sexta-feira, 13 de julho de 2007

Leituras de Areia

Chesterton. Gilbert Keith Chesterton, um dos grandes escritores britânicos dos séculos XIX/ XX (1874-1936). A Europa-América publica um dos seus clássicos em livro de bolso. «O Homem que era Quinta-Feira» é um magnífico relato político-filosófico em torno dos ideais do anarquismo e da moral humana. Dito mestre do paradoxo, Chesterton tem um discurso denso, elaborado, poético e filosófico. Pena é que o tamanho do corpo da letra desta edição de bolso nos ponha os olhos também em tamanho de bolso... pena também os lapsos de revisão, por vezes graves, muito graves.

Anomalias - Conto a conta-gotas

X

Abílio vai ao tapete

Nem só os árbitros como o que roubou o Sporting são filhos da puta. É que há diversos modos de roubar, e nenhum é pior que os outros. Roubar é roubar. Ganha quem rouba mais, é a única diferença. Depois, há aqueles que sabem roubar e os que não sabem. Os primeiros, roubam e enriquecem. Os segundos, roubam e caem na merda, o mais das vezes atrás das grades. Abílio, o amante de Juliana, é da estirpe dos primeiros. Tire-se-lhe o chapéu que o homem sabe fazer a coisa. O truque, confessou ele a Juliana entre suores e lençóis, é saber aguardar pelo momento exacto. Ao bom malandro cabe-lhe apenas ser paciente, essa é, sem dúvida, a sua maior virtude. Não fez a coisa por menos, foi num outro dia de lençóis, mas também tapetes, que ouviu da Juliana os pensamentos para o ar do seu marido, o Alves, e logo se lhe fez luz. Os pensamentos sobre o silêncio, estarão recordados. A coisa de isso ser um bom negócio. Mas foi mais longe, nada de pacotinhos ou acções nem coisa que o valha, Abílio ia ser o primeiro vendedor de silêncio. Em que formato? Simples, CDs, CDs de silêncio. Um espectáculo de ideia; foi aí que, rejubilando com a sua inteligência, acabou por rolar com Juliana da cama para o tapete. E até lhe soube bem, aquele «leito» duro, o arranhar nas costas. «Ai, Julí, Julí, que ainda vamos fazer as malas mais cedo do que o que podíamos esperar!»

Cenas da próxima gota:

Se bem o pensou, melhor o fez... ... Calado que nem um rato... ... «O Silêncio é de Oiro» pareceu-lhe apropriado... ... «Cansado do mundo? Ouça o silêncio que temos para si.»...

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Anomalias - Conto a conta-gotas

IX.

Hei-de pensar nisso à séria

É de um tipo se atirar ao silêncio. Mas o mundo não vai permitir, o mundo não deixa, o mundo não vai deixar. A garganta do mundo não se cala. Na garganta do mundo cabem todas as mulheres como Juliana e como Sandra e cabem também todas as estações televisivas do mundo, e cabem ainda todos os comentadores do mundo, de todos os jornais, revistas e televisões, e cabe todo o ruído das cidades, dos trânsitos, do lixo musical, dos cães que ladram à solidão e que se calhar deviam calar-se. Há quanto tempo o mundo não se cala? O silêncio? O silêncio não existe, é uma palavra que devia ser erradicada do dicionário. Não há silêncio desde que o mundo nasceu e desde que nasceu que o seu choro se espalha pelos séculos, atravessa os tempos e vem acolher-se nos nossos ouvidos. Porque é aí que o ruído vive, nos nossos ouvidos, é de nós que se alimenta. Havia de ser um bom negócio, o do silêncio. Silêncio em pacotinhos, silêncio engarrafado, silêncio aos gomos, perfumes de silêncio, acções de silêncio, fundos de silêncio, silêncio em suaves prestações, silêncios a prazo, capitais de silêncio. Hei-de pensar nisso a séria, pensa a brincar Alves, o marido de Juliana enquanto pesca umas e outras da conversa do «Jogo Falado».

Cenas da próxima gota:

Nem só os árbitros como o que roubou o Sporting... ... Tire-se-lhe o chapéu que o homem sabe fazer a coisa... ... Os pensamentos sobre o silêncio, estarão recordados... ... «Ai, Julí, Julí, que ainda vamos fazer as malas»...


terça-feira, 10 de julho de 2007

Dádiva

Tive
uma ideia
e
dei-a.

Best of Saramago

Notícia: «O prémio Nobel de Literatura (1998) José Saramago alertou nesta segunda-feira a imprensa colombiana para uma "tentação autoritária" observada em sectores de esquerda que chegaram ao poder na América Latina. José Saramago disse que a esquerda "sofre uma espécie de tentação maligna que é a fragmentação" ao responder a uma pergunta do jornal El Tiempo sobre o ressurgimento de governos desta tendência na América Latina; deu a entender que mantinha suas reservas. "Há uma tendência autoritária em muitos países. Nada restou dos ideais", afirmou o prêmio Nobel, que também adotou um tom crítico com relação aos grupos armados que atuam na Colômbia, incluindo as guerrilhas de esquerda.» Mas onde é que este homem tem andado? Em que mundo tem vivido? Tentação? Só tentação?!

Leituras de Areia

«O Nosso GG em Havana» (Dom Quixote). Escreveu o cubano Pedro Juan Gutiérrez (Matanzas, Cuba, 1950) com a sua verve habitual. Destilando alcoóis e sexo barato quanto baste, tecendo um fresco assaz elucidativo sobre o viver e o sobreviver em Cuba, e em Havana em concreto (cidade à qual já dedicara vários livros). Como mote, um enredo mediano e «apressado», baseado em factos reais ocorridos na década de 50, que tem por protagonista o escritor Graham Greene, alicerçado em duas ou três achegas sobre obscuros interesses político-ideológicos que grassam a ilha de Fidel. Espanta é como Gutiérrez ainda consegue viver e escrever em Cuba!

Anomalias - Conto a conta-gotas

VIII.

Antes a vozinha do Ricardo

Juliana é uma mulher que gosta de falar. Sandra também. As mulheres, em geral, gostam de falar. As suas conversas são como hipermercados, nelas tudo se encontra, todas as histórias são possíveis e todas são passíveis de intermináveis comentários. O marido de Juliana é que já não a suporta. O homem anda desgraçado da vida. Chega a casa ao fim do dia, de rastos, e ainda tem de levar com as histórias do emprego de Juliana. Hoje foi a vez da história da Sandra, a colega que acredita em coincidências e que, ao que parece, viu uma novela na 4 e que não sei quê, e tudo se assemelhava à sua vida e também havia um cão morto! Que diabo, um cão morto!? E isso é notícia? Faz conversa? Uma merda de cão morto!? Há certamente qualquer anomalia na cabeça destas mulheres, resmunga para consigo Alves, o marido de Juliana que está prestes a ter uma coisa má, pois não há maneira de a mulher o deixar ouvir os comentários do Jorge Gabriel ao seu Sporting e ao filho da puta do árbitro que sancionou o golo com a mão no último jogo para a Liga. «Antes a vozinha do Ricardo», pensa.

Cenas da próxima gota:

É de um tipo se atirar ao silêncio... ... Há quanto tempo o mundo não se cala?... ... Havia de ser um bom negócio, o do silêncio... ... pensa a brincar Alves...

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Anomalias - Conto a conta-gotas

VII.

Que giro!


Era curioso como a história da novela da 4 tinha semelhanças com a história e a vizinhança de Sandra. Porque Bones era o nome do cão de Sandra e porque, ao que vão as coincidências, até havia uma Dona Sandra na história que podia muito bem ser... ela! Que giro! Amanhã no escritório já teria pano para mangas de conversa com a Juliana. Sim, porque Sandra lera um livro e, ao contrário do que lá se dizia, acreditava em coincidências. Pois não era uma coincidência a história da novela? E não era uma coincidência ter encontrado a sua alma gémea no seu agora mais-que-tudo homem de fato cinzento? E não era uma coincidência que também ele, à imagem dos seus anteriores homens de fato cinzento, fosse igualmente casado? Claro que sim.


Cenas da próxima gota:

Juliana é uma mulher que gosta de falar... ... O marido de Juliana é que já não... ... Que diabo, um cão morto!? E isso é notícia? Faz conversa? Uma merda de cão morto!?...

Esta vai para o Salazar

«El viajero era ela». O título não engana. Vem na revista do «El Pais» deste domingo e condensa a magnífica história de um oficial do exército britânico que integrou a primeira expedição inglesa que alcançou o topo do Everest. O bravo herói chamava-se, à data, James... Foi isso em 1953. Anos passados, em 1972 a sua vida mudou. James submeteu-se a uma operação de mudança de sexo, passando a responder pela graça de Jan. Hoje, octogenária e avó de nove netos, ela (que era ele) é uma «abuelita» muito especial, tendo-se tornado numa das caras mais famosas da literatura de viagens entre os súbditos/ súbditas de Sua Majestade. Eu, com preocupação, li a história e não deixei de me lembrar do meu intrépido amigo viajante Tiago Salazar, a quem desejo igual sucesso nas letras de andarilho, mas sorte distinta em matéria de manutenção da sua personalidade sexual! É que não me vejo bem, daqui a uns anos, a ir visitar a avózinha Tiga... Ai, hombre!!!

Modernos

O escritor moderno, apercebo-me agora, para além de já frequentar ginásios e apresentar saúde, não tira férias, ou se tira encontra sempre uma oportunidade para responder aos mais diversos reptos. Assim, o escritor moderno opina sobre a palermice das sete maravilhas do mundo e sobre as outras tantas lá do seu quintal (ainda a tvi se lembra de fazer um concurso com as sete maravilhas da casa de famílias portuguesas... aposto que ganhava o quadro com o menino a chorar!), o escritor moderno está presente para dizer de sua justiça sobre o sobreaquecimento global. Ele, digamos, tem algo a dizer. Eu tenho pouco a dizer, venho de férias, a minha maravilha privada chama-se praia e piscina, e a minha contribuição para a salvação do planeta passa pelo abaixamento dos níveis de stress. Está visto que não sou escritor com algo a dizer. Mas também foi por isso mesmo que escolhi este título intelectualóide para este blog.

domingo, 8 de julho de 2007

Enfim, livre!

Aí está, está no «DN» de hoje. Zita Seabra, tire-se-lhe o chapéu, reconhece, em entrevista, os podres do comunismo em que durante anos e anos de «ledo engano» adolescente e juvenil acreditou pia e cegamente e faz um mea culpa. Só espanta pelo tardio desse reconhecimento, espanta também pelo delírio ideológico em que toda aquela gente se embebeu, e em que muitos ainda hoje vivem embriagados. Como Zita diz, e bem, apenas o lado onírico do comunismo, acreditando numa sociedade igualitária (impossível à luz do real social e dos comportamentos humanos; talvez apenas possível em círculos comunitários muito restritos), o distinguiu da brutalidade das mortes propugnadas pela barbárie nazi; com uma agravante, os mortos nazis estão contabilizados (pelo menos em grande parte, ou não houvesse da parte ariana a conhecida obsessão com a contabilização), os mortos comunistas em grande parte foram apagados, cobardemente, da História. Tudo isto Zita reconhece corajosamente, e bem. Mais corajoso teria sido reconhecê-lo noutras alturas, mas a sua coragem vem ainda a tempo, uma vez que ainda hoje muitos dos seus ex-companheiros de Partido insistem em ler a História de outra maneira, ou então não ler estas partes incómodas da História. Saramago é um desses «cegos» (tão curioso, logo ele que escreveu o tão elucidativo «Ensaio Sobre a Cegueira»!), um intelectual que prefere ler a história à sua maneira, de acordo com a cartilha comunista e unitária, que é a visão comunista do mundo e dos dias. E interessante, tanto quanto certíssimo, é o que Zita afirma logo a início: a liberdade é algo de muito difícil, implica a responsabilidade de decidir: «Quando se recupera a liberdade o mundo torna-se muito mais complexo. Não é tão fácil sobreviver. Mas a liberdade é muito boa.» E pensar nos anos de liberdade que Zita perdeu! E pensar nos anos de liberdade que milhares e milhares de pessoas perderam ao longo de décadas e décadas de jugo comunista!

Anomalias - Conto a conta-gotas

VI.

O do 7º esquerdo

Houve então um homem, o do 7º esquerdo, que por acaso era canhoto, politicamente à esquerda, usava risca no cabelo do lado esquerdo e tinha um carro com o volante à esquerda, mas que não acreditava em coincidências, que, perante o berreiro do vizinho, ameaçou suicidar-se, coisa que, ao contrário do senhor Azevedo, do rés-do-chão, podia fazer, já que vivia no 7º e o acto pensado de suicídio consistia num voo livre picado. Todos protestaram ao vê-lo acercar-se perigosamente da marquise que dava para o poço onde um certo cão, de sua graça Bones, fora encontrado, ao que parece para ali lançado por miudagem com requintes de malvadez. Ninguém queria mais publicidade negativa no prédio, já bastava o cão, que nem sequer era de nenhum deles, mas pertencia à Dona Sandra, do prédio ao lado, já bastava o choro do homem que, esperando, não foi atender o amor à sua porta e agora definhava em pranto para todo o sempre. Donde que lhe suplicaram que desistisse dos seus intentos. E foi o senhor Azevedo que, após a mais rápida reunião de condóminos do mundo (coisa para figurar no Guiness, e em adenda tal ponto ficou de se tratar em reunião seguinte), e ainda que a contragosto, algo azedo, comunicou ao senhor do 7º que em troca da sua desistência de pôr fim à vida lhe perdoariam o ano e meio de rendas de condomínio em atraso e a promessa de que ele, no ano seguinte, não teria de assumir a administração do prédio. O homem do 7º esquerdo achou bom o negócio e reentrou com o pé direito em casa. Só mais tarde se lembrou de que não resolvera o problema do barulho com a choradeira do senhor que não atendeu o amor e que por isso continuava num pranto desmedido – qual Maria Madalena qual quê!

Cenas da próxima gota:

Era curioso... ... Porque Bones era o nome do cão de Sandra... ... Que giro!... ... Sim, porque Sandra lera um livro... ... Claro que sim...

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Anomalias - Conto a conta-gotas

V.
A testemunha e a carta

Na novela da 4 havia um homem que esperava. Toda a sua vida tinha esperado. Esperado que a sorte lhe batesse à porta, esperado que o amor lhe batesse à porta. Os dias passavam, a campainha tocava, voltava a tocar, insistia novamente, mas ele nem se mexia. Tinha medo, medo que fosse o azar a bater-lhe à porta. Ou então um daqueles meninos chatos a quererem fazer inquéritos à hora do jantar, ou então o sacana do guarda nocturno (a pé a desoras!) a cobrar não sei o quê ou que mensalidade com um ar de quem nos olha e diz «se não passas para cá a massa parto-te o carro todo», ou, quem sabe até, um par de senhoras idosas a quererem vender a fé de Cristo para ajudar à construção de uma igrejola lá na sua freguesia, quem sabe mesmo, uma testemunha de Jeová perguntando se Deus já me visitara! Certa tarde a campainha da porta soou insistentemente, parecendo mais que quem tocava fosse um cobrador, um daqueles tipos de fato negro apostados em só desandar dali para fora quando as dívidas fossem saldadas. O homem que esperava, que toda a sua vida tinha esperado e que, por medo, nunca atendia a porta, nesse dia estremeceu. Enterrou-se no sofá a ouvir a estridência da campainha à medida que suores frios lhe iam assolando o corpo e, quando finalmente, já ao fim da tarde, quem lhe batia à porta desistiu de o fazer, descobriu que tinha ganho uma brutal enxaqueca. Só alguns dias depois, quando recebeu uma carta registada, soube que perdera a oportunidade da sua vida – o amor batera-lhe à porta e ele não atendera. «Lamentamos informá-lo mas acaba de perder a oportunidade de conhecer o amor da sua vida.» O homem caiu então num choro terrível, num berreiro que mais parecia estarem ali a abrirem um porco à facada, e foi uma chatice. Lá no prédio foi uma enorme chatice porque, a partir desse dia, já ninguém conseguia pregar olho.

Cenas da próxima gota:

Houve então um homem, o do 7º esquerdo... ... Todos protestaram ao vê-lo acercar-se perigosamente da marquise... Donde que lhe suplicaram que desistisse dos seus intentos...

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Anomalias - Conto a conta-gotas

IV.
Sandra também não chorou

Porque o homem de fato cinzento lhe prometeu divorciar-se em breve, porque lhe prometeu aumento salarial, porque lhe prometeu, no futuro próximo, algumas escapadelas ao estrangeiro, quem sabe, já para o mês que vem, ao Brasil. A mulher? Que não, que Sandra não se preocupasse, ele tratava do assunto, trataria do assunto com o mesmo profissionalismo com que conduzia os seus negócios, com a mesma lisura com que vestia diariamente o seu irrepreensível fato cinzento, saía de casa, chegava ao escritório às nove, entrava no seu gabinete, jogava póquer na Internet, almoçava, discutia futebol com os porteiros do prédio, voltava à Internet e depois regressava a casa, noite alta, conduzindo ao som do «Bancada Central». Por tudo isto, por acreditar no seu homem de fato cinzento, Sandra chegou a casa, sentiu um leve mau cheiro no ar, mas nem se lembrou de saber por onde andava o Bones. Sandra, portanto, não chorou. Limitou-se a ligar a televisão, sintonizando a novela da 4.

Cenas da próxima gota:

Na novela da 4 havia um homem que esperava... ... Só alguns dias depois, quando recebeu uma carta registada, soube que perdera a oportunidade da sua vida... ... Chorou horrivelmente...

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Super Bock Super Rock




















Histórias Fulminantes 18

Era uma vez um escritor falhado que a única coisa que conseguia escrever eram inícios de histórias. Tentou então a sua sorte neste domínio, vendendo inícios de histórias a preços módicos, uma vez que, como se sabe, não basta ter uma boa ideia, sendo que, muitas vezes, o mais difícil é levá-las à prática. No caso, escrever as histórias até ao fim. Como se os tempos estivessem maus para o negócio, o escritor falhado apenas conseguiu vender um início de história que começava assim...

Anomalias - Conto a conta-gotas

III.

Misha, volta para casa!

Um dos condóminos tinha um gato. Misha. Misha tinha fugido num dos dias anteriores à morte de Bones. Arriscara a sua sétima vida e, tendo-se cruzado com o azar em forma de automóvel largado na CRIL a mais de 150, não voltou. Desapareceu. Pelo menos foi esse o verbo que se leu, durante os dias seguintes, num tosco papel A4 colado com fita-cola nalguns postes de electricidade do bairro e arredores. Quando o condómino dono do Misha leu a missiva sobre o mau cheiro no elevador, assustou-se à leitura da passagem que falava na hipótese de haver um animal morto numa das arrecadações – uma qualquer anomalia, portanto. Foi verificar na sua arrecadação e não encontrou nada, nem sinal do seu amado Misha. Por isso, não deixou de acreditar, por isso, durante algumas semanas, se pôde ler nos postes de electricidade, e também junto a alguns Multibanco, é bem verdade, um emotivo texto pedindo ao próprio Misha que voltasse para casa, que pedisse aos senhores com quem se cruzasse que lhe telefonassem, que voltasse para casa. «Misha, volta para casa!» A notícia de que afinal o mau cheiro provinha de um cão morto atirado para o fundo de um poço não o fez estremecer, nem obscureceu as lágrimas vertidas por Misha.

Cenas da próxima gota:

Porque o homem de fato cinzento lhe prometeu divorciar-se em breve... ... chegava ao escritório às nove, entrava no seu gabinete, jogava póquer na Internet... ... Limitou-se a ligar a televisão, sintonizando a novela da 4...

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Joy Berardo

Ora aí está, os portugueses descobriram as artes plásticas, a arte contemporânea. Filas e mais filas a entupirem o ego de Joy Berardo (que entretanto alterou o Joe, como podem ver, radiante que se encontra). Pois, mas até domingo, a entrada era gratuita, vamos a ver como doravante as visitas se processam. É que é sabido: é grátes o povo vai, até sendo cultura, carago!

Ontem, na Gulbenkian


Ontem, na Gulbenkian, muita gente de Cabo Verde, creio que no âmbito dos eventos do Fórum O Estado do Mundo.

Desenho da Alice

Ora aí estou eu, em plena forma, bem conservado!

Da série Freiras





Cor de Rosa!!!

É o fim. O Benfica tem nova camisola alternativa. Cor de Rosa!!! Adeus, bons pais de família...

II Corrida aqualidadedosilencio




Anomalias - Conto a conta-gotas

II.

Bones, a cão-anomalia

Sempre fora algo para o magrote. Agora exagerava. Despido na noite de carnes e já quase apenas ossos, fintando faróis e esquivando pedradas, o cão levantou de si forças suficientes para ladrar à solidão. Esta, não gostou – olhou-o com desdém e matou-o com o seu hálito de sarjeta imunda. Foi isso no final de Agosto, três semanas depois de Sandra ter partido com o homem de fato cinzento, que lhe deitava olho no escritório da empresa de Gestão, para «uma longa, complicada, mas muito importante reunião de negócios no Algarve, querida...» Do Bones, encontrado alguns dias depois, o melhor amigo de Sandra até à data, não restaram senão pele e ossos que contaminaram a água tépida do «poço dos desejos», como antigamente lhe chamavam e para onde una miúdos da zona o tinham lançado. Num dos prédios próximos, passados alguns dias, lia-se numa folha A4 aposta nos espelhos dos elevadores: «Informamos os senhores condóminos que não conseguimos apurar a origem do mau cheiro que se tem feito sentir nas áreas comuns. Pede-se, por conseguinte, a todos os condóminos que verifiquem se nas suas arrecadações não se encontra algum animal morto ou alguma outra anomalia.»

Cenas da próxima gota:

Um dos condóminos tinha um gato. Misha... Quando o condómino dono do Misha leu a missiva sobre o mau cheiro no elevador... Foi verificar na sua arrecadação e não encontrou nada...

domingo, 1 de julho de 2007

Anomalias - Conto a conta-gotas

I.

O homem do fato cinzento

Chega pontualmente, às nove da manhã, e arruma o seu BMW série 7 no lugar que lhe está reservado na garagem. Sobe, cumprimenta, sorri à secretária que já lhe anda debaixo de olho vai para uns dois meses, e entra no seu gabinete climatizado. Despe o casaco, senta-se no cadeirão confortável, director style, pele genuína, e liga o computador. De seguida, liga-se à Internet. Passa os olhos pelas parangonas dos «desportivos», depois joga um póquer num site para amadores. As horas esvaem-se no ar. Chamadas telefónicas, poucas («Diga que estou em reunião, por favor.»), decisões, raras («Sim, o.k., vamos a isso.»). À hora do almoço volta a vestir o seu belo e impecável casaco, compõe-se no fato ajeitando o nó da gravata, e desce ao restaurante. Come, fartamente, e, no final da refeição, fuma cigarros atrás de cigarros enquanto bebe um café e, ao mesmo tempo, saboreia um medronho. Depois paga, pede a factura para pôr nas despesas, sobe de novo ao gabinete, pisca o olho a Sandra, que se anima por trás da secretária. Uns sites com miúdas, um póquer, um cigarro no hall comum dos escritórios. O futebol de ontem posto em dia. Fim de tarde. Sandra sai. Diz: «Até amanhã, Doutor...»; e ele: «Havemos de tomar um café...» Acaba o último cigarro e volta ao gabinete para de novo vestir o casaco. Um apuro! Por fim, sai, com o ar de quem produziu imenso e de quem justificou amplamente o seu chorudo salário, o seu BMW série 7 («Sabe, Doutor, já tem quase 150 mil quilómetros, talvez fosse a melhor ocasião para trocar...»), o seu lugar reservado na garagem, as suas despesas com refeições, o seu fato impecável. No dia seguinte, a mesma rotina, na semana seguinte, a mesma rotina, no mês seguinte, a mesma rotina, no ano seguinte, a mesma rotina. Assim, dia após dia, vestindo o fato cinzento que invariavelmente veste como quem, nesse acto, veste uma profissão.

Cenas da próxima gota:

... Despido na noite de carnes e já quase apenas ossos... ... Foi isso no final de Agosto... ... Informamos os senhores condóminos que não conseguimos apurar a origem do mau cheiro...

sexta-feira, 29 de junho de 2007

Maus exemplos

Está já on line, na net, o GodTub. Trata-se de um site que, através de vídeos enviados pelos seus utilizadores (à semelhança do YouTube) pretende pregar os ensinamentos cristãos numa tentativa de ajudar a espalhar a religião na Internet. Outro site similar é o DittyTalk, que, no entanto, tem curiosas peculiaridades. Assim, quando o internauta entra no endereço do DittyTalk é-lhe solicitado que entre em contacto, antes de tudo, com Jesus Cristo, que, atenção, atenção, tem um perfil criado na comunidade e que é adicionado como amigo de cada novo membro assim que este se regista! Curiosamente, Jesus Cristo sempre está online. Pergunto eu: qual será o seu operador de rede? e para onde lhe mandam a factura? e de que material informático dispõe? utiliza anti-virus? e faz downloads ilegais? e a mãe, não o proíbe de tanto tempo em frente ao computador? e os estudos? a escola? Ai, ai, ai, esses maus exemplos vindos de cima!!!

Histórias Fulminantes 17

Era um padre algo duvidoso. Quando foi pregar a «Bíblia» deu uma martelada no dedo que foi um trinta e um! À noite, junto à barraca dos cachorros, quando pediu um prego e um copo de vinho a martelo todos lhe disseram que faria melhor em ir pregar para outra freguesia.

Pintos nos iis

Leio agora que Pinto da Costa interpôs um processo em tribunal contra os Gatos Fedorentos. Pinto contra gatos? E logo quatro? Coitado do pinto!

Neurónios ao Ginásio

Ontem também, na apresentação dos livros de Gonçalo M. Tavares e do Paulo Kellerman, disse-se que o escritor de hoje já não se apresenta pálido e esquálido, é portanto um ser que já frequenta os ginásios. Ou seja, já não canta a formusura do mundo, antes a procura. Imagine-se, António Lobo Antunes a fazer step... ou Agustina Bessa-Luís a fazer body pump... Manuel Alegre, claro, no Body Combat... Eduardo Pitta a fazer Pilates... ou Margarida Rebelo Pinto na Capoeira... e Saramago em Total Condicionamento e Reshape...

Sapatilhas, não ténis

Ontem, ao lavar à mão as sapatilhas (é assim que chamo ao que muitos chamam ténis; ténis para mim é tão-só um jogo com raquetas) gastas e usadas da Alice, a pedirem reforma antecipada urgente, cheguei à conclusão de que foi já há muito tempo que deixei a infância e a adolescência para trás. Tentei lembrar-me da última vez que mudei de calçado por via da sua degradação ou uso ao extremo (como nos tempos de escola e contínuas futeboladas) e não consegui! Bom sinal, por outro lado, sinal de que a Alice aproveita em absoluto os seus dias. Venham mais e mais sapatilhas gastas, sujas e rotas!

Dúvida

A questão é: a cultura é hoje carreira profissional que se deseje e aconselhe a um filho? Pois, talvez os tempos não tenham mudado tanto como isso.

Beatificação Fórmula 1

Fantástico. Depois de protagonizar e sair ileso de um grave acidente quando corria o Grande Prémio do Canadá, o jovem piloto polaco de fórmula 1, Robert Kubika, confessou a amigos mais próximos que acredita que foi João Paulo II quem o ajudou. Como no cockpit não havia lugar para dois, presumo que João Paulo II estaria nesse exacto momento no céu a jogar playstation... Kubika, de 22 anos de idade, parece que tinha o nome do Papa gravado no capacete e sempre se confessou seu seguidor. Para mim, afinal, quem o seguia, e a mais de duzentos por hora, era João Paulo II! Mais extraordinário é que há quem pape estas estórias e agora queira aproveitar para beatificar João Paulo II... Uma beatificação, está de ver, em excesso de velocidade...

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Nódoa Negrão

- Epá, atão, Negrão, tás fixe?
- Tudo bem, no quente da campanha.
- Quente? Isso lembra-me a minha conta da água...
- O quê, a EPUL continua a comer?
- Queres dizer a EPAL. E de que maneira, acho que me vou queixar ao IC?
- Acho bem, o IC 19 já devia estar resolvido há muito, aquele Seara, sempre a dar em seara alheia mas resolver o que tem de resolver, está quieto!
- Não pá, estava a falar do Instituto do Consumidor.
- Ah, pois, o IRC...
-Não pá...
-Pois, eu sei, pá, se calhar o melhor era fazeres queixa no IRS.
- No IRS! E porquê?
-Então, porque é bem melhor. Um gajo dar na Cultura fica sempre bem. Olha, eu, por mim, extinguia.
- Extinguias o quê, o IPPAR? Mas a culpa é da EPAL!
- Epá, EPAL, EPUL, IPPAR, IRC, IRS, IC19, grande chato que me saíste, pareces um jornalista, pá. Ouve cá, daqui a bocado estás-me a falar da OTA...
-Já agora. O que que é que achas da OTA?
- Sobre a Marina? Bem, sobre a Marina eu acho que...
- Marina, qual Marina?
-Então, a OTA, a Marina Mota, não é dessa que estávamos a falar? Ou estavas a referir-te à Marina de Cascais? Era sobre a primeira, não era? Pois, vai muito bem no teatro que está a fazer...
- Vai, vai, vai mesmo muito bem...
- Então e tu, pá, o que é que andas a tramar?
- Olha, eu preparo um estudo sobre siglas...
- Epá, boa, fico a torcer por ti. Siga pra bingo! Ciau, agora tenho de ir, ainda tenho que passar no IPJ a dizer olá aos velhinhos. Sabes como é, aquele pessoal, volta não volta, ainda vota...

Lá estarei

É hoje a tarde, às 18h30, na Bulhosa de Entrecampos. Gonçalo M. Tavares apresenta “Os Mundos Separados que Partilhamos” (Deriva), de Paulo Kellerman, que, por sua vez, apresenta “Breves Notas sobre Medo” (Relógio d’ Água), de Gonçalo M. Tavares.

Pelo flexidespedimento, já!

Derlei no Sporting? Aqui d'el rei!!!

Rainha do Sótão!

Esta agora! Se isto é uma rainha mais valia deixá-la no sótão, onde estava, pelos vistos bem escondidinha e está-se a ver porquê! Rainha! E depois ainda querem que os meninos e as meninas acreditem em histórias de encantar. Isto não é uma rainha, é mais uma ranhosca! Hatshepsut...

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Suite com Freira





Não sei porquê, mas dá-me para fotografar freiras! Acho que gosto de lhes apanhar o ar de fuga que sempre pressinto nos seus passos. Esta vinha um pouco suja, como se tivesse fugido do convento pela calada da noite!

Autárquicas Lx 07 - Lisboa, a sério?

Histórias Fulminantes 16

Como o país era pouco ventoso deram ao homem a função de soprar bandeiras. A cada vez que uma personalidade estrangeira visitava o país lá descia o homem até ao mastro principal, enchia os pulmões e começava a soprar com quantas forças tinha. Um dia o país entrou em guerra e alguém roubou a bandeira que o homem soprava. Sem emprego o homem pôs-se a soprar as ondas do mar a ver se conseguia afastar as esquadras de navios inimigas. Só que isso era muito mais difícil e desse homem nunca mais se soube nada. Foi um ar que lhe deu.

terça-feira, 26 de junho de 2007

Esta agora!

Onde é que eu pus aquela ideia para escrever o meu grande romance?

Dr. House


Nunca vi tanta gente doente por causa de um médico.

Mega vs Berardo


Homenagem fotográfica a la Wahrol marcando a abertura do Museu Berardo no Centro Cultural de Belém, seguida de carta-que-não-sei-se-deixa-augurar-coisa-boa-para-o-futuro-no-que-respeita-às-relações-do-CCB-com-o-outro-lado-do-CCB (vírgula) por-outras-palavras-não-sei-se-não-estaremos-a-assistir-ao-primeiro-tiro-de-uma-guerra-pressentida-e-já-por-muitos-aventada-que-poderá-partir-em-dois-o-ccb!

I Corrida aqualidadedosilencio 07 - seguida de um poema




touro
todo cristo e cornos
arena
coroa em sangue
redonda cruz

e há aplausos como esporas
sorrisos como espadas
caindo o dorso em dor
à carícia bruta
do toureiro elegante

não sei se seriam cinco em ponto
da tarde sei apenas o silêncio vermelho
na paleta da terra
e um rasto mudo trespassando
a praça dos meus olhos

O Barão

Partindo do original de Branquinho da Fonseca, Luís de Sttau Monteiro adaptou ao teatro um dos melhores contos do escritor presencista. «O Barão» está em cena até 22 de Julho, no Teatro da Malaposta, de terça a sábado, às 21h30, e domingos, às 16h00. Há mais de cinquenta anos, longe, no Portugal profundo, um inspector do ensino primário vai fazer uma sindicância a uma escola do concelho. Deparam-se-lhe personagens bizarras, muito diferentes das pessoas da cidade. Têm medo do Barão, que o leva para sua casa. O vinho liberta e aquele que se tem a si mesmo como um javardo revela-se também um poeta... Comungam experiências de vida, com recordações dolorosas, e irmanam-se. Nada vai ficar igual no quotidiano daquele inspector... A encenação é de Castro Guedes, a sugestão é minha.

As Viagens de Salazar

O amigo Tiago Salazar, jornalista que de há muito rabejar de escrita conheço e admiro, vai finalmente dar um livro ao mundo. No título, apesar de tudo bem sacado - embora a minha sugestão (algo arrojada, parece) tenha sido «Quo Vadis, Salazar? -, a expressa indicação do que o traz a formato de lombada e papel: por um lado, as notícias do seu andarilhar pelo mundo (não sei se isso - o já ter estado em quase todo o lado, tal como o Altíssimo - o tem vindo a tonar mais católico, mas isso, enfim, são outros quinhentos por contar...), por outro, a tradução liminar do seu ser: um rapaz de artérias manteigosas. E por isso, por vezes, de mal com o mundo, chateado com o próximo e com os dias. Nestas «Viagens Sentimentais», o amigo Salazar (curiosamente ao contrário do outro, que nunca levantou o rabinho da lusa lousa) perde-se pelo mundo. Mas atenção, tem-se perdido para se reencontrar. É sempre assim, por estranho que pareça, é preciso partir para encontrar. Assim, a cada vez que encontro o trotamundos de apelido duvidoso (ainda para mais ligado, agora, a um editor de nome Marcelo...), ele vem mais cheio: de histórias, de vidas, de cores, sons, aromas, horizontes, também de outras curvas - e talvez por estas tenha vindo a perder uns quilinhos que a barba rala tenta disfarçar como pode. Não consegue e já nem se aguenta para uma partida de ténis, a ela se excusando, pasme-se, por aulitas de ioga! Ao que um homem que já subiu aos Himalaias e que esteve quase a ir ao cume do Evereste chega! Pelo que, amigo Salazar, escute o meu conselho, que eu lhe dou de graça, volte você ao belo naco de lombo, se quiser aos bons iogurtes de antanho, mas volte, que não seja por uns tempos a fim de suas vegetarianas carnes se recomporem para futuras palmilhações do planeta, como de há muito me anda a tentar desencantar, tentando ludibriar as minhas responsabilidades familiares. Termino, e mais lhe digo, se um dia destes acordar na Lua não se espante, pode muito bem ser que, ironias da História, Salazar seja o primeiro português a seguir as pegadas de Armstrong!

Urgências

«O que é que tens de urgente para me dizer?», eis o título a servir de mote a mais uma edição do Urgências, projecto de escrita teatral levado a cabo no Teatro Maria Matos. Este ano, de 5 a 29 do corrente, sobem a palco, sob encenação de Tiago Rodrigues, textos de gente como Inês Menezes, José Luís Peixoto, Rui Cardoso Martins, entre outros. «O que é que eu tenho de urgente para me dizer?», ora aí está, por seu turno, uma boa pergunta que muio boa gente deveria colocar-se antes de dar ao blog.

Kiluanji

A Câmara Municipal de Sines inaugura, dia 1 de Julho, às 19h00, no Centro de Artes de Sines, a exposição "Ngola Bar", do jovem artista angolano Kiluanji Kia Henda, no âmbito da nona edição do Festival Músicas do Mundo. Kiluanji Kia Henda (1979) nasceu em Luanda, onde vive e trabalha. Viajou pelas várias províncias de Angola e dessas viagens resultou o trabalho "4.ª Dimensão", no âmbito da I Trienal de Luanda. Colaborou com vários grupos de acção teatral e artística em Luanda e expôs em feiras de arte e museus na Europa. Recentemente, o seu trabalho foi seleccionado para o projecto de curadoria "Check List Luanda Pop", do Pavilhão Africano da 52.ª Bienal de Veneza (2007), a par de nomes consagrados da arte contemporânea como Ghada Amer, Miquel Barcelò, Jean Michel Basquiat, Marlène Dumas, Viteix, etc. Sob o título de 'Ngola Bar', a exposição que Kia Henda traz ao FMM apresenta trabalhos recentes que partem do local - a paisagem urbana e a natureza angolanas - para a esfera global: a produção de sentidos universais, a evocação da mobilidade sobre a paisagem, a cultura contemporânea das imagens. A exposição, de entrada livre, estará patente até 30 de Setembro, todos os dias, entre as 14h00 e as 20h00.

A CIA e outros ataques


Muito escândalo ainda por aí por causa do mea culpa que a CIA fez relativamente às nódoas que mancham o seu passado. Li um colunista dizer que também só agora as pessoas parecem acreditar em tudo o que ao longo dos anos, a conta-gotas, foi sendo revelado pelos Media, nomeadamente sobre a questão dos métodos de tortura e afins usados pela prestigiada agência constitída em 1947 com o objectivo único de fazer guerra ao comunismo. Tudo em prol da segurança interna dos sagrados Estados Unidos. Sabe-se com que resultados... O 11 de Setembro está aí como termómetro de aferição. Portanto, todos se espantam, mas só agora se espantam, com o reconhecimento de culpa vindo das entranhas sujas da CIA. Por outras palavras, ninguém parece já acreditar nas histórias que a Imprensa vai contando. É pena, a Imprensa constitui hoje, e talvez mais do que nunca, o verdadeiro e único contra-poder *. O livro «Estado de Guerra - A História Secreta da CIA e da Administração Bush», de James Risen, vencedor do Prémio Pulitzer (edição Quid Novi), conta tudo (e contou tudo há bastante tempo) o que, pelos vistos, ninguém quis ouvir. Mesmo se através da voz e depoimentos de muitos dos seus protagonistas. Vale a pena ler.

* Imprensa independente como contra-poder, claro, porque uma vez congregada num só grande grupo editorial, adeus imparcialidade e isenção. Nota, a título paralelo: na semana passada, no CCB, aquando da apresentação da nova colecção de livros de bolso que três editoras tomaram conjuntamente em mãos, um dos editores presentes revelou que a ânsia compradora de Pais do Amaral pelas editoras portuguesas também a duas das editoras presentes tinha tocado/atacado. Pela independência que clamam, as duas casas responderam negativamente às propostas. É digno.