quinta-feira, 15 de novembro de 2007
Histórias Fulminantes 45
Notícia: um actor foi devorado ao chegar-se demasiado perto da boca de cena.
quarta-feira, 14 de novembro de 2007
Fotografia a Norte
Outros Silêncios
«How silent must that sea have been; how ready for the wonder of the world.»
George Steiner, «The Poet and de Silence»
Dirty Diana - Um terrível conto de terror Último capítulo
9. olhos nos alhos
Sim, naturalmente que Dirty Diana também não se esquecera das agruras e amargos de boca que o ainda seu esposo, o Príncipe Carlos, a fizera passar. Assim foi que ao Príncipe das Orelhas de Burro, o malandro que a trocara pela horrorosa Camila, decidiu Dirty Diana aparecer-lhe em casa, a altas horas da noite, ficando-se por lhe dar um grande puxão de orelhas enquanto ele dormia. Sabia que era o pior que lhe podiam fazer. Acordando de supetão, Carlos – a quem um declarado trauma fazia enlouquecer quando lhe aqueciam os «abanos à Dumbo» –, julgando que fora Camila a autora da cena, reagiu brutalmente contra a amante adormecida. Espancou-a como se fosse espanhol, com um leque de derechazos e trincheras, templando e castigando-a ao ponto de a obrigar a ir a três concertos seguidos de Elton John. Camila urrou de dores e pediu de joelhos que não, que o príncipe não a obrigasse a ouvir as lamechices do Elton, que preferia tudo, tudo mesmo, até submeter-se a vinte plásticas para ver se conseguia ficar um nadinha que fosse bonita, mas que ouvir o Elton não, não resistiria, era demais para uma pobre alma que nada tinha feito. Carlos não foi contemplativo. Que ia e estava dito. E que se Camila voltasse a portar-se mal, o castigo seria muito pior. O cantor português Clemente seria a próxima provação! Por isso hoje muitos lhe chamam Carlos, O Inclemente. E aqui poderia e bem, caro leitor, colocar-se a questão: afinal, quem era mais terrível, Dirty Diana ou Carlos quando lhe puxavam as orelhas? Bem, quanto a mim, à luz da escolha de Clemente e tendo em atenção que, mais tarde, Diana acabaria por desistir de se vingar da velha, da Rainha Mãe, entenda-se, justamente por achar que ela sofreria mais vivendo do que indo desta para melhor, creio que Carlos poderia levar alguma vantagem na decisão...
Cumprida a sua vingança sobre Carlos, Diana retomou atenções sobre o último paparazzi da sua lista; o último da lista, mas o primeiro em melguice, o paparazzi que mais a atormentara, mais até do que Paul Aroid, ao ponto de até no momento da sua morte lhe ter conseguido furar os planos. Como se vai ver. Era um fotógrafo italiano então muito na moda, um trintão bem parecido, moreno de olhos claros, bem musculado, cabelo grisalho à Comissário Corrado Cattani. Chamava-se Donatto Printi, e era correspondente da «Gioia Donna», uma revista italiana de figuras do jet set internacional. Donatto era o terror dos sonhos de Dirty Diana, o pesadelo travestido em homem, a reverberação constante dos piores dias de Diana, então Princesa. Apanhar Donatto não era tarefa fácil, nem sequer para a imaginação do escritor. Estava sempre fora, viajava de país para país, acompanhava as agendas das principais figuras da realeza e do show biz internacional. De modo que tardou algum tempo até que Dirty Diana soubesse da sua estadia em Paris, onde Donatto viera em trabalho, decidindo-se depois a um fim-de-semana prolongado de merecidas férias.
Na «mouche», vibrou Dirty Diana quando, certo final de tarde mais soalheiro, da cadeira da esplanada sobranceira ao Sena, onde se encontrava a tomar um café acompanhado de umas trufas, vislumbrou Donatto num bateau mouche que se preparava para ancorar num cais ali perto. Sim, mesmo à distância a que se encontrava, Diana não tinha dúvidas, era ele. Quando se completou a atracagem, Donatto subiu para terra, ajudando em seguida uma jovem que o acompanhava. Depois de uns minutos de conversa, os dois despediram-se, seguindo cada qual para seu lado. Diana, lesta, pagou a sua despesa, e, fortuita, levantou-se seguindo Donatto, sempre resguardada pelos seus grandes óculos escuros de ar amaricado, como já se frisou.
Dois quarteirões a seguir, e depois de ter entrado nuns laboratórios de fotografia, onde recolheu uns trabalhos de grande formato que tinha posto a revelar, Donatto saiu dirigindo-se a um parque automóvel subterrâneo a uns cerca de cem metros dali. Diana seguiu a sua presa. Deixando primeiro que ele submergisse no subsolo, seguiu-a como uma sombra esgueirando-se por uma das outras entradas do Parque. Seriam então umas sete horas. O sol já havia algum tempo que tinha baixado. Já no piso –1 do Parque, certificando-se, à distância razoável para não ser vista, de que Donatto ali estava, Diana deu um pulo rápido a uma pequena cabina onde se encontrava o segurança local. Insinuando-se aos olhos do bivalve, inventando uma qualquer desculpa de momento, relacionada com falta de trocos, não demorou até que o homem saísse do seu guichet e lhe abrisse a respectiva porta. Ao chegar-se a Dirty Diana ela não esperou um segundo, saca do seu bisturi e crava-lho no pescoço num gesto felino e fulminante. Um belo golpe; o homem nem teve tempo de sentir dor. Quanta gente não gostaria de morrer assim...
Acto contínuo, e já com o guarda esvaindo-se em sangue aos seus pés, olhos lívidos e esbugalhados, qual peixe na praça, Diana entra na cabina e desliga o quadro da electricidade. Num ápice, cai a escuridão à sua volta. A iluminar-lhe os passos, bem como os de Donatto, agora apenas uma ténue luz de presença espalhando-se como neblina sobre o taciturno espaço à sua volta. nesse exacto momento também, Donatto e Diana ouvem o pesado e férreo correr dos portões do Parque, cujos mecanismos se accionaram como forma de segurança. Ao ouvir o silvo metálico, Donatto, sem conseguir perceber porquê, estremeceu e um arrepio frio correu-lhe a espinha de baixo para cima, fazendo-o revirar o pescoço como quem se debate com uma qualquer implacável etiqueta, e quase o fazendo deixar cair as enormes fotografias que antes levantara, a certificar-se de que tudo estava conforme desejava.
Já de atalaia, o seu sorriso sardónico e irritante que sempre o acompanhava abandonou-o fazendo-lhe secar os lábios, passando-lhes em seguida, por reflexo pavloviano, a língua por cima sentindo todas as suas comissuras. Arrefecera. A atmosfera parecia agora mais pesada, quase irrespirável. Estacado no meio do lusco-fusco, ainda a alguns metros do seu carro, Donatto sentiu a sua garganta engolir em seco repetidamente. À sua volta pressentiu um borboletear de sombras, um voejar de vultos inomináveis. Voltou-se de repente, mas nada viu. O escritor desta história poderia aqui, e para melhor complemento e condensar da emoção do momento, instilar mais um ou outro pozinho clássico do género narrativo a que devota mãos, poderia por exemplo fazer com que Donatto ouvisse um súbito e estridente grito, de alguém que se visse subitamente ante uma visão terrífica de um qualquer degolado, de uma qualquer senhora de alta sociedade que também naquele momento se dirigisse ao seu potente Mercedes e ao abrir a porta desse de caras com o marido estripado lá dentro, o escritor poderia também fazer ecoar nestas páginas um uivo de lobo, ou até de uma matilha inteira de lobos esquálidos, esfomeados e de dentes pontiagudos que saíssem largados de dentro de uma qualquer carrinha estacionada no Parque, animaizinhos que corressem esfaimados para Donatto, atirando-se-lhe, impiedosos e mortais até ao último osso...
Poderia. Mas não. Prefere o escritor aproveitar estas outras hipóteses de trabalho para ele próprio engolir e suspirar fundo para prosseguir empreitada – numa prosa, já o confessou, em que é neófito e cujas emoções da acção até ele «incomodam». Prossigamos, por conseguinte, que a Donatto já não resta quase pingo de suor, e o homem ainda se vai desta para melhor com algum ataque de coração sem que Diana lhe deite mão vingativa. Donatto está, pois, a esvair-se em suores, que mais não são senão os óleos em que se banha o corpo quando lavado de medo e pavor. Silêncio. Silêncio agora, como o Parque fosse uma capela mortuária, silêncio como a voz de um Padre escondendo os seus próprios pecados. Uma ratazana que corre e guincha. Donatto vira novamente a cara e olha ao redor a 180º. Nada, pouco consegue ver, assusta-se com o vulto da sua própria sombra. Depois volta-se e é então que os seus olhos vislumbram as formas e a silhueta negra de Dirty Diana.
O resto, como se costuma dizer, são favas contadas. E como Donatto odiava favas!... Diana avança sobre ele. Ri-se. Ri-se a golfadas de um riso sarcástico e estridente. Donatto treme por todos os lados. Não consegue dar um passo, nem para trás nem para diante, nem sequer para os lados. Acossado, preso ao chão como transatlântico ao mar, Donatto, ao ver abrir-se-lhe à sua frente, a dois palmos da cara, a cara de Dirty Diana, dois dentes caninos salivando-lhe na boca, só tem tempo para reagir por instinto de defesa. Ainda, numa das mãos, com os grandes formatos de fotografias que tinha levantado nos laboratórios antes de entrar no Parque, na outra, com a sua potente máquina fotográfica e as chaves do carro penduradas no dedo mindinho, Donatto, ao avanço da sombra que caía sobre si, solta um grito ao mesmo tempo que consegue ainda disparar o flash da sua máquina. Ao fazê-lo, a luz potentíssima do flash ilumina as suas fotografias de grande formato dando a ver a Dirty Diana uns enormes alhos...
Olhos nos alhos, Diana estarrece de pavor. Algo atordoada com a horripilante visão, Diana retira os dentes do pescoço de Donatto e recua aos solavancos, lançando ela própria as suas mãos ao próprio pescoço, como se acabasse de engolir um copo de veneno. Mais dez passos e Diana cai fulminada pela visão das fotografias de Donatto. Este, para cúmulo das injustiças, acaba por sobreviver. Sobreviver para contar, ou melhor, para fotografar. É o que faz cerca de um mês depois, com direito a faustosa inauguração de exposição numa das mais afamadas galerias de arte parisiense. Ao público, mostra a nova série de fotografias a que dera o título DDT. Os muitos quadros expostos mostravam grandes planos de alhos, bem como de outros legumes de um trabalho que uma cedia de hipermercados lhe encomendara. Todos tinham grande procura, mas no centro das atenções estava a fotografia de Dirty Diana esboçando para o passarinho uma cara de profundo pavor, revelando, nada mais nada menos que o último e verdadeiro esgar da Princesa Diana, ora travestida a Dirty Diana.
Hoje, passados dez anos, essa fotografia, denunciando um imenso e real pavor, é uma das mais valiosas em hastas leiloeiras, dizendo os críticos, e escrevendo alguns, que guarda e revela a verdadeira alma da princesa. Crê-se estar na posse de um coleccionador de arte chinês cuja identidade permanece um mistério. Quanto a Donatto, depois de alguns anos fazendo semanais consultas e terapia psiquiátrica, conseguiu ultrapassar o choque experimentado. Hoje, guarda, como troféu, as marcas dos dentes de Dirty Diana, tal como o fazem os sobreviventes de ataques de tubarões, e leva uma vida pacata enquanto fotógrafo. Só de uma coisa não conseguiu ainda livrar-se, da pestilenta lembrança do cheiro da cara de Diana. No que a Dirty Diana respeita, o conhecimento público desta história apenas veio engrossar as fileiras dos seus fãs em todo o mundo. Um deles, Michael Jackson, que anunciou recentemente que no futuro todos os seus concertos se iniciarão com o tem «Dirty Diana» e que dez por cento das receitas serão canalizadas para Associações de Ajuda Humanitária.
Sim, naturalmente que Dirty Diana também não se esquecera das agruras e amargos de boca que o ainda seu esposo, o Príncipe Carlos, a fizera passar. Assim foi que ao Príncipe das Orelhas de Burro, o malandro que a trocara pela horrorosa Camila, decidiu Dirty Diana aparecer-lhe em casa, a altas horas da noite, ficando-se por lhe dar um grande puxão de orelhas enquanto ele dormia. Sabia que era o pior que lhe podiam fazer. Acordando de supetão, Carlos – a quem um declarado trauma fazia enlouquecer quando lhe aqueciam os «abanos à Dumbo» –, julgando que fora Camila a autora da cena, reagiu brutalmente contra a amante adormecida. Espancou-a como se fosse espanhol, com um leque de derechazos e trincheras, templando e castigando-a ao ponto de a obrigar a ir a três concertos seguidos de Elton John. Camila urrou de dores e pediu de joelhos que não, que o príncipe não a obrigasse a ouvir as lamechices do Elton, que preferia tudo, tudo mesmo, até submeter-se a vinte plásticas para ver se conseguia ficar um nadinha que fosse bonita, mas que ouvir o Elton não, não resistiria, era demais para uma pobre alma que nada tinha feito. Carlos não foi contemplativo. Que ia e estava dito. E que se Camila voltasse a portar-se mal, o castigo seria muito pior. O cantor português Clemente seria a próxima provação! Por isso hoje muitos lhe chamam Carlos, O Inclemente. E aqui poderia e bem, caro leitor, colocar-se a questão: afinal, quem era mais terrível, Dirty Diana ou Carlos quando lhe puxavam as orelhas? Bem, quanto a mim, à luz da escolha de Clemente e tendo em atenção que, mais tarde, Diana acabaria por desistir de se vingar da velha, da Rainha Mãe, entenda-se, justamente por achar que ela sofreria mais vivendo do que indo desta para melhor, creio que Carlos poderia levar alguma vantagem na decisão...
Cumprida a sua vingança sobre Carlos, Diana retomou atenções sobre o último paparazzi da sua lista; o último da lista, mas o primeiro em melguice, o paparazzi que mais a atormentara, mais até do que Paul Aroid, ao ponto de até no momento da sua morte lhe ter conseguido furar os planos. Como se vai ver. Era um fotógrafo italiano então muito na moda, um trintão bem parecido, moreno de olhos claros, bem musculado, cabelo grisalho à Comissário Corrado Cattani. Chamava-se Donatto Printi, e era correspondente da «Gioia Donna», uma revista italiana de figuras do jet set internacional. Donatto era o terror dos sonhos de Dirty Diana, o pesadelo travestido em homem, a reverberação constante dos piores dias de Diana, então Princesa. Apanhar Donatto não era tarefa fácil, nem sequer para a imaginação do escritor. Estava sempre fora, viajava de país para país, acompanhava as agendas das principais figuras da realeza e do show biz internacional. De modo que tardou algum tempo até que Dirty Diana soubesse da sua estadia em Paris, onde Donatto viera em trabalho, decidindo-se depois a um fim-de-semana prolongado de merecidas férias.
Na «mouche», vibrou Dirty Diana quando, certo final de tarde mais soalheiro, da cadeira da esplanada sobranceira ao Sena, onde se encontrava a tomar um café acompanhado de umas trufas, vislumbrou Donatto num bateau mouche que se preparava para ancorar num cais ali perto. Sim, mesmo à distância a que se encontrava, Diana não tinha dúvidas, era ele. Quando se completou a atracagem, Donatto subiu para terra, ajudando em seguida uma jovem que o acompanhava. Depois de uns minutos de conversa, os dois despediram-se, seguindo cada qual para seu lado. Diana, lesta, pagou a sua despesa, e, fortuita, levantou-se seguindo Donatto, sempre resguardada pelos seus grandes óculos escuros de ar amaricado, como já se frisou.
Dois quarteirões a seguir, e depois de ter entrado nuns laboratórios de fotografia, onde recolheu uns trabalhos de grande formato que tinha posto a revelar, Donatto saiu dirigindo-se a um parque automóvel subterrâneo a uns cerca de cem metros dali. Diana seguiu a sua presa. Deixando primeiro que ele submergisse no subsolo, seguiu-a como uma sombra esgueirando-se por uma das outras entradas do Parque. Seriam então umas sete horas. O sol já havia algum tempo que tinha baixado. Já no piso –1 do Parque, certificando-se, à distância razoável para não ser vista, de que Donatto ali estava, Diana deu um pulo rápido a uma pequena cabina onde se encontrava o segurança local. Insinuando-se aos olhos do bivalve, inventando uma qualquer desculpa de momento, relacionada com falta de trocos, não demorou até que o homem saísse do seu guichet e lhe abrisse a respectiva porta. Ao chegar-se a Dirty Diana ela não esperou um segundo, saca do seu bisturi e crava-lho no pescoço num gesto felino e fulminante. Um belo golpe; o homem nem teve tempo de sentir dor. Quanta gente não gostaria de morrer assim...
Acto contínuo, e já com o guarda esvaindo-se em sangue aos seus pés, olhos lívidos e esbugalhados, qual peixe na praça, Diana entra na cabina e desliga o quadro da electricidade. Num ápice, cai a escuridão à sua volta. A iluminar-lhe os passos, bem como os de Donatto, agora apenas uma ténue luz de presença espalhando-se como neblina sobre o taciturno espaço à sua volta. nesse exacto momento também, Donatto e Diana ouvem o pesado e férreo correr dos portões do Parque, cujos mecanismos se accionaram como forma de segurança. Ao ouvir o silvo metálico, Donatto, sem conseguir perceber porquê, estremeceu e um arrepio frio correu-lhe a espinha de baixo para cima, fazendo-o revirar o pescoço como quem se debate com uma qualquer implacável etiqueta, e quase o fazendo deixar cair as enormes fotografias que antes levantara, a certificar-se de que tudo estava conforme desejava.
Já de atalaia, o seu sorriso sardónico e irritante que sempre o acompanhava abandonou-o fazendo-lhe secar os lábios, passando-lhes em seguida, por reflexo pavloviano, a língua por cima sentindo todas as suas comissuras. Arrefecera. A atmosfera parecia agora mais pesada, quase irrespirável. Estacado no meio do lusco-fusco, ainda a alguns metros do seu carro, Donatto sentiu a sua garganta engolir em seco repetidamente. À sua volta pressentiu um borboletear de sombras, um voejar de vultos inomináveis. Voltou-se de repente, mas nada viu. O escritor desta história poderia aqui, e para melhor complemento e condensar da emoção do momento, instilar mais um ou outro pozinho clássico do género narrativo a que devota mãos, poderia por exemplo fazer com que Donatto ouvisse um súbito e estridente grito, de alguém que se visse subitamente ante uma visão terrífica de um qualquer degolado, de uma qualquer senhora de alta sociedade que também naquele momento se dirigisse ao seu potente Mercedes e ao abrir a porta desse de caras com o marido estripado lá dentro, o escritor poderia também fazer ecoar nestas páginas um uivo de lobo, ou até de uma matilha inteira de lobos esquálidos, esfomeados e de dentes pontiagudos que saíssem largados de dentro de uma qualquer carrinha estacionada no Parque, animaizinhos que corressem esfaimados para Donatto, atirando-se-lhe, impiedosos e mortais até ao último osso...
Poderia. Mas não. Prefere o escritor aproveitar estas outras hipóteses de trabalho para ele próprio engolir e suspirar fundo para prosseguir empreitada – numa prosa, já o confessou, em que é neófito e cujas emoções da acção até ele «incomodam». Prossigamos, por conseguinte, que a Donatto já não resta quase pingo de suor, e o homem ainda se vai desta para melhor com algum ataque de coração sem que Diana lhe deite mão vingativa. Donatto está, pois, a esvair-se em suores, que mais não são senão os óleos em que se banha o corpo quando lavado de medo e pavor. Silêncio. Silêncio agora, como o Parque fosse uma capela mortuária, silêncio como a voz de um Padre escondendo os seus próprios pecados. Uma ratazana que corre e guincha. Donatto vira novamente a cara e olha ao redor a 180º. Nada, pouco consegue ver, assusta-se com o vulto da sua própria sombra. Depois volta-se e é então que os seus olhos vislumbram as formas e a silhueta negra de Dirty Diana.
O resto, como se costuma dizer, são favas contadas. E como Donatto odiava favas!... Diana avança sobre ele. Ri-se. Ri-se a golfadas de um riso sarcástico e estridente. Donatto treme por todos os lados. Não consegue dar um passo, nem para trás nem para diante, nem sequer para os lados. Acossado, preso ao chão como transatlântico ao mar, Donatto, ao ver abrir-se-lhe à sua frente, a dois palmos da cara, a cara de Dirty Diana, dois dentes caninos salivando-lhe na boca, só tem tempo para reagir por instinto de defesa. Ainda, numa das mãos, com os grandes formatos de fotografias que tinha levantado nos laboratórios antes de entrar no Parque, na outra, com a sua potente máquina fotográfica e as chaves do carro penduradas no dedo mindinho, Donatto, ao avanço da sombra que caía sobre si, solta um grito ao mesmo tempo que consegue ainda disparar o flash da sua máquina. Ao fazê-lo, a luz potentíssima do flash ilumina as suas fotografias de grande formato dando a ver a Dirty Diana uns enormes alhos...
Olhos nos alhos, Diana estarrece de pavor. Algo atordoada com a horripilante visão, Diana retira os dentes do pescoço de Donatto e recua aos solavancos, lançando ela própria as suas mãos ao próprio pescoço, como se acabasse de engolir um copo de veneno. Mais dez passos e Diana cai fulminada pela visão das fotografias de Donatto. Este, para cúmulo das injustiças, acaba por sobreviver. Sobreviver para contar, ou melhor, para fotografar. É o que faz cerca de um mês depois, com direito a faustosa inauguração de exposição numa das mais afamadas galerias de arte parisiense. Ao público, mostra a nova série de fotografias a que dera o título DDT. Os muitos quadros expostos mostravam grandes planos de alhos, bem como de outros legumes de um trabalho que uma cedia de hipermercados lhe encomendara. Todos tinham grande procura, mas no centro das atenções estava a fotografia de Dirty Diana esboçando para o passarinho uma cara de profundo pavor, revelando, nada mais nada menos que o último e verdadeiro esgar da Princesa Diana, ora travestida a Dirty Diana.
Hoje, passados dez anos, essa fotografia, denunciando um imenso e real pavor, é uma das mais valiosas em hastas leiloeiras, dizendo os críticos, e escrevendo alguns, que guarda e revela a verdadeira alma da princesa. Crê-se estar na posse de um coleccionador de arte chinês cuja identidade permanece um mistério. Quanto a Donatto, depois de alguns anos fazendo semanais consultas e terapia psiquiátrica, conseguiu ultrapassar o choque experimentado. Hoje, guarda, como troféu, as marcas dos dentes de Dirty Diana, tal como o fazem os sobreviventes de ataques de tubarões, e leva uma vida pacata enquanto fotógrafo. Só de uma coisa não conseguiu ainda livrar-se, da pestilenta lembrança do cheiro da cara de Diana. No que a Dirty Diana respeita, o conhecimento público desta história apenas veio engrossar as fileiras dos seus fãs em todo o mundo. Um deles, Michael Jackson, que anunciou recentemente que no futuro todos os seus concertos se iniciarão com o tem «Dirty Diana» e que dez por cento das receitas serão canalizadas para Associações de Ajuda Humanitária.
terça-feira, 13 de novembro de 2007
Cine-Silêncio Don't Come Knocking
Em português chamar-se-á Estrela Solitária e estreia a 22 deste mês. É o genial filme de Wim Wendars e Sam Shepard (com este a protagonizar). Com uma banda sonora notável da responsabilidade de T Bone Burnett. E um magnífico tributo aos Westerns. Em muito similar a «Paris, Texas».
Dirty Diana - Um terrível conto de terror VIII
8. you arrre verry belle, you know?
Paul Aroid arengava postas de sedução a uma qualquer beldade que ali mesmo conhecera, sob pretexto de lhe oferecer, de graça, um portfolio fotográfico, em sessão a combinar, no seu estúdio, naturalmente. A menina, que veio a saber-se era uma modelo norte-americana vinda do Texas, ria-se muito e voltava a desfazer-se em sorrisos palermas, engalanando os peitos postiços, bem à americana, quase transbordando o decote, o que mais e mais abria o apetite guloso de Paul Aroid, então já semidobrado sobre ela, sob risco iminente de queda conjunta nas águas da piscina, que reluziam translúcidas à força da luz dos holofotes que no seu fundo se encontravam.
Diana aproximou-se, a cada passo e a cada metro mais próximo do fotógrafo se lembrando das inúmeras vezes em que quisera ver-se livre dele e ele, qual melga entre as melgas, não desarmava de a seguir por todos os cantos, ruas, cidades, países, continentes! Lembrou-se, em particular, de todas as artimanhas de que Aroid se fazia valer para atingir os seus intentos, conseguir a melhor foto de Diana, se possível no mais recatado da sua vida íntima, a foto que lhe granjearia fama entre os seus pares, aquela que o ajudaria a reformar-se bem cedo, possibilitando-lhe largos anos de vida numa qualquer ilha do Atlântico Sul, torrando ao sol dos trópicos, devidamente acompanhado por um par de beldades nativas. Ora se fazia passar por camareiro dos hotéis onde Diana se instalava, ora surgia travestido a empregado de bar, ora vestia a pele de amigo de amigos da princesa, e sempre, sempre conseguia, só ele sabe como, infiltra-se ou fazer-se passar por convidado nas festas onde Diana era convidada principal. E Diana não esquecia! Não esquecia sobretudo que as primeiras fotografias publicadas na Imprensa de cenas íntimas entre ela e Dodi tinham sido da autoria de Paul Aroid. Fotografias que ele vendera por uma pequena fortuna e que assim explicavam o seu novo apartamento num dos melhores bairros de Paris, bem como o seu novo, reluzente, potente e fantástico Aston Martin DB9 Coupé.
Era, portanto, este o homem que enriquecera e granjeara fama às custas de uma contínua e persistente caça à princesa. A princesa outrora mais conhecida por Diana, Princesa do Povo, mas que era agora a perigosa e sequiosa de vingança Dirty Diana. Que estava ali, a olhar com verdadeiro asco as mãos de Paul desbravando caminho pelas curvas sinuosas de Pamela, esta cada vez mais desmanchada em tremeliques face aos avanços galanteadores do mais célebre paparazzi francês. «Yes, yes, yes...», dizia ele resmoneando face aos «non, non, non...» dela. Eles nisto e Diana a um metro do par, que só então dá pela sua presença.
«Paul? Paul Aroid? The astonoshing photographer? Paul himself?» – pôs-se com estas balelas introdutórias Dirty Diana. Aroid não se fez rogado. Apreciou num relance rápido a figura do mulheraço que pela frente se lhe apresentava e vendo que, ao que parecia, tinha pela frente uma admiradora, logo se compôs, deixando Pamela atónita, levantando-se para um cumprimento à francesa; pegando a mão da princesa e beijando-a delicadamente, logo depois confirmado: «Paul Aroid, in person, un garçon at your command». Diana sorriu. Mantinha-se de óculos escuros pelo que no relativo lusco-fusco nocturno em que se encontravam Aroid não deu de imediato pelas suas semelhanças com a Diana princesa, que durante anos e anos ele perseguira e fotografara. Como a americana dos seios robustos se armasse em difícil com aqueles falsos púdicos «non, non, non», Aroid decidiu voltar os seus esforços de conquista para a sua admiradora de negro. Esta, embora falasse inglês, pelo sotaque parecia inglesa. Talvez fosse mais afoita e Aroid não queria perder mais tempo. «You arrre verry belle, you know?... Want you like me que vous photographe?… peut-être à ma studio?...», arranhou num misto de francês e inglês.
«Oui, Oui, bien sur, porquoi pas?» É claro que Dirty Diana acedeu ao convite. Dirigiram-se ambos ao Aston Martin, estacionado nos relvados fronteiros ao palácio, e Paul Aroid carregou a fundo no pedal acelerando em derrapagem rumo ao seu atelier fotográfico, um loft recente com vista envidraçada para um dos canais do Sena.
Uma vez dentro do atelier tudo se passou relativamente depressa. Paul Aroid levou Diana para um espaço todo em branco, rodeado por holofotes de um branco opaco, e em cujo centro se encontrava uma Harley Davidson preta toda cheia de cromados. Ao mesmo tempo que dirigia Diana para lá, Aroid ia, como quem não quer a coisa, passando as mãos pelo lombo da princesa, se nos fazemos entender. E entre um beijo roubado ao seu pescoço lá lhe ia dizendo que a ideia era que ela aos poucos e poucos fosse tirando a roupa, fazendo uso da Harley como bem entendesse, antes, durante e após a sessão de strip. Quanto a ele, levantava as mãos como que garantindo promessa, limitar-se-ia a fotografar, que era aquilo que, muito modestamente, sabia fazer como ninguém.
Já estava Paul Aroid de cenho arreganhado atrás de uma das suas máquinas quando, depois de um leve e ousado menear de ancas e rabo (que à própria Dirty Diana surpreendeu, fazendo-a ruborescer um pouco), Diana tira finalmente os enormes óculos escuros, mostrando toda a avidez e perfídia dos seus olhos arregalados. É claro que o pobre Aroid se engasgou tomado de súbito e inesperado susto. Sim, porque se aos olhos dos outros Dirty Diana poderia passar apenas por uma cópia muito aproximada da Princesa Diana, mas nada mais do que isso, a verdade é que aos olhos de paul Aroid, que como poucos conhecia a princesa, aquela mulher que ele tinha pela frente era e só podia ser... nem mais... nem menos... (engoliu em seco) Diana! A Princesa do Povo! Ali, afinal viva, e bem viva, à sua frente! O homem estava transido de pasmo e terror, e nem sequer teve tempo de pensar no que lhe estava a acontecer. Tão-só porque no momento seguinte já Dirty Diana se agigantava sobre ele de dentes e unhas afiadas castigando-o brutalmente, usando de toda a sua força para nele despejar todo o ódio acumulado ao longo de anos. Depois de o trucidar à pancada, Dirty Diana presenteou-o com um obsceno remate final: depois de lhe espetar os dois dentes caninos no pescoço, enfiou-lhe no anus, suprema vergonha, a maior grande angular que à sua volta encontrou. Antes de sair, assinou na testa de Aroid a sua marca: DDT. Quando a Polícia o encontrou, um dos agentes comentou para um colega: não, este desgraçado não ficou nada bem na fotografia. Tal como não o ficaram os dois paparazzi seguintes de quem Diana se ocupou, cada um à sua maneira, cada qual de forma mais tenebrosa e requintada, tanto mais que eram dois dos fotógrafos que na altura do acidente com Dodi seguiam de motorizada no encalço do Mercedes: Fash Gordon e Frank Hasselblad.
Paul Aroid arengava postas de sedução a uma qualquer beldade que ali mesmo conhecera, sob pretexto de lhe oferecer, de graça, um portfolio fotográfico, em sessão a combinar, no seu estúdio, naturalmente. A menina, que veio a saber-se era uma modelo norte-americana vinda do Texas, ria-se muito e voltava a desfazer-se em sorrisos palermas, engalanando os peitos postiços, bem à americana, quase transbordando o decote, o que mais e mais abria o apetite guloso de Paul Aroid, então já semidobrado sobre ela, sob risco iminente de queda conjunta nas águas da piscina, que reluziam translúcidas à força da luz dos holofotes que no seu fundo se encontravam.
Diana aproximou-se, a cada passo e a cada metro mais próximo do fotógrafo se lembrando das inúmeras vezes em que quisera ver-se livre dele e ele, qual melga entre as melgas, não desarmava de a seguir por todos os cantos, ruas, cidades, países, continentes! Lembrou-se, em particular, de todas as artimanhas de que Aroid se fazia valer para atingir os seus intentos, conseguir a melhor foto de Diana, se possível no mais recatado da sua vida íntima, a foto que lhe granjearia fama entre os seus pares, aquela que o ajudaria a reformar-se bem cedo, possibilitando-lhe largos anos de vida numa qualquer ilha do Atlântico Sul, torrando ao sol dos trópicos, devidamente acompanhado por um par de beldades nativas. Ora se fazia passar por camareiro dos hotéis onde Diana se instalava, ora surgia travestido a empregado de bar, ora vestia a pele de amigo de amigos da princesa, e sempre, sempre conseguia, só ele sabe como, infiltra-se ou fazer-se passar por convidado nas festas onde Diana era convidada principal. E Diana não esquecia! Não esquecia sobretudo que as primeiras fotografias publicadas na Imprensa de cenas íntimas entre ela e Dodi tinham sido da autoria de Paul Aroid. Fotografias que ele vendera por uma pequena fortuna e que assim explicavam o seu novo apartamento num dos melhores bairros de Paris, bem como o seu novo, reluzente, potente e fantástico Aston Martin DB9 Coupé.
Era, portanto, este o homem que enriquecera e granjeara fama às custas de uma contínua e persistente caça à princesa. A princesa outrora mais conhecida por Diana, Princesa do Povo, mas que era agora a perigosa e sequiosa de vingança Dirty Diana. Que estava ali, a olhar com verdadeiro asco as mãos de Paul desbravando caminho pelas curvas sinuosas de Pamela, esta cada vez mais desmanchada em tremeliques face aos avanços galanteadores do mais célebre paparazzi francês. «Yes, yes, yes...», dizia ele resmoneando face aos «non, non, non...» dela. Eles nisto e Diana a um metro do par, que só então dá pela sua presença.
«Paul? Paul Aroid? The astonoshing photographer? Paul himself?» – pôs-se com estas balelas introdutórias Dirty Diana. Aroid não se fez rogado. Apreciou num relance rápido a figura do mulheraço que pela frente se lhe apresentava e vendo que, ao que parecia, tinha pela frente uma admiradora, logo se compôs, deixando Pamela atónita, levantando-se para um cumprimento à francesa; pegando a mão da princesa e beijando-a delicadamente, logo depois confirmado: «Paul Aroid, in person, un garçon at your command». Diana sorriu. Mantinha-se de óculos escuros pelo que no relativo lusco-fusco nocturno em que se encontravam Aroid não deu de imediato pelas suas semelhanças com a Diana princesa, que durante anos e anos ele perseguira e fotografara. Como a americana dos seios robustos se armasse em difícil com aqueles falsos púdicos «non, non, non», Aroid decidiu voltar os seus esforços de conquista para a sua admiradora de negro. Esta, embora falasse inglês, pelo sotaque parecia inglesa. Talvez fosse mais afoita e Aroid não queria perder mais tempo. «You arrre verry belle, you know?... Want you like me que vous photographe?… peut-être à ma studio?...», arranhou num misto de francês e inglês.
«Oui, Oui, bien sur, porquoi pas?» É claro que Dirty Diana acedeu ao convite. Dirigiram-se ambos ao Aston Martin, estacionado nos relvados fronteiros ao palácio, e Paul Aroid carregou a fundo no pedal acelerando em derrapagem rumo ao seu atelier fotográfico, um loft recente com vista envidraçada para um dos canais do Sena.
Uma vez dentro do atelier tudo se passou relativamente depressa. Paul Aroid levou Diana para um espaço todo em branco, rodeado por holofotes de um branco opaco, e em cujo centro se encontrava uma Harley Davidson preta toda cheia de cromados. Ao mesmo tempo que dirigia Diana para lá, Aroid ia, como quem não quer a coisa, passando as mãos pelo lombo da princesa, se nos fazemos entender. E entre um beijo roubado ao seu pescoço lá lhe ia dizendo que a ideia era que ela aos poucos e poucos fosse tirando a roupa, fazendo uso da Harley como bem entendesse, antes, durante e após a sessão de strip. Quanto a ele, levantava as mãos como que garantindo promessa, limitar-se-ia a fotografar, que era aquilo que, muito modestamente, sabia fazer como ninguém.
Já estava Paul Aroid de cenho arreganhado atrás de uma das suas máquinas quando, depois de um leve e ousado menear de ancas e rabo (que à própria Dirty Diana surpreendeu, fazendo-a ruborescer um pouco), Diana tira finalmente os enormes óculos escuros, mostrando toda a avidez e perfídia dos seus olhos arregalados. É claro que o pobre Aroid se engasgou tomado de súbito e inesperado susto. Sim, porque se aos olhos dos outros Dirty Diana poderia passar apenas por uma cópia muito aproximada da Princesa Diana, mas nada mais do que isso, a verdade é que aos olhos de paul Aroid, que como poucos conhecia a princesa, aquela mulher que ele tinha pela frente era e só podia ser... nem mais... nem menos... (engoliu em seco) Diana! A Princesa do Povo! Ali, afinal viva, e bem viva, à sua frente! O homem estava transido de pasmo e terror, e nem sequer teve tempo de pensar no que lhe estava a acontecer. Tão-só porque no momento seguinte já Dirty Diana se agigantava sobre ele de dentes e unhas afiadas castigando-o brutalmente, usando de toda a sua força para nele despejar todo o ódio acumulado ao longo de anos. Depois de o trucidar à pancada, Dirty Diana presenteou-o com um obsceno remate final: depois de lhe espetar os dois dentes caninos no pescoço, enfiou-lhe no anus, suprema vergonha, a maior grande angular que à sua volta encontrou. Antes de sair, assinou na testa de Aroid a sua marca: DDT. Quando a Polícia o encontrou, um dos agentes comentou para um colega: não, este desgraçado não ficou nada bem na fotografia. Tal como não o ficaram os dois paparazzi seguintes de quem Diana se ocupou, cada um à sua maneira, cada qual de forma mais tenebrosa e requintada, tanto mais que eram dois dos fotógrafos que na altura do acidente com Dodi seguiam de motorizada no encalço do Mercedes: Fash Gordon e Frank Hasselblad.
Histórias Fulminantes 44
A literatura salva. Momentos antes do naufrágio, o homem pegou no romance que lia e com as suas páginas fez um barco de papel.
segunda-feira, 12 de novembro de 2007
Histórias Fulminantes 43
O monte vestiu-se de branco e esperou no altar das alturas que a sua noiva chegasse. Como é típico das mulheres, a noiva atrasou-se e, neste caso, não chegou mesmo a aparecer, deixando ali, em frente ao padre, o Monte Branco, cada vez mais lívido. Pedindo desculpa, sob pena de ali mesmo derreterem, as neves do Kilimanjaro não puderam esperar mais, beliscaram apenas alguns dos manjares e partiram. Os Urais, indignados, pois tinham-se deslocado de muito longe, foram-se embora sem dizer palavra. O Atlas divertia-se à grande flirtando com a Cordilheira dos Andes. O Monte Branco, tão nervoso estava que as populações das cidades próximas sentiram vários tremores de terra durante algumas horas. Envergonhado, na manhã seguinte o Monte Branco acordou com as faces levemente rosadas e fundas olheiras. Houve, naturalmente, quem temesse que daí por diante o Monte Branco viesse a optar pelo negro.
Dirty Diana - Um terrível conto de terror VII
7. chamava-se Paul Aroid
Mas sangue, agora sangue! Ou não tivéssemos em mãos escrita que se quer digna do género a que se pretende alcandorar, o do Terror. Sim, é certo que já é aterrorizadora a ideia de uma querida princesa tornar-se numa espécie de sanguinolenta matadora após terríveis transformações sofridas no seu corpo e espírito, sim, a própria imagem do desastre automóvel já contém alguns ingredientes dignos do melhor gore italiano, Tarantino não a desdenharia, mas... mas faltará, concedo, o ambiente, a atmosfera, o locus horrendus da acção típica do género...
A ver se o conseguimos. Mais reconfortada e resignada à ideia de não mais poder abraçar o seu Dodi, tentando a todo o custo eclipsar a ideia do cão vadio roendo a cartilagem da orelha do seu amado, Diana acalmou-se no que a alcalóides respeita e passou a dedicar-se ao seu plano de vingança. É isso e só isso que agora lhe comanda os dias, esse desejo incontrolável de sangue, do sangue como alimento para justificar os seus dias, o seu respirar.
A princesa não o notava, e a verdade é que seria difícil pois pode dizer-se que já não se interessava pelos espelhos como antes, mas estranhamente o seu corpo continuava a ser palco da materialização de estranhas metamorfoses. Assim, o tom da sua pele encontrava-se mais lívido a cada dia que passava, os seus olhos arregalavam-se ao ponto de não caberem nuns óculos escuros da moda, no translúcido dos braços podia ver-se o sangue correndo em golfadas; vermelho, bem vermelho, como que querendo contrariar a estúpida teoria do sangue azul nas realezas. E na boca... na boca, sentia umas estranhas vibrações nas gengivas, como se os dentes lhe quisessem saltar, assim uma indefinível efervescência que a fazia salivar amiúde...
Outrora modelo de virtudes e farol da moda, Dirty Diana optara agora por um look de femme fatale, trajando negro da cabeça aos pés, um pouco à imagem de uma cinematográfica Cat Woman; abandonara os vestidinhos esvoaçantes e coloridos, os chapéus patetas, as écharpes e os casacos de pele (muito pouco amigos dos animais) e apresentava-se agora de calças de napa e T-Shirt negras, tal como a cor das botas, estas de um cabedal luzidio a condizer com o batôn, o rouge e o eye-liner e demais acessórios de maquilhagem feminina cuja terminologia o autor confessa desconhecer, não podendo assim mais enriquecer o seu texto.
Nos olhos, quando se viam, denunciavam-se dois archotes, e as suas unhas, crescidas e grossas, mais pareciam virotes sequiosos de carne onde se adentrarem. O rosto, malgrado a cara de cu já por diversas vezes citada, tomara novos, angulosos e façanhudos contornos, e embora conservasse a forma arredondada nas maçãs do rosto, o seu queixo vinha lentamente tomando a forma de um mefistofélico triângulo invertido onde despontavam amiudados pêlos negros. Nada, ainda assim, que uma passagem pela depilação de uma boa casa de beleza não tratasse.
Ah, mas apesar de mais reconfortado com o teor da descrição, não creio ter ainda atingido o clima necessário para podermos afirmar, sem dúvida nenhuma, estarmos ante um conto de terror. Daí que passe directamente ao jorro, à descrição do jorro de sangue que saltou, como rolha de Champanhe bem agitado ou Etna enfurecido, da goela do primeiro paparazzi que Diana houve por bem visitar. Chamava-se Paul Aroid e trabalhava para um pasquim britânico que lhe comprava as fotografias da princesa a preço bem inflaccionado. Aroid era pior do que as pestes, pior do que uma crise de piolhos, estava em todo o lado, saltava de país para país com a maior das facilidades, e conseguia sempre saber onde a princesa se encontrava, arranjava sempre maneira de conseguir chegar perto dela. Havia quem lhe chamasse «the royal shadow», pois não despegava das saias de Diana (quando ela ainda as usava). Pois bem, não custou muito a Diana saber onde se encontrava Paul Aroid, ele era correspondente fotográfico em Londres e o mais certo era encontrá-lo nas festas da haute societé.
Créme de la créme para os seus planos, Diana sabia que certo dia ia haver uma grande festa patrocinada por uma marca de roupa, onde se apresentaria nova colecção Outono/ Inverno. Vestida a preceito, não se esquecendo de levar uns óculos escuros o mais na moda possível (assim uns tipo iguais aos dos maricas), para evitar quaisquer suspeitas sobre os seus olhos faiscantes, Diana dirigiu-se ao Palácio onde o evento teria lugar. E não pareceu nada mal; ao passar pelo tapete vermelho desenrolado à entrada do Palácio, Diana, acometida por inúmeros flashes (de fotógrafos que nem suspeitavam quem estavam a fotografar) não deixou de se sentir um pouco vaidosa e chegou mesmo a lembrar a joyeuse dos dias de brilho e glamour que conhecera. Porém, uma vez dentro dos salões, ao ver uma série de caras que conhecia de outras andanças rapidamente se deixou de manteiguices e nostalgias. À boca aflorou-lhe uma baba pastosa que mais não era senão a lubrificação necessária ao acto que o seu corpo vingativo reclamava com foros de urgência e muito sangue, se possível.
Foi quando viu ao longe, sentado no rebordo da piscina do jardim do palacete, Paul Aroid. E assim, tipo flash, não mais o deixou de vista.
Mas sangue, agora sangue! Ou não tivéssemos em mãos escrita que se quer digna do género a que se pretende alcandorar, o do Terror. Sim, é certo que já é aterrorizadora a ideia de uma querida princesa tornar-se numa espécie de sanguinolenta matadora após terríveis transformações sofridas no seu corpo e espírito, sim, a própria imagem do desastre automóvel já contém alguns ingredientes dignos do melhor gore italiano, Tarantino não a desdenharia, mas... mas faltará, concedo, o ambiente, a atmosfera, o locus horrendus da acção típica do género...
A ver se o conseguimos. Mais reconfortada e resignada à ideia de não mais poder abraçar o seu Dodi, tentando a todo o custo eclipsar a ideia do cão vadio roendo a cartilagem da orelha do seu amado, Diana acalmou-se no que a alcalóides respeita e passou a dedicar-se ao seu plano de vingança. É isso e só isso que agora lhe comanda os dias, esse desejo incontrolável de sangue, do sangue como alimento para justificar os seus dias, o seu respirar.
A princesa não o notava, e a verdade é que seria difícil pois pode dizer-se que já não se interessava pelos espelhos como antes, mas estranhamente o seu corpo continuava a ser palco da materialização de estranhas metamorfoses. Assim, o tom da sua pele encontrava-se mais lívido a cada dia que passava, os seus olhos arregalavam-se ao ponto de não caberem nuns óculos escuros da moda, no translúcido dos braços podia ver-se o sangue correndo em golfadas; vermelho, bem vermelho, como que querendo contrariar a estúpida teoria do sangue azul nas realezas. E na boca... na boca, sentia umas estranhas vibrações nas gengivas, como se os dentes lhe quisessem saltar, assim uma indefinível efervescência que a fazia salivar amiúde...
Outrora modelo de virtudes e farol da moda, Dirty Diana optara agora por um look de femme fatale, trajando negro da cabeça aos pés, um pouco à imagem de uma cinematográfica Cat Woman; abandonara os vestidinhos esvoaçantes e coloridos, os chapéus patetas, as écharpes e os casacos de pele (muito pouco amigos dos animais) e apresentava-se agora de calças de napa e T-Shirt negras, tal como a cor das botas, estas de um cabedal luzidio a condizer com o batôn, o rouge e o eye-liner e demais acessórios de maquilhagem feminina cuja terminologia o autor confessa desconhecer, não podendo assim mais enriquecer o seu texto.
Nos olhos, quando se viam, denunciavam-se dois archotes, e as suas unhas, crescidas e grossas, mais pareciam virotes sequiosos de carne onde se adentrarem. O rosto, malgrado a cara de cu já por diversas vezes citada, tomara novos, angulosos e façanhudos contornos, e embora conservasse a forma arredondada nas maçãs do rosto, o seu queixo vinha lentamente tomando a forma de um mefistofélico triângulo invertido onde despontavam amiudados pêlos negros. Nada, ainda assim, que uma passagem pela depilação de uma boa casa de beleza não tratasse.
Ah, mas apesar de mais reconfortado com o teor da descrição, não creio ter ainda atingido o clima necessário para podermos afirmar, sem dúvida nenhuma, estarmos ante um conto de terror. Daí que passe directamente ao jorro, à descrição do jorro de sangue que saltou, como rolha de Champanhe bem agitado ou Etna enfurecido, da goela do primeiro paparazzi que Diana houve por bem visitar. Chamava-se Paul Aroid e trabalhava para um pasquim britânico que lhe comprava as fotografias da princesa a preço bem inflaccionado. Aroid era pior do que as pestes, pior do que uma crise de piolhos, estava em todo o lado, saltava de país para país com a maior das facilidades, e conseguia sempre saber onde a princesa se encontrava, arranjava sempre maneira de conseguir chegar perto dela. Havia quem lhe chamasse «the royal shadow», pois não despegava das saias de Diana (quando ela ainda as usava). Pois bem, não custou muito a Diana saber onde se encontrava Paul Aroid, ele era correspondente fotográfico em Londres e o mais certo era encontrá-lo nas festas da haute societé.
Créme de la créme para os seus planos, Diana sabia que certo dia ia haver uma grande festa patrocinada por uma marca de roupa, onde se apresentaria nova colecção Outono/ Inverno. Vestida a preceito, não se esquecendo de levar uns óculos escuros o mais na moda possível (assim uns tipo iguais aos dos maricas), para evitar quaisquer suspeitas sobre os seus olhos faiscantes, Diana dirigiu-se ao Palácio onde o evento teria lugar. E não pareceu nada mal; ao passar pelo tapete vermelho desenrolado à entrada do Palácio, Diana, acometida por inúmeros flashes (de fotógrafos que nem suspeitavam quem estavam a fotografar) não deixou de se sentir um pouco vaidosa e chegou mesmo a lembrar a joyeuse dos dias de brilho e glamour que conhecera. Porém, uma vez dentro dos salões, ao ver uma série de caras que conhecia de outras andanças rapidamente se deixou de manteiguices e nostalgias. À boca aflorou-lhe uma baba pastosa que mais não era senão a lubrificação necessária ao acto que o seu corpo vingativo reclamava com foros de urgência e muito sangue, se possível.
Foi quando viu ao longe, sentado no rebordo da piscina do jardim do palacete, Paul Aroid. E assim, tipo flash, não mais o deixou de vista.
domingo, 11 de novembro de 2007
sexta-feira, 9 de novembro de 2007
Dirty Diana - Um terrível conto de terror VI
6. não fosse a sua cara de cu
Meia noite e picos, portanto. Diana, já dirty depois da sua primeira malvadez, ainda para mais cometida sobre uma pobre enfermeira que o pior que tinha feito na vida era cobiçar para marido um dos médicos com quem diariamente se cruzava, avança, em pezinhos de lã pelo seu quarto, já vestida com a bata branca que surripiara à desdita enfermeira. Toda controlo e contenção de emoções, abre a porta do quarto deparando-se com a primeira prova de fogo da sua fuga: os agentes policiais que ali circunstanciavam em amena cavaqueira, ora sobre os jogos da quarta-feira europeia dessa noite (que é quando as putas fazem folga), ora sobre a mais recente casa de putas aberta na Cidade-Luz (onde não falta jogador de bola que se preze e tenha em imagem de garanhão). Conversa diversificada, está de ver.
Lampeira e tentando agir com a máxima naturalidade, Diana abre a porta, mantendo o olhar ligeiramente descaído para o chão. Os agentes, é claro, debicam-na logo com os olhares gulosos, havendo mesmo um que não se tem e arrisca uma apalpadela, após o que sorri, a meia haste, batendo, à garanhão, com o dedo do meio da mão direita na pala da boina. Mal sabendo que apalpava a princesa e não uma reles enfermeira! Ao sentir o aperto na nádega, Dirty Diana sente subir-lhe o sangue às têmporas, aperta os punhos já com os nervos fervendo e os músculos eriçados, mas contém-se a tempo de não se voltar para o libidinoso agente e arrear-lhe valente tabefe na fronha. Tabefe que o mais natural é que encomendasse o gendarmezito desta para as alturas, pois outra das transformações que o corpo da princesa sofrera, e que ela estava também prestes a descobrir, é que se tornara imensamente forte. Assim mesmo, tal qual os vampiros ou os lobisomens que se dizem ter a força de dez homens fortes juntos!
Mas Diana conteve-se, a bem da sua bem sucedida fuga. Não esqueceu foi o ultraje da apalpadela, coisa que só experimentara pela mão do seu Dodi - e essas sabiam-lhe bem melhor. De modo que, a fim de descarregar o stress da situação, até porque já chegara ao exterior, ao passar por um cigano que lhe atira um piropo mais não lhe regateia senão um soco no meio dos olhos. O efeito surpresa da sua reacção, dir-se-ia, somou a seu favor, pois a restante comunidade cigana ficou estupefacta e nem se lembrou de sacar das naifas. Quando o fez, já Diana tinha desaparecido do mapa. Desaparecia num táxi que a levava rumo ao coração de Paris. Dirty Diana preparava-se para gozar a vida como nunca pudera fazer. E uma vez que, como ouvira nas televisões e lera nos jornais e revistas, todos a davam como morta, pois que assim fosse, tanto melhor, mais facilmente a sua semelhança consigo própria não passaria, aos olhos dos outros, disso mesmo: uma curiosa semelhança física para com a malograda princesa. Na verdade, como ouviria de alguns bêbados em bares de terceira categoria, não fosse a sua cara de cu e seriam capazes de apostar que era Sua falecida Alteza. Dos que tiveram o azar de fazer tal comentário, nenhum viveu para contar o que depois se passou, e a nós, valha a verdade, também não nos apetece estar a relatar a sangria que aquilo foi... Esta Diana não estava para graçolas.
Acto contínuo, estando em Paris, Dirty Diana decidiu divertir-se à grande e à francesa; coisa que nunca fica bem a uma princesa inglesa. A triste realidade é que optou por fazê-lo porque ao saber da morte de Dodi ficou completamente de rastos e inconsolável. Nem que o Brad Pitt a tomasse nos braços, nem mesmo que George Clooney a quisesse animar tomando-lhe a cabeça junto ao farfalhudo peito, não havia maneira de recompor a princesa. Melhor, havia: a alternativa clássica do álcool. So sad, diriam os seus patrícios, mas é a verdade, e vale que Diana, traumatizada, não voltaria tão cedo a arriscar-se ao volante de um carro, sobretudo se fosse um Mercedes. Deste modo, ao longo dos dias, foi vivendo a princesa, vivendo para esquecer o seu desgosto. Mas à medida que o tentava fazer mais aumentava o seu desejo de vingança.
O dinheiro não constituiu um problema para Diana, pois consigo detinha ainda o cartão de crédito real, que ninguém em Buckingham mandara cancelar, não fosse a Imprensa armar um escabeche por causa disso. No banco também ninguém suspeitou de nada, até porque a conta estava em nome de Diana e de Carlos, podendo os dois fazer movimentações. Não haveria pois qualquer problema, desde que Diana se confinasse aos levantamentos em ATM e fizesse pagamentos em cash, sem assinar o que quer que fosse. De modo que Dirty Diana se instalou nos melhores hotéis parisienses, almoçou nos melhores restaurantes, vestiu nas melhores lojas. E à medida que descansava e recuperava fisicamente, que enchia a barriguinha, que vestia do bom e do melhor, ia congeminando a sua lista de «vítimas» a abater, assim Nosso Senhor a ajudasse nessa nobre tarefa de vingar os seus dias sofridos e a morte do seu Dodi. Que era um doidivanas, ela sabia, um maroto de um árabe mimado pela fortuna do pai, mas ainda assim era o seu Dodi e Dodis como aquele não se arranjam por aí todos os dias, ou então o mundo estaria pejado de princesas.
Meia noite e picos, portanto. Diana, já dirty depois da sua primeira malvadez, ainda para mais cometida sobre uma pobre enfermeira que o pior que tinha feito na vida era cobiçar para marido um dos médicos com quem diariamente se cruzava, avança, em pezinhos de lã pelo seu quarto, já vestida com a bata branca que surripiara à desdita enfermeira. Toda controlo e contenção de emoções, abre a porta do quarto deparando-se com a primeira prova de fogo da sua fuga: os agentes policiais que ali circunstanciavam em amena cavaqueira, ora sobre os jogos da quarta-feira europeia dessa noite (que é quando as putas fazem folga), ora sobre a mais recente casa de putas aberta na Cidade-Luz (onde não falta jogador de bola que se preze e tenha em imagem de garanhão). Conversa diversificada, está de ver.
Lampeira e tentando agir com a máxima naturalidade, Diana abre a porta, mantendo o olhar ligeiramente descaído para o chão. Os agentes, é claro, debicam-na logo com os olhares gulosos, havendo mesmo um que não se tem e arrisca uma apalpadela, após o que sorri, a meia haste, batendo, à garanhão, com o dedo do meio da mão direita na pala da boina. Mal sabendo que apalpava a princesa e não uma reles enfermeira! Ao sentir o aperto na nádega, Dirty Diana sente subir-lhe o sangue às têmporas, aperta os punhos já com os nervos fervendo e os músculos eriçados, mas contém-se a tempo de não se voltar para o libidinoso agente e arrear-lhe valente tabefe na fronha. Tabefe que o mais natural é que encomendasse o gendarmezito desta para as alturas, pois outra das transformações que o corpo da princesa sofrera, e que ela estava também prestes a descobrir, é que se tornara imensamente forte. Assim mesmo, tal qual os vampiros ou os lobisomens que se dizem ter a força de dez homens fortes juntos!
Mas Diana conteve-se, a bem da sua bem sucedida fuga. Não esqueceu foi o ultraje da apalpadela, coisa que só experimentara pela mão do seu Dodi - e essas sabiam-lhe bem melhor. De modo que, a fim de descarregar o stress da situação, até porque já chegara ao exterior, ao passar por um cigano que lhe atira um piropo mais não lhe regateia senão um soco no meio dos olhos. O efeito surpresa da sua reacção, dir-se-ia, somou a seu favor, pois a restante comunidade cigana ficou estupefacta e nem se lembrou de sacar das naifas. Quando o fez, já Diana tinha desaparecido do mapa. Desaparecia num táxi que a levava rumo ao coração de Paris. Dirty Diana preparava-se para gozar a vida como nunca pudera fazer. E uma vez que, como ouvira nas televisões e lera nos jornais e revistas, todos a davam como morta, pois que assim fosse, tanto melhor, mais facilmente a sua semelhança consigo própria não passaria, aos olhos dos outros, disso mesmo: uma curiosa semelhança física para com a malograda princesa. Na verdade, como ouviria de alguns bêbados em bares de terceira categoria, não fosse a sua cara de cu e seriam capazes de apostar que era Sua falecida Alteza. Dos que tiveram o azar de fazer tal comentário, nenhum viveu para contar o que depois se passou, e a nós, valha a verdade, também não nos apetece estar a relatar a sangria que aquilo foi... Esta Diana não estava para graçolas.
Acto contínuo, estando em Paris, Dirty Diana decidiu divertir-se à grande e à francesa; coisa que nunca fica bem a uma princesa inglesa. A triste realidade é que optou por fazê-lo porque ao saber da morte de Dodi ficou completamente de rastos e inconsolável. Nem que o Brad Pitt a tomasse nos braços, nem mesmo que George Clooney a quisesse animar tomando-lhe a cabeça junto ao farfalhudo peito, não havia maneira de recompor a princesa. Melhor, havia: a alternativa clássica do álcool. So sad, diriam os seus patrícios, mas é a verdade, e vale que Diana, traumatizada, não voltaria tão cedo a arriscar-se ao volante de um carro, sobretudo se fosse um Mercedes. Deste modo, ao longo dos dias, foi vivendo a princesa, vivendo para esquecer o seu desgosto. Mas à medida que o tentava fazer mais aumentava o seu desejo de vingança.
O dinheiro não constituiu um problema para Diana, pois consigo detinha ainda o cartão de crédito real, que ninguém em Buckingham mandara cancelar, não fosse a Imprensa armar um escabeche por causa disso. No banco também ninguém suspeitou de nada, até porque a conta estava em nome de Diana e de Carlos, podendo os dois fazer movimentações. Não haveria pois qualquer problema, desde que Diana se confinasse aos levantamentos em ATM e fizesse pagamentos em cash, sem assinar o que quer que fosse. De modo que Dirty Diana se instalou nos melhores hotéis parisienses, almoçou nos melhores restaurantes, vestiu nas melhores lojas. E à medida que descansava e recuperava fisicamente, que enchia a barriguinha, que vestia do bom e do melhor, ia congeminando a sua lista de «vítimas» a abater, assim Nosso Senhor a ajudasse nessa nobre tarefa de vingar os seus dias sofridos e a morte do seu Dodi. Que era um doidivanas, ela sabia, um maroto de um árabe mimado pela fortuna do pai, mas ainda assim era o seu Dodi e Dodis como aquele não se arranjam por aí todos os dias, ou então o mundo estaria pejado de princesas.
Sem Respirar - No Onda curta
Futuro próximo: Bruno tenta reconquistar Isabel, a sua ex-mulher. Pressionada pela sua mãe autoritária e por Jorge, o seu novo e imposto namorado, Isabel apresenta queixa por assédio contra Bruno. Bruno é julgado e condenado. É-lhe colocado um implante na garganta, que o sufocará sempre que se aproxime menos de 100 metros de Isabel. Mas Bruno não desiste. Apesar dos avisos de Miguel, o seu melhor amigo, Bruno começa os treinos para resistir mais tempo sem respirar. O argumento, genial, é de Filipe Homem Fonseca, a realização da curta-metragem é de Pedro Brito. «Sem Respirar», de 2004, (Animação 2 D) passa este fim-de-semana (domingo) no Onda Curta da RTP2. A não perder.
quinta-feira, 8 de novembro de 2007
O Problema dos Domingos
«Em especial aos domingos
quando ninguém está em casa
aí por finais de Junho
subo então ao terraço
para perceber além dos muros
a cidade silenciosa.»
quando ninguém está em casa
aí por finais de Junho
subo então ao terraço
para perceber além dos muros
a cidade silenciosa.»
Tonino Guerra, «Histórias para Uma Noite de Calmaria», Assírio & Alvim
Panda
Interpol
Pois eu gostei do início, bocejei pelo meio, acordei para o fim. E confirmei que a força maior dos nova-iorquinos Interpol não está em palco, reside mais no som em disco. E não tanto por defeito, mais por falta de vontade. Sobretudo do introspectivo Paul Banks, algo monocórdico, por vezes distorcido por riffs estridentes, e nem sempre salvo pelo mais enérgico Kessler, nas guitarras. Infelizmente, perdi a actução dos Blonde Redhead, cujo álbum «23» me acompanhou até ao Algarve o Verão passado.
Interdisciplinaridade

«Electricidade Estática» ou, de outro modo, várias áreas de criação no mesmo palco: o músico Paulo Furtado, vulgo Legendary Tiger Man, os artistas plásticos João Louro e Julião Sarmento e o arquitecto João Luís Carrilho da Graça. Tudo tendo por mote o filme "One Plus One" de Jean Luc Godard (1968), que filmou os Rolling Stones em estúdio a gravar o famoso álbum "Sympathy for the Devil". Para aferir do grau da tão propalada interdisciplinaridade. Daqui a bocado, no âmbito do Festival Temps D'Image.
Expo Rimas de Inventar
De como Afrodite aproxima os deuses da humana condição

Apolo - De que é que estás a rir-te, Hermes?
Hermes - É que vi umas coisas muito engraçadas, Apolo.
Apolo - Então conta, para que depois de ouvir, eu possa também rir-me contigo.
Hermes - Afrodite foi apanhada na cama com Ares e Hefestos agarrou-os e prendeu-os.
Apolo - Como?! Ora, parece que vais contar algo interessante!
Luciano de Samósata, «Diálogos dos Deuses», Europa-América
Dirty Diana - Um Terrível Conto de Terror V Capítulo
5. a desditosa la sallette
O que a Rainha não sabia, e disso não fora informada, era acerca da tal impressão que um dos médicos surpreendera no brilho do olhar da nova Diana. Não era um daqueles brilhos cristalinos, melosos e chorosos, de princesa em visita a campos de refugiados, um brilho de lágrima no canto do olho, mas antes um brilho, como dizer... acutilante, vibrante, um brilho de diamante tocado pela luz do sol. Digamos, uma jactância de luz. Um raio vituperino, febril e seco, cortando como se de uma tesoura sobre papel se tratasse.
«O raio que a parta», disse para o colega uma enfermeira que a custo administrara uma injecção à princesa, para que melhor repousasse e, se possível, sem dores – coisa, de resto, a que príncipes e princesas devem ser subtraídos. Porém, por aquela altura, e três dias tinham passado sobre a fatídica noite do acidente, Diana estava já mais desperta do que um nabo e pronta, prontinha a ir-se dali embora. Como não era tonta, malgrado o seu ar de sonsa o fizesse crer, Diana, reconstruída e refeita do choque sofrido, apercebeu-se que tão cedo não a deixariam sair do hospital. E logo ali congeminou projectos de fuga. Coisa que se mostrava vir a ser mais difícil do que Dustin Hoffman escapar da Ilha do Diabo, ou Clint Eastwood de Alcatraz, pois no hall em frente ao quarto onde se encontrava, apercebia-se de que um grande aparato policial tinha assentado praça. Ora, polícia e mais polícia, não foi fácil à princesa juntar dois mais dois (e muitos mais agentes havia para juntar se necessário fosse, porque aos MI5 se juntavam as tropas da gendarmerie) e chegar à conclusão de que ali havia mão da sogra. O que nada de bom prenunciava.
Mas se qualquer dúvida restava na cabeça da outrora bela princesa acerca das intenções da sogra, secretas e afins, logo elas se dissiparam, no que respeita às suas intenções de fuga, quando certa manhã, ao olhar pela pequena janelinha da porta do seu quarto, vislumbrou uma orelha enorme! Assustada com a ideia de voltar a rever o seu esposo, foi nesse exacto momento que Diana tomou a decisão de fugir do hospital nessa mesma noite. Foi uma decisão que no seu íntimo acatou com uma dor no coração, não pela decisão em si, mas pelo facto de a ter tomado ao ver as orelhas de Carlos, o que no imediato a fez lembrar-se das orelhinhas de Dodi e das lambidelas sussurradas com que as costumava presentear – sem suspeitar, claro está, de que na noite do acidente um cão malvado se alambazara a uma delas qual repasto das Arábias.
Durante o resto do dia Diana fingiu-se sonolenta. Matreira até dizer basta, qual Zeus travestido a cisne seduzindo Leda, Diana evitou assim mais visitas e conversas. À meia-noite (e foi mesmo a essa hora, garante o escritor – eu – que não se trata de expediente useiro e vezeiro em matéria de horários no género literário do terror), porque era essa a hora em que a enfermeira La Salette a vinha ver pela última vez, Diana pôs o seu plano de fuga em prática. Nada de especial. Quando La Salette aproximou a cara da sua, a ver se ela respirava normalmente, Diana puxou rapidamente o tubo do soro que lhe pendia sobre o ombro esquerdo e enrolou-o ao pescoço da desditosa La Salette.
Depois de bem apertar e esperar uns três minutos, para se certificar de que não tinha falhado, e experimentando um estranho gozo ou prazer pelo feito havido, não resistiu a pegar num bisturi ali deixado por incúria e lembrou-se de deixar a sua marca em La Salette; assinando na testa da enfermeira: «DDT». Seria aquela a sua imagem de marca – ali mesmo escolhida, no momento, a laivos de pura inspiração –, a imagem que deixaria nas suas vítimas. Agradava-lhe a ideia: tinha em tempos visto uns filmes de terror com o seu príncipe de Gales (naturalmente que nunca com a cabeça encostada à dele, porque assim nada veria...) e notara que era habitual os assassinos deixarem a sua marca no local do crime ou, no caso, nas suas vítimas.
Nem mais. Se o leitor ainda não reparou, aqui o estatuo sem subterfúgios estilísticos ou mais redundâncias: Diana já não era a mansa e piedosa Diana de antigamente, aquela princesinha de algodão amiga de cantores maricosos a cantar ao piano e concorrente número 1 a santa, rivalizando à altura com a piedosa Madre Teresa das Índias. Ela era agora a perigosa Dirty Diana, nome de guerra que adoptara para vingar as agruras do passado e sentenciar todos aqueles que a tinham feito passar as passas do inferno e, vistas as coisas, perder o seu Dodi. Ah!... Pois, pois claro, tem razão o leitor atento: o T. Sim, o T de DDT. DD, está de ver, é para Dirty Diana, o T... bem, o T, confesso, é só para disfarce. Uma artimanha inventada pela princesa para despistar os polícias incautos. Tanto mais que, se se visse bem, coisa que aqui ao computador não consigo fazer, o T que a princesa assinava não era um T como este, mas antes um T com a perna central elevada ligeiramente acima do travessão em cima: exactamente, em forma de cruz. Uma bandida, esta nova Diana! Nem mais, é claro que, a princípio, todos pensaram estar diante de um qualquer homicida que usasse o famoso DDT (o diclorodifeniltrocoloretano) para exterminar as suas vítimas... Grande matreira! Porquê Dirty Diana? Primeiro, em tributo a um dos seus cantores favoritos, Michael Jackson, naturalmente glosando a canção homónima onde gritava, histérico, justamente esse «Dirty Diana». Depois, porque a nova Diana estava disposta a ser mesmo Dirty.
O que a Rainha não sabia, e disso não fora informada, era acerca da tal impressão que um dos médicos surpreendera no brilho do olhar da nova Diana. Não era um daqueles brilhos cristalinos, melosos e chorosos, de princesa em visita a campos de refugiados, um brilho de lágrima no canto do olho, mas antes um brilho, como dizer... acutilante, vibrante, um brilho de diamante tocado pela luz do sol. Digamos, uma jactância de luz. Um raio vituperino, febril e seco, cortando como se de uma tesoura sobre papel se tratasse.
«O raio que a parta», disse para o colega uma enfermeira que a custo administrara uma injecção à princesa, para que melhor repousasse e, se possível, sem dores – coisa, de resto, a que príncipes e princesas devem ser subtraídos. Porém, por aquela altura, e três dias tinham passado sobre a fatídica noite do acidente, Diana estava já mais desperta do que um nabo e pronta, prontinha a ir-se dali embora. Como não era tonta, malgrado o seu ar de sonsa o fizesse crer, Diana, reconstruída e refeita do choque sofrido, apercebeu-se que tão cedo não a deixariam sair do hospital. E logo ali congeminou projectos de fuga. Coisa que se mostrava vir a ser mais difícil do que Dustin Hoffman escapar da Ilha do Diabo, ou Clint Eastwood de Alcatraz, pois no hall em frente ao quarto onde se encontrava, apercebia-se de que um grande aparato policial tinha assentado praça. Ora, polícia e mais polícia, não foi fácil à princesa juntar dois mais dois (e muitos mais agentes havia para juntar se necessário fosse, porque aos MI5 se juntavam as tropas da gendarmerie) e chegar à conclusão de que ali havia mão da sogra. O que nada de bom prenunciava.
Mas se qualquer dúvida restava na cabeça da outrora bela princesa acerca das intenções da sogra, secretas e afins, logo elas se dissiparam, no que respeita às suas intenções de fuga, quando certa manhã, ao olhar pela pequena janelinha da porta do seu quarto, vislumbrou uma orelha enorme! Assustada com a ideia de voltar a rever o seu esposo, foi nesse exacto momento que Diana tomou a decisão de fugir do hospital nessa mesma noite. Foi uma decisão que no seu íntimo acatou com uma dor no coração, não pela decisão em si, mas pelo facto de a ter tomado ao ver as orelhas de Carlos, o que no imediato a fez lembrar-se das orelhinhas de Dodi e das lambidelas sussurradas com que as costumava presentear – sem suspeitar, claro está, de que na noite do acidente um cão malvado se alambazara a uma delas qual repasto das Arábias.
Durante o resto do dia Diana fingiu-se sonolenta. Matreira até dizer basta, qual Zeus travestido a cisne seduzindo Leda, Diana evitou assim mais visitas e conversas. À meia-noite (e foi mesmo a essa hora, garante o escritor – eu – que não se trata de expediente useiro e vezeiro em matéria de horários no género literário do terror), porque era essa a hora em que a enfermeira La Salette a vinha ver pela última vez, Diana pôs o seu plano de fuga em prática. Nada de especial. Quando La Salette aproximou a cara da sua, a ver se ela respirava normalmente, Diana puxou rapidamente o tubo do soro que lhe pendia sobre o ombro esquerdo e enrolou-o ao pescoço da desditosa La Salette.
Depois de bem apertar e esperar uns três minutos, para se certificar de que não tinha falhado, e experimentando um estranho gozo ou prazer pelo feito havido, não resistiu a pegar num bisturi ali deixado por incúria e lembrou-se de deixar a sua marca em La Salette; assinando na testa da enfermeira: «DDT». Seria aquela a sua imagem de marca – ali mesmo escolhida, no momento, a laivos de pura inspiração –, a imagem que deixaria nas suas vítimas. Agradava-lhe a ideia: tinha em tempos visto uns filmes de terror com o seu príncipe de Gales (naturalmente que nunca com a cabeça encostada à dele, porque assim nada veria...) e notara que era habitual os assassinos deixarem a sua marca no local do crime ou, no caso, nas suas vítimas.
Nem mais. Se o leitor ainda não reparou, aqui o estatuo sem subterfúgios estilísticos ou mais redundâncias: Diana já não era a mansa e piedosa Diana de antigamente, aquela princesinha de algodão amiga de cantores maricosos a cantar ao piano e concorrente número 1 a santa, rivalizando à altura com a piedosa Madre Teresa das Índias. Ela era agora a perigosa Dirty Diana, nome de guerra que adoptara para vingar as agruras do passado e sentenciar todos aqueles que a tinham feito passar as passas do inferno e, vistas as coisas, perder o seu Dodi. Ah!... Pois, pois claro, tem razão o leitor atento: o T. Sim, o T de DDT. DD, está de ver, é para Dirty Diana, o T... bem, o T, confesso, é só para disfarce. Uma artimanha inventada pela princesa para despistar os polícias incautos. Tanto mais que, se se visse bem, coisa que aqui ao computador não consigo fazer, o T que a princesa assinava não era um T como este, mas antes um T com a perna central elevada ligeiramente acima do travessão em cima: exactamente, em forma de cruz. Uma bandida, esta nova Diana! Nem mais, é claro que, a princípio, todos pensaram estar diante de um qualquer homicida que usasse o famoso DDT (o diclorodifeniltrocoloretano) para exterminar as suas vítimas... Grande matreira! Porquê Dirty Diana? Primeiro, em tributo a um dos seus cantores favoritos, Michael Jackson, naturalmente glosando a canção homónima onde gritava, histérico, justamente esse «Dirty Diana». Depois, porque a nova Diana estava disposta a ser mesmo Dirty.
quarta-feira, 7 de novembro de 2007
Dirty Diana - Um terrível conto de terror IV Capítulo
4. uma safadeza
«Vamos por partes», disse o inspector Jack, agente especial enviado em caça ultra-sónico até à capital francesa para se pôr ao corrente das informações, estabelecendo ponte directa com as autoridades reais em Londres. Mas era em vão que tentava acalmar a Imprensa, que disparava perguntas a torto e a direito. Jack estava bem informado. Tinha uma espécie de telefone vermelho ligado ao hospital, de onde a todo o momento recebia informações sobre a evolução do estado da princesa, e era com esses dados que jogava na diplomacia noticiosa. Sobretudo com muito jogo de ancas, como se mostrava necessário. O dito jogo dava-lhe um certo ar amaricado, por causa da estória das ancas, é bem verdade, mas não menos o é o à-vontade com que lidava com a pressão. E se a princípio, à falta de instruções superiores sobre como proceder, foi entretendo o caso e a classe jornalista com derivações, escusando-se a pronunciar-se sobre o estado de saúde da princesa, não demorou muito tempo até que anunciasse o óbito.
Claro. Claro que a princesa não morreu. Não, não estou aqui armado em escritor para enganar ninguém, se bem que é bem sabido que a literatura me conceda liberdades para tal. O que se passou foi que a conselho vinculativo, e não sujeito a apelação superior, a Rainha, ao saber dos sucessos havidos nas ruas parisienses, entrou numa espécie de euforia, na perspectiva de se livrar de vez da querida nora... Não o querendo fazer transparecer, não obstou a que, sabendo das notícias, um sorriso mefistofélico se lhe rasgasse a meia haste nas ventas hipócritas. Sucede que com o passar das horas veio a saber que, afinal, a nora não tinha falecido e que parecia agarrar-se à vida com quantas forças lhe restavam – «O povinho é tão teimoso», suspirou entre dentes. E face aos novos dados decidiu: se a morte não a matara pois que ela à morte se substituía e mandava «matá-la», quer dizer, apagá-la, ou rasurá-la, ou... sei lá, decida aqui o leitor o termo mais apropriado.
Resumindo, para todos os efeitos, e já que já todos pensavam que Diana estava morta, pois que isso mesmo seria oficializado. Era como já ter o código postal no sobrescrito, a primeira parte do trabalho estava feita, certamente a desígnios do Altíssimo, e se assim era estranho é que a Diana se tivesse safado como se safou. Uma safadeza, pois claro! E foram essas as instruções a que a Rainha deu seguimento e alforria para Paris: «Obviamente, confirme-se a morte.» E mais: que no Hospital ninguém falasse, que as secretas britânica e gaulesas, em conjunto e em conluio, garantissem que assim seria. Se Diana sobrevivera, tanto melhor para ela, o povo é que não precisava de o saber; até porque, disse a maléfica rainha de si para consigo, quem é que vai querer para sua princesa uma princesa desfigurada e com cara de cu (rumores que já lhe tinham chegado ao nariz, como se subentende)?!... Assim o pensou, assim se fez e as secretas trataram de tudo com os governos respectivos.
No mais, a morte da princesa possibilitava a emergência de negócios incalculáveis, logo mais-valias para a economia; o povo iria fartar-se de choramingar mas não deixaria de se babar todo com os negócios do caso advenientes: velas, ursinhos de pelúcia, T-shirts com a cara de Diana, pins e crachás para todos os gostos, livros, postais, missas a estipêndios inflaccionados, flores, santos e santinhas, etc. E isto já para não esquecer o brado e indignação em torno dos paparazzi. Haveria muito sobre o que opinar e verter lágrimas. E a verdade é que mal se soube do sucedido, por todo o lado se deram ordens de fabrico e compra para toda esta parafernália de objectos. Dias depois, já as unidades industriais tinham as máquinas a rodar, o mercado entrara em ebulição de um dia para o outro. E convenhamos: haverá algo mais rentável do que a morte de uma princesa? Em acidente automóvel? Em Paris? Com o seu amante? Num Mercedes? Pas de tout! Ia-se a ver e bem visto a Rainha haveria de ter razão – se uma Mãe tem sempre razão, quanto mais uma Rainha mãe...
Era preciso era ter Diana morta como dado adquirido. Portanto, havia que não dar nas vistas em torno do Hospital onde ela recuperava, havia que mantê-la debaixo de olho, vigiar os seus passos e depois tratar de lhe traçar destino, longe dos olhares do povo e do mundo. Coisa de somenos para a Secreta britânica. Bastava pôr um ou dois agentes do MI5 na sua sombra, vinte e quatro horas por dia até ao fim dos seus dias. Nada de novo no historial da prestimosa secreta, bastando lembrar que andaram no rasto de George Orwell durante vinte anos a fio.
«Vamos por partes», disse o inspector Jack, agente especial enviado em caça ultra-sónico até à capital francesa para se pôr ao corrente das informações, estabelecendo ponte directa com as autoridades reais em Londres. Mas era em vão que tentava acalmar a Imprensa, que disparava perguntas a torto e a direito. Jack estava bem informado. Tinha uma espécie de telefone vermelho ligado ao hospital, de onde a todo o momento recebia informações sobre a evolução do estado da princesa, e era com esses dados que jogava na diplomacia noticiosa. Sobretudo com muito jogo de ancas, como se mostrava necessário. O dito jogo dava-lhe um certo ar amaricado, por causa da estória das ancas, é bem verdade, mas não menos o é o à-vontade com que lidava com a pressão. E se a princípio, à falta de instruções superiores sobre como proceder, foi entretendo o caso e a classe jornalista com derivações, escusando-se a pronunciar-se sobre o estado de saúde da princesa, não demorou muito tempo até que anunciasse o óbito.
Claro. Claro que a princesa não morreu. Não, não estou aqui armado em escritor para enganar ninguém, se bem que é bem sabido que a literatura me conceda liberdades para tal. O que se passou foi que a conselho vinculativo, e não sujeito a apelação superior, a Rainha, ao saber dos sucessos havidos nas ruas parisienses, entrou numa espécie de euforia, na perspectiva de se livrar de vez da querida nora... Não o querendo fazer transparecer, não obstou a que, sabendo das notícias, um sorriso mefistofélico se lhe rasgasse a meia haste nas ventas hipócritas. Sucede que com o passar das horas veio a saber que, afinal, a nora não tinha falecido e que parecia agarrar-se à vida com quantas forças lhe restavam – «O povinho é tão teimoso», suspirou entre dentes. E face aos novos dados decidiu: se a morte não a matara pois que ela à morte se substituía e mandava «matá-la», quer dizer, apagá-la, ou rasurá-la, ou... sei lá, decida aqui o leitor o termo mais apropriado.
Resumindo, para todos os efeitos, e já que já todos pensavam que Diana estava morta, pois que isso mesmo seria oficializado. Era como já ter o código postal no sobrescrito, a primeira parte do trabalho estava feita, certamente a desígnios do Altíssimo, e se assim era estranho é que a Diana se tivesse safado como se safou. Uma safadeza, pois claro! E foram essas as instruções a que a Rainha deu seguimento e alforria para Paris: «Obviamente, confirme-se a morte.» E mais: que no Hospital ninguém falasse, que as secretas britânica e gaulesas, em conjunto e em conluio, garantissem que assim seria. Se Diana sobrevivera, tanto melhor para ela, o povo é que não precisava de o saber; até porque, disse a maléfica rainha de si para consigo, quem é que vai querer para sua princesa uma princesa desfigurada e com cara de cu (rumores que já lhe tinham chegado ao nariz, como se subentende)?!... Assim o pensou, assim se fez e as secretas trataram de tudo com os governos respectivos.
No mais, a morte da princesa possibilitava a emergência de negócios incalculáveis, logo mais-valias para a economia; o povo iria fartar-se de choramingar mas não deixaria de se babar todo com os negócios do caso advenientes: velas, ursinhos de pelúcia, T-shirts com a cara de Diana, pins e crachás para todos os gostos, livros, postais, missas a estipêndios inflaccionados, flores, santos e santinhas, etc. E isto já para não esquecer o brado e indignação em torno dos paparazzi. Haveria muito sobre o que opinar e verter lágrimas. E a verdade é que mal se soube do sucedido, por todo o lado se deram ordens de fabrico e compra para toda esta parafernália de objectos. Dias depois, já as unidades industriais tinham as máquinas a rodar, o mercado entrara em ebulição de um dia para o outro. E convenhamos: haverá algo mais rentável do que a morte de uma princesa? Em acidente automóvel? Em Paris? Com o seu amante? Num Mercedes? Pas de tout! Ia-se a ver e bem visto a Rainha haveria de ter razão – se uma Mãe tem sempre razão, quanto mais uma Rainha mãe...
Era preciso era ter Diana morta como dado adquirido. Portanto, havia que não dar nas vistas em torno do Hospital onde ela recuperava, havia que mantê-la debaixo de olho, vigiar os seus passos e depois tratar de lhe traçar destino, longe dos olhares do povo e do mundo. Coisa de somenos para a Secreta britânica. Bastava pôr um ou dois agentes do MI5 na sua sombra, vinte e quatro horas por dia até ao fim dos seus dias. Nada de novo no historial da prestimosa secreta, bastando lembrar que andaram no rasto de George Orwell durante vinte anos a fio.
terça-feira, 6 de novembro de 2007
Histórias Fulminantes 43
Louise era tão leviana que muitas vezes, depois de noites de perdição, havia quem garantisse vê-la sobrevoar a cidade com um sorriso nos lábios.
Dirty Diana - Um terrível conto de terror III Capítulo
3. um puzzle complicado
De modo que depois da primeira ambulância outras foram chegando, cada qual trazendo um pedaço encontrado aqui, outro acoli e acolá, num raio de cerca de cinquenta metros em torno do local do acidente. Não era caso para menos; com a força do embate os corpos tinham-se, por assim dizer, desmantelado em pedaços. E de modo que para os médicos cirurgiões o caso resultou num enorme e complicado puzzle. Com a garantia dos sinais vitais a funcionarem, embora sem certezas de conseguirem o milagre da salvação, o que restava do corpo ligado à maquinaria, lentamente começou a organização dos membros e pedaços de carne. Um trabalho, não há dúvidas, arqueológico – arqueologia real, está de ver. E não para qualquer um. Havia que reconhecer proveniências, determinar funções, congeminar junções, refazer formas e desenhos. Coisa para destreza de sushi man, só que ao contrário.
Diana, por conseguinte, não tinha falecido. O que, face ao estado do seu lindo corpinho – mais parecendo ter dado de caras com Jack o Estripador –, só se compreende por via de malfadada teimosia britânica que, como se vê, assiste até aos súbditos mais bonzinhos e beneméritos. O facto é que a princesa resistia –fosse talvez às custas da maquinaria, fosse por via da força que lhe instilava a lembrança do seu amante (à data desconhecia que o seu novo príncipe das arábias tinha ido desta para melhor, ficando com a cara estropiada e mais feia do que um sapo), fosse por via de intervenção de um qualquer santinho ou santinha, fosse por via do que fosse, ela resistia.
A coisa durou horas. Uma cirurgia reconstrutiva do mais delicado que se possa imaginar. Pedaço a pedaço, os médicos lá foram ensaiando uma nova Diana, porque era disso que se tratava na realidade! Porém, nem de muito se podiam queixar já que, para o efeito, contaram com a inestimável ajuda das inúmeras fotografias da princesa que se conheciam. Não, não foi sequer por malícia, ou mesmo por maldade anti-monárquica dos médicos que a trataram. Se, por um lado, a Diana que ao fim de muitas horas e suor conseguiram refazer aparentava ser quase igualzinha àquela conhecida por todos, por outro lado, só um pormenor algo desagradável os curas não conseguiram evitar; é que toda a reconstrução facial tinha sido realizada com pele do rabo da princesa. Dir-se-ia, pois, que ficara com a face um pouco para o arredondada, como dizer... com cara de cu. Nem mais. Vale que os seus lindos olhos conservavam o azulado cristalino de antigamente. No mais, notou, e bem, um dos médicos presentes - fã de sempre da princesa -, que o brilho dos seus olhos não era o mesmo de antes, e que havia naquele olhar qualquer coisa que... Que lhe fazia comichão no estômago? Que o fazia suspeitar de não sabia o quê? Isso é o que se saberá mais adiante. Por agora, fim de capítulo.
De modo que depois da primeira ambulância outras foram chegando, cada qual trazendo um pedaço encontrado aqui, outro acoli e acolá, num raio de cerca de cinquenta metros em torno do local do acidente. Não era caso para menos; com a força do embate os corpos tinham-se, por assim dizer, desmantelado em pedaços. E de modo que para os médicos cirurgiões o caso resultou num enorme e complicado puzzle. Com a garantia dos sinais vitais a funcionarem, embora sem certezas de conseguirem o milagre da salvação, o que restava do corpo ligado à maquinaria, lentamente começou a organização dos membros e pedaços de carne. Um trabalho, não há dúvidas, arqueológico – arqueologia real, está de ver. E não para qualquer um. Havia que reconhecer proveniências, determinar funções, congeminar junções, refazer formas e desenhos. Coisa para destreza de sushi man, só que ao contrário.
Diana, por conseguinte, não tinha falecido. O que, face ao estado do seu lindo corpinho – mais parecendo ter dado de caras com Jack o Estripador –, só se compreende por via de malfadada teimosia britânica que, como se vê, assiste até aos súbditos mais bonzinhos e beneméritos. O facto é que a princesa resistia –fosse talvez às custas da maquinaria, fosse por via da força que lhe instilava a lembrança do seu amante (à data desconhecia que o seu novo príncipe das arábias tinha ido desta para melhor, ficando com a cara estropiada e mais feia do que um sapo), fosse por via de intervenção de um qualquer santinho ou santinha, fosse por via do que fosse, ela resistia.
A coisa durou horas. Uma cirurgia reconstrutiva do mais delicado que se possa imaginar. Pedaço a pedaço, os médicos lá foram ensaiando uma nova Diana, porque era disso que se tratava na realidade! Porém, nem de muito se podiam queixar já que, para o efeito, contaram com a inestimável ajuda das inúmeras fotografias da princesa que se conheciam. Não, não foi sequer por malícia, ou mesmo por maldade anti-monárquica dos médicos que a trataram. Se, por um lado, a Diana que ao fim de muitas horas e suor conseguiram refazer aparentava ser quase igualzinha àquela conhecida por todos, por outro lado, só um pormenor algo desagradável os curas não conseguiram evitar; é que toda a reconstrução facial tinha sido realizada com pele do rabo da princesa. Dir-se-ia, pois, que ficara com a face um pouco para o arredondada, como dizer... com cara de cu. Nem mais. Vale que os seus lindos olhos conservavam o azulado cristalino de antigamente. No mais, notou, e bem, um dos médicos presentes - fã de sempre da princesa -, que o brilho dos seus olhos não era o mesmo de antes, e que havia naquele olhar qualquer coisa que... Que lhe fazia comichão no estômago? Que o fazia suspeitar de não sabia o quê? Isso é o que se saberá mais adiante. Por agora, fim de capítulo.
Outros Silêncios
«O silêncio é como um vinho raro que precisa de ser saboreado antes de ser quebrado...»
Rhys Hughes, «A Sereia de Curitiba», Livros de Areia
Rhys Hughes, «A Sereia de Curitiba», Livros de Areia
segunda-feira, 5 de novembro de 2007
O sacana do Barthes
«Se minto? Quantas vezes!
Mas em palavras. Não
Nos meus olhos castanhos portugueses,
Nestas linhas atávicas da mão...
Se minto?... Minto, pois!
Mas nas orais palavras que vos digo.
Não nas que entoo a sós comigo.
E em que enfim deixo de ser dois
...»
Mas em palavras. Não
Nos meus olhos castanhos portugueses,
Nestas linhas atávicas da mão...
Se minto?... Minto, pois!
Mas nas orais palavras que vos digo.
Não nas que entoo a sós comigo.
E em que enfim deixo de ser dois
...»
José Régio, «Improviso Corrigido», in «Colheita da Tarde»
Da fotografia e da palavra
Roland Barthes diz
que a fotografia diz
e a palavra mente.
Quem sou eu para o
desmentir?
que a fotografia diz
e a palavra mente.
Quem sou eu para o
desmentir?
Dirty Diana - Um terrível conto de terror Capítulo II
2. a orelha de Dodi
O pilar central da ponte ficou destruído. É certo, não ao ponto de fazer perigar a estrutura que sustinha a ponte mas, ainda assim, bastante danificado. Pior, muito pior ficou o Mercedes, feito lata de sardinhas abalroada por uma baleia esfomeada. Um desastre para a imagem da marca em matéria de segurança a bordo. Difícil mesmo, entre tanto sangue e miudezas intestinais e quejandas, foi descortinar o que eram braços, o que eram pernas, orelhas, lábios, mãos, pés, cabeças. Como o exagero que se permite aos escritores, diria que aço, ferro e carne conjugavam a perfeita simbiose, num quadro de horror que faria inveja a Damien Hirst ou aos irmãos Jake e Dinos Chapman e fariam de um Jheronimus Bosch um mero «aprendiz de feiticeiro dos infernos». O fotógrafo Jöel Pieter-Witkin também dificilmente faria melhor e, nos dias seguintes, ao ver as imagens televisivas terá, por certo, invejado aqueles que o acaso levou a testemunharem ao vivo aquelas horas letais.
Apesar da amálgama de corpos e chapa retorcida ainda fremente, vários anónimos, reconhecendo os acidentados, tratavam já de recolher pequenos restos de ferro ou borracha pensando já nos futuros negócios que fariam em leilões da net. Um cão lambia restos de sangue, antes de levar um pontapé de um dos primeiros polícias a chegar ao local. Enquanto outros agentes tratavam de afastar os curiosos e selar uma área de segurança e interdição, num perímetro que estimaria em cinco metros (isto é, para trás e para a frente, já que, lateralmente, pouco mais do que dois metros havia disponíveis), luzes de flashes continuavam um trabalho predador das intimidades alheias. Como antes em vida, agora também ali, na hora da morte, os paparazzi trabalhando, vermes do viver alheio.
Logo, logo chegaram mais jornalistas, estes, ao menos, encartados. As televisões assentaram arraiais, disputaram os melhores ângulos de captação de imagens, e todos obtiveram das suas direcções carta branca para entrarem em directo sempre que o desejassem. Nas redacções todos estavam a postos já pensando nas melhores parangonas com que abririam os informativos especiais e com que fariam as capas das edições da manhã seguinte. O vermelho vivo, claro, a cor eleita para os jornais e revistas. Comentadores foram acordados a meio da noite, cronistas idem aspas, o povo, sonolento, em pijama, também foi chamado a pronunciar-se à boca das rádios e das televisões. A cidade inteira acordou do torpor sonolento em que já ia mergulhando. Madame Jacqueline, moradora perto do local do sinistro, acordou em sobressalto do pesadelo que sonhava, só não percebeu é que acordara de um para testemunhar outro, embora com a mais-valia de não ser protagonista no segundo.A princípio veiculadas pelos Media, depois por fonte oficial dos gendarmes gauleses encarregues do caso, não tardou que chegassem a público as confirmações. Um terrível acidente custara a vida à Princesa do Povo que, seguindo num potente Mercedes, se despistara num dos túneis de Paris. Diana, a princesa de Gales, mais se pormenorizava (o que talvez não fosse necessário dizer, mas se diz à cautela de algum leitor desprevenido face a matérias monárquicas), seguia com o seu novo companheiro e namorado, um rico herdeiro de um ainda mais rico empresário, dono de um império de negócios. O seu nome, do amante da princesa, lembrava mais a graça de um cachorro, mas enfim... chamava-se Dodi. Crê-se que terá sido dele a orelha que um dos cães vadios que tinham ali chegado antes da Polícia levara pela boca, deliciando-se e babando-se fartamente num beco ali próximo – o animal jamais tivera nos caninos, incisivos e molares tão rico petisco. A suposição não é leviana, pois, uma vez recolhido o animal suspeito, veio a verificar-se que no seu estômago se encontrava um brinco a posteriori reclamado pelo pai do defunto como pertencendo ao seu rebento namoradeiro de princesas. Ajunte-se, a propósito, que o cão também veio a falecer, segundo informação constante dos autos policiais revelados no dia seguinte, não resistindo à intervenção cirúrgica (matéria que reuniu consenso de editorias para abrir 666 telejornais em todo o mundo).
O pilar central da ponte ficou destruído. É certo, não ao ponto de fazer perigar a estrutura que sustinha a ponte mas, ainda assim, bastante danificado. Pior, muito pior ficou o Mercedes, feito lata de sardinhas abalroada por uma baleia esfomeada. Um desastre para a imagem da marca em matéria de segurança a bordo. Difícil mesmo, entre tanto sangue e miudezas intestinais e quejandas, foi descortinar o que eram braços, o que eram pernas, orelhas, lábios, mãos, pés, cabeças. Como o exagero que se permite aos escritores, diria que aço, ferro e carne conjugavam a perfeita simbiose, num quadro de horror que faria inveja a Damien Hirst ou aos irmãos Jake e Dinos Chapman e fariam de um Jheronimus Bosch um mero «aprendiz de feiticeiro dos infernos». O fotógrafo Jöel Pieter-Witkin também dificilmente faria melhor e, nos dias seguintes, ao ver as imagens televisivas terá, por certo, invejado aqueles que o acaso levou a testemunharem ao vivo aquelas horas letais.
Apesar da amálgama de corpos e chapa retorcida ainda fremente, vários anónimos, reconhecendo os acidentados, tratavam já de recolher pequenos restos de ferro ou borracha pensando já nos futuros negócios que fariam em leilões da net. Um cão lambia restos de sangue, antes de levar um pontapé de um dos primeiros polícias a chegar ao local. Enquanto outros agentes tratavam de afastar os curiosos e selar uma área de segurança e interdição, num perímetro que estimaria em cinco metros (isto é, para trás e para a frente, já que, lateralmente, pouco mais do que dois metros havia disponíveis), luzes de flashes continuavam um trabalho predador das intimidades alheias. Como antes em vida, agora também ali, na hora da morte, os paparazzi trabalhando, vermes do viver alheio.
Logo, logo chegaram mais jornalistas, estes, ao menos, encartados. As televisões assentaram arraiais, disputaram os melhores ângulos de captação de imagens, e todos obtiveram das suas direcções carta branca para entrarem em directo sempre que o desejassem. Nas redacções todos estavam a postos já pensando nas melhores parangonas com que abririam os informativos especiais e com que fariam as capas das edições da manhã seguinte. O vermelho vivo, claro, a cor eleita para os jornais e revistas. Comentadores foram acordados a meio da noite, cronistas idem aspas, o povo, sonolento, em pijama, também foi chamado a pronunciar-se à boca das rádios e das televisões. A cidade inteira acordou do torpor sonolento em que já ia mergulhando. Madame Jacqueline, moradora perto do local do sinistro, acordou em sobressalto do pesadelo que sonhava, só não percebeu é que acordara de um para testemunhar outro, embora com a mais-valia de não ser protagonista no segundo.A princípio veiculadas pelos Media, depois por fonte oficial dos gendarmes gauleses encarregues do caso, não tardou que chegassem a público as confirmações. Um terrível acidente custara a vida à Princesa do Povo que, seguindo num potente Mercedes, se despistara num dos túneis de Paris. Diana, a princesa de Gales, mais se pormenorizava (o que talvez não fosse necessário dizer, mas se diz à cautela de algum leitor desprevenido face a matérias monárquicas), seguia com o seu novo companheiro e namorado, um rico herdeiro de um ainda mais rico empresário, dono de um império de negócios. O seu nome, do amante da princesa, lembrava mais a graça de um cachorro, mas enfim... chamava-se Dodi. Crê-se que terá sido dele a orelha que um dos cães vadios que tinham ali chegado antes da Polícia levara pela boca, deliciando-se e babando-se fartamente num beco ali próximo – o animal jamais tivera nos caninos, incisivos e molares tão rico petisco. A suposição não é leviana, pois, uma vez recolhido o animal suspeito, veio a verificar-se que no seu estômago se encontrava um brinco a posteriori reclamado pelo pai do defunto como pertencendo ao seu rebento namoradeiro de princesas. Ajunte-se, a propósito, que o cão também veio a falecer, segundo informação constante dos autos policiais revelados no dia seguinte, não resistindo à intervenção cirúrgica (matéria que reuniu consenso de editorias para abrir 666 telejornais em todo o mundo).
domingo, 4 de novembro de 2007
sexta-feira, 2 de novembro de 2007
Dirty Diana - Um terrível conto de terror em 9 capítulos
1. momentos de azar
1997. 31 de Agosto. Sábado. Veloz como um disparo de besta, sibilando sobre o alcatrão da noite, guinando à esquerda e à direita, a primeira ambulância chegou às Urgências do hospital num frémito de sirenes lancinantes e luzes alucinadas. Vinha com motas de polícias à frente, ao jeito de batedores, cada qual com seu agente esbracejando a abrir alas, a tirar todo e qualquer escolho do caminho. Alguns familiares de pacientes internados olhavam a cena com curiosidade mórbida, embora desconhecendo quem para ali era transportado. Recortados a negro, ciganos fumavam a curta distância, encostados a um muro em pose de desafio.
Num freio súbito a carrinha branca estacou e logo às portas traseiras acudiram, céleres, quatro enfermeiros e dois médicos que aguardavam a sua chegada. Depois, um corrupio de tubos de inalação, soro para cá soro para acolá, uma injecção, e logo o corpo (ou aquilo que dele restava), envolvido por batas brancas, sorvido pelos corredores assépticos do hospital onde, como é sabido, só pessoal autorizado pode entrar.
Enquanto narrador desta história permitiram-me a entrada, mas não sem antes assinar uns papéis burocráticos. Ser escritor já foi mais fácil. Fui, alcançando a custo a maca que corria como Fórmula 1 pelos corredores, depois elevadores, novamente corredores, direita, esquerda, e, por fim, uma sala de operações. Aí, novos médicos davam ordens, cruzavam rápidas opiniões sobre o que fazer, mas sempre num frenesi de quem sabia que naquele caso um segundo de atraso numa decisão poderia significar a diferença entre a vida e a morte. Só um enfermeiro resmungou, notoriamente chateado por ter de interromper o visionamento de um episódio de «Serviço de Urgências» que passava na televisão àquela hora. Há momentos de azar...
Depois, o mais que pude ver foi através da estreita e pequena janelinha de vidro que havia na porta da sala de operações. Apesar dos meus protestos literários, um médico, que até tinha lido o meu primeiro romance e dele, assim mo garantiu, gostara, pediu-me para ficar lá fora. Que fizesse o obséquio, que, acreditasse, compreendia as minhas razões, pois sabia que para a descrição exacta dos factos era mais do que desejável que acompanhasse tudo a par e passo, de perto, preferencialmente, que sabia muito bem como eram os críticos com os pormenores, mas que naquele caso não podiam ser contemplativos nem podiam abrir excepções; só os médicos podiam ali estar. Ia ser uma operação deveras delicada.
1997. 31 de Agosto. Sábado. Veloz como um disparo de besta, sibilando sobre o alcatrão da noite, guinando à esquerda e à direita, a primeira ambulância chegou às Urgências do hospital num frémito de sirenes lancinantes e luzes alucinadas. Vinha com motas de polícias à frente, ao jeito de batedores, cada qual com seu agente esbracejando a abrir alas, a tirar todo e qualquer escolho do caminho. Alguns familiares de pacientes internados olhavam a cena com curiosidade mórbida, embora desconhecendo quem para ali era transportado. Recortados a negro, ciganos fumavam a curta distância, encostados a um muro em pose de desafio.
Num freio súbito a carrinha branca estacou e logo às portas traseiras acudiram, céleres, quatro enfermeiros e dois médicos que aguardavam a sua chegada. Depois, um corrupio de tubos de inalação, soro para cá soro para acolá, uma injecção, e logo o corpo (ou aquilo que dele restava), envolvido por batas brancas, sorvido pelos corredores assépticos do hospital onde, como é sabido, só pessoal autorizado pode entrar.
Enquanto narrador desta história permitiram-me a entrada, mas não sem antes assinar uns papéis burocráticos. Ser escritor já foi mais fácil. Fui, alcançando a custo a maca que corria como Fórmula 1 pelos corredores, depois elevadores, novamente corredores, direita, esquerda, e, por fim, uma sala de operações. Aí, novos médicos davam ordens, cruzavam rápidas opiniões sobre o que fazer, mas sempre num frenesi de quem sabia que naquele caso um segundo de atraso numa decisão poderia significar a diferença entre a vida e a morte. Só um enfermeiro resmungou, notoriamente chateado por ter de interromper o visionamento de um episódio de «Serviço de Urgências» que passava na televisão àquela hora. Há momentos de azar...
Depois, o mais que pude ver foi através da estreita e pequena janelinha de vidro que havia na porta da sala de operações. Apesar dos meus protestos literários, um médico, que até tinha lido o meu primeiro romance e dele, assim mo garantiu, gostara, pediu-me para ficar lá fora. Que fizesse o obséquio, que, acreditasse, compreendia as minhas razões, pois sabia que para a descrição exacta dos factos era mais do que desejável que acompanhasse tudo a par e passo, de perto, preferencialmente, que sabia muito bem como eram os críticos com os pormenores, mas que naquele caso não podiam ser contemplativos nem podiam abrir excepções; só os médicos podiam ali estar. Ia ser uma operação deveras delicada.
Outros Silêncios
«No entanto, em psicanálise, o silêncio foi também interpretado pelos primeiros analistas como uma defesa. Uma defesa contra o erotismo oral ou a sua tendência para a incontinência verbal.»
Tito Cardoso e Cunha, «A Loquacidade do Silêncio»
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