo e complemento! E as concordâncias? Ai as concordâncias!». Etelvina sorriu, mais descontraída, e de novo todos se puseram a gabar a excelência da obra em mãos. E o director editorial naquilo, como eu nunca vira em anos e anos de trabalho. Autora para aqui, autora para ali, que o sucesso estava garantido e que se ela assim o entendesse desde já poderiam começar a pensar num novo volume. Ao que ela: «Ai, não sei, talvez seja demasiado cedo, queria primeiro ver a reacção do público, dos leitores, da crítica, quem sabe. Mas obrigada desde já, obrigada por acreditar em mim».
Não penso que o director editorial verdadeiramente acreditasse nela. Quer dizer, pelo menos como autora, como futuro vulto ou promessa da literatura nacional. A verdade é que não parecia o mesmo, não podia tratar-se do mesmo profissional exigente que eu conhecia, de anos e anos de trabalho de autêntica prospecção literária, de descoberta de novos valores, daquele director editorial sob cujos auspícios haviam nascido, ao longo de cerca de duas décadas, tantos e tão bons autores. No romance, no teatro, na poesia, no ensaio... E agora!? Agora ali, babando-se com a senhora Etelvina Prazeres e com aquela que, percebi, seria ou era a sua primeira obra literária. Quando, depois de muitas trocas de palavras, os dois se levantaram, acompanhados pelos editores presentes, para saírem do escritório, consegui por fim aperceber-me de que género de livro se tratava. Virando-se de costas para o local onde me encontrava, o director editorial pegou no livro com a mão esquerda e levantou-o no ar, repetindo «Um sucesso! Um sucesso!» Foi então que vi, foi então que vi tudo, vi e não queria acreditar. Era eu, sim, eu, eu mesmo, eu ali na capa daquele livro com autoria da senhora Etelvina Prazeres. E por cima de mim, um pouco abaixo do título, que era, tão-só, o nome da dita cuja, o subtítulo da «obra» que, ao lê-lo de relance, de imediato algo me elucidou sobre o seu cariz: «Verdades Verdadeiras».

Pais e Filhos - Charlotte Gainsbourg/ The Songs That We Sing

Pais e Filhos - Serge Gainsbourg/ Ballade de Melody Nelson - Serge Gainsbourg

Histórias Fulminantes 49

Os caracóis na cabeça do Senhor K. eram tantos que não conseguia evitar a morosidade dos seus pensamentos.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Silence Music Box


Bonnie Prince Billy sim, poderia fazer todos os anos um disco até aos cem anos. O senhor Will Oldham não sabe senão fazer excelentes músicas. Eis o novo EP, «Ask Forgiveness».

Pintéus?!







Ontem também, princípio de tarde passado no Palácio de Pintéus (Loures), casa do fadista João Ferreira Rosa. Um Favaios, uma aguardente velha oferecida, muitos insultos à república, vivas à Monarquia, e muitas obras de arte nesta «casa» que devia ser património de visita obrigatória. E, de passagem, reconhecem o rapazito sentado ao lado de Ferreira Rosa?

O cinema é um posto?


Ontem vi o novo filme de Manoel de Oliveira. Chama-se «Cristóvão Colombo - O Enigma» e é aquilo a que eu chamaria um filme falhado. Mais, um delírio insano e o verdadeiro enigma é saber como é que o MC e o ICAM concedem dinheiros públicos para este tipo de devaneios auto-biográficos em família. Triste, chega a ser triste e pesaroso. Dê-se lugar a quem vem atrás, com ideias e sangue novo. Na política como na arte também é preciso saber sair. Curioso estou é para ver o que vai escrever a crítica especializada!...

Juízes sem juízo

VERGONHA é o que sinto perante estes juízes/algozes que têm em mãos o caso Esmeralda e o caso do cozinheiro de um hotel despedido por ser seropositivo. Assim decidem estes herdeiros da inquisição, subsumindo-se, servis, ao estrito e cego enquadramento legal, longe, muito longe, naturalmente, dos interesses dos cidadãos. Bem podem dizer que têm de se ater ao que diz a lei para as suas decisões, a verdade é que nenhuma destas alminhas, que detêm o supremo poder de decisão sobre a vida de terceiros, se revela com coragem suficiente para, perante um texto legalista, cuja letra se mostra contrária à moral e ao espírito dos tempos, dizer não. A revolta começa por aí, pela coragem de dizer não. Tal como o fez, há dias, aquele pobre condutor de um camião do lixo que, por solidariedade com os seus colegas grevistas, e contrariando as ordens superiores, se encheu de coragem e disse não; não, não entro, não descarrego, não pactuo, não vendo a minha moral, e ali mesmo, perante as câmaras de televisão, se apeou do volante correndo o risco de lhe ser movido um processo qualquer que o mande para o desemprego. Um acto, senhores juízes, que os senhores jamais teriam coragem para fazer.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Silence Music Box

Benjamin Biolay - Dans La Merco Benz

Estante-Instante - Luísa Costa Gomes


«Setembro e Outros Contos», de Luísa Costa Gomes, pela Dom Quixote. Escrita aprimorada e sopesada ao máximo, o primeiro conto, que dá nome ao volume, tipifica e congrega bem o tom da leitura: histórias ao correr dos dias, suspensas do espaço e tempo onde decorrem, linhas e personagens que intricam trama romanesca com a própria essência do criar e do escrever. São contos de matriz tchekoviana, como se irrompendo do nada que é o viver, contos que a si próprios se dizem e revelam, fervilhando vida, emoções, sentimentos, estados de espírito. E sempre o mesmo e apurado trabalho de linguagem, da literatura, da auto-inquirição enquanto matéria.

Amor aos Pedaços


Histórias Fulminantes 48

Como lhe tivessem dito, no Hospital, que não se preocupasse, pois que o tempo tudo cura, o senhor K. Foi para casa descansar e nunca mais pensou no assunto. Nunca mais sequer se dignou a visitar o seu médico, pelo que três meses depois foi encontrado morto em sua casa.

Semana Espanha in MusicBox Lisboa




Já a partir de amanhã, e até 24 de Novembro, convocam-se espectadores para a primeira edição da Semana Espanha in MusicBox Lisboa, ali ao Cais do Sodré. Para ver, um leque de propostas musicais e um Festival de Curtas-Metragens, o de La Boca del Lobo. Aqui ficam algumas sugestões musicais: The Sweet Vandals (22/11, 23h); Cadencia (23/11, 00h00); El Plateao (21/11, 23h00); Tomas San Miguel e Txalaporta (24/11, 00h00).

Edward Burtinsky








As extraordinárias fotografias são de Edward Burtinsky e fazem parte de dois projectos/ livros que o fotógrafo canadiano editou recentemente na Steidl e que exibiu na Paris Photo. «China», de 2005, e «Quarries», de 2007, obrigam o espectador a mergulhar silenciosamente na desmesura da sua grandeza de planos, levando-o a pensar o peso demolidor da acção humana sobre o Meio Ambiente, a Natureza, a Paisagem. São, por conseguinte, paisagens «manufacturadas», como muito bem lhes chamou a realizadora Jennifer Baichwall, que acompanhou o fotógrafo numa das suas viagens à China actual de todas as revoluções tecnológicas. Burtynsky nasceu em 1955, em St. Catharines, Ontário.

O rei e o tirano

E porque é que não se calam todos? Ou porque é que não calam os dois? Bem, um eu percebo, é por causa do petróleo. O outro? Já lá vai o tempo!

Não me Lynchem

Pois, eu também não percebi. A convite de Paulo Branco e do seu novo festival de cinema, um dos meus realizadores preferidos, David Lynch, veio ao Estoril. Pensava eu que para falar de cinema, do seu cinema, mas não. Para espanto, pelo menos meu, Lynch põe-se a falar de Meditação Transcendental (MT) e do seu fundador, Maharishi Mahesh Yogi! Por coincidência, recebo um mail a anunciar/ convidar para um curso de Reiki tradicional... Epá, como diria o outro, o reikosparta!

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Histórias Fulminantes 47

Levava a adaga escondida por dentro da camisola, junto ao coração. Já se precipitava sobre a vítima quando quis o destino que escorregasse. Batendo com o peito no chão, faleceu nesse exacto instante, trespassado pela lâmina afiada. A sua pretensa vítima, aliviada, concluiu sabiamente: não guardes o ódio junto ao coração.

Pais e Filhos - Anja Garbarek

Pais e Filhos - Jan Garbarek (com Keith Jarrett)

O espírito do Natal

Que bom que temos a maior árvore de Natal da Europa! Não estão todos tão contentes? Que fantástico! Que o feito é de suma importância para o país, não se põe em causa, agora só não consigo é imaginar esta gente a confirmar que é a maior árvore. Como é? Põe-se um ministro a telefonar para os seus congéneres e a perguntar: «Ouça lá, de que tamanho é a vossa árvore de Natal este ano?»

Atirar Barro(so) à Parede

Como quem atira barro à parede, a ver se cola aos olhos dos incautos, um lacónico e Calimeriano Durão Barroso veio anunciar, em entrevista pública, que não sabia, que foi enganado, que achou que agiu muito bem quando decidiu acolher a Cimeira dos Açores. E, com um ar muito sério, assim como que se desculpava; mas, pasme-se, de coisa nenhuma! Porque, disse, «Portugal não perdeu nada». É barro da pior estirpe, diga-se, este que alija as responsabilidades para os ombros de um big brother a três vozes (americana, inglesa e espanhola - «Sim, Espanha!», vincou o Calimero) que, olhando para o irmão mais pequeno e fraco (Portugal), lhe mente e pede para fazer esta ou aquela travessura. No caso, que acolhesse uma cimeira que ratificaria uma guerra que até hoje fez mais de 500 mil mortos e milhares de desalojados, milhares de órfãos, e lançou um país para um fosso de ódio e dor do qual não se sabe quando irá sair, se é que alguma vez dele se livrará. Arrepender-me? De quê? Então não privo com os maiores do mundo desde muito cedo? Então, não sou Presidente da Comissão Europeia? Morreram 500 mil pessoas mas eu não sabia, fui enganado... Pois, o que eu sei de há muito é que a hipocrisia é um dos atributos maiores da política. Cheira mal, cheira a cherne!

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Editors


Pavilhão do Belenenses cheio para ouvir os Editors. Excelentes em palco os rapazes de Birmingham.

Arte

«Em Londres, a artista sul-africana Laura Cinti exibiu um cacto transgénico que contém material genético humano e no qual cresce pêlo humano. Cinti disse: «O cacto com todo o seu pêlo a crescer exibe todos os desejos, todos os sinais de sexualidade. Não quer ser encurralado. Quer ser livre.»

Michael Crichton, «Next», Dom Quixote

in Artelisboa















Histórias Fulminantes 46

Era um carteiro peculiar. Anunciava-se pelo arrulho, vestia-se sempre de cinzento e insistia para que lhe chamassem pombo-correio.

Hipocrisia

«Falha grave», diz o conselho deontológico do doutor Nunes. Um poeta, está de ver. Outros chamarão à curiosa metáfora simplesmente hipocrisia. Eu gosto da palavra hipotrofia.

Outros Silêncios

«Ponde o vosso silêncio
de acordo com o Grande
Silêncio das coisas.»

Leonardo Coimbra, «A Alegria, a Dor e a Graça»

Um dia vou escrever um conto chamado...

Fossa Nova

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

E esta, fiz um trava-línguas!

Seja chique, clique nesse clipe antes que ele eclipse.

Clipe Frank Aguiar

Letra fantástica!

Blogospérola - Adeus GG

«Gilberto Gil deixa o Ministério da Cultura em 2008. Frank Aguiar, apresenta-se como forte candidato ao cargo, pois é muito amigo do presidente Lula. Frank é o autor, entre outras pérolas, da música Mulher Madura, Lavou, Tá Nova. » Quem o anuncia é a brasileira Marta Bellini, «Professora concursada da Universidade Estadual de Maringá», que mais diz, como programa individual de combate: «Não posso desistir de lutar. Afinal no Brasil nosso destino é esse.»

A propósito de Finlândia - Acho que a Saija está farta do noivo ou o problema dos chicos finlandeses!

«Cómo son los chicos finlandeses? Es una pregunta que he pienso mucho ultimamente.He notado muchas cosas que los hacen difentente como chicos de otros partes de Europa. Aúnque las mujeres y los hombres son igual en mí país, hay algunos costumbres que deberían ser diferentes. Por ejemplo, sí tengo que llevar muchas cosas conmigo, los chicos finlandeses no van a ayudarme nada, sí no los pregunto por su ayuda. En Finlandia algunas mujeres cumplen el servicio militar y nuestra presidenta es un mujer, que significan que tenemos la igualdad de sexos, más o menos. Pero por supuesto, esta cosa tiene sus pros y contras tambien. Y creo que por eso los chicos finlandeses no llaman bastante atención cuando alguien necesita un poco de ayuda. Siempre piensen que es su propio problema.Y mi novio es muy típical. Y ahora lo me exaspera. (...) Y no sé que va a pasar con mi novio. No quiero siempre sentirme estresada y angustiada por él. Por ejemplo, el pasado sabado bebó tan mucho que no pudó estar de pie, y le tuvimos que llevar afuera. Y es siempre como así. Pero bueno, no le he contado todavia que seguramente voy a quedarme en España algunos meses más. Ahora sólo tengo que hacer la resolución.»

A propósito de Finlândia - Sibelius Violin Concertin Mov.3 por Wei Wen

Kalevala


«Firme velho Vanamoinen,

esse bardo sempiterno,

vai seus dedos preparando,

vai seus polegares esfregando.

Senta em pedra da alegria,

põe-se em rocha de cantar,

num outeiro prateado,

sobre a colina doirada.


Toma instrumento em seus dedos,

vira o curvado nas pedras,

o kantele em suas mãos;

disse um dito e assim falou:

"Deixai vir para ouvir

a quem nunca tenha ouvido

de eterno bardo a alegria,

a sonãncia do kantele."»


Está a chegar às livrarias a primeira edição portuguesa do «Kalevala», o mítico, épico e também marco fundador da identidade finlandesa. Muitos chamam-lhe «Os Lusíadas» finlandeses, mas não é assim tanto, a começar pelo facto de este ser um livro composto a múltiplas vozes anónimas, enquanto que «Os Lusíadas» tiveram apenas Camões por autor. De qualquer modo, há semelhanças, pois nas suas páginas, nos seus cerca de vinte mil versos, se glosam o espírito e a alma de um povo, em concreto, aquele da região da Carélia, a Norte. Kalevala (publicado pela primeira vez em 1835, depois aumentado em 1949 - edição que serviu de base à presente tradução) provém, segundo o autor original desta reunião de canções de tradição popular, Ellias Lönnrot, de Kaleva, dito «o mais antigo herói finlandês». A edição é da Ministério dos Livros.

E agora um momento poético

faço a minha parte
(deixo outro tanto para os deuses)
bato palmas no final do poema
(palmas)
para que outros versos
regressem.

Cine-Silêncio - Curta-metragem Metalingüístico de Baixo Orçamento

Histórias Fulminantes 45

Notícia: um actor foi devorado ao chegar-se demasiado perto da boca de cena.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Fotografia a Norte



No Porto, o Centro Português de Fotografia abre ao público três novas exposições. A primeira, de Flor Garduño, sob o título «Testemunhos do Tempo». Trata-se de uma retrospectiva, em cujas imagens a preto e branco, segundo Maria do Carmo Serén, «se concentra um dos mais impressionantes testemunhos da ligação mítica do sagrado e do profano, da perene tentativa do homem em jogar contra o destino. É com imagens suas que o mundo revê muito do sentido da cultura mexicana e da sensibilidade mítica de todos nós. Outra mostra é «Night Order», de João Leal, artista distinguido no Prémio Pedro Miguel Frade, 2006, do Centro Português de Fotografia. As imagens, antes de nos intrigarem pelo contraste que apresentam foram feitas para responder a uma questão ambiciosa: a luz, essa componente primeira da imagem fotográfica, pode destruir a informação? Por último, «Fast City» e «Days of Night», de Morten Andersen, um olhar diferente sobre a paisagem urbana. Andersen é, nitidamente, um fotógrafo itinerante, que transporta consigo as atmosferas que imprime às suas imagens habitadas por personagens igualmente errantes. Até 16 de Março.

Outros Silêncios

«How silent must that sea have been; how ready for the wonder of the world.»

George Steiner, «The Poet and de Silence»

Um dia vou escrever um conto chamado...

Lady Sometimes

Pais e Filhos - Josh Haden/ Spain - «The Blue Moods of Spain»

Pais e Filhos - Charlie Haden, «First Song»

Dirty Diana - Um terrível conto de terror Último capítulo

9. olhos nos alhos
Sim, naturalmente que Dirty Diana também não se esquecera das agruras e amargos de boca que o ainda seu esposo, o Príncipe Carlos, a fizera passar. Assim foi que ao Príncipe das Orelhas de Burro, o malandro que a trocara pela horrorosa Camila, decidiu Dirty Diana aparecer-lhe em casa, a altas horas da noite, ficando-se por lhe dar um grande puxão de orelhas enquanto ele dormia. Sabia que era o pior que lhe podiam fazer. Acordando de supetão, Carlos – a quem um declarado trauma fazia enlouquecer quando lhe aqueciam os «abanos à Dumbo» –, julgando que fora Camila a autora da cena, reagiu brutalmente contra a amante adormecida. Espancou-a como se fosse espanhol, com um leque de derechazos e trincheras, templando e castigando-a ao ponto de a obrigar a ir a três concertos seguidos de Elton John. Camila urrou de dores e pediu de joelhos que não, que o príncipe não a obrigasse a ouvir as lamechices do Elton, que preferia tudo, tudo mesmo, até submeter-se a vinte plásticas para ver se conseguia ficar um nadinha que fosse bonita, mas que ouvir o Elton não, não resistiria, era demais para uma pobre alma que nada tinha feito. Carlos não foi contemplativo. Que ia e estava dito. E que se Camila voltasse a portar-se mal, o castigo seria muito pior. O cantor português Clemente seria a próxima provação! Por isso hoje muitos lhe chamam Carlos, O Inclemente. E aqui poderia e bem, caro leitor, colocar-se a questão: afinal, quem era mais terrível, Dirty Diana ou Carlos quando lhe puxavam as orelhas? Bem, quanto a mim, à luz da escolha de Clemente e tendo em atenção que, mais tarde, Diana acabaria por desistir de se vingar da velha, da Rainha Mãe, entenda-se, justamente por achar que ela sofreria mais vivendo do que indo desta para melhor, creio que Carlos poderia levar alguma vantagem na decisão...
Cumprida a sua vingança sobre Carlos, Diana retomou atenções sobre o último paparazzi da sua lista; o último da lista, mas o primeiro em melguice, o paparazzi que mais a atormentara, mais até do que Paul Aroid, ao ponto de até no momento da sua morte lhe ter conseguido furar os planos. Como se vai ver. Era um fotógrafo italiano então muito na moda, um trintão bem parecido, moreno de olhos claros, bem musculado, cabelo grisalho à Comissário Corrado Cattani. Chamava-se Donatto Printi, e era correspondente da «Gioia Donna», uma revista italiana de figuras do jet set internacional. Donatto era o terror dos sonhos de Dirty Diana, o pesadelo travestido em homem, a reverberação constante dos piores dias de Diana, então Princesa. Apanhar Donatto não era tarefa fácil, nem sequer para a imaginação do escritor. Estava sempre fora, viajava de país para país, acompanhava as agendas das principais figuras da realeza e do show biz internacional. De modo que tardou algum tempo até que Dirty Diana soubesse da sua estadia em Paris, onde Donatto viera em trabalho, decidindo-se depois a um fim-de-semana prolongado de merecidas férias.
Na «mouche», vibrou Dirty Diana quando, certo final de tarde mais soalheiro, da cadeira da esplanada sobranceira ao Sena, onde se encontrava a tomar um café acompanhado de umas trufas, vislumbrou Donatto num bateau mouche que se preparava para ancorar num cais ali perto. Sim, mesmo à distância a que se encontrava, Diana não tinha dúvidas, era ele. Quando se completou a atracagem, Donatto subiu para terra, ajudando em seguida uma jovem que o acompanhava. Depois de uns minutos de conversa, os dois despediram-se, seguindo cada qual para seu lado. Diana, lesta, pagou a sua despesa, e, fortuita, levantou-se seguindo Donatto, sempre resguardada pelos seus grandes óculos escuros de ar amaricado, como já se frisou.
Dois quarteirões a seguir, e depois de ter entrado nuns laboratórios de fotografia, onde recolheu uns trabalhos de grande formato que tinha posto a revelar, Donatto saiu dirigindo-se a um parque automóvel subterrâneo a uns cerca de cem metros dali. Diana seguiu a sua presa. Deixando primeiro que ele submergisse no subsolo, seguiu-a como uma sombra esgueirando-se por uma das outras entradas do Parque. Seriam então umas sete horas. O sol já havia algum tempo que tinha baixado. Já no piso –1 do Parque, certificando-se, à distância razoável para não ser vista, de que Donatto ali estava, Diana deu um pulo rápido a uma pequena cabina onde se encontrava o segurança local. Insinuando-se aos olhos do bivalve, inventando uma qualquer desculpa de momento, relacionada com falta de trocos, não demorou até que o homem saísse do seu guichet e lhe abrisse a respectiva porta. Ao chegar-se a Dirty Diana ela não esperou um segundo, saca do seu bisturi e crava-lho no pescoço num gesto felino e fulminante. Um belo golpe; o homem nem teve tempo de sentir dor. Quanta gente não gostaria de morrer assim...
Acto contínuo, e já com o guarda esvaindo-se em sangue aos seus pés, olhos lívidos e esbugalhados, qual peixe na praça, Diana entra na cabina e desliga o quadro da electricidade. Num ápice, cai a escuridão à sua volta. A iluminar-lhe os passos, bem como os de Donatto, agora apenas uma ténue luz de presença espalhando-se como neblina sobre o taciturno espaço à sua volta. nesse exacto momento também, Donatto e Diana ouvem o pesado e férreo correr dos portões do Parque, cujos mecanismos se accionaram como forma de segurança. Ao ouvir o silvo metálico, Donatto, sem conseguir perceber porquê, estremeceu e um arrepio frio correu-lhe a espinha de baixo para cima, fazendo-o revirar o pescoço como quem se debate com uma qualquer implacável etiqueta, e quase o fazendo deixar cair as enormes fotografias que antes levantara, a certificar-se de que tudo estava conforme desejava.
Já de atalaia, o seu sorriso sardónico e irritante que sempre o acompanhava abandonou-o fazendo-lhe secar os lábios, passando-lhes em seguida, por reflexo pavloviano, a língua por cima sentindo todas as suas comissuras. Arrefecera. A atmosfera parecia agora mais pesada, quase irrespirável. Estacado no meio do lusco-fusco, ainda a alguns metros do seu carro, Donatto sentiu a sua garganta engolir em seco repetidamente. À sua volta pressentiu um borboletear de sombras, um voejar de vultos inomináveis. Voltou-se de repente, mas nada viu. O escritor desta história poderia aqui, e para melhor complemento e condensar da emoção do momento, instilar mais um ou outro pozinho clássico do género narrativo a que devota mãos, poderia por exemplo fazer com que Donatto ouvisse um súbito e estridente grito, de alguém que se visse subitamente ante uma visão terrífica de um qualquer degolado, de uma qualquer senhora de alta sociedade que também naquele momento se dirigisse ao seu potente Mercedes e ao abrir a porta desse de caras com o marido estripado lá dentro, o escritor poderia também fazer ecoar nestas páginas um uivo de lobo, ou até de uma matilha inteira de lobos esquálidos, esfomeados e de dentes pontiagudos que saíssem largados de dentro de uma qualquer carrinha estacionada no Parque, animaizinhos que corressem esfaimados para Donatto, atirando-se-lhe, impiedosos e mortais até ao último osso...
Poderia. Mas não. Prefere o escritor aproveitar estas outras hipóteses de trabalho para ele próprio engolir e suspirar fundo para prosseguir empreitada – numa prosa, já o confessou, em que é neófito e cujas emoções da acção até ele «incomodam». Prossigamos, por conseguinte, que a Donatto já não resta quase pingo de suor, e o homem ainda se vai desta para melhor com algum ataque de coração sem que Diana lhe deite mão vingativa. Donatto está, pois, a esvair-se em suores, que mais não são senão os óleos em que se banha o corpo quando lavado de medo e pavor. Silêncio. Silêncio agora, como o Parque fosse uma capela mortuária, silêncio como a voz de um Padre escondendo os seus próprios pecados. Uma ratazana que corre e guincha. Donatto vira novamente a cara e olha ao redor a 180º. Nada, pouco consegue ver, assusta-se com o vulto da sua própria sombra. Depois volta-se e é então que os seus olhos vislumbram as formas e a silhueta negra de Dirty Diana.
O resto, como se costuma dizer, são favas contadas. E como Donatto odiava favas!... Diana avança sobre ele. Ri-se. Ri-se a golfadas de um riso sarcástico e estridente. Donatto treme por todos os lados. Não consegue dar um passo, nem para trás nem para diante, nem sequer para os lados. Acossado, preso ao chão como transatlântico ao mar, Donatto, ao ver abrir-se-lhe à sua frente, a dois palmos da cara, a cara de Dirty Diana, dois dentes caninos salivando-lhe na boca, só tem tempo para reagir por instinto de defesa. Ainda, numa das mãos, com os grandes formatos de fotografias que tinha levantado nos laboratórios antes de entrar no Parque, na outra, com a sua potente máquina fotográfica e as chaves do carro penduradas no dedo mindinho, Donatto, ao avanço da sombra que caía sobre si, solta um grito ao mesmo tempo que consegue ainda disparar o flash da sua máquina. Ao fazê-lo, a luz potentíssima do flash ilumina as suas fotografias de grande formato dando a ver a Dirty Diana uns enormes alhos...
Olhos nos alhos, Diana estarrece de pavor. Algo atordoada com a horripilante visão, Diana retira os dentes do pescoço de Donatto e recua aos solavancos, lançando ela própria as suas mãos ao próprio pescoço, como se acabasse de engolir um copo de veneno. Mais dez passos e Diana cai fulminada pela visão das fotografias de Donatto. Este, para cúmulo das injustiças, acaba por sobreviver. Sobreviver para contar, ou melhor, para fotografar. É o que faz cerca de um mês depois, com direito a faustosa inauguração de exposição numa das mais afamadas galerias de arte parisiense. Ao público, mostra a nova série de fotografias a que dera o título DDT. Os muitos quadros expostos mostravam grandes planos de alhos, bem como de outros legumes de um trabalho que uma cedia de hipermercados lhe encomendara. Todos tinham grande procura, mas no centro das atenções estava a fotografia de Dirty Diana esboçando para o passarinho uma cara de profundo pavor, revelando, nada mais nada menos que o último e verdadeiro esgar da Princesa Diana, ora travestida a Dirty Diana.
Hoje, passados dez anos, essa fotografia, denunciando um imenso e real pavor, é uma das mais valiosas em hastas leiloeiras, dizendo os críticos, e escrevendo alguns, que guarda e revela a verdadeira alma da princesa. Crê-se estar na posse de um coleccionador de arte chinês cuja identidade permanece um mistério. Quanto a Donatto, depois de alguns anos fazendo semanais consultas e terapia psiquiátrica, conseguiu ultrapassar o choque experimentado. Hoje, guarda, como troféu, as marcas dos dentes de Dirty Diana, tal como o fazem os sobreviventes de ataques de tubarões, e leva uma vida pacata enquanto fotógrafo. Só de uma coisa não conseguiu ainda livrar-se, da pestilenta lembrança do cheiro da cara de Diana. No que a Dirty Diana respeita, o conhecimento público desta história apenas veio engrossar as fileiras dos seus fãs em todo o mundo. Um deles, Michael Jackson, que anunciou recentemente que no futuro todos os seus concertos se iniciarão com o tem «Dirty Diana» e que dez por cento das receitas serão canalizadas para Associações de Ajuda Humanitária.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Cine-Silêncio Don't Come Knocking

Em português chamar-se-á Estrela Solitária e estreia a 22 deste mês. É o genial filme de Wim Wendars e Sam Shepard (com este a protagonizar). Com uma banda sonora notável da responsabilidade de T Bone Burnett. E um magnífico tributo aos Westerns. Em muito similar a «Paris, Texas».

Dirty Diana - Um terrível conto de terror VIII

8. you arrre verry belle, you know?
Paul Aroid arengava postas de sedução a uma qualquer beldade que ali mesmo conhecera, sob pretexto de lhe oferecer, de graça, um portfolio fotográfico, em sessão a combinar, no seu estúdio, naturalmente. A menina, que veio a saber-se era uma modelo norte-americana vinda do Texas, ria-se muito e voltava a desfazer-se em sorrisos palermas, engalanando os peitos postiços, bem à americana, quase transbordando o decote, o que mais e mais abria o apetite guloso de Paul Aroid, então já semidobrado sobre ela, sob risco iminente de queda conjunta nas águas da piscina, que reluziam translúcidas à força da luz dos holofotes que no seu fundo se encontravam.
Diana aproximou-se, a cada passo e a cada metro mais próximo do fotógrafo se lembrando das inúmeras vezes em que quisera ver-se livre dele e ele, qual melga entre as melgas, não desarmava de a seguir por todos os cantos, ruas, cidades, países, continentes! Lembrou-se, em particular, de todas as artimanhas de que Aroid se fazia valer para atingir os seus intentos, conseguir a melhor foto de Diana, se possível no mais recatado da sua vida íntima, a foto que lhe granjearia fama entre os seus pares, aquela que o ajudaria a reformar-se bem cedo, possibilitando-lhe largos anos de vida numa qualquer ilha do Atlântico Sul, torrando ao sol dos trópicos, devidamente acompanhado por um par de beldades nativas. Ora se fazia passar por camareiro dos hotéis onde Diana se instalava, ora surgia travestido a empregado de bar, ora vestia a pele de amigo de amigos da princesa, e sempre, sempre conseguia, só ele sabe como, infiltra-se ou fazer-se passar por convidado nas festas onde Diana era convidada principal. E Diana não esquecia! Não esquecia sobretudo que as primeiras fotografias publicadas na Imprensa de cenas íntimas entre ela e Dodi tinham sido da autoria de Paul Aroid. Fotografias que ele vendera por uma pequena fortuna e que assim explicavam o seu novo apartamento num dos melhores bairros de Paris, bem como o seu novo, reluzente, potente e fantástico Aston Martin DB9 Coupé.
Era, portanto, este o homem que enriquecera e granjeara fama às custas de uma contínua e persistente caça à princesa. A princesa outrora mais conhecida por Diana, Princesa do Povo, mas que era agora a perigosa e sequiosa de vingança Dirty Diana. Que estava ali, a olhar com verdadeiro asco as mãos de Paul desbravando caminho pelas curvas sinuosas de Pamela, esta cada vez mais desmanchada em tremeliques face aos avanços galanteadores do mais célebre paparazzi francês. «Yes, yes, yes...», dizia ele resmoneando face aos «non, non, non...» dela. Eles nisto e Diana a um metro do par, que só então dá pela sua presença.
«Paul? Paul Aroid? The astonoshing photographer? Paul himself?» – pôs-se com estas balelas introdutórias Dirty Diana. Aroid não se fez rogado. Apreciou num relance rápido a figura do mulheraço que pela frente se lhe apresentava e vendo que, ao que parecia, tinha pela frente uma admiradora, logo se compôs, deixando Pamela atónita, levantando-se para um cumprimento à francesa; pegando a mão da princesa e beijando-a delicadamente, logo depois confirmado: «Paul Aroid, in person, un garçon at your command». Diana sorriu. Mantinha-se de óculos escuros pelo que no relativo lusco-fusco nocturno em que se encontravam Aroid não deu de imediato pelas suas semelhanças com a Diana princesa, que durante anos e anos ele perseguira e fotografara. Como a americana dos seios robustos se armasse em difícil com aqueles falsos púdicos «non, non, non», Aroid decidiu voltar os seus esforços de conquista para a sua admiradora de negro. Esta, embora falasse inglês, pelo sotaque parecia inglesa. Talvez fosse mais afoita e Aroid não queria perder mais tempo. «You arrre verry belle, you know?... Want you like me que vous photographe?… peut-être à ma studio?...», arranhou num misto de francês e inglês.
«Oui, Oui, bien sur, porquoi pas?» É claro que Dirty Diana acedeu ao convite. Dirigiram-se ambos ao Aston Martin, estacionado nos relvados fronteiros ao palácio, e Paul Aroid carregou a fundo no pedal acelerando em derrapagem rumo ao seu atelier fotográfico, um loft recente com vista envidraçada para um dos canais do Sena.
Uma vez dentro do atelier tudo se passou relativamente depressa. Paul Aroid levou Diana para um espaço todo em branco, rodeado por holofotes de um branco opaco, e em cujo centro se encontrava uma Harley Davidson preta toda cheia de cromados. Ao mesmo tempo que dirigia Diana para lá, Aroid ia, como quem não quer a coisa, passando as mãos pelo lombo da princesa, se nos fazemos entender. E entre um beijo roubado ao seu pescoço lá lhe ia dizendo que a ideia era que ela aos poucos e poucos fosse tirando a roupa, fazendo uso da Harley como bem entendesse, antes, durante e após a sessão de strip. Quanto a ele, levantava as mãos como que garantindo promessa, limitar-se-ia a fotografar, que era aquilo que, muito modestamente, sabia fazer como ninguém.
Já estava Paul Aroid de cenho arreganhado atrás de uma das suas máquinas quando, depois de um leve e ousado menear de ancas e rabo (que à própria Dirty Diana surpreendeu, fazendo-a ruborescer um pouco), Diana tira finalmente os enormes óculos escuros, mostrando toda a avidez e perfídia dos seus olhos arregalados. É claro que o pobre Aroid se engasgou tomado de súbito e inesperado susto. Sim, porque se aos olhos dos outros Dirty Diana poderia passar apenas por uma cópia muito aproximada da Princesa Diana, mas nada mais do que isso, a verdade é que aos olhos de paul Aroid, que como poucos conhecia a princesa, aquela mulher que ele tinha pela frente era e só podia ser... nem mais... nem menos... (engoliu em seco) Diana! A Princesa do Povo! Ali, afinal viva, e bem viva, à sua frente! O homem estava transido de pasmo e terror, e nem sequer teve tempo de pensar no que lhe estava a acontecer. Tão-só porque no momento seguinte já Dirty Diana se agigantava sobre ele de dentes e unhas afiadas castigando-o brutalmente, usando de toda a sua força para nele despejar todo o ódio acumulado ao longo de anos. Depois de o trucidar à pancada, Dirty Diana presenteou-o com um obsceno remate final: depois de lhe espetar os dois dentes caninos no pescoço, enfiou-lhe no anus, suprema vergonha, a maior grande angular que à sua volta encontrou. Antes de sair, assinou na testa de Aroid a sua marca: DDT. Quando a Polícia o encontrou, um dos agentes comentou para um colega: não, este desgraçado não ficou nada bem na fotografia. Tal como não o ficaram os dois paparazzi seguintes de quem Diana se ocupou, cada um à sua maneira, cada qual de forma mais tenebrosa e requintada, tanto mais que eram dois dos fotógrafos que na altura do acidente com Dodi seguiam de motorizada no encalço do Mercedes: Fash Gordon e Frank Hasselblad.

Histórias Fulminantes 44

A literatura salva. Momentos antes do naufrágio, o homem pegou no romance que lia e com as suas páginas fez um barco de papel.

Sobre o Vazio


segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Histórias Fulminantes 43

O monte vestiu-se de branco e esperou no altar das alturas que a sua noiva chegasse. Como é típico das mulheres, a noiva atrasou-se e, neste caso, não chegou mesmo a aparecer, deixando ali, em frente ao padre, o Monte Branco, cada vez mais lívido. Pedindo desculpa, sob pena de ali mesmo derreterem, as neves do Kilimanjaro não puderam esperar mais, beliscaram apenas alguns dos manjares e partiram. Os Urais, indignados, pois tinham-se deslocado de muito longe, foram-se embora sem dizer palavra. O Atlas divertia-se à grande flirtando com a Cordilheira dos Andes. O Monte Branco, tão nervoso estava que as populações das cidades próximas sentiram vários tremores de terra durante algumas horas. Envergonhado, na manhã seguinte o Monte Branco acordou com as faces levemente rosadas e fundas olheiras. Houve, naturalmente, quem temesse que daí por diante o Monte Branco viesse a optar pelo negro.

Dirty Diana - Um terrível conto de terror VII

7. chamava-se Paul Aroid
Mas sangue, agora sangue! Ou não tivéssemos em mãos escrita que se quer digna do género a que se pretende alcandorar, o do Terror. Sim, é certo que já é aterrorizadora a ideia de uma querida princesa tornar-se numa espécie de sanguinolenta matadora após terríveis transformações sofridas no seu corpo e espírito, sim, a própria imagem do desastre automóvel já contém alguns ingredientes dignos do melhor gore italiano, Tarantino não a desdenharia, mas... mas faltará, concedo, o ambiente, a atmosfera, o locus horrendus da acção típica do género...
A ver se o conseguimos. Mais reconfortada e resignada à ideia de não mais poder abraçar o seu Dodi, tentando a todo o custo eclipsar a ideia do cão vadio roendo a cartilagem da orelha do seu amado, Diana acalmou-se no que a alcalóides respeita e passou a dedicar-se ao seu plano de vingança. É isso e só isso que agora lhe comanda os dias, esse desejo incontrolável de sangue, do sangue como alimento para justificar os seus dias, o seu respirar.
A princesa não o notava, e a verdade é que seria difícil pois pode dizer-se que já não se interessava pelos espelhos como antes, mas estranhamente o seu corpo continuava a ser palco da materialização de estranhas metamorfoses. Assim, o tom da sua pele encontrava-se mais lívido a cada dia que passava, os seus olhos arregalavam-se ao ponto de não caberem nuns óculos escuros da moda, no translúcido dos braços podia ver-se o sangue correndo em golfadas; vermelho, bem vermelho, como que querendo contrariar a estúpida teoria do sangue azul nas realezas. E na boca... na boca, sentia umas estranhas vibrações nas gengivas, como se os dentes lhe quisessem saltar, assim uma indefinível efervescência que a fazia salivar amiúde...
Outrora modelo de virtudes e farol da moda, Dirty Diana optara agora por um look de femme fatale, trajando negro da cabeça aos pés, um pouco à imagem de uma cinematográfica Cat Woman; abandonara os vestidinhos esvoaçantes e coloridos, os chapéus patetas, as écharpes e os casacos de pele (muito pouco amigos dos animais) e apresentava-se agora de calças de napa e T-Shirt negras, tal como a cor das botas, estas de um cabedal luzidio a condizer com o batôn, o rouge e o eye-liner e demais acessórios de maquilhagem feminina cuja terminologia o autor confessa desconhecer, não podendo assim mais enriquecer o seu texto.
Nos olhos, quando se viam, denunciavam-se dois archotes, e as suas unhas, crescidas e grossas, mais pareciam virotes sequiosos de carne onde se adentrarem. O rosto, malgrado a cara de cu já por diversas vezes citada, tomara novos, angulosos e façanhudos contornos, e embora conservasse a forma arredondada nas maçãs do rosto, o seu queixo vinha lentamente tomando a forma de um mefistofélico triângulo invertido onde despontavam amiudados pêlos negros. Nada, ainda assim, que uma passagem pela depilação de uma boa casa de beleza não tratasse.
Ah, mas apesar de mais reconfortado com o teor da descrição, não creio ter ainda atingido o clima necessário para podermos afirmar, sem dúvida nenhuma, estarmos ante um conto de terror. Daí que passe directamente ao jorro, à descrição do jorro de sangue que saltou, como rolha de Champanhe bem agitado ou Etna enfurecido, da goela do primeiro paparazzi que Diana houve por bem visitar. Chamava-se Paul Aroid e trabalhava para um pasquim britânico que lhe comprava as fotografias da princesa a preço bem inflaccionado. Aroid era pior do que as pestes, pior do que uma crise de piolhos, estava em todo o lado, saltava de país para país com a maior das facilidades, e conseguia sempre saber onde a princesa se encontrava, arranjava sempre maneira de conseguir chegar perto dela. Havia quem lhe chamasse «the royal shadow», pois não despegava das saias de Diana (quando ela ainda as usava). Pois bem, não custou muito a Diana saber onde se encontrava Paul Aroid, ele era correspondente fotográfico em Londres e o mais certo era encontrá-lo nas festas da haute societé.
Créme de la créme para os seus planos, Diana sabia que certo dia ia haver uma grande festa patrocinada por uma marca de roupa, onde se apresentaria nova colecção Outono/ Inverno. Vestida a preceito, não se esquecendo de levar uns óculos escuros o mais na moda possível (assim uns tipo iguais aos dos maricas), para evitar quaisquer suspeitas sobre os seus olhos faiscantes, Diana dirigiu-se ao Palácio onde o evento teria lugar. E não pareceu nada mal; ao passar pelo tapete vermelho desenrolado à entrada do Palácio, Diana, acometida por inúmeros flashes (de fotógrafos que nem suspeitavam quem estavam a fotografar) não deixou de se sentir um pouco vaidosa e chegou mesmo a lembrar a joyeuse dos dias de brilho e glamour que conhecera. Porém, uma vez dentro dos salões, ao ver uma série de caras que conhecia de outras andanças rapidamente se deixou de manteiguices e nostalgias. À boca aflorou-lhe uma baba pastosa que mais não era senão a lubrificação necessária ao acto que o seu corpo vingativo reclamava com foros de urgência e muito sangue, se possível.
Foi quando viu ao longe, sentado no rebordo da piscina do jardim do palacete, Paul Aroid. E assim, tipo flash, não mais o deixou de vista.