terça-feira, 6 de novembro de 2007

Blonde Redhead - 23

Amanhã, antes dos Interpol.

Dirty Diana - Um terrível conto de terror III Capítulo

3. um puzzle complicado
De modo que depois da primeira ambulância outras foram chegando, cada qual trazendo um pedaço encontrado aqui, outro acoli e acolá, num raio de cerca de cinquenta metros em torno do local do acidente. Não era caso para menos; com a força do embate os corpos tinham-se, por assim dizer, desmantelado em pedaços. E de modo que para os médicos cirurgiões o caso resultou num enorme e complicado puzzle. Com a garantia dos sinais vitais a funcionarem, embora sem certezas de conseguirem o milagre da salvação, o que restava do corpo ligado à maquinaria, lentamente começou a organização dos membros e pedaços de carne. Um trabalho, não há dúvidas, arqueológico – arqueologia real, está de ver. E não para qualquer um. Havia que reconhecer proveniências, determinar funções, congeminar junções, refazer formas e desenhos. Coisa para destreza de sushi man, só que ao contrário.
Diana, por conseguinte, não tinha falecido. O que, face ao estado do seu lindo corpinho – mais parecendo ter dado de caras com Jack o Estripador –, só se compreende por via de malfadada teimosia britânica que, como se vê, assiste até aos súbditos mais bonzinhos e beneméritos. O facto é que a princesa resistia –fosse talvez às custas da maquinaria, fosse por via da força que lhe instilava a lembrança do seu amante (à data desconhecia que o seu novo príncipe das arábias tinha ido desta para melhor, ficando com a cara estropiada e mais feia do que um sapo), fosse por via de intervenção de um qualquer santinho ou santinha, fosse por via do que fosse, ela resistia.
A coisa durou horas. Uma cirurgia reconstrutiva do mais delicado que se possa imaginar. Pedaço a pedaço, os médicos lá foram ensaiando uma nova Diana, porque era disso que se tratava na realidade! Porém, nem de muito se podiam queixar já que, para o efeito, contaram com a inestimável ajuda das inúmeras fotografias da princesa que se conheciam. Não, não foi sequer por malícia, ou mesmo por maldade anti-monárquica dos médicos que a trataram. Se, por um lado, a Diana que ao fim de muitas horas e suor conseguiram refazer aparentava ser quase igualzinha àquela conhecida por todos, por outro lado, só um pormenor algo desagradável os curas não conseguiram evitar; é que toda a reconstrução facial tinha sido realizada com pele do rabo da princesa. Dir-se-ia, pois, que ficara com a face um pouco para o arredondada, como dizer... com cara de cu. Nem mais. Vale que os seus lindos olhos conservavam o azulado cristalino de antigamente. No mais, notou, e bem, um dos médicos presentes - fã de sempre da princesa -, que o brilho dos seus olhos não era o mesmo de antes, e que havia naquele olhar qualquer coisa que... Que lhe fazia comichão no estômago? Que o fazia suspeitar de não sabia o quê? Isso é o que se saberá mais adiante. Por agora, fim de capítulo.

Outros Silêncios

«O silêncio é como um vinho raro que precisa de ser saboreado antes de ser quebrado...»

Rhys Hughes, «A Sereia de Curitiba», Livros de Areia

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

O sacana do Barthes

«Se minto? Quantas vezes!
Mas em palavras. Não
Nos meus olhos castanhos portugueses,
Nestas linhas atávicas da mão...
Se minto?... Minto, pois!
Mas nas orais palavras que vos digo.
Não nas que entoo a sós comigo.
E em que enfim deixo de ser dois
...»

José Régio, «Improviso Corrigido», in «Colheita da Tarde»

O Zé diz e eu estava lá


Da fotografia e da palavra

Roland Barthes diz
que a fotografia diz
e a palavra mente.
Quem sou eu para o
desmentir?

A questão é

No tempo de todos os mp3 que significado assume a noção de coleccionismo?

A questão é

A palavra cão não morde. Mas, e se escrita com raiva?

A questão é

O que custa mais: pagar uma casa a prestações ou construí-la tijolo a tijolo?

Dirty Diana - Um terrível conto de terror Capítulo II

2. a orelha de Dodi
O pilar central da ponte ficou destruído. É certo, não ao ponto de fazer perigar a estrutura que sustinha a ponte mas, ainda assim, bastante danificado. Pior, muito pior ficou o Mercedes, feito lata de sardinhas abalroada por uma baleia esfomeada. Um desastre para a imagem da marca em matéria de segurança a bordo. Difícil mesmo, entre tanto sangue e miudezas intestinais e quejandas, foi descortinar o que eram braços, o que eram pernas, orelhas, lábios, mãos, pés, cabeças. Como o exagero que se permite aos escritores, diria que aço, ferro e carne conjugavam a perfeita simbiose, num quadro de horror que faria inveja a Damien Hirst ou aos irmãos Jake e Dinos Chapman e fariam de um Jheronimus Bosch um mero «aprendiz de feiticeiro dos infernos». O fotógrafo Jöel Pieter-Witkin também dificilmente faria melhor e, nos dias seguintes, ao ver as imagens televisivas terá, por certo, invejado aqueles que o acaso levou a testemunharem ao vivo aquelas horas letais.
Apesar da amálgama de corpos e chapa retorcida ainda fremente, vários anónimos, reconhecendo os acidentados, tratavam já de recolher pequenos restos de ferro ou borracha pensando já nos futuros negócios que fariam em leilões da net. Um cão lambia restos de sangue, antes de levar um pontapé de um dos primeiros polícias a chegar ao local. Enquanto outros agentes tratavam de afastar os curiosos e selar uma área de segurança e interdição, num perímetro que estimaria em cinco metros (isto é, para trás e para a frente, já que, lateralmente, pouco mais do que dois metros havia disponíveis), luzes de flashes continuavam um trabalho predador das intimidades alheias. Como antes em vida, agora também ali, na hora da morte, os paparazzi trabalhando, vermes do viver alheio.
Logo, logo chegaram mais jornalistas, estes, ao menos, encartados. As televisões assentaram arraiais, disputaram os melhores ângulos de captação de imagens, e todos obtiveram das suas direcções carta branca para entrarem em directo sempre que o desejassem. Nas redacções todos estavam a postos já pensando nas melhores parangonas com que abririam os informativos especiais e com que fariam as capas das edições da manhã seguinte. O vermelho vivo, claro, a cor eleita para os jornais e revistas. Comentadores foram acordados a meio da noite, cronistas idem aspas, o povo, sonolento, em pijama, também foi chamado a pronunciar-se à boca das rádios e das televisões. A cidade inteira acordou do torpor sonolento em que já ia mergulhando. Madame Jacqueline, moradora perto do local do sinistro, acordou em sobressalto do pesadelo que sonhava, só não percebeu é que acordara de um para testemunhar outro, embora com a mais-valia de não ser protagonista no segundo.A princípio veiculadas pelos Media, depois por fonte oficial dos gendarmes gauleses encarregues do caso, não tardou que chegassem a público as confirmações. Um terrível acidente custara a vida à Princesa do Povo que, seguindo num potente Mercedes, se despistara num dos túneis de Paris. Diana, a princesa de Gales, mais se pormenorizava (o que talvez não fosse necessário dizer, mas se diz à cautela de algum leitor desprevenido face a matérias monárquicas), seguia com o seu novo companheiro e namorado, um rico herdeiro de um ainda mais rico empresário, dono de um império de negócios. O seu nome, do amante da princesa, lembrava mais a graça de um cachorro, mas enfim... chamava-se Dodi. Crê-se que terá sido dele a orelha que um dos cães vadios que tinham ali chegado antes da Polícia levara pela boca, deliciando-se e babando-se fartamente num beco ali próximo – o animal jamais tivera nos caninos, incisivos e molares tão rico petisco. A suposição não é leviana, pois, uma vez recolhido o animal suspeito, veio a verificar-se que no seu estômago se encontrava um brinco a posteriori reclamado pelo pai do defunto como pertencendo ao seu rebento namoradeiro de princesas. Ajunte-se, a propósito, que o cão também veio a falecer, segundo informação constante dos autos policiais revelados no dia seguinte, não resistindo à intervenção cirúrgica (matéria que reuniu consenso de editorias para abrir 666 telejornais em todo o mundo).

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Dirty Diana - Um terrível conto de terror em 9 capítulos

1. momentos de azar
1997. 31 de Agosto. Sábado. Veloz como um disparo de besta, sibilando sobre o alcatrão da noite, guinando à esquerda e à direita, a primeira ambulância chegou às Urgências do hospital num frémito de sirenes lancinantes e luzes alucinadas. Vinha com motas de polícias à frente, ao jeito de batedores, cada qual com seu agente esbracejando a abrir alas, a tirar todo e qualquer escolho do caminho. Alguns familiares de pacientes internados olhavam a cena com curiosidade mórbida, embora desconhecendo quem para ali era transportado. Recortados a negro, ciganos fumavam a curta distância, encostados a um muro em pose de desafio.
Num freio súbito a carrinha branca estacou e logo às portas traseiras acudiram, céleres, quatro enfermeiros e dois médicos que aguardavam a sua chegada. Depois, um corrupio de tubos de inalação, soro para cá soro para acolá, uma injecção, e logo o corpo (ou aquilo que dele restava), envolvido por batas brancas, sorvido pelos corredores assépticos do hospital onde, como é sabido, só pessoal autorizado pode entrar.
Enquanto narrador desta história permitiram-me a entrada, mas não sem antes assinar uns papéis burocráticos. Ser escritor já foi mais fácil. Fui, alcançando a custo a maca que corria como Fórmula 1 pelos corredores, depois elevadores, novamente corredores, direita, esquerda, e, por fim, uma sala de operações. Aí, novos médicos davam ordens, cruzavam rápidas opiniões sobre o que fazer, mas sempre num frenesi de quem sabia que naquele caso um segundo de atraso numa decisão poderia significar a diferença entre a vida e a morte. Só um enfermeiro resmungou, notoriamente chateado por ter de interromper o visionamento de um episódio de «Serviço de Urgências» que passava na televisão àquela hora. Há momentos de azar...
Depois, o mais que pude ver foi através da estreita e pequena janelinha de vidro que havia na porta da sala de operações. Apesar dos meus protestos literários, um médico, que até tinha lido o meu primeiro romance e dele, assim mo garantiu, gostara, pediu-me para ficar lá fora. Que fizesse o obséquio, que, acreditasse, compreendia as minhas razões, pois sabia que para a descrição exacta dos factos era mais do que desejável que acompanhasse tudo a par e passo, de perto, preferencialmente, que sabia muito bem como eram os críticos com os pormenores, mas que naquele caso não podiam ser contemplativos nem podiam abrir excepções; só os médicos podiam ali estar. Ia ser uma operação deveras delicada.

Outros Silêncios

«No entanto, em psicanálise, o silêncio foi também interpretado pelos primeiros analistas como uma defesa. Uma defesa contra o erotismo oral ou a sua tendência para a incontinência verbal.»

Tito Cardoso e Cunha, «A Loquacidade do Silêncio»

Sim, estive em Sevilha




quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Pedro Zamith

Ora aí está, o artista no seu work in progress. É o Pedro Zamith, artista plástico, que tem exposição de novos quadros, até 10 de Novembro, na Galeria de Arte Arqué, em Lisboa, sita na Avenida Miguel Bombarda, nº 120 A. De segunda a sábado, das 11h às 20h00.

LAICA no ESPAÇO com PEDRO ZAMITH

Na calada da noite


Ontem, na televisão, mais um excelente episódio da série de Joaquim Furtado, «Guerra». Lembrei-me desta foto que outro dia, na calada da noite, tirei. Lembrei-a pelo seu carácter e tom pidesco.

Grass em Almancil


No próximo dia 10 de Novembro, sábado, Gunter Grass vai estar no Centro Cultural São Lourenço, em Almancil, no Algarve, para ler e assinar o seu famoso e polémico «Descascando a Cebola», que a Casa das Letras editou recentemente. Quanto a mim, parece-me que de toda esta amálgama de recordações, descascadas em muitas páginas, se poderia resumir a três capítulos: «As camadas por debaixo da casca», «Chamava-se nósnãofazemosisso» e «Como aprendi a ter medo». O primeiro, porque é nele que Gunter expõe o que pretende fazer com este livro: «Quero ter a última palavra a dizer». É justo e assiste-lhe. O segundo, porque logo expõe o tom confessional em que irá descascar o passado: «O meu acto não pode ser encolhido ao estatuto de estupidez juvenil. Nenhuma coacção me pendia sobre o pescoço (...) Acreditar nele [Hitler] não custava esforço, era uma brincadeira de crianças.» Isto é, Gunter esconjura o perdão por via de uma culpa colectiva, transpõe de alguma forma o seu pasmo pelo Führer para as influências havidas, enquanto criança, de figuras míticas e guerreiras da história germânica. Era, eram, em suma, putos com demasiada «confusão nas cabeças por baixo do cabelo aparado curto.»
O terceiro capítulo aludido será o mais interessante porque concretiza, em termos de descrição precisa, o modo como milhares de imberbes crianças foram envolvidas neste grotesco filme da história. Crianças que estancaram a sua infância e adolescência sob o clamor das armas, jovens cegos pelas atoardas em torno da supremacia da raça ariana. No mais, é neste capítulo que temos um verdadeiro fresco do teatro de guerra, cenas que se vão intercalando por detalhes, por pinceladas, escorregadelas de lâmina adentrando-se na polpa da cebola: como o episódio em que Gunter, por vingança face a castigos sofridos, num assomo de coragem, ter um dia feito chichi para duas chávenas de café de uns sargentos de terceira. Enternecedor, meu caro Gunter. E pronto, quanto a choros é isto, o restante é memória de vida, pré e pós-guerra, como que atenuando os dissabores das lágrimas. A quem esteja por perto.

Sem dúvida, dissuasor


«This stream is watermarked. Please do not attempt to rip or otherwise take this music. We can find you and go all Erik Davis on your ass.»

Foi o que li ao pré-escutar o próximo disco de Cat Power, a sair para o mercado dentro de semanas.

Death Note - Secret Agent L

L - O Agente Secreto

L é também o nome de um famoso personagem de Manga japonesa, o Agente Secreto L!!!

L


A terceira temporada da série televisiva «A Letra L» está já a passar na RTP2. Diariamente, já depois da meia-noite, não vá a estação pública ferir as sensibilidades do telespectador. Aqui publico uma fotografia que um destes dias tirei, em fim-de-semana soalheiro, lá para os lados da Expo. Tipo homenagem.


P.S. Curiosidade, via Wikipédia: A letra L surgiu no ano de 343 a.C. . Criada pelos romanos, a letra é mantida até hoje nos alfabetos de países ortitográficos. (...) L é uma consoante lateral alveolar líquida. (...) Em tamanhos de roupa, L significa "large" - grande. A sua origem é o "lamed" dos fenícios, que significava "cajado" e era desenhado pela adaptação do hieroglifo egípcio de um cajado. Na Grécia, recebeu o nome de "lambda" e evolui para o nosso L.


P.S. 1. A atentar, na foto, ao pormenor da localização da letra G. E, claro, ao momento de gozo e prazer.


P.S. 2. O resultado final de tudo isto fez com que a imagem ficasse com o curioso e muito tecnológico nome LG.

Histórias Fulminantes 42

Acreditava piamente que a Terra não era senão uma bola azul à espera que o taco de Deus a enfiasse às três tabelas num dos vários buracos negros da mesa da galáxia.

Sigur Rós


Está quase. Daqui a uma mão de dias, a 5 de Novembro, os Sigur Rós apresentam dois novos trabalhos: o primeiro, «Heima» (“em casa”), um DVD que inclui um documentário sobre a tournée que a banda realizou na Islândia, ao longo de 2006/ 2007. O filme é realizado por Dean Deblois, nada mais nada menos que o homem que foi nomeado para um Óscar pela realização de «Lilo & Stitch» (2002). No mesmo dia sai também «Hvarf-Heim» (mais uma bela palavra...), duplo CD em que, no primeiro disco, se incluem quatro temas, três inéditos e uma revisão da música «Von», e no segundo, se encontrarão seis temas gravados ao vivo em váruios palcos de digressões.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

O Dedo de Saramago

E porque é que não gosto e me faz tanta confusão e estranheza aquele dedo de Saramago apontado ao valter hugo mãe?

Um dia vou escrever um conto chamado...

O Odor de Perdição

Taco a taco

Sim, pode considerar-se que a música de Anna David é dedicada aos golfistas. Pois, e também podia ser para os futebolistas, mas estes ao menos correm!

Anna David - Fuck You

Nunca gostei de golf


Lê-se, mas quase não se acredita. E para não acharem que invento ou exagero, cito apenas dois excertos noticiosos tirados da Net, isto depois de mosquinha me ter chegado à orelha ao zappar pelo fim-de-semana televisivo e esbarrando com um programa da SIC Notícias, de sua graça Golf Report. Mas, como dizia, lê-se e quase não se acredita:

«Na primeira edição do Portugal Masters, Steve Webster sagrou-se campeão. Filipe Lima terminou na 21ª posição, embolsando 30,750 euros..» Portanto, se bem percebi, o rapaz Lima ficou em 21º lugar e, ainda assim, amealhou 30, 750 euros!
Curioso, vou pesquisar mais sobre o rapaz Lima, e leio, em notícias sobre o corrente ano desportivo do rapaz Lima: «Lima participou em 30 provas do Circuito Europeu, falhou o "cut" por 19 vezes, e não conseguiu qualquer dos grandes objectivos para a época: vencer um torneio e qualificar-se para o Volvo Masters, de Valderrama, prova de fecho da temporada. É a sua pior classificação desde que se tornou membro efectivo do "tour", em Novembro de 2004».
Ok. Ainda assim, fico a saber que o rapaz Lima embolsou, em 2005, 310.464 euros, e em 2006, a módica quantia de 381.222 euros. Portanto, o rapaz Lima, que, ao que concluo do que leio, não dá grande para a caixa, ou para o buraco, ainda embolsa o que embolsa, este ano 314.186 euros.

Não sei porquê, recordo o montante que Gonçalo M. Tavares ganhou recentemente (18 700 euros), ao ser distinguido, entre 200 obras candidatas, de autores brasileiros e portugueses, ao Prémio Portugal Telecom, aquela que é, no Brasil, a maior distinção atribuída a escritores de língua portuguesa.

Rapaz Gonçalo, penso nisto e penso na expressão escrever para o buraco!

Ou desconhecerei o grande legado que o golf deixará à Humanidade?...

Tias e Tios 4 e Final

Razões pelas quais acabei por não gostar do novo romance de Miguel Sousa Tavares:

- Porque senti ter perdido tempo a ler uma não-intriga num livro que mais parece um manual de História da primeira metade do século XX.
- Porque as personagens são incongruentes e pouco consistentes. A começar por Amparo, uma cigana com vontade de criar raízes em terra firme... («Como os ciganos, entre sul e viagem, do outro lado do rio, como ciganos somos de outra margem (...) somos de passagem»... como dizia o poeta Manuel Alegre).
- Porque trata-se muito mais de um tratado das paixões e prazeres de MST.
- Porque esperava muito mais do código genético literário do autor.
- Porque logo, logo se descobre o desenlace da história.
- Porque há uns anos (não há uns anos atrás, como redundantemente se diz no livro) li um conto de MST na revista «O Escritor» que me deixou com boa impressão.
- Porque para fazer de si um escritor não apenas de um só livro, se era para nos dar isto mais valia ter estado quieto.
- Porque de algum modo me sinto enganado pela editora (não por dinheiro gasto, que o livro me foi oferecido enquanto jornalista, mais pelo tempo que nele perdi, podendo estar a ler, por exemplo, o Dino Buzatti que tenho em lista, ou o novo livro de Max Gallo sobre «Nero», os novos contos de Luísa Costa Gomes, entre tantos outros).
- Porque me tinham dito (da editora) que era um grande livro...
- Porque tem (felizmente poucas) descrições patéticas de cenas pretensamente amorosas.
- Porque me parece um livro escrito tijolo a tijolo, leia-se capítulo a capítulo, enviados a conta-gotas para a editora, sem massa substancial capaz de uni-los de forma convincente.
- Porque MST não descola do comentador vituperino que é e chama às personagens e figuras históricas que vão passando pelas páginas o que muito bem lhe apetece, coisa de que o ficcionista se deve abster, de julgar, pelo adjectivo, a História e aqueles que a fizeram, agradem-nos ou não. Que D. Sebastião possa, na sua opinião, ter sido um «imbecil», nada de mal com isso, não tem é o ficcionista de armar-se em sumo julgador da História.
- Porque nunca julguei que MST fosse tão pobre, ao nível da trama romanesca, como uma Margarida Rebelo Pinto (sim, não li «O Equador»)
- Porque o filho de uma poetisa como Sophia não devia usar imagens gastas como as ondas, ou o mar que vem morrer à praia ou às areias...
- Porque um livro com estas debilidades tem 100 mil exemplares de tiragem.
- Porque escrever com técnica não basta. E por vezes nem sequer uma boa ideia basta.
etc.
E, sim, claro, nesta altura já pode bem o autor (e editora) estar a dizer que o problema do blogger é inveja. Será?

sábado, 27 de outubro de 2007

Beirut -

Tratado Europeu

Que sim, que o Governo tem legitimidade parlamentar para ratificar o novo tratado europeu, sucesso maior da Cimeira de Lisboa. Ou seja, Sócrates, que em campanha eleitoral prometeu fazer um referendo, dá ares de agora vir a dar o dito por não dito. Nada de espantar, típico de qualquer político que se preze. Só chateia um aspecto: por um lado, os Sócrates desta vida dizem que os portugueses estão demasiado dissociados do projecto europeu, por outro, quando se trata de os levar a participar em tudo quanto diga respeito à construção desse mesmo projecto acha-se que eles ainda não estão preparados para isso e, logo, referendos para as urtigas; por falta de conhecimento! Ora, não será um referendo a melhor ocasião para debater aquilo que se acusa os portugueses de não conhecerem? E as promessas, Sócrates, as promessas?

Shirin Neshat


Até 23 de Novembro, a Galeria Filomena Soares, em Lisboa, apresenta a exposição individual «Zarin» de Shirin Neshat. Nascida em Qazvin, no Irão, mudando-se para os Estados Unidos em 1974 (actualmente a viver e trabalhar em Nova Iorque), esta é uma das artistas plásticas que mais aprecio. Já anteriormente conhecidos em Lisboa alguns trabalhos seus (nomeadamente na Culturgest e na mesma galeria onde agora expõe), desta feita, mostra-se o seu mais recente filme, “Zarin”, bem como um grupo de fotografias do mesmo projecto. O trabalho de Shirin Neshat refere-se aos códigos sociais, culturais e religiosos do Islão e da complexidade de certas oposições, tais como o homem e a mulher. Neshat procura muitas vezes resolver tecnicamente este confronto social com a projecção dos filmes dispostos de forma concorrente, criando desta forma contrastes visuais baseando-se em valores tais como Claro/Escuro, Preto/Branco, Macho/Fêmea. «Zarin», de 2005, é a história de uma jovem mulher que trabalha como prostituta desde a sua infância. O filme traça a sua lenta desintegração até ao delírio psíquico. Destruída pela culpa das suas acções e pelo forte desejo de salvação, a sua loucura é manifestada pela sua percepção do mundo em seu redor. Com os homens que se cruzam na sua vida a aparecer sem rosto, os sentimentos de horror, vergonha e culpa apoderam-se desta personagem. Julgando ser uma punição de Deus, ela foge do bordel para um balneário público. Numa atitude de desespero, esfrega a sua carne viva e ensanguentada, tentando desta forma compensar o seu passado, contudo, ela é profundamente afundada na loucura, e por fim luta pela sua redenção.

valter hugo mãe


O meu amigo valter hugo mãe (que gosta de assinar mesmo assim, com letra pequena) ganhou o Prémio Saramago, pelo seu romance «O Remorso de Baltazar Serapião» (Quid Novi). Com justiça: a sua escrita, visceral e crua, poética e sensível, tem um mérito principal: é singular. vhm é também autor do romance «o nosso reino» (Temas e Debates) - onde escreve a história do homem mais triste do mundo -, de nove livros de poesia, é pintor e alimenta um dos blogues (casadeosso.blogspot.com) que mais vou visitando.

Tios e Tias 2

Fora tias e tios, vou gostando deste «Rio das Flores», correnteza de bem contar uma história. Sobretudo isso, um técnico bem contar, sem preocupações com o inovar na escrita. Talvez com uma exagerada preocupação na factualidade e contextualização histórica, talvez com um exagerado pendor pedagógico sobre datas, factos históricos e personalidades, que podiam bem presumir-se como matéria adquirida pelo leitor. No mais, está lá (sobretudo em Diogo) o que se conhece como prazeres de vida de MST: as mulheres, a história, a comida, a caça, a aventura, o apelo do silêncio (o que não deixa de ser contraditório em alguém que é dos opinion makers mais intervenientes na vida nacional). Inevitável, meu caro Miguel?

Tias e Tios 1

Tias e tios que, se alguma vez lerem o livro, não vão gostar muito de muito que ali MST escreve. Sobretudo nas referências à Nossa Senhora da Azinheira... Embora talvez gostem de ler que os portuguess são um povo (como já diziam os romanos, por outros latins) que gosta de ser mandado, de «obedecer e calar»... Depois há o «imbecil, incompetente e irresponsável» do D. Sebastião, o Salazar de voz efeminada, e a padrada sempre a reboque das vantagens de contexto político... Não, não creio que as tias e os tios gostem («Ó Miguel, o Miguel é mauzinho...»). Enfim, presumo que as tias, pelo menos - os tios não sei (alguns, se calhar...) -, irão gostar de outras passagens, nomedamente aquelas em que Miguel fala do «monstro adormecido»... Caro Miguel, neste particular já vi o José Rodrigues dos Santos fazer pior!

Tias e Tios

Antes de ontem fui, sem saber, a um encontro de tias e tios. O lançamento do livro de Miguel Sousa Tavares. «Ai, vou levar já um par.»; «Deve passar-se em Copacabana, mas antes das obras...»; «O Miguel é óptimo.» E aqueles fotógrafos canibais, tristemente canibais?... Miguel, por favor, Marcelo, por favor, Manuel, por favor, bem podiam ter avisado!

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Histórias Fulminantes 41

Depois de anos e anos em guerra, os dois lados da fronteira sentaram-se à mesa das negociações. Ultrapassavam-se divergências, diluíam-se antagonismos, quebravam-se silêncios, esqueciam-se ódios. Já depois do almoço, bem regado a Champanhe e selado com muitas promessas e desejos de um futuro fraterno e radioso, quando os dois líderes se preparavam para assinar o armistício, deu-se um revés assaz grave: por descuido, ao esfregar os olhos, Deus deixara cair uma lente de contacto. Foi então que novas e antigas querelas se reavivaram na mente dos dois contendores. Num compasso de espera, já de esferográficas em punho, os dois homens sustiveram as assinaturas, à sua volta já todos se entreolhando e tossicando baixo. Foi o tempo necessário para que Deus tentasse reaver a sua lente, mas por azar aquela caíra nos oceanos e perdeu-se para sempre. Nesse momento o cessar fogo findou.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Cimeira

Não, qualquer semelhança entre o vídeo dos Okkervil River e a Cimeira de Lisboa e o divórcio de Sarkozy é mera coincidência.

Okkervil River - The President's Dead

Histórias Fulminantes 40

Farto de ser invariavelmente passado para segundo plano, um copo de água deu um pontapé na Taça de Portugal. naturalmente que foi a gota de água a entornar as emoções entre os adeptos.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Outros Silêncios

«Para o meu silêncio que queria perfeito escolhi uma casa a reconstruir e dotei-a das protecções máximas contra os ruídos exteriores. Porém como não tinha sorte nenhuma com os vizinhos - talvez pelo facto de eu pronunciar mal a palavra "maison", eu dizia "mais son" - desta vez, hélas, calhou-me o número mais negro da lotaria e tive uma aldeia toda contra mim.»
Manuel da Silva Ramos, «O Silêncio de Monsieur Ramos»

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Cinematic Orchestra - To Build A Home

Parece-me muito bem


VII Semana da Língua Italiana no Mundo

De 22 a 28 de Outubro o Instituto Italiano de Cultura, em Lisboa, abre as portas e propõe um amplo leque de eventos artísticos e culturais que visam apresentar ao público as formas atráves das quais as paisagens e culturas marítimas se reflectem no imaginário da península.
Um ciclo de cinema resume vinte anos de produções fílmicas, desde «O Navio» de Fellini até «Lettere dal Sahara» de Vittorio De Seta. Na aula aberta ao público por Stefano Savio analisar-se-ão as temáticas, as fobias e as paixões de uma Itália que cada vez mais se reflecte nas suas águas. O realizador teatral Luca Aprea encena uma peça com o título de O barco de Pádua para Veneza, com acompanhamento de madrigais venezianos de 1600 e um pintor desenhando painéis ao vivo ao longo da representação. O coreógrafo Jean Paul Bucchieri põe em cena uma leitura dramatizada de poemas italianos e portugueses inspirados ao tema do mar. Ainda haverá um concerto do Bandolim Piano Trio, evocando tradições musicais tipicamente mediterrânicas. Um workshop de gastronomia italiana pelo Bar Tapas Luca proporciona úma excursão gastronómica nos sabores da Sicília. O Restaurante Tavares proporá um menú especial dedicado ao mar. No âmbito da Semana, será também apresentado e projectado o filme-documentário A Ilha de Arlequim de José Medeiros, relato do naufrágio nos Açores de um barco contendo os adereços de cena do Piccolo Teatro de Milão. Leituras animadas de contos de Emilio Salgari serão realizadas para os mais pequenos.

Poema

o medo nervoso
como animal de sangue
acossado pela agonia da noite

o pulso plúmbeo
as mãos minerais
os olhos vítreos intransitáveis

os lábios terra
secos como searas
silabando terror

o corpo despido de nome
e só os dedos
vivos no gatilho bebendo o vento
e o som da madrugada

o soldado assim
soldado a um silêncio
faminto de infância

e de guerras de atirar pedras
chamar nomes
puxar as camisolas
pegar nas bicicletas

e ir para casa
adormecer no colo da mãe

Guerra

«Sessenta e um sangrando, memória de fevereiro acordada denovo com rajadas, colonial chicote ainda zurzir na respiração, grande morte sibilando trêsdias e trêsnoites sem parança.
Sessenta e um memorando na noite antiga!
Adiantaram matar esses comandos?
Sangue de negro lhes caiu nas mãos com maldição!
No primeiro dia se bastaram com prisões. Depois palavra d'ordem era lei a soprar: «é preciso matar esses negros».
Então, jeeps marcaram ferozes caminho de muceque. Perfurando na noite, comandos katerpillaram vala. Sombras rusgaram mais nas portas das cubatas, largando fogo, fogo posto pelas casas, quando não granada de matar, castigando devez sono fingido de família inteira.»

Virgílio Alberto Vieira, «Guerrilheiro é Terra Móvel», Centelha

Benjy Ferree - In The Countryside

Benjy

E a condizer com a poesia de inspiração o'neilliana, a música de Benjy Ferree. A seguir.