Em Lisboa, últimos dias para ver a bela e singular exposição «O Brilho do Norte», no Museu Nacional de Arte Antiga. Só até 17 de Junho, terça, das 14h às 18h00, e de quarta a domingo, das 10h às 18h00. Para ver, pintura e escultura medievais oriundas do Museu Nacional de Varsóvia. A sério, a não perder. Algumas fotos que lá tirei, de um Cristo Descansando e de Cristo na Cruz.
segunda-feira, 11 de junho de 2007
Útil
«O útil/ só o religioso é útil», escreve Gonçalo M. Tavares em «Investigações, Novalis». Mas, útil no sentido de voto útil? Útil, no sentido de que à falta de melhores explicações?... E nesse caso perigosamente fútil?...
Nem sei a que propósito
Curiosamente, a mesma morte que leva tem o condão de atrair largo número de ausentes à sua celebração, que é o enterro. Porém, logo a seguir, a todos dispersa para sempre.
Em matéria de pormenores...
O artista imita, o criador cria. São realidades distintas; uma, já existe, a outra é inaugurada.
Os Lusíadas salvaram a nado o poeta
sábado, 9 de junho de 2007
Museu Íntimo
Roth
«A religião era uma mentira que tinha reconhecido cedo na vida, e achava ofensivas todas as religiões, considerava sem sentido e pueris as suas patetices supersticiosas, não suportava a sua completa imaturidade - a conversa infantil e a virtude e o rebanho, a avidez dos crentes. Não embarcava em balelas sobre a morte e sobre Deus, nem em obsoletos céus de fantasia. Só havia os nossos corpos, nascidos para viver e morrer nos termos decididos pelos corpos que tinham nascido e morrido antes de nós.»
«Todo-o-Mundo», de Philip Roth
The Sounds
E pronto, ao final do dia 1 do Oeiras Alive, depois de vistos e ouvidos ao vivo os suecos The Sounds, já havia quem dissesse que se podia ir para casa descansado, podendo até fechar-se as portas ao festival. Tudo muito verdade, e a verdade é que a banda de Maja Ivarsson pôs a um canto a prestação de bons rapazes como os Linkin Park (que pouco mais fizeram do que cumprir) ou os Pearl Jam (que se limitaram a oferecer ao público mais do mesmo, embora com entrega plena, é certo). Pena foi que aos The Sounds apenas tenham testemunhado cerca de uma centena de espectadores, relegados que foram para a Tenda no mesmo horário em que tocavam Eddie Vedder e os seus. Como não há bela sem senão, desfrutou-se de um concerto quase concedido em privado e com grande empatia entre músicos e público. Em palco as canções dos dois álbuns lançados até ao momento pela banda: o primeiro, «Living in America», de 2002, o segundo, o novíssimo «Dying to Say This to You». E em palco a energia imparável de Maja, Felix Rodriguez, Johan Bengtsson, Fedrik Nilsson e Jesper Anderberg, mostrando entrega total em hora e meia de concerto que, a deixar marcas, havia de cavar uma cratera no passeio marítimo de Algés, capaz mesmo de incomodar os sonos dos velhos do Restelo que, à mesma hora, se dedicavam a escutar as velhas canções dos Jam... Só isso se pode apontar à organização do Oeiras Alive!, o não terem posto os The Sounds a tocar para as estimadas quarenta e cinco mil pessoas que foram ao primeiro dia das hostilidades. Como a início disse, viemos para casa descansar e podíamos até não voltar que já nos dávamos por satisfeitos. Podíamos, não fossem hoje actuar pela primeira vez em Portugal os The White Stripes, de Jack e Meg White.
sexta-feira, 8 de junho de 2007
quinta-feira, 7 de junho de 2007
Sempre a aprender
O «Diário de Notícias» diz que os elefantes têm uma audição quase sobrenatural porque também ouvem com as patas. E eu que julgava que era por causa do tamanho das orelhas!
The 99 e o Incrível Homem-Papa...


Não é género que nos tenhamos habituado a ver acompanhando os ventos e rumos políticos da actualidade. De qualquer forma, a BD que veio da América sempre se fez acompannhar de sub-reptícias mensagens políticas, dessa forma contribuindo para uma velada expansão do imperialismo norte-americano. Há cerca de dez anos, escrevi para o jornal «Semanário» um texto sobre o assunto, que hei-de ver se encontro e aqui recupero. A questão não é de somenos importância, sobretudo não o foi nos tempos da Guerra Fria em que todas as «armas» contavam no combate à ameaça soviética. E sabe-se como os norte-americanos são férteis em explorar todos e quaisquer veios de triunfo dos seus ideiais e modos de vida. Mas este é só um aspecto que agora começa a reflectir-se. Outros, entretanto, e não menos interessantes, têm vindo à baila. Um, o facto de praticamente na história da Marvel não existirem heróis negros. Um dado a pensar e a não descurar porque, segundo estatíticas recentes no país do Tio Sam, os super-heróis da Marvel têm vindo a perder hordas de fãs. Muito, certamente, pela falta de identificação com as personagens por parte de uma grande fatia populacional de raça negra (e outras) que, desse modo, se sente posta à margem e não se revê nas histórias dos Comics. Fartos deste panorama sectário, racista e imperialista, veio agora a público a notícia de que no Egipto, já a partir de Setembro, passará a ser publicada uma revista de Banda Desenhada com heróis árabes. A publicação, lançada pela Teshkeel Media, com sede no Koweit, chama-se «The 99» e propõe aos leitores uma vasta gama de heróis do mundo árabe, está de ver todos eles verdadeiros mártires ao serviço do islamismo. «99» porquê será esse, nada mais nada menos, o número exacto de heróis a conhecer, cada um representando uma virtude que os muçulmanos acreditam que Alá (Deus) possui. Mais curioso é que, nessa lista, até terá lugar, imagine-se, um português, ou não estivéssemos, como Deus, em todo o lugar!... Naif al-Mutawa é o nome do criador da série, restando aguardar para ver que aventuras nos reserva e quem encarnará as personagens de vilões a Ocidente. Em suma, a BD a ler o espírito dos tempos, como antes já o fizera quando, em 2005, foi lançada em Itália uma BD especial sobre o Papa João Paulo II, o sumo pontífice da Igreja Católica falecido em Abril desse ano. Também nesse ano, e sobre a mesma figura sacerdotal, saiu uma BD na Colômbia apresentando um Papa (dito Incrível Homem-Papa) que retornara a vida com superpoderes, passando a combater o Mal, apresentando-se com uma capa antidemónio, tendo direito a cuecas de castidade e um cinto cheio de utilidades, contendo, entre outras coisas, água benta e vinho da comunhão... Tudo em prol do combate a Satanás!
Couple Coffee
Ouvi-os ontem, pela primeira vez, e o que posso dizer é que cheguei tarde. Cheguei tarde porque "Co'as Tamanquinhas do Zeca" é o segundo disco dos Couple Coffee & Band, que neste novo trabalho oferecem ao melómano um excepcional tributo 'tropical' a Zeca Afonso. Para quem os quiser ouvir ao vivo, eles vão apresentar-se já depois de amanhã em Lisboa, no Onda Jazz, pelas 23h30 para o primeiro de uma série concertos. No dia 30 de Junho, também um sábado, o grupo sobe até ao Porto para pisar o palco do auditório do cinema Passos Manuel. O último concerto desta série tem lugar no MusicBox a 14 de Julho, antecedendo a ida dos Couple Coffee ao Brasil. Os Couple Coffee & Band apresentarão ainda sete temas do novo disco em directo para o programa "Viva a Música" da Antena 1. A transmissão será feita a partir do Teatro da Luz, no dia 14 de Junho, pelas 15h00, e a entrada ao público é livre. No mesmo dia, pelas 22h30, o duo Norton e Luanda, convida J.P. Simões para um dos últimos espectáculos do B.Leza. O casal tem participado habitualmente nas apresentações ao vivo do trabalho a solo do cantor de Coimbra.
Mais informações em www.myspace.com/couplecoffee.
Mais informações em www.myspace.com/couplecoffee.
quarta-feira, 6 de junho de 2007
Amas-me? - Cena 11 Fim
Cena 11
(A mesma sala de estar inicial. Jorge está na exacta posição em que Leonardo se encontrava no início da primeira cena. No fundo do palco, passam cenas da guerra. Ouve-se novamente Wim Mertens. Jorge lê um jornal, Luísa entra com uma revista na mão. Senta-se ao pé de Jorge e estão assim alguns segundos até que ela, fartando-se da revista, a deixa cair em cima da mesa de apoio e, subitamente, pergunta a Leonardo:)
LUÍSA
Amas-me?
JORGE
Se?... Desculpa?
LUÍSA
Não ouviste?
JORGE
Não, não ouvi, podes repetir?
LUÍSA
Não ouves nada, tenho sempre de repetir mais do que uma vez. Leonardo, perguntei-te se me amas. Amas-me?
(As luzes apagam-se. Ficam apenas visíveis as imagens de televisão projectando, ainda e sempre, no fundo do palco, as mesmas imagens de guerra, desta vez em silêncio. Depois, de repente, apagam-se e o pano fecha.)
FIM
(A mesma sala de estar inicial. Jorge está na exacta posição em que Leonardo se encontrava no início da primeira cena. No fundo do palco, passam cenas da guerra. Ouve-se novamente Wim Mertens. Jorge lê um jornal, Luísa entra com uma revista na mão. Senta-se ao pé de Jorge e estão assim alguns segundos até que ela, fartando-se da revista, a deixa cair em cima da mesa de apoio e, subitamente, pergunta a Leonardo:)
LUÍSA
Amas-me?
JORGE
Se?... Desculpa?
LUÍSA
Não ouviste?
JORGE
Não, não ouvi, podes repetir?
LUÍSA
Não ouves nada, tenho sempre de repetir mais do que uma vez. Leonardo, perguntei-te se me amas. Amas-me?
(As luzes apagam-se. Ficam apenas visíveis as imagens de televisão projectando, ainda e sempre, no fundo do palco, as mesmas imagens de guerra, desta vez em silêncio. Depois, de repente, apagam-se e o pano fecha.)
FIM
terça-feira, 5 de junho de 2007
Daniel Gustav Cramer









Em Lisboa, a Vera Cortês Agência (Av. 24 de Julho, 54, 1º Esqº) recebe o trabalho fotográfico de Daniel Gustav Cramer. Para ver, três séries recentes de imagens colhidas na Natureza, colhidas igualmente num sentimento romântico de recolhimento na distância e na vastidão dos espaços do silêncio. Woodland, Underwater e Mountains, dezoito fotografias e um retrato, tudo para afiançar da permanência do Belo, algures no recôndito de nenhures. De preferência, onde não chegue a mão humana. Para ver a partir de 30 de Junho, durante Julho, e de 3 a 7 de Setembro, de terça a sexta, das 11h às 19h, e sábado, das 15h às 20h.
Densitometria
hoje acordei
com espírito de domingo
mas nem sequer
no nariz tinha pingo
acordei com a telha
com pulga atrás da orelha
com humores de velha
e tudo estou em crer
por causa da densitometria
da qual não me escapo
entrando-me raio a raio
até aos ossos
como se estes fossem poços
de petróleo chupados até ao tutano
passa cá umas passas um fulano!
apatece-me é mandá-la
à densitometria e restante terapia
ao raio que a parta
mas é a enfermeira
com ares de enfartadeira
que me diz: despir ali pôr a bata
e aguardar. e eu ridículo
está de ver
bata azul calçando sapatos
mais parecendo ir à caça de carrapatos
depois deitar na cápsula
e aguentar quieto não respira
pode respirar não resinga
pode resingar e eu resingo
que ali preso mais pareço um crápula
de modo que assim hoje
como se fosse domingo
que é o dia que os suicidas escolhem
para se matar
em compasso de vida
a pensar na densitometria óssea
a pensar na densitometria ó...
na densitometria ó... se...
na densitometia ó... se... ao...
na densitometia ó... se... ao... menos
pudesse pôr os ossos daqui
para fora do poema!
com espírito de domingo
mas nem sequer
no nariz tinha pingo
acordei com a telha
com pulga atrás da orelha
com humores de velha
e tudo estou em crer
por causa da densitometria
da qual não me escapo
entrando-me raio a raio
até aos ossos
como se estes fossem poços
de petróleo chupados até ao tutano
passa cá umas passas um fulano!
apatece-me é mandá-la
à densitometria e restante terapia
ao raio que a parta
mas é a enfermeira
com ares de enfartadeira
que me diz: despir ali pôr a bata
e aguardar. e eu ridículo
está de ver
bata azul calçando sapatos
mais parecendo ir à caça de carrapatos
depois deitar na cápsula
e aguentar quieto não respira
pode respirar não resinga
pode resingar e eu resingo
que ali preso mais pareço um crápula
de modo que assim hoje
como se fosse domingo
que é o dia que os suicidas escolhem
para se matar
em compasso de vida
a pensar na densitometria óssea
a pensar na densitometria ó...
na densitometria ó... se...
na densitometia ó... se... ao...
na densitometia ó... se... ao... menos
pudesse pôr os ossos daqui
para fora do poema!
Histórias Fulminantes 11
Um dia, o domador do jardim zoológico, porque a mulher não podia ficar-lhe com o cão, decidiu levá-lo para o trabalho. Apresentou-o aos colegas e, talvez por excesso de confiança, foi pô-lo a brincar com os leões enquanto trabalhava. Os leões gostaram imenso dele. É claro que ao fim do dia nenhum leão foi abatido e só o pobre domador voltou para casa mais abatido do que nunca.
segunda-feira, 4 de junho de 2007
Saramago Vintage
Dia da Criança com sessão na Feira do Livro, em Lisboa. Disseram-me que era de autógrafos, não me disseram que era para ver José Saramago dar autógrafos! Está mal, um jovem e incógnito autor indigna-se e aborrece-se, pensa em desistir, o diabo e o mais que for. A princípio pensei que eram as filas para os transportes por causa da greve geral, depois apercebi-me que aquela gente toda queria era «bilhete» para chegar ao pé do autor nobelizado. Até Alice Vieira, escritora useira e vezeira nisto de autógrafos, quase pôs a esferográfica de molho. Está mal. Nada democrático, senhor Saramago, nada democrático! Ele eram crianças, senhoras respeitosas, jovens adolescentes, senhores bem postos e com carreira, tudo e todos à rasca não fosse o autor refrear a mão cansada e desistir dos encómios la palicianos em matéria autografal... Um dos últimos leitores do autor de «Ensaio sobre a Cegueira» trazia tudo o que tinha lá em casa onde soçobrasse o nome de Saramago, outro dizia voltar ali, perto do mestre, passados vinte anos - a primeira vez que o viu devia ter dez anos, mais coisa menos coisa. Por fim, Saramago deu conta do recado. Semi-olha uma, duas vezes para o lado, a confirmar a dianteira larga para os seus colegas de banca, semi-sorri e continua a assinar. Está mal, um jovem autor aborrece-se e vai daí toca de lhe tirar o retrato quando de partida. O rapaz que lhe disse voltar à sua presença passados vinte anos fez mal as contas e atirou para o Autor: «Até daqui a vinte anos». Saramago sorriu, disse que não, levantou-se e foi-se embora, mãos atrás das costas. Eu, vi-o assim, de partida, e não ambicionei ter filas de leitores à minha espera.
Thank you, Emilio
Fui ao baú dos livros e encontrei este bonito e curioso título de Emilio Salgari. E descobri! Descobri onde foi a nossa Ministra da Educação buscar a ideia para as correcções dos exames de nono ano, em que os erros de grafia não interessam nada. Than Kiú?!! Ai, as más influências do malandro do Salgari, onde terá ido ele, por sua vez, inspirar-se para dar um tal nome a uma personagem?
sexta-feira, 1 de junho de 2007
Tá'se bem. Bute aí kurtir um echame nassional?
Só surpreende vindo de quem vem, do Ministério da Educação. Ou talvez não, talvez não seja mesmo de surpreender, embora, nesse caso, fosse de pensar em alterar a denominação do ministério para Mistério da Educação. Já se sabe que em Portugal há anos e anos que o ensino vem sendo descurado e caindo numa agonia consentida. Assim, como se o Ministério fosse um Doctor Death que assistisse ao lado da cabeceira um pobre Ensino moribundo, ajudando-o, inclusive, a fenecer.
Trata-se de uma agonia que não é de hoje e que encontra fundamento em vários aspectos: a continuada desresponsabilização dos alunos, em grande parte motivada pelas novas teorias socio-pedagógicas (que aparecem assumir que hoje em dia pedir o que quer que seja às crianças é uma violência); a perda de autoridade dos professores perante os alunos (e completa perante os pais destes - os quais quando instados a ir à escola, por qualquer assunto relacionado com os seus filhos, partem do princípio de que a escola é que os trata/ou mal); a degradação dos níveis de exigência ao nível dos programas escolares (os textos de português oriundos de programas televisivos rascas que em tempos surgiram nalguns manuais são disso exemplo); o encerramento de escolas; a degradação dos espaços físicos escolares; a deficiente formação de professores, também, etc.
Curiosamente, todo este panorama tem vindo a degradar-se no tempo de governação socialista. Para quem, recorde-se, o ensino sempre foi tido e dito como uma prioridade e, mesmo, uma paixão (Guterres, lembram-se?), o que hoje se passa não deixa de ser curioso. É certo e sabido, dirão, que as paixões de hoje não são como as de antigamente, vêm e vão ao sabor do vento, e as estatísticas de divórcios em Portugal estão aí para o demonstrar. E, sim, provavelmente isso explicará muitas coisas. Mas não tudo.
Quando, no final dos anos 80, dei aulas durante dois anos em escolas preparatórias no Algarve, já então pude confirmar o cenário que acima referi. Pôr meninos na rua (fora da aula) por mau comportamento, falta de educação ou perturbação da aula, era quase um escândalo. Tinha de ser muito bem justificado, a posteriori, junto do Conselho Directivo o qual nos fazia sentir que o Ministério não apreciava tais estatísticas. Tal como não apreciava que as escolas apresentassem maus índices de sucesso escolar, donde que, mais grave ainda, era dar negativas em quantidade numa turma, mesmo que tal se justificasse. Dar 1, numa escala de 0 a 5, era praticamente impensável - numa das escolas isso era mesmo proibido, por se achar que um aluno jamais fica no grau 1 da apreendizagem, ou seja, aprende sempre alguma coisa - mesmo que os seus exames atestem o contrário. O professor que ousasse dar um 1 sabia, de resto, que iria ter de penar muito em Conselhos de Turma e Directivo, sendo mesmo olhado de soslaio por olhares que questionariam a sua propensão para o ensino. Com azar, teria ainda grandes probabilidades de receber, nos dias seguintes, os esmerados e preocupados pais das crianças respectivas, inquirindo e querendo saber os porquês do insucesso e que mal teriam feito os seus filhos... Quanto a estes, aos alunos, ter 1 ou zero, ir para a rua ou não ir, ia dar ao mesmo, na certeza (em muitos casos) que nas reuniões finais de notas a boa vontade de alguns professores e a latente exigência ministerial do sucesso escolar acabaria por lhes dar a passagem de ano, nem que fosse apenas para o aluno x ou y ficar apenas com o preparatório completo. Aconteceu.
Creio que era Jean Piaget que dizia qualquer coisa do género: quando se falha no treino de um animal a culpa é sempre do treinador, quando se falha no "treino/ ensino" de uma criança a culpa é sempre da criança. Sem prejuízo da verdade das palavras citadas, o que se tem vindo a passar no ensino português é o levar ao máximo dessa máxima, passe a redundância. Com tudo o que de negativo isso encerra, ou seja, à criança de hoje tudo se permite, tudo se compreende, nada se pede, em nada se responsabiliza, em tudo se desculpabiliza. Como se as crianças, hoje em dia, apenas tivessem direitos (que devem tê-los, claro) e nenhuns deveres. É assim o panorama no admirável novo mundo pedagógico em que reinam os ditames de novas ciências educacionais disto e daquilo, pedagogia assim e assada, para aqui e para acolá!
Ora, está de ver que tudo isto vai contra as próprias crianças. É certo e sabido que a hiperprotecção não raro resulta em crianças pouco capazes de sozinhas enfrentarem o mundo moderno. Estranho é ver como um Ministério da Educação pactua com tudo isto. Mais, e pior, fomenta este estado de coisas. É o que se retira desta história recente dos exames nacionais de 9º ano, cujos critérios de avaliação insultam a inteligência de qualquer país avançado. Tudo porque permitem aos alunos que possam amealhar pontos em respostas com «muitas insuficiências» de ordem «ortográfica, lexical, morfológica e sintáctica»!!! E mais nada, senhora ministra? Traduzindo por miúdos, cada vez mais se passa a ideia de que estudar não é preciso, saber não é preciso. Curiosamente, tudo isto vem a lume na época em que o Governo insiste na importância das novas oportunidades, o mesmo Governo que parece não querer apostar sequer nas primeiras oportunidades, que são aquelas que o ensino escolar, em princípio, concede/ deve conceder aos alunos.
É tudo muito claro, quando a Ministra diz que não faz mal dar erros, importa antes interpretar, o que está a fazer é dar um valente pontapé em Fernando Pessoa e em Camões. O que, convenhamos, não deixa de ser espantoso no país que se diz de poetas. Grave é que tais mentes brilhantes ministeriais não percebam, não vejam, não leiam, não interpretem que tais atitudes apenas hipotecam as oportunidades futuras dos alunos com que agora se mostram condescendentes. Mais, hipotecam também as oportunidades futuras do próprio país, pois um país futuro que não tenha gente que saiba falar e escrever correctamente, não é país nem é nada. O que a senhora ministra não percebe é algo de fundamental: é que é a língua (correctamente falada e escrita) que permite chegar ao Outro, é ela que permite o estabelecer de laços, de relações, de interagir, de pensar e interpretar o mundo. E só sabendo ler e escrever (sem falhas) poderão algum dia as crianças de hoje fazer parte desse mundo, isto é, actuando nele activamente e não de uma forma passiva. Que a Ministra da Educação e o Governo não consigam interpretar estas evidências é que causa atordoamento. Em interpretação, por conseguinte, nota Zero. Resta saber se tal gente sabe escrever sem erros...
Dia da Criança
Hoje, dia da Criança, um poema para os mais pequeninos.
jantar
entre gatos
entre garfos
ao jantar:
“grrrrrrrrato
pelo manjar
vizinho”
jantar
entre gatos
entre garfos
ao jantar:
“grrrrrrrrato
pelo manjar
vizinho”
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