Chesterton. Gilbert Keith Chesterton, um dos grandes escritores britânicos dos séculos XIX/ XX (1874-1936). A Europa-América publica um dos seus clássicos em livro de bolso. «O Homem que era Quinta-Feira» é um magnífico relato político-filosófico em torno dos ideais do anarquismo e da moral humana. Dito mestre do paradoxo, Chesterton tem um discurso denso, elaborado, poético e filosófico. Pena é que o tamanho do corpo da letra desta edição de bolso nos ponha os olhos também em tamanho de bolso... pena também os lapsos de revisão, por vezes graves, muito graves.
sexta-feira, 13 de julho de 2007
Leituras de Areia
Chesterton. Gilbert Keith Chesterton, um dos grandes escritores britânicos dos séculos XIX/ XX (1874-1936). A Europa-América publica um dos seus clássicos em livro de bolso. «O Homem que era Quinta-Feira» é um magnífico relato político-filosófico em torno dos ideais do anarquismo e da moral humana. Dito mestre do paradoxo, Chesterton tem um discurso denso, elaborado, poético e filosófico. Pena é que o tamanho do corpo da letra desta edição de bolso nos ponha os olhos também em tamanho de bolso... pena também os lapsos de revisão, por vezes graves, muito graves.
Anomalias - Conto a conta-gotas
X
Abílio vai ao tapete
Nem só os árbitros como o que roubou o Sporting são filhos da puta. É que há diversos modos de roubar, e nenhum é pior que os outros. Roubar é roubar. Ganha quem rouba mais, é a única diferença. Depois, há aqueles que sabem roubar e os que não sabem. Os primeiros, roubam e enriquecem. Os segundos, roubam e caem na merda, o mais das vezes atrás das grades. Abílio, o amante de Juliana, é da estirpe dos primeiros. Tire-se-lhe o chapéu que o homem sabe fazer a coisa. O truque, confessou ele a Juliana entre suores e lençóis, é saber aguardar pelo momento exacto. Ao bom malandro cabe-lhe apenas ser paciente, essa é, sem dúvida, a sua maior virtude. Não fez a coisa por menos, foi num outro dia de lençóis, mas também tapetes, que ouviu da Juliana os pensamentos para o ar do seu marido, o Alves, e logo se lhe fez luz. Os pensamentos sobre o silêncio, estarão recordados. A coisa de isso ser um bom negócio. Mas foi mais longe, nada de pacotinhos ou acções nem coisa que o valha, Abílio ia ser o primeiro vendedor de silêncio. Em que formato? Simples, CDs, CDs de silêncio. Um espectáculo de ideia; foi aí que, rejubilando com a sua inteligência, acabou por rolar com Juliana da cama para o tapete. E até lhe soube bem, aquele «leito» duro, o arranhar nas costas. «Ai, Julí, Julí, que ainda vamos fazer as malas mais cedo do que o que podíamos esperar!»
Cenas da próxima gota:
Se bem o pensou, melhor o fez... ... Calado que nem um rato... ... «O Silêncio é de Oiro» pareceu-lhe apropriado... ... «Cansado do mundo? Ouça o silêncio que temos para si.»...
quinta-feira, 12 de julho de 2007
Anomalias - Conto a conta-gotas
IX.
Hei-de pensar nisso à séria
É de um tipo se atirar ao silêncio. Mas o mundo não vai permitir, o mundo não deixa, o mundo não vai deixar. A garganta do mundo não se cala. Na garganta do mundo cabem todas as mulheres como Juliana e como Sandra e cabem também todas as estações televisivas do mundo, e cabem ainda todos os comentadores do mundo, de todos os jornais, revistas e televisões, e cabe todo o ruído das cidades, dos trânsitos, do lixo musical, dos cães que ladram à solidão e que se calhar deviam calar-se. Há quanto tempo o mundo não se cala? O silêncio? O silêncio não existe, é uma palavra que devia ser erradicada do dicionário. Não há silêncio desde que o mundo nasceu e desde que nasceu que o seu choro se espalha pelos séculos, atravessa os tempos e vem acolher-se nos nossos ouvidos. Porque é aí que o ruído vive, nos nossos ouvidos, é de nós que se alimenta. Havia de ser um bom negócio, o do silêncio. Silêncio em pacotinhos, silêncio engarrafado, silêncio aos gomos, perfumes de silêncio, acções de silêncio, fundos de silêncio, silêncio em suaves prestações, silêncios a prazo, capitais de silêncio. Hei-de pensar nisso a séria, pensa a brincar Alves, o marido de Juliana enquanto pesca umas e outras da conversa do «Jogo Falado».
Nem só os árbitros como o que roubou o Sporting... ... Tire-se-lhe o chapéu que o homem sabe fazer a coisa... ... Os pensamentos sobre o silêncio, estarão recordados... ... «Ai, Julí, Julí, que ainda vamos fazer as malas»...
terça-feira, 10 de julho de 2007
Best of Saramago
Notícia: «O prémio Nobel de Literatura (1998) José Saramago alertou nesta segunda-feira a imprensa colombiana para uma "tentação autoritária" observada em sectores de esquerda que chegaram ao poder na América Latina. José Saramago disse que a esquerda "sofre uma espécie de tentação maligna que é a fragmentação" ao responder a uma pergunta do jornal El Tiempo sobre o ressurgimento de governos desta tendência na América Latina; deu a entender que mantinha suas reservas. "Há uma tendência autoritária em muitos países. Nada restou dos ideais", afirmou o prêmio Nobel, que também adotou um tom crítico com relação aos grupos armados que atuam na Colômbia, incluindo as guerrilhas de esquerda.» Mas onde é que este homem tem andado? Em que mundo tem vivido? Tentação? Só tentação?!
Leituras de Areia
«O Nosso GG em Havana» (Dom Quixote). Escreveu o cubano Pedro Juan Gutiérrez (Matanzas, Cuba, 1950) com a sua verve habitual. Destilando alcoóis e sexo barato quanto baste, tecendo um fresco assaz elucidativo sobre o viver e o sobreviver em Cuba, e em Havana em concreto (cidade à qual já dedicara vários livros). Como mote, um enredo mediano e «apressado», baseado em factos reais ocorridos na década de 50, que tem por protagonista o escritor Graham Greene, alicerçado em duas ou três achegas sobre obscuros interesses político-ideológicos que grassam a ilha de Fidel. Espanta é como Gutiérrez ainda consegue viver e escrever em Cuba!
Anomalias - Conto a conta-gotas
VIII.
Antes a vozinha do Ricardo
Juliana é uma mulher que gosta de falar. Sandra também. As mulheres, em geral, gostam de falar. As suas conversas são como hipermercados, nelas tudo se encontra, todas as histórias são possíveis e todas são passíveis de intermináveis comentários. O marido de Juliana é que já não a suporta. O homem anda desgraçado da vida. Chega a casa ao fim do dia, de rastos, e ainda tem de levar com as histórias do emprego de Juliana. Hoje foi a vez da história da Sandra, a colega que acredita em coincidências e que, ao que parece, viu uma novela na 4 e que não sei quê, e tudo se assemelhava à sua vida e também havia um cão morto! Que diabo, um cão morto!? E isso é notícia? Faz conversa? Uma merda de cão morto!? Há certamente qualquer anomalia na cabeça destas mulheres, resmunga para consigo Alves, o marido de Juliana que está prestes a ter uma coisa má, pois não há maneira de a mulher o deixar ouvir os comentários do Jorge Gabriel ao seu Sporting e ao filho da puta do árbitro que sancionou o golo com a mão no último jogo para a Liga. «Antes a vozinha do Ricardo», pensa.
Cenas da próxima gota:
É de um tipo se atirar ao silêncio... ... Há quanto tempo o mundo não se cala?... ... Havia de ser um bom negócio, o do silêncio... ... pensa a brincar Alves...
segunda-feira, 9 de julho de 2007
Anomalias - Conto a conta-gotas
VII.
Que giro!
Era curioso como a história da novela da 4 tinha semelhanças com a história e a vizinhança de Sandra. Porque Bones era o nome do cão de Sandra e porque, ao que vão as coincidências, até havia uma Dona Sandra na história que podia muito bem ser... ela! Que giro! Amanhã no escritório já teria pano para mangas de conversa com a Juliana. Sim, porque Sandra lera um livro e, ao contrário do que lá se dizia, acreditava em coincidências. Pois não era uma coincidência a história da novela? E não era uma coincidência ter encontrado a sua alma gémea no seu agora mais-que-tudo homem de fato cinzento? E não era uma coincidência que também ele, à imagem dos seus anteriores homens de fato cinzento, fosse igualmente casado? Claro que sim.
Cenas da próxima gota:
Juliana é uma mulher que gosta de falar... ... O marido de Juliana é que já não... ... Que diabo, um cão morto!? E isso é notícia? Faz conversa? Uma merda de cão morto!?...
Esta vai para o Salazar
Modernos
domingo, 8 de julho de 2007
Enfim, livre!
Anomalias - Conto a conta-gotas
VI.
O do 7º esquerdo
Houve então um homem, o do 7º esquerdo, que por acaso era canhoto, politicamente à esquerda, usava risca no cabelo do lado esquerdo e tinha um carro com o volante à esquerda, mas que não acreditava em coincidências, que, perante o berreiro do vizinho, ameaçou suicidar-se, coisa que, ao contrário do senhor Azevedo, do rés-do-chão, podia fazer, já que vivia no 7º e o acto pensado de suicídio consistia num voo livre picado. Todos protestaram ao vê-lo acercar-se perigosamente da marquise que dava para o poço onde um certo cão, de sua graça Bones, fora encontrado, ao que parece para ali lançado por miudagem com requintes de malvadez. Ninguém queria mais publicidade negativa no prédio, já bastava o cão, que nem sequer era de nenhum deles, mas pertencia à Dona Sandra, do prédio ao lado, já bastava o choro do homem que, esperando, não foi atender o amor à sua porta e agora definhava em pranto para todo o sempre. Donde que lhe suplicaram que desistisse dos seus intentos. E foi o senhor Azevedo que, após a mais rápida reunião de condóminos do mundo (coisa para figurar no Guiness, e em adenda tal ponto ficou de se tratar em reunião seguinte), e ainda que a contragosto, algo azedo, comunicou ao senhor do 7º que em troca da sua desistência de pôr fim à vida lhe perdoariam o ano e meio de rendas de condomínio em atraso e a promessa de que ele, no ano seguinte, não teria de assumir a administração do prédio. O homem do 7º esquerdo achou bom o negócio e reentrou com o pé direito em casa. Só mais tarde se lembrou de que não resolvera o problema do barulho com a choradeira do senhor que não atendeu o amor e que por isso continuava num pranto desmedido – qual Maria Madalena qual quê!
Cenas da próxima gota:
Era curioso... ... Porque Bones era o nome do cão de Sandra... ... Que giro!... ... Sim, porque Sandra lera um livro... ... Claro que sim...
sexta-feira, 6 de julho de 2007
Anomalias - Conto a conta-gotas
V.
A testemunha e a carta
Na novela da 4 havia um homem que esperava. Toda a sua vida tinha esperado. Esperado que a sorte lhe batesse à porta, esperado que o amor lhe batesse à porta. Os dias passavam, a campainha tocava, voltava a tocar, insistia novamente, mas ele nem se mexia. Tinha medo, medo que fosse o azar a bater-lhe à porta. Ou então um daqueles meninos chatos a quererem fazer inquéritos à hora do jantar, ou então o sacana do guarda nocturno (a pé a desoras!) a cobrar não sei o quê ou que mensalidade com um ar de quem nos olha e diz «se não passas para cá a massa parto-te o carro todo», ou, quem sabe até, um par de senhoras idosas a quererem vender a fé de Cristo para ajudar à construção de uma igrejola lá na sua freguesia, quem sabe mesmo, uma testemunha de Jeová perguntando se Deus já me visitara! Certa tarde a campainha da porta soou insistentemente, parecendo mais que quem tocava fosse um cobrador, um daqueles tipos de fato negro apostados em só desandar dali para fora quando as dívidas fossem saldadas. O homem que esperava, que toda a sua vida tinha esperado e que, por medo, nunca atendia a porta, nesse dia estremeceu. Enterrou-se no sofá a ouvir a estridência da campainha à medida que suores frios lhe iam assolando o corpo e, quando finalmente, já ao fim da tarde, quem lhe batia à porta desistiu de o fazer, descobriu que tinha ganho uma brutal enxaqueca. Só alguns dias depois, quando recebeu uma carta registada, soube que perdera a oportunidade da sua vida – o amor batera-lhe à porta e ele não atendera. «Lamentamos informá-lo mas acaba de perder a oportunidade de conhecer o amor da sua vida.» O homem caiu então num choro terrível, num berreiro que mais parecia estarem ali a abrirem um porco à facada, e foi uma chatice. Lá no prédio foi uma enorme chatice porque, a partir desse dia, já ninguém conseguia pregar olho.
Houve então um homem, o do 7º esquerdo... ... Todos protestaram ao vê-lo acercar-se perigosamente da marquise... Donde que lhe suplicaram que desistisse dos seus intentos...
quinta-feira, 5 de julho de 2007
Anomalias - Conto a conta-gotas
Sandra também não chorou
Porque o homem de fato cinzento lhe prometeu divorciar-se em breve, porque lhe prometeu aumento salarial, porque lhe prometeu, no futuro próximo, algumas escapadelas ao estrangeiro, quem sabe, já para o mês que vem, ao Brasil. A mulher? Que não, que Sandra não se preocupasse, ele tratava do assunto, trataria do assunto com o mesmo profissionalismo com que conduzia os seus negócios, com a mesma lisura com que vestia diariamente o seu irrepreensível fato cinzento, saía de casa, chegava ao escritório às nove, entrava no seu gabinete, jogava póquer na Internet, almoçava, discutia futebol com os porteiros do prédio, voltava à Internet e depois regressava a casa, noite alta, conduzindo ao som do «Bancada Central». Por tudo isto, por acreditar no seu homem de fato cinzento, Sandra chegou a casa, sentiu um leve mau cheiro no ar, mas nem se lembrou de saber por onde andava o Bones. Sandra, portanto, não chorou. Limitou-se a ligar a televisão, sintonizando a novela da 4.
Cenas da próxima gota:
Na novela da 4 havia um homem que esperava... ... Só alguns dias depois, quando recebeu uma carta registada, soube que perdera a oportunidade da sua vida... ... Chorou horrivelmente...
quarta-feira, 4 de julho de 2007
Histórias Fulminantes 18
Anomalias - Conto a conta-gotas
Misha, volta para casa!
Um dos condóminos tinha um gato. Misha. Misha tinha fugido num dos dias anteriores à morte de Bones. Arriscara a sua sétima vida e, tendo-se cruzado com o azar em forma de automóvel largado na CRIL a mais de 150, não voltou. Desapareceu. Pelo menos foi esse o verbo que se leu, durante os dias seguintes, num tosco papel A4 colado com fita-cola nalguns postes de electricidade do bairro e arredores. Quando o condómino dono do Misha leu a missiva sobre o mau cheiro no elevador, assustou-se à leitura da passagem que falava na hipótese de haver um animal morto numa das arrecadações – uma qualquer anomalia, portanto. Foi verificar na sua arrecadação e não encontrou nada, nem sinal do seu amado Misha. Por isso, não deixou de acreditar, por isso, durante algumas semanas, se pôde ler nos postes de electricidade, e também junto a alguns Multibanco, é bem verdade, um emotivo texto pedindo ao próprio Misha que voltasse para casa, que pedisse aos senhores com quem se cruzasse que lhe telefonassem, que voltasse para casa. «Misha, volta para casa!» A notícia de que afinal o mau cheiro provinha de um cão morto atirado para o fundo de um poço não o fez estremecer, nem obscureceu as lágrimas vertidas por Misha.
Cenas da próxima gota:
Porque o homem de fato cinzento lhe prometeu divorciar-se em breve... ... chegava ao escritório às nove, entrava no seu gabinete, jogava póquer na Internet... ... Limitou-se a ligar a televisão, sintonizando a novela da 4...
segunda-feira, 2 de julho de 2007
Joy Berardo
Ontem, na Gulbenkian
Cor de Rosa!!!
Anomalias - Conto a conta-gotas
Bones, a cão-anomalia
Sempre fora algo para o magrote. Agora exagerava. Despido na noite de carnes e já quase apenas ossos, fintando faróis e esquivando pedradas, o cão levantou de si forças suficientes para ladrar à solidão. Esta, não gostou – olhou-o com desdém e matou-o com o seu hálito de sarjeta imunda. Foi isso no final de Agosto, três semanas depois de Sandra ter partido com o homem de fato cinzento, que lhe deitava olho no escritório da empresa de Gestão, para «uma longa, complicada, mas muito importante reunião de negócios no Algarve, querida...» Do Bones, encontrado alguns dias depois, o melhor amigo de Sandra até à data, não restaram senão pele e ossos que contaminaram a água tépida do «poço dos desejos», como antigamente lhe chamavam e para onde una miúdos da zona o tinham lançado. Num dos prédios próximos, passados alguns dias, lia-se numa folha A4 aposta nos espelhos dos elevadores: «Informamos os senhores condóminos que não conseguimos apurar a origem do mau cheiro que se tem feito sentir nas áreas comuns. Pede-se, por conseguinte, a todos os condóminos que verifiquem se nas suas arrecadações não se encontra algum animal morto ou alguma outra anomalia.»
Cenas da próxima gota:
Um dos condóminos tinha um gato. Misha... Quando o condómino dono do Misha leu a missiva sobre o mau cheiro no elevador... Foi verificar na sua arrecadação e não encontrou nada...
domingo, 1 de julho de 2007
Anomalias - Conto a conta-gotas
O homem do fato cinzento
Chega pontualmente, às nove da manhã, e arruma o seu BMW série 7 no lugar que lhe está reservado na garagem. Sobe, cumprimenta, sorri à secretária que já lhe anda debaixo de olho vai para uns dois meses, e entra no seu gabinete climatizado. Despe o casaco, senta-se no cadeirão confortável, director style, pele genuína, e liga o computador. De seguida, liga-se à Internet. Passa os olhos pelas parangonas dos «desportivos», depois joga um póquer num site para amadores. As horas esvaem-se no ar. Chamadas telefónicas, poucas («Diga que estou em reunião, por favor.»), decisões, raras («Sim, o.k., vamos a isso.»). À hora do almoço volta a vestir o seu belo e impecável casaco, compõe-se no fato ajeitando o nó da gravata, e desce ao restaurante. Come, fartamente, e, no final da refeição, fuma cigarros atrás de cigarros enquanto bebe um café e, ao mesmo tempo, saboreia um medronho. Depois paga, pede a factura para pôr nas despesas, sobe de novo ao gabinete, pisca o olho a Sandra, que se anima por trás da secretária. Uns sites com miúdas, um póquer, um cigarro no hall comum dos escritórios. O futebol de ontem posto em dia. Fim de tarde. Sandra sai. Diz: «Até amanhã, Doutor...»; e ele: «Havemos de tomar um café...» Acaba o último cigarro e volta ao gabinete para de novo vestir o casaco. Um apuro! Por fim, sai, com o ar de quem produziu imenso e de quem justificou amplamente o seu chorudo salário, o seu BMW série 7 («Sabe, Doutor, já tem quase 150 mil quilómetros, talvez fosse a melhor ocasião para trocar...»), o seu lugar reservado na garagem, as suas despesas com refeições, o seu fato impecável. No dia seguinte, a mesma rotina, na semana seguinte, a mesma rotina, no mês seguinte, a mesma rotina, no ano seguinte, a mesma rotina. Assim, dia após dia, vestindo o fato cinzento que invariavelmente veste como quem, nesse acto, veste uma profissão.
Cenas da próxima gota:
... Despido na noite de carnes e já quase apenas ossos... ... Foi isso no final de Agosto... ... Informamos os senhores condóminos que não conseguimos apurar a origem do mau cheiro...
sexta-feira, 29 de junho de 2007
Maus exemplos
Histórias Fulminantes 17
Pintos nos iis
Neurónios ao Ginásio
Sapatilhas, não ténis
Dúvida
Beatificação Fórmula 1
quinta-feira, 28 de junho de 2007
Nódoa Negrão
- Tudo bem, no quente da campanha.
- Quente? Isso lembra-me a minha conta da água...
- O quê, a EPUL continua a comer?
- Queres dizer a EPAL. E de que maneira, acho que me vou queixar ao IC?
- Acho bem, o IC 19 já devia estar resolvido há muito, aquele Seara, sempre a dar em seara alheia mas resolver o que tem de resolver, está quieto!
- Não pá, estava a falar do Instituto do Consumidor.
- Ah, pois, o IRC...
-Não pá...
-Pois, eu sei, pá, se calhar o melhor era fazeres queixa no IRS.
- No IRS! E porquê?
-Então, porque é bem melhor. Um gajo dar na Cultura fica sempre bem. Olha, eu, por mim, extinguia.
- Extinguias o quê, o IPPAR? Mas a culpa é da EPAL!
- Epá, EPAL, EPUL, IPPAR, IRC, IRS, IC19, grande chato que me saíste, pareces um jornalista, pá. Ouve cá, daqui a bocado estás-me a falar da OTA...
-Já agora. O que que é que achas da OTA?
- Sobre a Marina? Bem, sobre a Marina eu acho que...
- Marina, qual Marina?
-Então, a OTA, a Marina Mota, não é dessa que estávamos a falar? Ou estavas a referir-te à Marina de Cascais? Era sobre a primeira, não era? Pois, vai muito bem no teatro que está a fazer...
- Vai, vai, vai mesmo muito bem...
- Então e tu, pá, o que é que andas a tramar?
- Olha, eu preparo um estudo sobre siglas...
- Epá, boa, fico a torcer por ti. Siga pra bingo! Ciau, agora tenho de ir, ainda tenho que passar no IPJ a dizer olá aos velhinhos. Sabes como é, aquele pessoal, volta não volta, ainda vota...
Lá estarei
Rainha do Sótão!
quarta-feira, 27 de junho de 2007
Histórias Fulminantes 16
terça-feira, 26 de junho de 2007
Mega vs Berardo
O Barão
As Viagens de Salazar
Urgências
Kiluanji
A Câmara Municipal de Sines inaugura, dia 1 de Julho, às 19h00, no Centro de Artes de Sines, a exposição "Ngola Bar", do jovem artista angolano Kiluanji Kia Henda, no âmbito da nona edição do Festival Músicas do Mundo. Kiluanji Kia Henda (1979) nasceu em Luanda, onde vive e trabalha. Viajou pelas várias províncias de Angola e dessas viagens resultou o trabalho "4.ª Dimensão", no âmbito da I Trienal de Luanda. Colaborou com vários grupos de acção teatral e artística em Luanda e expôs em feiras de arte e museus na Europa. Recentemente, o seu trabalho foi seleccionado para o projecto de curadoria "Check List Luanda Pop", do Pavilhão Africano da 52.ª Bienal de Veneza (2007), a par de nomes consagrados da arte contemporânea como Ghada Amer, Miquel Barcelò, Jean Michel Basquiat, Marlène Dumas, Viteix, etc. Sob o título de 'Ngola Bar', a exposição que Kia Henda traz ao FMM apresenta trabalhos recentes que partem do local - a paisagem urbana e a natureza angolanas - para a esfera global: a produção de sentidos universais, a evocação da mobilidade sobre a paisagem, a cultura contemporânea das imagens. A exposição, de entrada livre, estará patente até 30 de Setembro, todos os dias, entre as 14h00 e as 20h00.
A CIA e outros ataques

* Imprensa independente como contra-poder, claro, porque uma vez congregada num só grande grupo editorial, adeus imparcialidade e isenção. Nota, a título paralelo: na semana passada, no CCB, aquando da apresentação da nova colecção de livros de bolso que três editoras tomaram conjuntamente em mãos, um dos editores presentes revelou que a ânsia compradora de Pais do Amaral pelas editoras portuguesas também a duas das editoras presentes tinha tocado/atacado. Pela independência que clamam, as duas casas responderam negativamente às propostas. É digno.


