quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Muzicool

Ok. Já viram que a partir de agora vos vou dar música.

Pacific! Sunset Blvd Live Studio Virtanen 2007

Outros Silêncios

«Esta é a fala do homem, uma dor súbita
definitivamente entregue a um deus de água.
Saída do fogo, deitada numa terra onde um
corvo poisa pela manhã, a mulher espera que
alguém a transporte para uma zona de silêncio.»
Jaime Rocha, «Lacrimatória», Relógio d'Água

CALLA Strength in Numbers

Bat For Lashes - 'Prescilla'

Dá-me o prazer desta Doris?

Doris Lessing. Acho que o problema será do nome, cheira a romancista de literatura de aeroporto, ou então imagina-se logo o nome a letras douradas sobre uma daquelas capas cor-de-rosa horríveis que costumam ver-se nas mãos dos turistas torrando ao sol nas praias do Verão algarvio, impresso em páginas entre o creme de protecção solar e a caneca de cerveja... Porque, de resto, estou como o Mexia, não mexo no que não sei; pior, não li nem um só livro da senhora. Provavalemente, porque, como muitos, andava a ler outras coisas. Roth, sim. Será que a Academia leu? De qualquer modo, muito bons escritores andarão por estas horas a uivar de inveja por esse mundo fora...

Posta restante


Hoje estou cá com um a(b)cesso de posts que, ou muito me engano, ou vou comer postas de bacalhau ao jantar. Antes isso do que me cruzar com o Jack à ida para casa...

Catalina e a pestana

E porque é que me cheira a vontade de protagonismo este súbito regresso às lides mediáticas de Catalina Pestana, esvoejando nostálgica e descalça na praia enquanto perora sobre a continuidade dos abusos sexuais dentro de uma casa que já não rege nem visita? Não, não gosto do seu ar de padreca, daquele ar de quem é dona da verdade. Cá para mim, a Catalina entrou-lhe foi mas é uma pestana para o olho... Lá está, é a pestana que faz com que Catarina tenha passado a Catalina. Afinal, o l é uma pestana! Mas há lá alguém que se chame Catalina?!!!

Obsessões

Peço desculpa, mas só pode ser gozo para com os incréus. No telejornal da SIC, agora mesmo, ao almoço (provavelmente a ver se o incréu se engasga e vai desta para melhor): «Canonização em risco/ Vaticano tem dúvidas sobre milagres» Mas de que precisa o Vaticano para dissipá-las?: «Nova catedral custa 80 milhões de euros/ Só em 2006 esmolas atingem os 9 milhões e 300 mil euros». Mas há maiores milagres do que estes? Milhares de anónimos que nos venham depositar aos bolsos tais quantias?! Mais, voltando à SIC: «O milagre tem de ser instantâneo, duradouro e absoluto»! Por amor de Deus, «instantâneo, duradouro e absoluto, só mesmo o Nesquick (que por sinal, e por ser da Nestlé - honras à Nestlé -, é o único que eu, celíaco me confesso, posso tomar). E o que pretende o Vaticano fazer para provar essa tal espontaneidade? Enviar uns aleijadinhos para Fátima a ver se as águas bentas lhes fazem algum efeito?... Mas esta gente anda a brincar? E que tal fazer subir o assunto a comissão científica? E que tal aproveitar antes para revelar para onde vai todo o dinheiro das esmolas? Sim, porque deve haver acção social onde gastar o dinheiro! E, já agora, só porque isto me tira um bocado do sério: quando é que alguém faz o milagre de fazer desaparecer (ao contrário, portanto, das pretensas aparições) o tal Monsenhor Luciano Guerra, Reitor do Santuário? Para que conste das suas enormidades, pedindo aqui ajuda ao blog de Fernanda Câncio (5dias.net):
«Não sou dada a coleccionismo, mas há coisas que me fazem abrir excepções. É o caso dos dizeres de Monsenhor Luciano Guerra, Reitor do Santuário de Fátima.
Além dos socos na boca que não interessam nada, aqui ficam mais algumas pérolas da colecção…
«corpos esquartejados de bebés vão aparecer em lixeiras de toda a espécie, ao olhar horrorizado ou faminto de pessoas e de animais» (…) Luciano Guerra considera que a ascensão da esquerda na Europa pode levar a «abortos aos milhões e casamentos de homossexuais aos milhares» (Via Carlos Esperança)
«a castidade é uma urgência» numa sociedade com «multiplicação das ligações, simultâneas e sucessivas». Segundo este responsável, esta «multiplicação de ligações» vai gerando «situações de semi-prostituição, em todos os meios sociais». (…) «Faz-se a apologia do divórcio, desprezando os inocentes, atirados para a valeta, revoltados, deprimidos, acabando na droga, no álcool, na cadeia, no desemprego permanente, no fracasso escolar» (Via Júlio Machado Vaz)
«se o marido engana a mulher, é diferente ser no estrangeiro ou à sua frente». Porque se o faz longe, sabe-se. «Mas se faz o mal onde não há contágio, tem uma atenuante.» (Via Eduardo Prado Coelho)
E mais uma excerto da entrevista publicada na revista Notícias Sábado, do DN de sábado passado - «Tenho para mim que a falta de aproveitamento dos nossos jovens está na sexualidade, que lhes absorve a atenção, mesmo sem estímulos externos, o principal dos quais é a mulher. Você sabe como é a imaginação de um jovem. Ponha agora uma rapariga ao lado e vai ver que ele se distrai mais rapidamente do que com um homem. Os ingleses concluíram isso. Quanto mais você se concentrar num prazer menos tem concentração para aquilo que não lhe dá prazer. É por isso que os drogados coitados, acabam por se drogar noite e dia, porque estão a pensar sempre naquilo. É uma obsessão.»

Histórias Fulminantes 37

Na loja, Bin Laden vestiu a pele do lobo e gostou de se ver ao espelho. A menina da loja até disse que lhe caía muito bem. Questionado sobre se queria experimentar a pele da avozinha, Bin Laden respondeu que não, que preferia antes experimentar a pele da Capuchinho Vermelho. Felizmente para a Capuchinho a menina da loja foi ver e não tinha o número que servisse ao cliente.

Ao autor

Vai nu o poeta nu? E para onde vai o poeta nu, se é que vai para algum lado? Outra pergunta possível: a ir, chegará a algum lado o poeta nu? E a ir nu, vai realmente nu aquele que todos os dias se veste de palavras? E logo: as palavras servem como roupa? E também: tal como alimentam a alma? Por último: tem frio, o poeta? As palavras aquecem? Ou servem apenas de combustão? O que arde melhor: uma folha em branco ou um livro de poemas? E nas cinzas de cada um, o que encontraremos: o nada? o silêncio? O que pomos de nós quando nos pomos inteiros num poema? Um poema, a arder, é a alma a arder? As palavras têm alma?

Jorge Sousa Braga

Decorrerá amanhã, no Porto, às 18h30m, no Café Piolho (Café Âncora d'Ouro), o lançamento dos livros "O Poeta Nu", de Jorge Sousa Braga e "O Século das Nuvens", de Guillaume Apollinaire (versões de Jorge Sousa Braga). Sousa Braga é um dos meus poetas portugueses favoritos, pelo que sentir-me-ia com sorte se lá pudesse estar. Sorte que não vou ter. De modo que deixo aqui o convite a quem ali possa deslocar-se, tanto mais que poderão ainda desfrutar, na ocasião, da leitura de poemas por parte de Adolfo Luxúria Canibal, João Gesta e Rui Reininho.

Shhhhh...

Porque é que não gosto de blogues com posts que nunca mais acabam e sempre com tanto para dizer?

Ora Bolas!

Cristianos de um lado, Mourinhos de outro... Olhando para a História isto um dia acaba mal. Não sei é se Scolari tem um papel nisto tudo...

Neves

Há tanto de demo como de medo.

Neruda

«Há mais suor que ouro».
Pablo Neruda, «Fulgor e Morte de Joaquín Murieta», Campo das Letras

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Sic(k)

Já me esquecia. Doentio. Assim vai o país. Há dias, no fim-de-semana, se não me engano, o espanto e a incredulidade perante uma capital que fecha a sua principal avenida ao trânsito para receber o arraial de aniversário de um canal televisivo privado!!! A diarreia pimba chegou à cidade num arrepio de piroseiras, discursos patéticos e gente da casa (dita jornalista) investida ao estatuto de estrelas de trazer por casa. Conclusão: alarga-se a extensão do domínio da luta!

A Outra Margem

Quem também tem novo filme a estrear, e que recomendo vivamente, é Luís Filipe Rocha. «A Outra Margem» é um tratado sobre o modo como ainda hoje se discrimina a diferença e aqueles que são diferentes da correnteza tida por normal. Na imagem, um dos protagonistas, Ricardo, vestido brilhantemente pelo actor Filipe Duarte.

Paul Auster




Quase dez anos volvidos sobre a adaptação cinematográfica de «Lulu on the Bridge», Paul Auster, escritor aqui convertido a realizador, assina mais um belo momento de cinema. Amor, mistério, fantasia, humor q.b, eis a fórmula de sucesso para um filme que traduz na perfeição muito da essência da escrita do autor. A acompanhar a estreia na Sétima, também o lançamento do igualmente mirabolante «Viagens no Scriptorium» (Edições ASA), a que deve igualmente juntar a reedição de «Poemas Escolhidos» (nas Quasi). Junto fotografia que tirei ao senhor (para entrevista a ler na próxima edição da Magazine Artes), ali rente ao Tejo, e imagem do filme em causa.

A Arrumação dos Dias

DR ptn

Outros Silêncios

«Silêncio. Silêncio. Silêncio.
- Hoje estás mesmo a desarrumar o silêncio, Inês...»

«Cântico do Crime», Joëlle Ghazarian», Edições Quasi

O Problema dos Domingos

«- Inês! Como queres tu que um homem como eu, de idade madura, consiga seguir o que tu contas, sobretudo quando esse homem, que sou eu, tem andado a dormir muito mal ultimamente e quando tu misturas tudo?
- Olha, em primeiro lugar porque hoje é domingo, estás a perceber?
(...)
- Faz-te bem sair de casa ao domingo.
- Ah, pois faz.»


«Cântico do Crime», Joëlle Ghazarian, Edições Quasi

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Bicicletas em Outubro



A minha Alice veio perguntar-me que raio de ciclista era aquele!

Trazidos na noite

I.
Com a tesoura
recortou a Lua. Depois
deitou-se no quarto crescente.

II.
Desde a ventania
de ontem que tento
desprender-me dos teus cabelos.

III.
Um poeta morreu
uma a uma
caíram as pétalas ao silêncio.

IV.
Grande é o verso
que condensa na sua brevidade
o fulgor do existir.

V.
Ao debruçar-se no poço
olhando o seu reflexo
o velho enrugou as águas.

VI.
Com o que lhe restava
da noite arrendou
um quarto escuro para dormir.

VII.
Quando o primeiro homem
acendeu uma fogueira na Lua
o sol não pôde senão rir.

VIII.
A cigarra fez uma pausa
para um cigarro. Depois
pôs-se a escutar o canto da noite.

IX.
Um sem-abrigo
encolhido de frio
perdeu-se dentro do umbigo.

X.
O vento do Outono
acende o Inverno
das fogueiras.

XI.
Depois de roubar
todas as flores do jardim
o rapaz abriu a escola do paraíso.

XII.
O velho
tinha a pele enrugada
como uma triste madrugada.

XIII.
O ladrão esquecera um pormenor;
ao roubar a lua
ficou sem luz para o caminho.

XIV.
Agora vem o Outono
as árvores preparam
a festa das folhas.

XV.
Vi outro dia um amigo
alheado atravessando um livro
na diagonal não pude falar-lhe.

Outros Silêncios

«Protecção da poesia

Graças ao sistema de subsidiar os poetas, alcançaram-se no nosso país muitos dos melhores êxitos que o silêncio jamais obteve».

Carta a Carlos Monsiváis
«O Resto é Silêncio», Augusto Monterroso, Oficina do Livro

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

O Meu Stander

Ide à Póvoa!


No próximo Domingo, perto de uma centena de figurantes, vestidos com trajes feitos à mão, segundo reproduções da época, vão participar num cortejo renascentista, na Póvoa de Varzim. A animação que teria tido um acontecimento destes e a possibilidade de assistir à passagem do cortejo real de D. Manuel I vão encher de vida e colorido as ruas da cidade, no dia 14, a partir das 15h30. Pelos anos de 1500, o rei D. Manuel I terá ido em peregrinação a Santiago de Compostela e, apesar de não se saber qual o caminho que terá seguido para ir até à cidade galega, admite-se que terá pernoitado em Vila do Conde, passando, em seguida, pela Póvoa de Varzim. Para este cortejo foram desenhados e confeccionados 70 fatos completos, todos feitos à mão e com tecidos que se procurou fossem o mais aproximados possível aos da época, o século XVI. O cortejo irá percorrer a cidade desde a zona sul até ao norte, cumprindo o seguinte itinerário: Largo da Lapa, Rua 31 de Janeiro, Praça da República, Rua da Junqueira, Rua dos Cafés, Passeio Alegre e Avenida dos Descobrimentos.

Histórias Fulminantes 36

Sinal dos tempos: Penélope, farta de esperar por Ulisses, decidiu modernizar-se e trocar as agulhas e linhas por jogos de computador. Ainda assim, fiel à lenda, esperou pelo seu amado. Ainda assim, quando ele chegasse não se livraria de uma boa conversa, em banda larga...

sábado, 6 de outubro de 2007

doclisboa

«Enemies of Hapiness»
«These Girls»

De 18 a 28 de Outubro, a Culturgest, Cinemas Londres e São Jorge, em Lisboa, recebem a 5ª edição do doclisboa. Aqui, resumida antecipação de alguns documentários já vistos e a ver.

These Girls [Competição Internacional]
De Tahani Tached
66´ Egipto 2006
Estreado no festival de Cannes 2006, "These Girls" leva-nos até ao universo das raparigas adolescentes que vivem nas ruas do Cairo. Estas mulheres, crianças ou mães, também mães e crianças ao mesmo tempo, desafiam diariamente os mais variados perigos e preconceitos sociais. As ruas e os jardins onde dormem são um universo de violência, medo e liberdade. Da vida como um constante desafio e provação, da condição da mulher enquanto motor de vida e luta.

La liste de Carla [Investigações]
De Marcel Schupbach
95´Suíça 2006
No Tribunal Penal Internacional, Carla Del Ponte esforça-se por conseguir a prisão dos últimos responsáveis pelas maiores atrocidades cometidas durante a guerra na ex-Jugoslávia: Ratko Mladic, Radovan Karadzic e Ante Gotovina. "La Liste de Carla" foi o primeiro documentário a ter acesso ao interior do TPI e a poder seguir o trabalho quotidiano ali levado a cabo para capturar aqueles homens. Processo feito de inúmeros avanços e recuos, a história da maior caça ao homem de todos os tempos é também uma investigação sobre os limites da justiça internacional e do TPI. Documentário sobre uma história in progress, para relembrar uma ferida ainda demasiado viva para ser esquecida.

A Casa do Barqueiro [P]
De Jorge Murteira
63´Portugal 2007
Paulino é o último barqueiro da Amieira do Tejo. Entre as duas margens do rio é ele quem assegura a ligação. Mas raros são os passageiros e a seu posto de trabalho será brevemente extinto pelo poder. Enquanto isso não acontece, Paulino faz da barraca sobre o rio a sua casa improvisada. Vive ao ar livre e só recolhe quando a chuva, o frio ou o vento apertam. Pede e resmunga uma nova casa em condições. Mas quem o ouve? No Inverno e no Outono, aguarda sozinho os clientes perto da fogueira sobre o vale do rio, atento à passagem dos comboios que raramente trazem fregueses. Passam as estações, mantém-se inalterada a bonomia deste derradeiro barqueiro condenado ao inferno da extinção. Um bonito filme que logo, logo será memória.

Metamorfoses [Portugueses]
De Bruno Cabral
48´Portugal 2007
Um documentárioque acompanha a encenação de uma adaptação de "A Metamorfose", de Franz Kafka, pela companhia de teatro Crinabel. A companhia, que atingiu inúmeros sucessos ao longo dos seus vinte anos de existência, reúne um elenco de 14 actores. Tudo isto seria relativamente banal se a companhia não fosse formada maioritariamente por actores com deficiências mentais e trissomia 21. De que forma se processa o delicado trabalho de criação deste espectáculo? Que expectativas individuais e de grupo se geram à volta desta criação? Como é que cada um enfrenta e tenta superar os seus medos e dificuldades? Um filme sobre a diferença, o ser diferente e o tentar esbater ou mitigar essa diferença, filme que poderia muito bem ser visto em complemento do filme de Luís Filipe Rocha, «A Outra Margem», também este mês a estrear.

Enemies of Happiness [Vento Norte]
De Eva Mulvad
58´Dinamarca 2006
Malalai Joya, uma mulher afegã de 28 anos, é candidata às eleições da assembleia nacional afegã. Trata-se da primeira eleição parlamentar democrática no Afeganistão em 30 anos. Rodeada de seguranças, a candidata tenta defender as suas ideias políticas apesar de ter sobrevivido a quatro tentativas de assassinato e receber constantemente ameaças de morte. Ao longo da campanha, encontra-se todos os dias com mulheres que lhe fazem parte da sua vida e das suas dificuldades diante da câmara. Um retrato único das condições de vida no Afeganistão, destruído pela guerra, e onde as tradições têm ainda um peso determinante. Como pode a democracia vingar num país onde os votos são comprados e onde as mulheres não têm condições para votar livremente? Um filme que nos recorda que a democracia não pode ser imposta pela simples presença de diplomatas e de soldados ocidentais. Vencedor do Grande Prémio do Júri no Festival de Sundance em 2007. Um filme sobre a força das mulheres, obrigadas a lutar quase sozinhas contra milenares mentalidades retrógradas, um filme para vergonha dos homens e orgulho feminino.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Histórias Fulminantes 35

Não via nada, nem sequer via o tempo passar, e por isso viveu até aos cem.

Dia dos Animais - Cão


DR. ptn

Dia dos Animais - Um Conto

O Burro que Queria Namorar

Era uma vez um burro que não era nada burro. Isto é, ele tinha tudo aquilo que caracteriza um burro, o pêlo cinzento, macio e sedoso, as orelhas longas e pontiagudas sempre a dar a dar, e um ar, bem, um ar assim, como dizer... de burro! Porém, ao contrário dos burros normais, isto é, os burros «burros», este era muito, mas mesmo muito inteligente.
Era, na verdade, um burro com muitas qualidades. Entre as suas habilidades, este burro sabia fazer o pino durante 7 segundos – o que é muito bom, já que o recorde do mundo de pinos de burro é de 9 segundos e pertence a um burro chinês de uma família de equilibristas circenses –, sabia dizer adeus com as orelhas e, garantia o seu dono, era mesmo capaz de somar dois mais dois, uma conta verdadeiramente difícil! Para um burro, claro.
Era, por tudo isso, um burro muito especial, pelo que tinha sempre muitas visitas de meninos e meninas que se deslocavam à quinta onde ele vivia para admirarem as suas proezas atléticas e matemáticas. O burro, podemos afirmá-lo, era um burro feliz, pelo menos assim parecia, deixando que as crianças lhe fizessem as festinhas que quisessem e até que montassem nele para um breve passeio pelos campos em volta que ele conhecia na palma da mão, isto é, na palma da pata!
Os seus donos também eram pessoas muito felizes, pois o seu burro inteligente dava-lhes grande ajuda e alegria. O senhor Agostinho, coitadinho, já muito velhinho, e a Dona Agostinha, coitadinha, também já muito velhinha, já não tinham idade nem forças para arar os campos. A vida inteira tinham amanhado as terras sozinhos e mesmo depois, quando compraram um burro pela primeira vez para os ajudar nessa tarefa, a sorte saiu-lhes furada. É que o burro que compraram, esse era mesmo burro! Tanto que lhe puseram o nome de Zuzuto. Para começar, como todos os burros, era teimoso, muito teimoso, e ainda por cima era mandrião, não gostava nada vezes nada de trabalhar, só queria mesmo era ficar à sombra de uma árvore deitado, com um chapéu na cabeça, entretido a mastigar palha com uns grandes dentões amarelados. Depois, quando bem lhe apetecia, deitava a correr pelos campos por cima das colheitas e atrás das tontas das galinhas e só fazia burrada! Está mesmo a ver-se o que lhe aconteceu, na primeira oportunidade o senhor Agostinho, coitadinho, e a senhora Agostinha, coitadinha, foram a uma feira na cidade mais próxima e trataram de o vender.
Foi quando estavam para se vir embora, tristes por terem ficado sem burro, e já a pensar na carga de trabalhos que iam ter pela frente com as sementeiras desse ano, que, ao passarem por um vendedor de burros anão, um belo burrico lhes chamou a atenção. Quando dizemos que o burro lhes chamou a atenção, foi isso mesmo que aconteceu. Está-se mesmo a ver porquê, era o nosso amigo burro inteligente que, ao perceber o estado de desânimo dos dois velhotes, decidiu chamar a sua atenção com um zurro que mais parecia um chamamento. Dir-se-ia que o próprio zurro era um zurro muito inteligente. Não foi preciso mais, o senhor Agostinho, coitadinho, e a senhora Agostinha, coitadinha, apaixonaram-se logo pelo olhar do burro e, com o dinheiro da venda do Zuzuto, compraram aquele burro.
O burro, agradecido, tratou logo de os levar aos dois na garupa de volta para a quinta. Era um burro muito forte e por isso aguentava com duas pessoas em cima, e nem sequer foi por isso que demorou mais tempo na viagem do que se carregasse apenas um dos donos em cima. Houve até um agricultor que ao vê-los passar na estrada pensou que se tratava do primeiro burro Ferrari da história! Foi uma emoção para os dois velhinhos, que desta vez estavam convencidos que tinham acertado na mosca!, perdão, no burro!
E acertaram mesmo. Aquele era um burro como de outro assim nunca se ouvira falar em todo o mundo. Bem, pelo menos ali na região, isto porque, já se sabe, o mundo é muito grande e há-de haver em todo o globo terrestre muitos burros de tal calibre e com capacidades semelhantes. Outro dia, o Senhor Agostinho, coitadinho, contou à Dona Agostinha, coitadinha, que alguém lá no café da aldeia lhe tinha dito que tinha lido num jornal que havia no Japão um burro capaz de andar de patins em linha, e um outro na Tasmânia – vá lá saber-se onde é que esse país fica... – que tinha a mania que era pessoa e por isso andava sempre em pé. “Acho que foi daí que veio a expressão «burro em pé»!” – disse a Dona Agostinha, coitadinha, e o senhor Agostinho, coitadinho, concordou.
O que interessa é que este burro, para os dois, era o melhor e mais inteligente burro do mundo. É que para além de todas as habilidades de que era dotado, para além do bom comportamento e da boa vontade que sempre demonstrava, o Inteligente, como lhe chamaram, nunca dizia que não à lavra dos campos. Corria-os de lés-a-lés e de Sol a Sol e só no fim do trabalho é que ia comer a sua refeição. Que era sempre um belo repasto, diga-se. O Senhor Agostinho, coitadinho, e a Dona Agostinha, coitadinha, estavam-lhe muito agradecidos e por isso presenteavam-no com os melhores petiscos que arranjavam, tudo, claro, a acompanhar pelo melhor feno, pela melhor palha e pela água mais limpa e fresquinha que iam buscar ao ribeiro.
E assim tudo corria na quinta com grande alegria e felicidade. Mas essa alegria não durou para sempre. Certa manhã, o senhor Agostinho, coitadinho, e a senhora Agostinha, coitadinha, reparam que o Inteligente estava com um olhar muito triste e que não se queria levantar. A princípio, não perceberam porquê. Será que o Inteligente estava zangado com eles, que diabo de bicho lhe teria mordido? Se calhar uma mosca, ou então uma abelha, pior, uma cobra! Será que tinha sido mordido por uma cobra? Se calhar sim, pois com aquela embirração com que estava havia de ter sido uma grande mordedura!
O Senhor Agostinho, coitadinho, pôs-se a falar com o Inteligente e como este nada lhe dissesse julgou que a sua própria inteligência não estava à altura de poder falar com um burro, um burro inteligente, claro, porque com outros burros o Senhor Agostinho, coitadinho, sempre falara. Deu voltas e mais voltas à volta do animal, mas nada, ele nem saía do lugar. Os olhos estavam vazios e ausentes, e no canto de um deles via-se mesmo escorrer uma grande gota de água... Água?... Água, não, era uma lágrima, o Inteligente estava a chorar!
Foi então que a experiente e sabedora Dona Agostinha, coitadinha, percebeu logo o que se estava a passar. O Inteligente sentia-se triste porque estava sozinho havia já muitos meses. Como todas as pessoas e como todos os animais, também o Inteligente sentia a falta de companhia. Por outras palavras, ela queria uma namorada! Foi o que a Dona Agostinha, coitadinha, disse ao Senhor Agostinho, coitadinho, e, para seu grande espanto, foi o Senhor Agostinho, coitadinho, que ficou mais vermelho do que um pimento, corando como se fosse uma criança. Os dois velhotes deixaram então o burro a verter águas e mágoas e foram para casa beber um chá, pensando em como resolver a situação.
Não havia solução senão uma, encontrar uma namorada para o Inteligente. E tinha de ser com urgência, pois que os campos não podiam deixar de se lavrar. Mas não ia ser tarefa fácil, tinham de arranjar não uma qualquer burra, como por aí há muitas, mas uma burra que fosse minimamente inteligente. Uma burra que ao menos tivesse um zurrar apresentável e que, se possível, fosse bonita. Decidiram voltar à feira na cidade. Na manhã seguinte, ainda o Sol não tinha acordado, os dois velhotes saíram da quinta em bicos dos pés para não acordarem nenhum animal, isto porque queriam fazer uma surpresa ao seu burro Inteligente. Apesar de todos os cuidados, ao fecharem a cancela de madeira ouviu-se um estalido e ao fundo o Galo Gargalo, como se chamava porque tinha um pescoço que nunca mais acabava, ainda abriu um olho, mas felizmente não se lembrou de cantar a anunciar o dia.
O senhor Agostinho, coitadinho, e a senhora Agostinha, coitadinha, eram muito boas pessoas e gostavam muito do seu burro, estavam-lhe muito gratos por todas as ajudas que ele lhes dera nos últimos tempos e, por isso, não olharam aos preços quando escolheram a companheira para o Inteligente. Compraram a burra mais bonita e mais cara que encontraram e logo ali lhe puseram o nome de Bela. A burra Bela ficou toda contente com os seus novos donos pois também percebeu de imediato que iam ser muito seus amigos. A Dona Agostinha, coitadinha, até lhe pôs logo à volta do pescoço uma coroa de flores, toda colorida e bem cheirosa, para que quando chegasse ao pé do Inteligente este ficasse logo interessado. A burra Bela caminhava rumo à quinta toda contente e satisfeita, vaidosa como nunca, tanto que a cada loja por que passavam ela não deixava de tentar ver o seu reflexo nos vidros das montras. Sonhava mesmo em um dia vir a tornar-se modelo! Bem, lá que era magrinha e jeitosinha, lá isso era... Agora, daí a tornar-se modelo...
Chegaram os três à quinta ainda era manhã cedo. O Galo Gargalo já tinha cantado, as galinhas e os patos já cirandavam a debicar o milho pelo chão, as aranhas já preparavam as suas teias, e as abelhas já tinham começado a procurar pólen nas flores mais bonitas da quinta, pois tinha-lhes chegado uma mensagem da Abelha-Rainha a dizer que tinham tido uma encomenda muito importante e urgente de 20 litros de mel, por isso, queria toda a gente a trabalhar, até mesmo as abelhas mais rezingonas e abelhudas. O senhor Agostinho, coitadinho, e a senhora Agostinha, coitadinha, disseram à burra Bela que não zurrasse até chegarem ao estábulo onde se encontrava o Inteligente ainda a dormir. Foi o que ela fez. Aí chegados, prostrados mesmo à frente das barbas do Inteligente – que, por andar tão triste, nos últimos dias nem sequer tinha encontrado ânimo para fazer a barba –, foi só esperar que ele desse pela sua presença, o que aconteceu logo a seguir.
Quando o Inteligente acordou e olhou para a Bela nem quis acreditar. Parecia que lhe saltava o coração, os olhos arregalaram-se e de um pulo pôs-se em pé, levantando o peito a dar mostras da sua valentia e galhardia. A burra Bela gostou do que viu, percebeu logo, pelo brilho do seu olhar, que se tratava de um burro muito inteligente, para além de ser um belo burro... O senhor Agostinho, coitadinho, e a senhora Agostinha, coitadinha, logo também deram conta de que já estavam ali a mais, pelo que se retiraram para sua casa, fechando a porta do estábulo, deixando assim os dois burros à-vontade para que travassem conhecimento, melhor dizendo, para que acelerassem...
Foi o que aconteceu, em coisa de semanas o Inteligente e a Bela já eram como marido e mulher, para onde um ia, logo o outro se predispunha a ir. Ajudavam-se nas tarefas do campo e partilhavam mesmo, com grande intimidade, o mesmo bebedouro e a mesma manjedoura. O Inteligente, esperto que nem uma raposa, deixava sempre para sua Bela o melhor bocado de feno, no que era um sinal de grande cavalheirismo e amor!... A alegria, como se adivinha, logo, logo voltou à quinta, que agora, em vez de um só burro, tinha dois burros para entreter a criançada. Dois? Só dois?... Bem, isso foi no início, porque passados poucos meses o senhor Agostinho, coitadinho, e a senhora Agostinha, coitadinha, certo dia pela manhã, deitaram a correr para o estábulo onde se surpreenderam com o nascimento de um par de belos burrinhos. A sua alegria foi enorme, tal como a do Inteligente e da Bela que zurravam a bom zurrar, dando assim rédea livre ao seu contentamento. Se juntarmos esses zurros aos zurros dos pequenos burrinhos, vocês são bem capazes de imaginar o berreiro, ou deveríamos dizer antes «burreiro»?

Histórias Fulminantes 34

Notícia de última hora: um Jumbo da Air Zoo chocou com o elefante Dumbo. A Sociedade Protectora dos Animais afirma que todas as revisões do Dumbo estavam em dia. Mais adianta que irá interpor uma queixa-crime contra a Air Zoo que, por sua vez, veio já a público questionar as faculdades para o voo da velha personagem de animação.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Por Entre as Linhas

Miguel Palma, «Transbox»

António Olaio, «Dial M for Me»


Ana Jotta, Sem Título


André Guedes, «Pessoas, Grupos, Lugares, Valores e Datas»


Pedro Barateiro, «Aprender de Cor»


Luísa Cunha, «Não é preciso dizer mais nada»

Fernanda Fragateiro, «Não Ligar 1 e 2»

Inaugura hoje no Museu das Comunicações, em Lisboa (Rua do Instituto Industrial, 16), ficando patente até Abril próximo, a colectiva de arte contemporânea «Por Entre as Linhas». Sucede por ocasião das comemorações dos 10 anos da Fundação respectiva e a convite de Isabel Carlos, dez artistas portugueses elaboram e mostram o resultado das suas abordagens ao tema. Comunicar, de resto, um verbo que escapa a muitas das obras plásticas contemporâneas que se vão fazendo, assim se distanciando do público. Aqui, oportunidade em simultâneo para conhecer o interessantíssimo espólio do Museu das Comunicações, uma miríade de objectos com os quais se confrontam e relacionam as obras de arte realizadas para a exposição. Para além daqueles com obras aqui reproduzidas, participam ainda Fernando José Pereira, Vasco Araújo e Filipa César.

Gira-Discos


Que dizer da senhora Polly Jean Harvey neste seu regresso aos discos com «White Chalk» senão reputá-la de sublime?! Voz de anjo («The Devil»...), melodias de cristral («Silence»), pianos lúgubres («Grow, Grow, Grow»), ambiências soturnas («Dear Darkness»...), sonoridades sussurradas («When Under Ether»), canções que soam como ecos de lugares sem nome ou tempo («White Chalk»), divagações musico-espirituais («Broken Harp»), jogo de sombras sonoras («To Talk to You»)... Quem disse que PJ já pensava em retirar-se? Bem, na verdade parece realmente tratar-se de um retiro, o resultado de um retiro musical; na verdade, na verdade, um tratado musical. Naturalmente, não para quem afine por melodias TNT de comprar, ouvir e deitar fora.

Quinta da Regaleira - Em visita













DR ptn

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Outros Silêncios

«Levo uns días caladiño de máis, seino. Pero é que hai crónicas que se escriben mellor con tinta invisible, desa que en principio parece deixar a folla en branco, pero que tras un tempo desvela o segredo do seu silencio.Ben, pois estes días ando a procura dese silencio. Prometo volver pronto, ganas non me faltan.»

blog cronicasdeoz.blogspot.com

O Problema dos Domingos

O passeio dos mortos

À partida do Inverno o domingo traz de volta
o passeio dos mortos. Pálidos
frios
esgotados avançam luva na luva e sobretudo
amortalhados. O muro da estrada ruiu
à entrada do estio são
os domingos do ano
(domingos de céu ímpio)
dia de irmos aos teus familiares
ou aos meus. Nas tardes de à beira-mar
há rádios em desafio (ele há
sábados cheios daquilo que esvazia
os domingos).

João Luís Barreto Guimarães, «Luz Última», Cotovia

Gira-Discos


«Strenght in Numbers». Quinto álbum dos nova-iorquinos Calla. Seguramente nos dez melhores do ano.

Os juros das prestações

Em desespero de casa mudaram-se para debaixo da ponte.

domingo, 30 de setembro de 2007

Histórias Fulminantes 34

O que é que andas a ler?
Nada. A andar já não consigo ler, fico zonzo.

Para pensar

80 milhões de euros para rezar.

Histórias Fulminantes 33

Fortuito. Fortuito e imbecil, como todos os pequenos acidentes domésticos. Patético também. Como habitualmente fazia todas as manhãs, penteava-se ao espelho e foi, num segundo de descuido, que ao fazer a risca acabou por riscar o ex-marido completamente da sua cabeça. Um acto inadvertido que veio a revelar-se fonte da sua futura felicidade. Chama-se a isto escrever direito por riscas tortas.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Tábuas


Ontem, um Ibsen fenomenal pelo Teatro da Cornucópia. Luís Miguel Cintra e Beatriz Batarda em estado de graça sobre o palco. Obrigatório.

Outros Silêncios

«A rapariga diz para o amigo que o seu escritor preferido é o Murakami. Fez, por causa dele, um curso de escrita criativa durante o Verão. Depois de o frequentar, diz, sente-se apta a escrever um romance e a tornar-se escritora. Eu ouço-a em silêncio e esbofeteio-a em silêncio.»

blog Ana de Amsterdam

Flamenco em Lisboa


DR ptn

Gira-Discos

A ouvir, em breve nas discotecas:

Iron & Wine, «The Shepard's Dog»
Joe Henry, «Civilians»
Psapp, «Tiger, My Friend»
Devastations, «Yes, U»

e no YouTube ou no MySpace:

Lavender Diamond
Pacific
José Gonzalés
Feist
Emiliana Torrini

Aprovado

Pedro Santana Lopes, silenciado em directo na SIC Notícias pela chegada de José Mourinho ao aeroporto da Portela, resolve parar com a entrevista que dava e deixar pendurada e parvónia a jornalista de serviço. Aprovadíssimo. Pedro, subiste muitos furos na minha consideração. E já agora, interromperá a SIC Notícias a sua emissão regular para ir filmar Mourinho na sua primeira ida à casa de banho de regresso a casa?

A questão é

Porque é que esses tipos (Bernardo Carvalho, Aquilino Ribeiro, Paul Auster, Augusto Monterroso, Miguel Torga) escrevem todos tão bem?

A questão é

Porque é que ando a ler cinco livros ao mesmo tempo?