terça-feira, 14 de agosto de 2007

Pois é!

Pois é, patrão fora, dias santos no blog!

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Outros Silêncios

«É para os lados do silêncio
que as vozes se encaminham...»

Amândio Sousa dantas, «Pousado no Silêncio», Edições Ceres

Biblioteca


«O Burro Que Anda no Céu», de Alface, é uma história cheia de humor e non-sense escrita a pensar na miudagem dos 8 aos 88. Recentemente falecido, Alface, que se estreou com esta obra na literatura infanto-juvenil, chega assim novamente ao mercado editorial. As ilustrações são de Viktoriya Borshch, uma jovem ilustradora ucraniana que a Ambar está a lançar em Portugal. Um regresso feliz do homem que com um simples postal («Cuidado com os Rapazes») fez tremer Santana Lopes. «Sacana do Lopes», terá dito quando soube...

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Borg vs Alexandre Andrade


Ténis. Vejo as velhas glórias disputando pontos em Vale do Lobo (ou Vá de Lobo, como dizem as tias e vips veraneantes que se pavoneiam pelas bancadas). Este ano, interesse acrescido, a presença-regresso ao circuito de Björn Borg, o sueco maravilha dos anos 70 e 80. Hoje, Borg tem 51 anos. O cabelo louro, a la viking dos courts, ainda crescido sobre os ombros, já não rima com a pele dos 50 e com o olhar já sem o brilho de outrora. As pernas tremem quando o amortie pede a corrida, o poder do smash cede ante o poder maior do tempo. Custoso. Como custoso ver e comprovar que nem sempre «a fragilidade do corpo pode ser superada pelo robustecimento do carácter.» É claro que o mesmo poderá valer, e certamente vale, para aqueles em princípio de carreira. É o que escreve Alexandre Andrade («Cinco Contos sobre Fracasso e Sucesso», Má Criação»), ajuntando que isso mesmo «afiançam os instrutores nos primeiros minutos do primeiro dia, rodeados por raparigas e rapazes que cobiçam o peso da raquete, que mal podem esperar pela primeira troca de bolas a velocidades estonteantes».

Outros Silêncios

«E esses sulcos abertos no silêncio
são palavras
ou veios de papel?»

António Mega Ferreira, «Os Princípios do Fim», Quetzal

Cesariny relançado


A Assírio & Alvim e a Atalanta Filmes preparam-se para lançar, conjuntamente, dois livros e um DVD testemunhos da obra de Mário Cesariny. É já amanhã, e assim se celebrará o dia em que o autor completaria 84 anos. José Manuel dos Santos apresenta Poemas de Cesariny ditos por Mário Cesariny, um livro com o CD onde se reproduzem poemas gravados no Verão de 2006 e Miguel Gonçalves Mendes apresenta Autografia / Verso de Autografia o seu livro/ entrevista (com fotos de Susana Paiva) com o autor agora publicado juntamente com o DVD do filme distribuído pela Atalanta Filmes que arrecadou o prémio para Melhor Documentário Português no DocLisboa 2004.

Ironias Salazarentas

Não, com tanta edição livreira, com o seu nome tão alapado à livralhada que vai saindo, Salazar já não dorme, nem pode sequer descansar. Com tanto zunzun em torno do homem já não há sossego! Agora, o livro de Domingos Amaral, «Enquanto Salazar Dormia», vai ter edição no Brasil. Imagine-se, o ditador que nunca pôs pé fora do luso quintal, a viajar para terras de Vera Cruz em capa de livro! Mal fez o Marcelo Teixeira, da Oficina do Livro, que não quis pôr ao livro do Tiago Salazar («Viagens Sentimentais») o nome «Quo Vadis, Salazar?» - eram vendas garantidas!

Erva

É verdade. Agora, segundas-feiras à noite, lá estarei, sentado e obediente em frente à televisão aguardando que a RTP2 não desvirtue o horário de «Erva», uma das melhores séries de televisão que por aí andam.

Histórias Fulminantes 23

A caravana circense chegou à aldeia e todos convergiram para o local onde assentaram arraial. Palhaços, domadores, trapezistas, mágicos, equilibristas, malabaristas, cães amestrados e leões adocicados, elefantes sonantes e focas ambulantes, nenhum deles e nenhuma das muitas atracções conseguia, porém, rivalizar com o interesse que suscitou o homem mais forte do mundo, o homem que dizia ser capaz de levantar o Levante.

Outros Silêncios

«... era apenas um pouco de silêncio
o sol dançava entre os dedos
as rosas perturbavam o tempo.»

João Ricardo Lopes, «Os Dias Desiguais», Labirinto

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Ora Bolas!

Joe Berardo gatinhando o português no Jornal das Nove com Mário Crespo cada vez mais curvado para dentro de si, sorrindo no seu jeito de tartaruga. Ficámos a saber que o Comendador se acha amigo de um homem (Jardim Gonçalves) que, minutos antes, acaba de acusar de fraude e de crime de colarinho branco. E, claro, o Benfica também veio à baila por via do bailinho da Madeira em que o empresário madeirense se anda a meter com as acções do clube das águias.

Outros Silêncios

«Quando menino encompridava rios.
Andava devagar e escuro - meio formado em
silêncio.»

«Porém, vendo o Homem
que as moscas não davam conta de iluminar o
silêncio das coisas anónimas -
passaram essa tarefa para os poetas.»

Manoel de Barros, «Compêndio para Uso dos Pássaros», Edições Quasi

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Gira-Discos - The Bongos


O nome deixa algo a desejar, é certo, mas tal não impede que se recomende atentíssima audição a esta edição especial (com 27 faixas!) do álbum de estreia dos The Bongos, uma das bandas mais activas no início dos anos 80 e precursoras da chamada música alternativa. Oriundos de Hoboken, New Jersey, os The Bongos são liderados por RichardBarone, que se faz acompanhar por Rob Norris, James Mastro e Frank Giannini. «Drums Along the Hudson» inclui ainda versões raras gravadas ao vivo e novas gravações de estúdio produzidas por Moby.

O sucesso!

Eu, escritor nas horas vagas e inspiradas, o maior sucesso de escrita que tenho é aquele que este simpático blog me afiança a cada vez que publico um post: «A sua mensagem de blogue foi publicada com sucesso!»

Eu escritor, obviamente demito-me!

«José Mourinho - Vencedor Nato», da Texto Editores, esgotou a primeira edição após uma semana apenas em bancas! O livro do Mantorras também parece lançado nos tops de vendas. Adeus romance, adeus poesia, adeus literatura infantil, adeus contos! Chamem-lhe um figo! A literatura nunca andou tão por baixo, ali, logo ali, a lamber a relva que aqueles santos pés dos joagdores hão-de pisar para júbilo das hostes de leitores.Não há para aí um jogador qualquer que queira que eu lhe escreva um livrito?

Ora Bolas!

Pois é, o meu amigo António Venda é que sabe de bola, digamos que tem memória de elefante para nomes de jogadores, esquemas tácticos e contabilidades diversas, golo aqui, golo acolá, o outro que foi expulso, o árbito que devia ter sido, eu sei lá... Mas eu, porém, também sei algumas coisas e sei, depois do triste torneio algarvio, pré-feira de vaidades com lugar cativo também no estafado open das relíquias tenísticas, que este Sporting (que é nosso, meu e dele) não augura grande época. Para mim, são russos a mais! E o Derlei? Aqui d'el Rei!!! Nem um desgraçado penalti consegue marcar. Mas já levaram o homem à bruxa? António? Que dizes tu?

A arrumação dos dias


Biblioteca



Contente-se o amante da boa literatura. A versão portuguesa chega finalmente um romance de John Fante. Trata-se do romance autobiográfico «A Confraria do Vinho» (Teorema), que se lê de uma assentada, embora se saboreie na boca como um belo vinho.

domingo, 5 de agosto de 2007

Histórias Fulminantes 22

Ultimamente, as pessoas gastavam tanto tempo nas salas de espera que a direcção do Hospital decidiu contratar uma empresa de reciclagem. No dia seguinte à decisão, um homem muito velho apresentou-se dizendo que vinha recolher o tempo do dia anterior. Consta que o homem passou os cem anos e só faleceu quando os médicos fizeram greve e as consultas foram todas desmarcadas.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Gira-Discos


Beth Ditto, com os seus mais de cem quilos e voz potente, dá o mote e poderosa imagem de marca aos The Gossip. Formados em 1999, no Arkansas, estiveram no último SBSR, convenceram público e este magnífico «Standing in the way of control», já de 2006, revela porquê.


O Meu Stander


Histórias Fulminantes 21

Tinha falta de ar e por isso coleccionava vento. Abria uma janela, deixava que o vento entrasse e depois, rapidamente, fechava a porta enclausurando-o no seu quarto. Um dia quando chegou a casa tinha tudo de pantanas. Com falta de ar, um dos ventos ali retidos tinha-se descontrolado transformando-se em furacão.

Outros Silêncios

«Mas já a luz irrompe com passos de leopardo
E a palavra levanta-se ondula e cai
E é uma longa ferida e um silêncio cristalino»

Octavio Paz, «Antologia Poética», Dom Quixote

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Histórias Fulminantes 20

Era uma vez uma boneca russa com graves problemas psicológicos. Chamava-se Matrioska e, segundo os médicos que a internaram, acreditava ter múltiplas identidades. De acordo com o boletim clínico divulgado à Imprensa, a boneca teria de ficar sob cuidados médicos intensivos sob pena de fragmentar a sua existência até à morte. A sua mãe, Rússia, temeu ante a eventualidade de perder parte da sua identidade com o hipotético falecimento da filha. Mais tarde, o próprio Ministério do Turismo russo veio a público alertar para o perigo de danos colaterais, pelo que achava ser da maior prudência internar também a mãe. A mãe Rússia ouviu e não gostou da ideia. Naturalmente que o Ministro em causa foi destituído do cargo, preso e julgado por atentar contra a pátria.

Um bom moço


Só falta mesmo dizer que é rapaz de boas intenções...

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Doping

gosto
francamente
da volta à frança
não gosto
francamente
de com o final
da volta à frança
voltar
invariavelmente
a pedalar
o ar
de lisboa

Horas trocadas

os relógios
do poema
não consegue o poeta
acertar

Ditos treslidos

o silêncio
é de coiro - aprendeu
a golpe de chibatadas
o preso que se recusou
a delatar os seus companheiros

Anomalias - Conto a conta-gotas - Fim

Prédios de má fama

Quando o homem que chorava por não ter aberto a porta ao amor, quando este lhe bateu à porta, reuniu dinheiro suficiente, mercê da sua mediatização televisiva e colunas de opinião pagas a peso de ouro, deixou o apartamento do prédio onde morava. Mudou-se então para um condomínio privado e passou a abastecer com as suas lágrimas ininterruptas, diluvianas, a piscina respectiva. Não era, contudo, feliz, porque se é bem certo que ter dinheiro dá muito jeito, a verdade é que não abrir a porta ao amor é muito mais grave do que não abri-la à sorte grande. Por sorte, no seu caso, o não ter aberto a porta ao amor foi como se tivesse aberto a porta à sorte grande. Não é assim tão complicado. Complicada, tornou-se, alguns meses depois, a vida do senhor do 7º, que, tendo já decorrido algum tempo, continuava a não pagar rendas e, encostado à parede pelos vizinhos condóminos, viu-se na circunstância de ter de aceitar a administração do condomínio. É claro que não aguentou e desta é que foi, ou melhor, se foi: mandou-se em voo livre. Era demais para um prédio que já tinha tanta má fama e publicidade; tremeu nos alicerces e ruiu acabando com a história.

domingo, 29 de julho de 2007

Anomalias - Conto a conta-gotas

XIX.

Presidente honorário (mas sem honorários)

No prédio do senhor do 7º, o que tinha ameaçado suicidar-se por causa da chinfrineira do homem que continuava a chorar por não ter aberto a porta ao amor, e que só não se suicidou por lhe tinham desculpado as rendas de condomínio em atraso, todos tinham ficado boquiabertos com a notícia do triplo assassinato, porque todos de imediato reconheceram a cara da Dona Sandra, a menina do prédio ali ao lado, aquela que, afinal, como vieram a saber, era a dona do tal cão que tinha sido abandonado, depois apedrejado até à morte por miudagem de má rês e, por fim, lançado no fundo do poço a que, em tempos, chamavam dos desejos. A verdade é que o choque não foi maior do que quando todos souberam que Sandra, afinal, era a dona do Bones, o pobre do cão que, abandonado por troca com umas férias-de-trabalho no Algarve, arriscou ladrar à solidão e foi morto, facto em consequência do qual resultou o tal cheiro estranho e pestilento que durante alguns dias alarmou e intrigou a vizinhança a ponto de ter surgido nos elevadores uma missiva em papel A4 pedindo a todos os condóminos que verificassem se nas suas arrecadações não estaria algum animal morto ou outra qualquer «anomalia» – foi o termo utilizado. Como o choque não foi maior, porque abandonar um cão é coisa que não se faz, o único comentário que se ouviu, da boca do senhor Azevedo, que por acaso até era presidente honorário (mas sem honorários) da mesa da assembleia financeira do Clube Português de Canicultura foi: «Puta que a pariu, cá se fazem cá se pagam.» O senhor Azevedo, já nos esquecíamos de dizer, era também o dono do Misha – um homem amargurado, portanto, desde que o seu gato desaparecera sem se dignar telefonar-lhe.

Cenas da próxima gota:

Quando o homem que chorava por não ter aberto a porta ao amor... ... Mudou-se então para um condomínio privado... ... Por sorte, no seu caso, o não ter aberto a porta ao amor foi como se tivesse aberto a porta à sorte grande...

sábado, 28 de julho de 2007

E agora, para um momento poético

fosse assim o mundo
em ponto de rebuçado
e os homens crianças
disputando apenas o chupa
chupa à boa vontade
de um deus descontraindo
em férias na noite
de todas as esplanadas
rente ao mar do Verão

sexta-feira, 27 de julho de 2007

E se...

E se a filha/ neta (não sei se as tem) do Alberto João Jardim quisesse abortar? E se não podendo fazê-lo na Madeira viessem a?... E se não podendo outras mulheres venham a?... O pior não é erradicar Jardim, o pior, nesta altura, é erradicar o medo que sopra na ilha. Sócrates esteve bem as palavras, aguarda-se que meta na ordem Jardim. Quanto a Cavaco, importava nesta matéria de saúde pública e respeito pela lei que desse mais cavaco ao assunto.

O poema

O poema é a maior de todas as janelas.

Anomalias - Conto a conta-gotas

XVIII.

A morte da esposa antes do Jorge Gabriel

O Alves soube da morte da esposa pelos noticiários televisivos. Foi mesmo quando estava prestes a mudar o canal para ouvir os comentários do Jorge Gabriel que a voz da locutora lhe prendeu a atenção ao falar num triplo assassinato em Lisboa. A verdade é que as mortes de Juliana e de Sandra (bem analisada a história, apenas porque falavam e falaram demais) apenas tiveram eco porque a elas se sucedeu, cronologicamente, a morte do homem de fato cinzento. Sim, porque a morte de um homem que veste fato cinzento, que se faz deslocar num BMW série 7, tem lugar reservado na garagem, pisca o olho às secretárias, passa horas na Internet a jogar póquer e ver miúdas, conversa sobre bola entre amena cavaqueira futebolística ao fim da tarde, e, sobretudo, é um empresário bem sucedido numa nova área de negócios tão prometedora como a da venda de Silêncio, é claro que essa morte é sempre mais relevante do que morte, ainda que tão brutal, de meros funcionários anónimos do sistema. No caso concreto, e como as três mortes estavam relacionadas, pelo menos assim logo a Polícia o deduziu, verificando o calibre das munições utilizadas, quer o homem de fato cinzento, quer Juliana e Sandra, tiveram direito aos seus famosos quinze minutos de estrelato televisivo – pena é que não estivessem vivos para assistir... «Foda-se!», disse o Alves. E sorriu com a sorte que tivera! «E não é que foi outro cabrão qualquer a sujar as mãos, poupando-me ao trabalho!», comentou, logo, logo carregando no botão do comendo televisivo a ver se ainda apanhava os comentários do Gabriel. Alves estava feliz, mesmo que desconhecendo que enviuvava cornudo, mesmo ignorando o balúrdio que iria ter de gastar com o enterro da Juliana.

Cenas da próxima gota:

No prédio do senhor do 7º... ... todos de imediato reconheceram a cara da Dona Sandra... ... A verdade é que o choque não foi maior do que quando todos souberam que Sandra, afinal, era a dona do Bones... ... «Puta que a pariu, cá se fazem cá se pagam.»...

terça-feira, 24 de julho de 2007

Outros Silêncios

«Silêncio? Que quer dizer? Que diz a boca do mundo?»

Carlos Drummond de Andrade, «Claro Enigma», Cotovia

Anomalias - Conto a conta-gotas

XVII.

Abílio confere a cor do fato


Se há coisa de que malandro não gosta é de ser ludibriado por malandro. Abílio, homem à antiga, educado na base do ou respeita ou se mata, não esteve com meias medidas. Comprou uma pistola com silenciador e começou a limpeza. Juliana foi a primeira vítima, mas só depois de obrigada a contar a quem tinha passado a informação sobre a qual jurara silêncio. Passo seguinte, Abílio pegou no seu velhinho Fiat 124, agora em versão Tunning, e dirigiu-se à empresa onde Juliana trabalhava. Juliana, Sandra e o homem de fato cinzento. Entrou, disse ao porteiro que ia levar uma carta ao Senhor Doutor – «Aquele, o de fato cinzento? – «Esse mesmo!» –, subiu, tocou à campainha e entrou. Sandra nem teve tempo para perceber quem ele era, o que queria e ao que vinha. Levou um balázio no meio da testa e caiu no chão. Um Abílio furioso, podemos garanti-lo, é uma das piores coisas que pode acontecer a alguém. Senão vejam, com um pontapé na porta do gabinete do homem de fato cinzento, Abílio entra de rompante, confere a cor do fato, dá uma espreitadela ao site de miúdas que estava linkado na Net e, acto contínuo, desfere mais um tiro certeiro na testa do homem de fato cinzento que estava mais branco do que um rato branco. Com a calma que assiste aos assassinos, Abílio foi-se embora não sem antes agarrar na chave do BM. Algum proveito havia de tirar da cornatura. Nunca tinha entrado numa máquina daquelas. Acelerou a fundo e desapareceu. Pensa-se que fugiu para Espanha, onde, julgava, havia boas possibilidades de o seu negócio vingar e onde talvez ainda ninguém se tivesse lembrado da ideia.

Cenas da próxima gota:

O Alves soube da morte da esposa pelos noticiários televisivos... ... «Foda-se!», disse o Alves. E sorriu com a sorte que tivera!... ... Alves estava feliz, mesmo que desconhecendo que enviuvava cornudo...

segunda-feira, 23 de julho de 2007

The Elephant Man






The fisherman's boat

DR ptn

Outros Silêncios

«Porque o amor será sempre do silêncio»

Daniel Faria, «O Livro do Joaquim», Edições Quasi

Cultura do futebol?

Ontem, um comentador futebolístico-televisivo falava muito e cheio de propriedade em «cultura do futebol». Confesso, é um conceito que me escapa... E espantam-me estas tiradas sobretudo porque, invariavelmente, saem da boca de gente inculta a quem, também invariavelmente, a massa cinzenta parece ter descido aos pés desde tenra infância.

Anomalias - Conto a conta-gotas

XVI.
Já os cornos de Abílio mais lhe cresciam

Quando o Abílio se apercebeu, ao dirigir-se ao Registo Nacional de Propriedade Industrial, de que fora «passado para trás» e que, algures no caminho entre a germinação da sua fabulosa ideia e as suas démarches para a pôr em prática, houvera uma fuga de informação, que é como quem diz «fuga de Juliana», passou-se dos cornos. Sim, porque nem só o Alves tinha cornos. Cornos, aliás, há-os de várias espécies, e estes, com que a puta da Juliana e, por corolário, Sandra e o homem de fato cinzento, lhe tinham adornado a testa, também não eram dos melhores e mais fáceis de suportar. Como era homem à antiga, armou-se logo de decisões e vinganças. Estava visivelmente fora de si e caminhava pelas ruas com um ar eufórico. Ai de quem lhe tolhesse passo! O que lhe tolheu a passada foi uma montra. Uma montra muito jeitosa, decorada apenas com um pano de seda de cor leitosa. E era sobre esse manto branco, puro e angelical, que surgiam, pela primeira vez, aos olhos de Abílio os diversos CDs da colecção «O Silêncio Quando Nasce é Para Todos». Já os cornos de Abílio mais lhe cresciam e os seus olhos lhe largavam as órbitas, quando repara que nas ruas, ali ao seu lado, diversos transeuntes levavam já os CDs nas mãos. Já em casa, explodiu de raiva ao ver as aberturas dos noticiários, dando conta das edições rapidamente esgotadas dos CDs contendo silêncio, e o anúncio publicitário onde o homem que chorava por não ter atendido quando o amor lhe bateu à porta promovia a supracitada colecção «O Silêncio Quando Nasce é Para Todos».

Cenas da próxima gota:

Se há coisa de que malandro não gosta é de ser ludibriado por malandro... ... Abílio pegou no seu velhinho Fiat 124, agora em versão Tunning, e dirigiu-se à empresa onde Juliana trabalhava... ... Abílio foi-se embora não sem antes agarrar na chave do BM... ... Acelerou a fundo e desapareceu.

sábado, 21 de julho de 2007

Os monstros da Alice




Árvores












«Olha estas velhas árvores, - mais belas
do que as árvores moças, mais amigas,
tanto mais belas quanto mais antigas
vencedoras da idade e das procelas...

o homem, a fera e o insecto à sombra delas
vivem livres de fomes e fadigas;
e em seus galhos abrigam-se as cantigas
e a alegria das aves tagarelas...

Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo! Envelheçamos
como as árvores fortes envelhecem:

Na glória da alegria e da bondade,
agasalhando os pássaros nos ramos,
dando sombra e consolo aos que padecem.»


Olavo Bilac, «Poesia»

Outros Silêncios

«Só no silêncio se abrem todas as bocas,
despertam todas as vozes.»

Maria Sofia Magalhães, em «Da Sombra Que Somos», Deriva

Histórias Fulminantes 19

Duas famílias antagónicas e inimigas, uma de judeus e uma de palestinianos, mudaram-se para terreno neutro tentando provar que a coabitação era possível. Dessem-lhes terreno e a possibilidade de construírem as suas casas e tudo o mais que as fazia divergir ficaria para trás – assim pensavam os mentores da ideia. E assim se fez. Do nada, mostrando-se contentes, as duas famílias foram construindo as suas casas indo buscar blocos de pedra a uma pedreira próxima. Cada qual rezava para seu lado, ao Deus que queria, quando queria e quanto o entendesse. Todas as manhãs os vizinhos cumprimentavam-se e gabavam-se mutuamente as respectivas casas que iam crescendo a olhos vistos. À vez, iam-se servindo dos blocos de pedra necessários para as obras e, por vezes mesmo, ofereciam-se para levar as pesadas pedras uns aos outros. Em certa ocasião, o vizinho judeu pediu mesmo ao vizinho árabe um conselho sobre decoração. O vizinho árabe de bom grado respondeu e aproveitou para também colocar ao seu vizinho judeu uma questão acerca da qualidade dos materiais para os futuros acabamentos de interiores. O vizinho judeu respondeu com prazer. Pela primeira vez em muitos anos, as televisões puderam filmar crianças judias e palestinianas a brincarem juntas. E assim, ao longo de cerca de um ano, as duas famílias viveram numa coexistência pacífica, parecendo demonstrar ao mundo que, para além das divergências religiosas, o fim do conflito que separava as suas nações dependia apenas da construção de objectivos comuns. Algumas semanas depois, quando as habitações de ambas as famílias estavam prestes a ser concluídas, quando apenas restava colocar uma pedra a cada uma das casas, os dois pais de família acordaram bem dispostos e dirigiram-se para a pedreira a fim de trazerem consigo as últimas pedras. Foi quando lá chegaram que viram que restava apenas uma pedra disponível. Foi então que as notícias deram conta do final do cessar-fogo e as televisões se deslocaram ao local filmando o que restava dos brinquedos no jardim.

Anomalias - Conto a Conta-Gotas

XV.

O-i-o-ai, só a mim ninguém me cala

A história do homem que chorava ininterruptamente por causa de não ter aberto à porta ao amor ainda fazia correr tinta nos jornais e justificava tempos de antena nos programas televisivos da manhã, bem como nas aberturas de noticiários em horário nobre. Acreditem ou não, o nosso homem que chorava tornou-se, também ele, comentador televisivo, assumindo primeiro plano e granjeando vastas audiências. Começou também a assinar crónicas em jornais, uma delas num novo semanário, chamando à sua coluna «Chorar ao Sol». Numa revista cor-de-rosa, o título da coluna era outro: «Chorar sobre o Molhado». O homem que chorava estava na moda e foi nele que o homem de fato cinzento, ainda ao volante do seu BMW, pensou para assumir o rosto da campanha publicitária que na sua cabeça já fermentava. Seria uma coisa simples, mas eficaz. No ecrã televisivo aparecia o nosso homem que chorava precisamente a chorar durante alguns largos segundos e depois o som do seu pranto baixava, ouvindo-se a pergunta: «Está a ouvir este homem? É um homem que chora por todos os lados. Quantas vezes já pediu a Deus que o calasse? Fale connosco, o seu vizinho do 7º já o fez e reencontrou a felicidade.» Noutro anúncio, dezenas de bebés surgiam à volta de um homem sentado numa poltrona a tentar ouvir o Jorge Gabriel no «Jogo Falado». Lentamente, a câmara aproximava-se dos olhos do homem e aquilo que mostrava era um olhar apavorado, ouvindo-se de seguida «Se não pode calá-los, junte-se a nós.» O homem de fato cinzento, mais rato que os outros, estava quase a chegar ao escritório mas ainda teve tempo de pensar num outro spot. Uma câmara avança por entre dezenas e dezenas de corpos e conversas de mulheres, depois de algum tempo encontra um homem numa cadeira. Um grande plano da sua cara mostra que está feliz, o plano retrocede um pouco e mostra que o homem tem headphones nos ouvidos pelo que pode, relaxadamente, preparar-se para ouvir a emissão com Jorge Gabriel. E é este que diz, no final, «O-i-o-ai, só a mim ninguém me cala, mas para elas há uma solução!»

Cenas da próxima gota:
Quando o Abílio se apercebeu, ao dirigir-se ao Registo Nacional de Propriedade Industrial, de que fora «passado para trás»... ... passou-se dos cornos... ... O que lhe tolheu a passada foi uma montra... ... Já em casa, explodiu de raiva ao ver as aberturas dos noticiários...

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Anomalias - Conto a conta-gotas

XIV.

Prestes a conseguir um Royal Flush

O homem de fato cinzento é, na verdade, um rato de negócios. A vida, para ele, é-lhe ensinado desde os primeiros passos e desde as primeiras palavras, é uma grande armadilha; uma espécie de gigantesco restaurante onde os homens, em economia livre, se comem todos uns aos outros. Metaforicamente, claro está. Ora, este nosso homem de fato cinzento (e o cinzento dos seus fatos talvez tenha, no fundo, que ver com a cor dos roedores citados) é um rato maior e mais inteligente que os seus pares. Para alguma coisa também terá, de resto, servido tanto empenho e investimento dos seus progenitores nos seus estudos. E já se começa a perceber o porquê do BMW e outras coisas. Não admira, pois, que este nosso homem de fato cinzento, ao ouvir a história que Sandra lhe contava, sobre a ideia de negócio do tal de Abílio, ao que parece o amante da Juliana, tenha no imediato arrebitado as orelhas, sinal de que lhe cheirara a dinheirola. O mundo é cruel, fraca gente tem muitas vezes fortes ideias, mas é a forte gente que delas vem a tirar lucro e proveito. Antes que o Abílio desse passo na concretização dos seus intentos, já o nosso homem de fato cinzento tinha saído mais cedo do escritório, tinha deixado um póquer a meio, quando estava prestes a conseguir um Royal Flush, e se dirigia ao Registo Nacional de Propriedade Industrial, registando o seu negócio de venda de silêncio. Satisfeito com a sua sagacidade e rapidez de actuação, saiu do edifício triunfante, entrou no BMW que deixara mal estacionado em cima do passeio, e dirigiu-se a uma loja de placas e placards e coisas afins pedindo uma placa em amarelo doirado dizendo: «O Silêncio é de Oiro».

Cenas da próxima gota:

Acreditem ou não, o nosso homem que chorava tornou-se, também ele, comentador televisivo... ... O homem que chorava estava na moda... ... dezenas de bebés surgiam à volta de um homem sentado numa poltrona a tentar ouvir o Jorge Gabriel no «Jogo Falado».... ... «Se não pode calá-los, junte-se a nós.»

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Em viagem com Michel Bourles






Anomalias - Conto a conta-gotas

XIII.

Uma posição a defender

Creio que já o aventámos. O homem de fato cinzento não é por acaso que veste fato cinzento. Digamos que ele tem uma posição e uma imagem a defender. Quais?... Claro, a posição de Doutor. Nas ruas, nos bares, nos cafés, nos cinemas, nos casinos, ninguém sabe o que ele faz. É Doutor. Ponto final. E ser Doutor nos dias que passam é importante, é ter uma imagem a defender, justamente, a imagem de homem de fato cinzento, de preferência fazendo-se deslocar num BMW topo de gama. Na sua vida, tudo, de resto, é de topo: comida, bebida, viagens, roupa, equipamento electrónico, tudo. A questão é, como se chega a homem de fato cinzento? A resposta não é fácil, mas há algumas pistas que permitem ao bom observador reconhecer um potencial futuro homem de fato cinzento logo nos primeiros anos de vida. Como, por exemplo, a T-Shirt de marca às riscas, a risca no cabelo sempre direitinha, jamais pisar o risco em termos de comportamento... Enfim, já se vê, uma vida riscada logo de início. É como se tudo já estivesse nele programado à nascença. Estão a ver a sua mãe, ainda de esperanças: «O meu filho vai ser um homem de fato cinzento»! Ou então o pai, olhando a sua colecção de gravatas: «Um dia, o meu filho há-de ser um belo homem de fato cinzento e há-de querer usar todas estas gravatas às riscas.» Depois, a vida faz o homem de fato cinzento, boa escola, boa vida, boa cunha, boa empresa. Tudo a direito, rumo ao lugar reservado na garagem do prédio de escritórios. Nestas vidas, dos homens de fato cinzento, não há como se enganar. Um dos fundamentos básicos da aprendizagem dos homens de fato cinzento é nunca desaproveitar uma boa ocasião. A ocasião faz o negócio, mesmo se também signifique dar a conhecer o ladrão. Como foi no caso deste nosso homem de fato cinzento, o do BM, do lugar na garagem, da piscadela de olho a Sandra, da Internet, tal, tal, tal.


Cenas da próxima gota:


O homem de fato cinzento é, na verdade, um rato de negócios... ... E já se começa a perceber o porquê do BMW e outras coisas... ... uma placa em amarelo doirado dizendo: «O Silêncio é de Oiro»...

segunda-feira, 16 de julho de 2007

O Ig(Nobel)

Saramago, uma vez mais, no seu melhor. Ontem, em entrevista a João Céu e Silva, no «DN», veio, qual prestidigitador da nação, título de que se deve achar merecedor, preconizar, até mesmo secundar, quiçá apoiar, a inclusão futura de Portugal naquilo a que chamou uma Ibéria. Por outras palavras, Saramago anda alheado do que seja o projecto de construção europeia, desconhece que o futuro do grande espaço europeu se faz mediante agregação e não por via de integrações. Pior é parecer-lhe bem aquilo que agoira - coisa em que os comunistas são pródigos, agoirar! -, que o país que lhe deu a língua em que escreve e se expressa possa vir a fenecer sob o jugo de uma Espanha disfarçada de Ibéria. De resto, não recordo discurso, texto ou entrevista alguma de Saramago em que o Nobel vislumbre à sua volta um lampejo de optimismo, de esperança, o que quer que seja. Chateia é que o nosso Nobel insista em meter colherada a torto e a direito em seara alheia; isto é, como nenhum outro nobelizado, Saramago mete o bedelho em tudo, critica tudo e todos, provavelmente achando que a distinção de Estocolmo lhe granjeia estatuto de vidente ou grande juiz. Que Saramago goste dos espanhóis porque estes lhe curvam a espinha da crítica literária, coisa que certamente lhe faz bem ao seu vasto e conhecido ego, compreende-se, que descambe em atoardas sem pingo de patriotismo só porque talvez ache que Portugal não se lhe curva como ele desejaria, isso já não se compreende e muito custa a admitir. A não ser a vendidos e quejandos sem pinga de amor próprio.