sábado, 26 de maio de 2007

Autárquicas LX 07

Antes de ir, só o primeiro cartaz de campanha que acaba de me chegar.

Até logo

E agora uma pausa para café e um excelente livro que estou a ler: «A Chave de Casa», de Tatiana Salem Levy, editado pela Cotovia. Podem encontrar-me mais logo, à tarde, 17h00, na Feira do Livro de Lisboa, Pavilhão da Caminho. A ver o que trago da feira para contar! Depois, à noite, «Uma Solidão Demasiado Ruidosa», no Convento das Mónicas, às 21h30.

Histórias Fulminantes 9

Quando todos falavam, havia um homem que cavava silêncio dentro do seu peito. Cavou, cavou, cavou até que encontrou o coração. Falando-lhe, ao coração, apenas teve como resposta que o silêncio era o parente mais próximo da morte. Quando quis responder já era tarde. Respeitando o silêncio todos calaram a sua morte.

O dia de ontem

Sem hipóteses

Bebés- 1 Dave Matthews Band - 0

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Portugall

país ao lume brando dos costumes
país do pisca pisca o olho à menina
picante e very mística país quantitativo e tal
país do petisco a meio da tarde tremoço e imperial
país do têgêvê e da transvanguarda da cuspidela
para o chão pútrido dos costumes
dos delatores às vezes imagine-se doutores
e país apesar do sol nem sempre interessante
sobretudo quando o dito cuspo aplicado às licenciaturas
e quejandas urdiduras político imposturas
sem respeito pela coluna vertical e étical
país pouco distante da gravata
da bravata e da torpe negociata
país ocidental país osso e dental
pós-homogeneizado gordo e meio gordo
... os esforços são os possíveis prometemos em breve
sim passe por cá mais tarde talvez mas...
país dizia das comichões em torno de francis
coça(r)carneiro e dos pobres impobres para consumo
país certamente dos melhores do mundo de grandes e-
ventos que o vento levará; é inegável as conquistas
o vint5dabril o vint5febril e fabril
país dos anos anteriores estruturalmente ineficazes
kamicases case studies para os doutores (a vírgula,
dôtoravírgula!) país das pontes para o sul e para as praias
país dos recordes para o guiness
país do business
das prestações e das frustrações quando
ainda ontem dez de ontem dia da desg
raça os pobres preservando a greve
para o dia de amanhã que o dinamismo nem sempre
revela um avanço e lanço a lanço o lenço na testa
lenço a lenço maria subindo maria descendo Ah
salazar uma estátua um museu um happening fantástico
asmático porém vitorioso e as forças desarmadas
em força para áfrica em forca para af
rica em forca que assim se afirma a capacidade multiespeculativa
dos interesses irmãos que um país por explorar
requer sempre um país explorador
país flash-franco-atirador país elementar e alimentar
do almoço ao jantar é estar é estar depois sair
a contas para a suíça em força arejar arej ar ar e jar
ar e j ar ar ar AR!

A idade

«Chegou à idade e foi para o desemprego.» Sim, esta também.

Cinzento

Ontem, vi parte do programa de António Barreto na RTP2. E ouvi uma frase tremendamente triste e cinzenta, dita pela boca de uma criancinha que, numa aula dos tempos da Velha Senhora, lia da sebenta: «Quando chegou à idade foi para a tropa.»

Eleições

Os números dizem que há doze candidatos à Câmara de Lisboa. Será um para cada mês? Ou um para cada poleiro?

Quando nasce torta tarde ou nunca se endireita a OTA

Do tempo, dirão uns. Certo é que Mário Lino e Almeida Santos não estão bem. Defendendo a dama de ambos, dita OTA, dita a norte de Lisboa, o primeiro avançou que construí-la a sul seria equivalente a estar a investir num projecto no deserto; estaríamos, por conseguinte, a construir um aeroporto para os mouros - o que, de resto, não espantaria depois de há poucas semanas o governo ter investido na construção de um campo de futebol na Palestina. Chama-se a isto aprofundamento das relações luso-árabes, o que só nos fica bem à luz das seculares relações que temos com os sucessores de Tarik. Depois, não querendo ficar atrás, Almeida Santos chegou à conclusão de que a OTA é o melhor local para se avançar com o projecto porque em Lisboa há pontes (nem mais, pontes, assim dessas, sobre o Tejo) e com um aeroporto a Sul, na hipótese de um atentado terrorista às ditas pontes, a coisa ficaria muito complicada para se chegar à capital!!! Entretanto, fonte do Parlamento informou os jornalistas que tais declarações foram veiculadas depois de os dois políticos terem dado uma forte cabeçada quando ambos colidiram ao virar de uma esquina nos passos perdidos do hemiciclo.

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Charrua na rua? Xô... rua!

Cara senhora Margarida Moreira,

Tem graça, tem muita graça, a história do professor que foi por si suspenso pelo facto de ter, pretensamente, dito uma piada acerca da licenciatura de Sócrates, o nosso primeiro. Presumo que a excelentíssima directora da DREN, senhora certamente de elevados padrões de exigência humorística, não tenha gostado da suposta anedota de Fernando Charrua e vai daí que tenha decidido instaurar-lhe um processo. Eu, confesso-lhe, também não percebi onde estava a piada naquilo que ele terá dito. Na verdade, ouvi muitas outras anedotas muito mais deliciosas e bem sacadas. Se quiser ouvi-las, escreva-me. Mas pergunto-me se não se terá excedido no caso, se era efectivamente necessário agir com tamanha rispidez? Saberá certamente que nem todos nascemos com a mesma propensão para o humor! E por isso me pergunto de onde lhe virá essa sua tão declarada falta de humor que a leva a enveredar por processos tão pidescos quanto este desagradável caso à frente do qual apôs o seu nome? Será a senhora assim tão mazinha ou para o torcida ou, na verdade, aquilo de que não gostou foi mesmo da falta de piada da piada? Já sei, foi isso mesmo, queria rir-se a bom rir e Charrua desiludiu-a! Ora, compreenda, nem todos são formados em Ciências da Comunicação, pelo que nem todos têm a capacidade de fazer humor que a senhora terá, isto, naturalmente, na assunção de que o riso é o primeiro instrumento ao serviço da boa comunicação. Vá lá, pronto, conte-nos antes a senhora a sua anedota sobre o caso Sócrates. Não sabe nenhuma? Não acredito, peça ao seu filho ou filha, vai ver que eles a ajudam. Ou então... então peça uma piada de jeito aos milhões de portugueses anónimos, vai ver que eles sabem, vai ver que o seu pedido terá retorno, é que nós andamos imensamente voltados para o humor. Olhe, os Gato Fedorento, está a ver? Nem mais, aposto que das graçolas daqueles malandros para com o primeiro já gostou! Ou não? Não?... Bem, nesse caso... nesse caso, olhe, peça a suspensão do país. Então, adeus, sorria, mas cuidado, não o faça junto de José Sócrates quando este for aí à DREN visitá-la, não vá um qualquer seu colega pensar que a senhora está a rir-se jocosamente do nosso primeiro e vir a denunciá-la.

cumprimentos,

P.S. Caso não consiga mesmo sorrir com nada, mas mesmo nada, caso nem um esboço ínfimo lhe aflore a um canto dos lábios, deixo-lhe aqui uma proposta de leitura que talvez a possa ajudar: chama-se «De Boas Erecções Está o Inferno Cheio». Assina Luís Graça. Procure nas livrarias. A sério, olhe que não é graça. Experimente, vai ver que vai gostar.

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Pois, Braga...


Também a Braga irá deslocar-se, já a 26 do corrente, Perry Blake, para apresentação do recente «Canyon Songs». Frequentemente apelidado de um dos segredos mais bem guardados do mundo, Blake lançou cinco álbuns, uma banda sonora do filme francês “Presque Rien” e um álbum ao vivo gravado com uma orquestra no “Cirque Royale”, em Bruxelas, compondo, desta forma, uma discografia dominada por uma elegante pop de travo clássico. Em «Canyon Songs», álbum que tem como “single” de apresentação o tema «Do we only fall in love in love songs?», o cantor, que se distingue pela voz que soa como «um violino solitário numa sala vazia», revela-se ainda em melodiosas baladas como «Gemini», «The Ballad of Billy Bob» ou «Sometimes».
Com Glenn Garrett no baixo e na guitarra acústica e Mark Murphy no piano, Perry Blake aproveita ainda esta passagem única por Portugal para dar voz aos temas «Songbird», «The Letter», «If You See Mary», «Somethings Still Reminds You» e «Have I Let You Down».

Em Braga, no próximo dia 1 de Junho (22h00), não vou poder estar, mas bem que gostaria, pois será aí, na cidade minhota, que Andrew Bird irá apresentar ao vivo o seu álbum mais recente, «Armchair Apocrypha». Depois do sucesso alcançado em 2005 com «The Mysterious Production of Eggs», Bird, músico que desde cedo se destacou pelo virtuoso violino e pelo melódico assobio, posicionando-se nas margens de uma sonoridade indie/folk, regressa agora com um trabalho claramente inspirado em novas influências musicais. Desta feita, a proposta segue rumo a uma “pop” alternativa de arranjos intricados, melodias agradáveis e elegantes analogias às grandes questões da vida. Andrew Bird abre o álbum com «Fiery Crash», tema que fala da impossibilidade de entrar num avião sem pensar nos atentados de 11 de Setembro, seguindo com «Scynthian Empires», Bird imagina os tempos de hoje vistos pelos olhos de futuros arqueólogos. Em Braga, o público terá ainda a oportunidade de assistir à interpretação ao vivo de «Herectics», «Armchairs», «Yawny at the Apocalypse», «Spare-Ohs» ou «Simple X», tema que resultou da colaboração com o músico de electrónica Martin Dosh. Natural de Chicago, Andrew Bird iniciou a sua formação no violino aos quatro anos, sendo amiúde conotado com nomes como Jeff Buckley, Thom Yorke ou Rufus Wainwright. Eu gosto e ouço em repeat.

Amas-me? - Cenas 4 a 9

Cena 4

(Luísa está sozinha na sala. Tem um ar desolado, fala de si para si, questionando-se sem parecer obter respostas.)

LUÍSA
O amor, o amor... o que é o amor? Onde anda o amor? Onde pára o amor? Onde nasce o amor? Onde se esconde o amor? Como se descobre o amor? Como se alimenta o amor? Como se perde o amor?...


Cena 5

(Luísa com os pais, os três sentados, o pai e a mãe à sua frente, ela com as mãos de Luísa nas suas. A partir daqui, dada a brevidade das cenas, a luz de palco apagar-se-á e abrir-se-á sucessivamente intercalando a saída e a entrada das personagens.)

MÃE
O amor, filha, é uma promessa, um voto para a vida, um querer a todo o instante, um lutar até ao fim.

PAI
Até que a morte nos separe.
(Diz, sorrindo e olhando com ternura para a mulher que lhe responde também com um sorriso.)


Cena 6

(Luísa com a filha adolescente, vestida à moda, com os adereços correspondentes.)

FILHA
O amor, mãe? Foi isso que perguntaste? Iá, ‘tou a ver qu’hoje ‘tás naqueles dias bué da maus. Ó mãe, o existencialismo já passou de moda há um coche de tempo! Curte a vida, olha, vai às compras!


Cena 7

(Luísa com Raquel.)

RAQUEL
Ó amiga, ainda estás assim? Eu avisei-te, os dias de hoje não estão para os poetas. O amor? O amor está nos livros e tu sabes que já quase ninguém lê.


Cena 8

(Luísa com a empregada, reconhecível pela farda respectiva.)

EMPREGADA
Ai, Dr.ª. Luísa, sabe, eu cá já não sou destes tempos, não sei que lhe diga, os meus olhos vêem por vezes coisas mas eu não me acredito. Hoje é tudo uma grande complicação, a juventude, sabe, ele é eles com eles, ele é elas com elas, já nada se parece com nada! Eu cá não sei, que nunca tive educação para julgar fosse quem fosse, mas uma pessoa baralha-se. Ai se o meu Raimundo ainda por cá andasse, o que ele não havia de dizer disto tudo. Olhe, Dr.ª, é o amor como o fazem, o amor hoje já não vale nada, compra-se por tuta e meia e já está, negócio feito, adeusinho, até ao próximo. É pena, é pena porque no meio disto tudo, deste comércio sentimental, só ninguém sabe é o preço do verdadeiro amor.

Cena 9

(Luísa, outra vez sozinha. Vê televisão, novamente passam imagens da guerra no Líbano. Ouve-se «La Noche de Mi Mal», de Lila Downs. Aos poucos a música deixa de se ouvir, apenas, no entanto, o suficiente para se ouvir Luísa, depois volta a escutar-se alto.)

LUÍSA
Como haveremos de encontrar o amor entre ruínas?

(As imagens de guerra, tal como a música, mantêm-se por alguns segundos, depois Luísa pega no comando e desliga a televisão. O palco fica escuro. )

Marionetas em Évora


De 5 a 10 de Junho irá decorrer a 10ª edição da Bienal Internacional de Marionetas de Évora. Um vasto cartaz propõe 78 espectáculos em diferentes espaços da cidade que envolvem 31 companhias oriundas de diferentes cantos do mundo (Argentina, República Checa, Itália, Inglaterra, Brasil, Espanha, França, Japão, Alemanha e Portugal). Para ver também, uma grande exposição de marionetas portuguesas organizada em parceria com a Câmara Municipal de Évora e a Direcção Regional de Cultura do Alentejo que ficará patente ao público, na galeria do Convento dos Remédios, até ao final do mês de Setembro. A Évora com as crianças, não se deixem entorpecer pelos fios da inércia!

Ainda as lágrimas de Torga

Ainda a história de outro dia, das pretensas lágrimas que Eduardo Lourenço disse Miguel Torga ter gasto ao saber que Salazar sabia poemas seus de cor. Nem mais a propósito de tal enigma, que me custa acreditar ser verídico (provavelmente ter-se-á tratado de um cisco ou uma poeira que num momento particular tenha entrado no olho do escritor e poeta - é sabido que os poetas trazem os olhos sempre muito abertos para o mundo), vai agora ser publicado o certamente muito interessante e elucidativo livro «Miguel Torga e a PIDE - A repressão e os escritores no Estado Novo», de Renato Nunes. O título insere-se na Colecção Minerva História, dirigida pelo Prof. Doutor Luís Reis Torgal, segundo o qual «este será o primeiro livro desta colecção inteiramente dedicado ao estudo de um processo da PIDE, no contexto de uma série a que poderíamos chamar “A repressão e os escritores”. Seguir-se-ão livros sobre os casos de Aquilino Ribeiro e de Fernando Namora». Adiante. Interessa saber que nesta obra o autor procura analisar os processos instruídos pela polícia política a um dos mais consagrados escritores portugueses do século XX - Miguel Torga, pseudónimo adoptado por Adolfo Correia da Rocha. Em anexo, o autor colige ainda uma breve cronologia dos processos de Miguel Torga na polícia política e também alguns originais e, por vezes, surpreendentes documentos extraídos dos processos do escritor na PVDE/PIDE/DGS. A quem interesse, o livro será lançado no próximo dia 26 de Maio, pelas 16h30, na Livraria Minerva (Rua de Macau 52, Bairro Norton de Matos), em Coimbra. A apresentação será feita pela Prof. Doutora Irene Flunser Pimentel.

terça-feira, 22 de maio de 2007

Histórias Fulminantes 8

Careca de saber que quem não arrisca não petisca, Silvio Calvo tornou-se apreciador de bigodes. Eles tinham passado de moda, as mulheres já não os apreciavam, apenas os monárquicos e alguns treinadores de futebol os ostentavam ainda com crepuscular orgulho. Então, fazendo deslocações a casa ou aos locais de trabalho, Silvio Calvo chegava a passar uma ou duas horas em apreciações do género: «Mas que bela bigodaça!»; «Que formidável bigode!»; «Que pontas extraordinárias!» Certo dia, a um dos bigodes que lhe apresentaram disse dele «ser o mais belo bigode do mundo!» Ouvindo tal dislate, um candidato a rei, de bigodes farfalhudos e dos tempos da outra dinastia logo, logo contestou o veredicto, inclusive, interpondo a Silvio um processo sumaríssimo em tribunal. Acusado de corrupção, Sílvio Calvo nunca mais se livrou da alcunha «o bigorrupto».

Dave Matthews


E sexta, claro, no Pavilhão Atlântico, desta feita, com a primeira visita a Portugal da Dave Matthews Band. Pois é, é pena, os bilhetes estão esgotadíssimos e este tem fortes probabilidades a ser o concerto do ano.

Diego El Cigala


Mais conhecido pelo seu trabalho em dupla com o pianista e compositor cubano Bebo Valdés, o madrileno Diego El Cigala é um dos mais elogiados cantores de flamenco. O registo «Lágrimas Negras» e o DVD «Blanco Y Negro» lançaram El Cigala para uma carreira fora de fronteiras, mas o espanhol conta com mais de dez anos de carreira a solo e vários registos discográficos que lhe valeram os mais rasgados elogios. Cigala nasceu e cresceu no seio de uma família de artistas e desde cedo se apercebeu de que queria cantar. Aos 12 anos recebeu o primeiro prémio num concurso de flamenco e chamou à atenção de nomes como Tomatito e Vicente Amigo, que começaram a requisitar a sua colaboração. Em meados dos anos 90, iniciou a sua carreira a solo com o álbum «Undebel» e contou com as colaborações e guitarras de figuras respeitadas como Tomatito e David Amaya. Depois da sua estreia discográfica, passou a ser visto como uma das grandes esperanças do flamenco e a sua voz conquistou mais e mais adeptos. Com o virar do milénio, El Cigala editou «Entre Vareta y Canasta» e «Corren Tiempos de Alegría», com um ano de intervalo. Em 2003, conquistou prémios e elogios um pouco por todo o mundo com o supracitado «Lágrimas Negras», um cruzamento genial entre o flamenco e o bolero de Bebo Valdés. Diego El Cigala vem agora a Lisboa, ao CCB, dois anos depois de editar o álbum «Picasso en mis Ojos», dedicado ao pintor Pablo Picasso, com as preciosas colaborações de Paco de Lucía, Raimundo Amador e Tomatito. O registo valeu-lhe um Grammy Latino para melhor álbum de flamenco e será um dos pontos altos do concerto em Lisboa. Onde, é certo, irei estar.

Gira Discos


A partir de Estocolmo os irmãos Olof Dreijer e Karin Dreijer Andersson continuam a solidificar a carreira dos The Knife. Existindo desde 1999, o primeiro disco chegou em 2001, «The Knife», surpreendendo pela singularidade do seu som, fundindo electrónica com estranhas melodias e sons tubulares. Vieram depois «Deep Cuts» (2003) e «Hannah med H Soundtrack» (do mesmo ano). Seguiu-se um intervalo maior a que ouseram fim com a edição de «Silent Shout» (2006). Agora, para início de Julho, anuncia-se uma edição tripla de «Silent Shout», um três em um que apresenta a banda pela primeira vez ao vivo, em DVD, num dos seus espectáculos-performances que resultam em verdadeiras experiências audiovisuais. O registo em causa foi gravado num concerto havido em Gotenburgo, a 12 de Abril do ano passado, e inclui também os excepcionais (cheios de animação gráfica) vídeoclips de algumas canções. Por cá, estará à venda até final do mês. Até lá, podem desde já fazer o gosto ao ouvido clicando no endereço abaixo.


segunda-feira, 21 de maio de 2007

E agora para um momento poético

Requiem

nas castelhanas fronteiras as televisões
e a Imprensa em geral
da séria até àquela que ninguém leva a mal
acotovelam-se rente aos penhascos à beira dos
precipícios
entre os satélites e as bifanas
que o caso outorgou aos comerciantes de olho
para o negócio. do país havido ninguém sabe
desapareceu
ninguém viu e já poucos querem saber –
confessa uma velha espanhola enquanto assegura
aos jornalistas que há muito o via mal parado
à deriva assim mais ou menos como no livro
do Saramago – se o jornalista lera?
a verdade
é que desta feita como helena – e se como ela era belo
o país à beira-mal espantado – foi o país raptado
enquanto os políticos e a nata almoçavam
crème de la crème à beira-mar das férias
e do ócio acumulado.
pouca gente sobrou para assistir à tragédia.
há quem compreenda e lastime a sua dor
e há quem os acuse lhes aponte o dedo aos malandros
nada menos que doutorandos de negligência
e que nisso reincidiam mesmo ano após ano
afundando as contas no mar negro do défice
enjeitando a justiça e a educação
enquanto as crianças cresciam ainda
na esperança de um futuro. doce e ingénua ilusão.
agora ninguém sabe dele – apenas um estrangeiro que trabalhava
nas obras do projecto de construção do escadote
mais alto do mundo – recorde com o qual o país concorria ao guiness –
diz acreditar que o viu passar ao longe
de mão dada com um senhor que parecia o Tio Sam
mas não tem a certeza pelo menos
foi o que adiantou aos jornalistas espanhóis
esclarecendo que ali fora parar quando do alto
do seu trabalho espreitou a oportunidade para dar o salto
e mais não disse senão que o desculpassem
que tinha de ir aos urinóis.
quanto aos emigrantes espalhados pelo mundo que sonhavam um dia
voltar a casa choram o fado e o destino conjurado. no âmbito
secreto das suas investigações
afirma a polícia internacional que
Espanha naturalmente é o suspeito número um –
dizem as más línguas que nunca engoliram muito bem
as histórias de Badajoz, Olivença e aquilo dos flipes
engasgando-se também com os resultados do hóquei
em patins. o rei isto ouvindo
enquanto embala os netos sentindo-se beliscado
é claro e corta a direito em castelhano escorreito
indigna-se e diz que tal atoarda pode beliscar a imagem
do seu reino referindo aliás que o vizinho sempre foi
muito desleixado esquecendo está de ver
as férias infantis no Estoril outrora amado.
de Inglaterra não se colheu mais sorte na verdade
apenas mau olhado coisa de resto em que o país
do príncipe das orelhas grandes é olheiro e vezado.
a rainha mãe essa preocupava-se antes
em mover cordelinhos – não sei se da renda ou crochê –
para que o neto não se constipe no frio iraquiano.
o facto é que passados os dias
e do país não havendo pistas
da sua memória já pouco resta senão
um conjunto de fotografias em formato de postal
que todos agora procuram e confirmam em imagens
afixadas nas paredes e no jornal
entre um tremoço uma cerveja e um bocejo matinal.
curiosamente e ao contrário de outros casos recentes
– e nisso pelo menos o país foi original – ninguém (a)parece
interessado em oferecer alvíssaras pelo seu paradeiro
fazendo julgar que se tratava o nosso
de um país pardieiro. no entretanto
o tempo impiedoso passa
os pais chorosos fiam-se na virgem
as virgens naturalmente perdem a virgindade
muitas vezes raptada
e as televisões aos poucos vão-se alimentando
de notícias outras
ao fundo da piscina aproveitando
as últimas horas antes da partida
assegurando um jornalista com veia poético-profética
que as esperanças de voltar a ver o país
são menores do que encontrar
o princípio dos incêndios ou a origem
das nuvens. garante contudo
que é preciso não apagar a chama
despede-se diz adeus
acabou-se a mama.

Urban Talking





Cinemascópio


Tendo o DVD do primeiro filme do Quarteto Fantástico sido o mais lucrativo de sempre para a Twentieth Century Fox, o famoso estúdio de Hollywood não se poupou a esforços para repetir a receita milionária. Hollywood quer, o homem sonha e a obra nasce, aí está, a estrear no dia 14 de Junho, «Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado». Se no mundo dos príncipes e das princesas, todas as histórias acabam com um casamento, no mundo dos super-heróis, mais precisamente no novo filme do Quarteto Fantástico, o casamento não é o culminar mas sim o prelúdio de mais uma aventura. O casamento entre Reed Richards (Senhor Fantástico) e Sue Storm (Mulher Invisível) é mítico. Para os fãs da banda-desenhada, é mesmo equivalente em importância ao casamento histórico de Diana com o príncipe Carlos. Não é por isso de admirar que algumas das primeiras fotos do novo filme a aparecer na internet fossem de Jessica Alba enquanto Sue Storm a caminhar em direcção ao altar. No entanto, o conto de fadas é abruptamente interrompido quando acontecimentos estranhos um pouco por todo o globo exigem a atenção do Quarteto Fantástico. O novo filme é baseado essencialmente nos episódios 48-50 da banda desenhada, fazendo também referência a alguns elementos dos episódios 57-60, nos quais o Surfista Prateado encontra o Dr. Doom, assim como a momentos da mais recente série intitulada «Ultimate Extinction». Uma das maiores atracções deste filme é o aparecimento de uma nova personagem, o Surfista Prateado, considerado por muitos uma das personagens mais interessantes da banda-desenhada da Marvel. O Surfista Prateado vem até à terra com o intuito de preparar a destruição do planeta em nome de Galactus, o seu terrível amo cujo passatempo é destruir mundos. O que torna esta personagem tão interessante é o facto de não ser um vilão linear. A sua história e a forma como se tornou aliado de Galactus são na verdade bastante trágicas. À medida que o caos toma conta da terra, o Quarteto Fantástico terá de descobrir qual o mistério do Surfista e ao mesmo tempo enfrentar o seu arqui-inimigo, o Dr. Doom. A personagem do Surfista Prateado foi criada digitalmente, podendo assim ser o mais fiel possível à personagem que os fãs estão habituados a ver em papel. A qualidade dos efeitos-especias promete surpreender e não se fica pelo Surfista Prateado; também os poderes dos quatro Fantásticos e o fato da Coisa foram melhorados. Tudo isto para contrariar a tendência, ou seja, para que a sequela seja visivelmente melhor que o original, como diz o realizador Tim Story. No plano visual e dos efeitos especiais, é preciso também fazer referência ao fabuloso novo carro que serve de meio de transporte dos quatro super-heróis. Pequenos e graúdos, todos a bordo!

Rocks e Pac(otilha)

Fim-de-semana rockeiro. Tudo começou na sexta, com o aguardado concerto dos Bloc Party, de Kele Okerere. Coliseu cheio, noite estival, a baixa repleta de gente. Ali, frente a frente com o musical de La Feria... Foi um concerto que nem deslumbrou nem desmereceu a visita. «Silent Alarm» mostrou porque continua a ser o melhor álbum da banda, no mais faltou aos britânicos mise en scène ou sentido de espectáculo - coisa vista, por exemplo, ali mesmo, poucos dias antes, com os Scissor Sisters, ou há largos meses no extraordinário concerto dos Muse, no Campo Pequeno. Já para sábado, com o prometedor Creamfields. Gente, muita gente, e muita caminhada a fazer - a repensar, com urgência, e para aquele espaço, a matéria do estacionamento ou acessibilidades. Depois, o sobe desce, nem sempre apetecível, se bem que bom para que ninguém tape a vista a ninguém. O melhor: Placebo e Wraygunn - Paulo Furtado, o Legendary Tiger Man, é a autêntica incarnação do rock, o one man show total, a quem, no caso, não foi concedido um dos melhores palcos (vá lá saber-se porquê) e que teve ainda de suportar uma inacreditável falha sonoplástica. O pior: as bebedeiras e as filas. O mais era fumo... e juro que não eram índios! Pior também: Pac, dos Da Weasel, um homem que prega a revolução, embora dando a entender que nada tem a dizer senão as já gastas palavras de ordem pela paz e contra o racismo. OK, fazê-lo nunca será demais, é preciso, contudo, reinventar o modo de dizer. No mais, no caso de Pac, parece que a única maneira que ele encontrou para tal é disparar asneiras a torto e a direito, num palavreado reles e ruim, como se tal fosse sinónimo de liberdade. Pretensa liberdade, naturalmente, e apenas a esconder a ausência de mensagens. Nem Martin Luther King, nem Ghandi, nem Mandela, nem movimento cultural algum, precisaram jamais de dizer uma só asneira para moverem milhões em torno dos seus ideais, políticos, estéticos ou sociais. Asneirar em público como Pac é mera presunção e má-educação. Caro Pac, um novo capítulo, precisa-se!

sábado, 19 de maio de 2007

Portugal dos Pequeninos

Hoje de manhã, no café, enquanto lia, passando-me ao largo dos ouvidos, na mesa próxima: «O Costa, votar nesse gajo?... Então agora Lisboa vai ficar entregue aos monhés?!»

Amas-me? - Cena 3

Cena 3


LUÍSA
Leo, Leo. Não podes deixar um bocadinho a televisão e conversar um pouco?

LEONARDO
Sobre a guerra, presumo, sobre isto?
(Apontando para o local onde se viam as imagens projectadas. Depois sentam-se, ele pega num jornal que começa a folhear passando os olhos às parangonas.)

LUÍSA
Não, não é sobre a guerra, estou cansada da guerra, a guerra não tem fim.

LEONARDO
Tens razão, tu e o Clausewitz, acho que foi ele que o disse, a paz são meros intervalos de guerra, ou qualquer coisa assim parecida.

LUÍSA
Pois... e o que há de novo? Nada, presumo, matam-se uns aos outros, culpam-se uns aos outros, choram uns e outros e tudo isso enquanto Deus se ri.

LEONARDO
Também concordo, acho que Deus quando fez o mundo enganou-se nos cálculos para aquela zona, enfim, não dispôs lá muito bem ali o xadrez das religiões na relação com a geografia.

LUÍSA
Leo, podemos não falar mais em guerra?

LEONARDO
Não falar é sinónimo de esquecer, tapar os olhos, ou já te esqueceste do que aconteceu com a sagrada União Europeia quando não tratou, logo ao início, de pôr fim ao conflito? Tu viste, todos vimos, a coisa caiu-nos em cima.

LUÍSA
Sim, eu sei, Leonardo, mas agora gostava de mudar de assunto. Sinto que... temos de conversar.

LEONARDO
Conversar? E não é o que temos estado a fazer?

LUÍSA
De amor, Leonardo, conversar sobre o amor, sobre nós.

LEONARDO
O amor, outra vez o amor, sempre o amor. É só isso que te interessa, Luísa?

LUÍSA
E não achas que é assunto suficientemente importante? Só, dizes tu! Quer dizer, primeiro ficas muito impressionado com as imagens de guerra que todos os dias atacam os telejornais, ficas até chocado, e depois, quando te falo de amor, retiras ao assunto toda e qualquer importância.

LEONARDO
Seja como for, não estou a ver onde queres chegar.

LUÍSA
Leo, é o amor que temos que alimentar, até como antídoto contra o ódio e as lágrimas. E o amor, como antigamente a educação, começa em casa. Se todos nas suas casas alimentassem o amor diariamente...

LEONARDO
Luísa, essas revistas «cor de rosa» que andas a ler não te fazem nada bem. Alimentar o amor? Isso parece o título de um daqueles livros de apresentadora de programas televisivos matinais! Alimentar o amor!?

LUÍSA
Sim, alimentar o amor, é isso mesmo, que mal tem? Não gostas da imagem? Eu explico-te porque não gostas dela. Porque o amor já não te interessa, porque há muito deixou de te interessar.
(Chora um pouco e tapa a cara com as mãos.)

LEONARDO
(Ligeiramente sensibilizado, aproxima-se dela e abraça-a, confortando-a.)
Então, Luísa, vá lá, vá lá, não é bem assim, tu sabes que não é assim..

LUÍSA
É, é tal e qual assim. Já não sabes o que é o amor. Deixaste fugir o teu amor. Perdeste-o, e amor não se deixa perder. O amor protege-se.

LEONARDO
Vá lá, Luísa, deixa-te disso, deixa-te de estares sempre a questionar o rumo das coisas. Lembras-te, houve um tempo em que não havia perguntas e éramos felizes...

LUÍSA
Claro, claro que sim, mas o silêncio, o silêncio desses tempos sem perguntas completávamo-lo com o amor, com a música dos nossos beijos, com o ciciar das nossas carícias, com os nossos sussurros na cama. O tempo era para nós invisível, ausente, não o sentíamos, era como se não passasse por nós, não nos ligasse ou não quisesse interromper o nosso amor. Mas agora, agora, o silêncio... Tu, enche-lo com a televisão, com os jornais, com o futebol e as guerras, ainda e sempre os malditos futebóis e as malditas guerras. Eu, eu ao contrário, encho o silêncio com a dor e a tristeza.

LEONARDO
Luísa, não estás a exagerar um pouco?

LUÍSA
Achas? Achas mesmo que estou a exagerar? Então, vá, façamos um teste, um teste muito simples. Amas-me?

LEONARDO
Outra vez?

LUÍSA
Amas-me ou não?

LEONARDO
É mesmo preciso...

LUÍSA
Responde, amas-me ou não?

LEONARDO
Talvez...

LUÍSA
Talvez? Estás a ver, não me amas. Porque não consegues dizê-lo. Apesar de tudo, ao menos não estás a mentir, devia resignar-me. Mas quê!!! Porque é que eu sou assim, tão tola, tão coração de manteiga, tão parva, com esta idade e nestes tempos a acreditar ainda na possibilidade do amor. Bem me diz a Raquel...

LEONARDO
Ora, a Raquel, já cá faltava a conselheira dos afectos.

LUÍSA
Não a ofendas, de sentimentos percebe muito mais do que tu, e dela eu sei o que posso esperar, sei que posso contar com a amizade dela para sempre...

LEONARDO
Fia-te nessas convicções, fia-te.

LUÍSA
Isso, tenta justificar-te passando a ideia de que todos são como tu. Ela bem que me avisou, os meus pais também, só que a eles tu deste bem a volta, puseste os teus sorrisos mais falsos, rodeaste-os de atenções e delicadezas... também foi sol de pouca dura, só até ao casamento, depois, vê-los cá em casa, só quando o rei fazia anos, assim fosse tua a vontade. Que parva, que parva, que infantil eu fui!

LEONARDO
Luísa, olha o drama que estás a fazer e porquê, por causa de uma palavra, uma maldita palavra!

LUÍSA
Uma palavra?! Ou a palavra? Tão bem que me enganaste. Acredita, Leonardo, eu escolhi o amor, escolhi amar, não escolhi o sexo, o prazer puro e duro, mecânico, como coelhos chineses, o sexo com hora marcada. E eu podia tê-lo feito, provavelmente ter-me-ia custado muito menos caro, provavelmente não estaria para aqui agora neste estado. Mas não, nunca aprendi a separar a razão do coração. Já tu...

LEONARDO
Já tu?...

LUÍSA
Já tu, a força do teu amor é nula, tem a força do papel de uma serpentina.

LEONARDO
Ora, Luísa, de facto, não vives neste mundo, ainda acreditas no amor pelo amor. O meu amor tem a força que tem, tem a força de um contrato...

LUÍSA
Exactamente, um contrato, os tão famosos contratos, cuja letra se encontra mais morta do que nunca. Um contrato, e tu estás fora, completamente fora do seu espírito. Vives a forma e basta-te, não é assim? Juro-te, não consigo compreender. A princípio, eras tão... tão... real, tão autêntico, tão verdadeiro, tão conforme à letra do nosso contrato, do casamento! Lembras-te? Até chegaste a levar-me a dançar boleros, creio que até me disseste ao ouvido, quando rodopiávamos, que o amor mais puro era o dos boleros, aqueles amores, as histórias que os boleros cantavam. E hoje?... Conseguirás, ao menos, dar-me uma definição de amor?

LEONARDO
Olha, Luísa, não sei, que tal «amor é fogo...»

LUÍSA
... que arde lentamente». Vá lá Leonardo, consegues melhor do que isso, não estás a ser nada original, aliás há muito que o deixaste de ser, hoje pareces uma personagem, pareces um actor na pele de um homem que deixou morrer-lhe o coração. «O amor é fogo que arde lentamente»... Não consegues uma outra definição? Tua, não de empréstimo, ou nunca soubeste o que é o amor para agora o poderes dizer? Que tal um frio a correr-nos a espinha, sei lá, que tal atirar pedras à Lua para que esta se apague quando o nosso amor não está, não nos ama, não nos quer, uma coisa assim...

LEONARDO
Por favor, poupa-me, tenho tudo menos cara de actor. Achas que me pareço com um actor?

LUÍSA
Acho, na realidade acho mesmo. E acho que as palavras na tua boca cada vez mais se transformam em vento e mal saem cá para fora se vestem de luto. Precisamente, é isso, o amor na tua boca é um luto. És cada vez mais uma máquina, a máquina que sai de casa para o trabalho, do trabalho para casa e depois se põe em frente à televisão, como se o mundo te preocupasse por aí além. É tão fácil preocuparmo-nos com o mundo sentados em frente a uma televisão e depois não mexer uma palha para alterar seja o que for.

LEONARDO
O.k. Luísa, O.k., sou uma máquina, sou o que tu quiseres, quem sou para te contradizer, de resto? Mas, olha, importas-te que ligue a televisão, só para ver o que está a dar? Importas-te, para desanuviar, que tal?

LUÍSA
Importo, por acaso até me importo. Olha, vai para o quarto ou para a cozinha ver o que quiseres, hoje fico eu aqui. Importas-te? Na minha sala, a ver o que me apetece, por uma vez? Pode ser? Obrigada.

(Leonardo sai de cena. Luísa aponta com o telecomando para o fundo de sala e novamente se acende a televisão passando, uma outra vez, imagens da guerra. Ouve-se «One», dos U2, na voz de Johnny Cash. Luísa olha alguns momentos para o écran e depois chora. Depois de alguns momentos a luz apaga-se. )

sexta-feira, 18 de maio de 2007

Go Graal Blues Band

E com tanta edição de discos e reedições disco e daquilo, para quando a repescagem em CD da melhor banda de rock/ blues portuguesa?



Para quem tenha dúvidas acerca da música que se vai fazendo por cá.

quinta-feira, 17 de maio de 2007

E agora para um momento poético


Vem
1.

lá fora chove
a noite grita açoitada pelo vento
as ruas acoitam-se no vazio
e as árvores inclinam-se
num desassossego de braços como se fossem poemas
prestes a explodir na sede dos dedos
prestes a quebrar nas hastes do medo

nem um carro nem um só corpo
cruzando a solidão
a cidade perdeu a alma
liquefez-se em bruma
e só a espaços
no lancinante grito das sirenes
os bombeiros parecem lutar
contra a intempérie acudindo aos relâmpagos
que se deitam sobre os telhados
às enchentes que ameaçam
as mãos agarradas ao medo

vem
não fujas não te escondas
debaixo dos lençóis é apenas o mundo
em convulsão e esse branco
ainda com cheiro a amaciador e goma
não é mais do que uma frágil luz
que um só lamber de frio
a todo o instante
virá quebrar

por isso
vem
não tapes os ouvidos com as mãos
não ponhas o som da televisão mais alto
não te enganes com a música
e as estratégias habituais dos psiquiatras

(quase sempre de perfis psicopatas)

esquece naturalmente as avé marias
quando muito substitui-as por comprimidos
a horas certas a ver se o mundo
amaina e não desaba sobre nós

aceita antes que a noite é a nossa mais
cristalina certeza
que sempre virá por nós
que uma tempestade é apenas um sinal
e que os seus braços cegos
como insectos bruxuleando contra a luz
das lâmpadas sempre te encontrão
tal como as águas que escorrem lá fora
conhecem já o caminho do mar
desdenhando as distâncias as curvas e
contracurvas as rotundas os sinais
de trânsito

(mesmo que de sentido proibido)

não não mudes o canal

(o mundo aí não é mais belo)

isso quando muito fuma um cigarro
ilumina a tua paz
e vem deitar-te aqui
junto ao meu peito onde o vento
não bate a chuva não corre e os trovões se detêm
vem traz o frio e o choro
cerra os olhos se quiseres
inspira bem fundo
entrega-me o teu medo
exila-te da tua pele por inteiro oferece
todos os teus temores
tranca as janelas corre as persianas
vem

e sorri
com os olhos na tempestade
olha-a com olhos cúmplices
de tormenta
sabe e aceita
que a vida é uma lágrima
uma tempestade
um relâmpago
um trovão
uma noite

vem chora vai passar
a noite vai passar
tudo vai passar
toma o meu peito
bebe do seu branco
não deixes que o sangue
se aproxime do coração em demasia
olha vê ali lá fora

vês?
vês a chuva já em cinzas?

apaga o cigarro
vem

Histórias Fulminantes 7

O senhor Takahashi pretendeu um dia saber qual seria a cor da verdade. Depois de muito pensar e tendo ficado em branco, chegou à conclusão de que a verdade, a ter cor, deveria ser negra. Mas essa era a pior verdade a que poderia ter chegado e nesse instante não quis saber mais nada. Fechou simplesmente os olhos e até hoje aguarda a grande catástrofe.

Lágrimas

Na revista «Pública» do fim-de-semana passado, Eduardo Lourenço concedeu uma grande entrevista. Focando diversos temas, às tantas o pensador recordou uma conversa havida com Miguel Torga. Dizia-lhe o escritor de «Bichos», recordando o passado, que a certa altura soubera, por pessoa interposta, que o ditador português sabia de cor alguns poemas seus. «Lembro-me de o Torga me ter contado uma história que se passou com um ministro de Salazar, o Leite Pinto, que ia ao Brasil. O Torga tinha estado lá e era muito conhecido no Brasil, de modo que podia servir como uma espécie de cartão-de-visita, mesmo sendo hostilizado cá dentro. Ora, esse Leite Pinto, antes de partir, foi-se despedir de Salazar e, nessa visita, começou a recitar um poema do Torga. O mais interessante é que Salazar continuou o poema, e acabou de o dizer. O Torga contou-me isto com lágrimas nos olhos. A vida é muito complicada.» As lágrimas de Torga, devo dizer, só me comovem, e só as entendo, por via da sensibilidade maior do médico-escritor. De resto, nada de muito espantar, creio que qualquer poeta que escreva é bem capaz de se comover ou emocionar ao ver que alguém se aproximou de tal maneira do seu dizer poético a ponto de decorar as suas palavras. Pensar que se é lido é uma ideia agradável, melhor é constatar que na realidade isso acontece. Tudo isto, porém, sendo muito complicado, dá ainda que pensar no estranho apelo que as artes exercem sobre os espíritos ditadores. E nesta matéria, como não recordar o pequeno homenzinho de bigode patético, de sua triste graça Adolf Hitler. Saberão, certamente, que por duas vezes Hitler tentou ingressar na Academia de Artes de Viena. Sem êxito! E talvez, infelizmente, pois caso tivesse sido aceite quem sabe a sua arte (boa ou má) o tivesse salvo e, sobretudo, salvo a Humanidade de um dos seus quadros históricos mais negros e torpes. Tais recusas, na verdade, bem poderão ter sido as causadoras do desastre artístico em que o mundo cairia às suas mãos. Contudo, o seu apreço pelas artes esteve sempre lá, permaneceu, como quem tivesse decorado um poema e o recitasse à laia de grande sentimental. Ao longo do seu «reinado», Hitler utilizou sempre a arte/ as artes como meio para implementar o seu projecto político megalómano. Orientando os seus sonhos criadores para uma estética muito peculiar, obviamente sempre muito propagandística e enaltecedora das qualidades superiores arianas, Hitler foi, à sua maneira, um «artista». Ou pelo menos assim se tinha em conta. E até podia muito bem ser verdade, ou verdadeiro, o seu amor às artes, Hitler podia saber de cor imensos poemas, podia ter magníficos sonhos arquitecturais, cinematográficos ou até literários, mas isso, nada disso o salvou de se instituir como «pintor» da mais cruel vilania que o mundo já conheceu. Do mesmo modo, também Salazar podia saber o Torga todo, o Camões inteiro, o Pessoa e os seus heterónimos de trás para a frente, mas nenhuma lágrima sua, nenhum verso seu poderia jamais salvar o mundo.

Onde é que já ouvi isto?

http://www.youtube.com/watch?v=U9Mz-NhZnHY

Cliquem no endereço acima; e esta, hein?

Uma boa ideia

T-Shirt Dê-me Um Abraço

Valor: 2€
Para adquirir/encomendar, contacte Associação Abraço:
Maria José Magalhães – 217997506
E-mail: mjose.magalhaes@abraco.pt


Photo-London

De 31 de Maio até 3 de Junho, Londres torna-se capital da fotografia ao abrir portas à quarta edição da Photo-London. Tudo se vai passar em Old Billingsgate Walk (16 Lower Thames Street, EC3R 6DX, London) e… e é pena não poder ver ao vivo as propostas mais recentes no campo fotográfico que ali trarão os 33 galeristas participantes. Como mostra central, uma grande exposição de seis fotógrafos britânicos, trabalhando géneros como o fotojornalismo, o documentário ou a fotografia mais experimentalista. Don McCulin, Tom Wood, Paul Graham, Simon Norfolk, Corinne Day e Julia Fullerton-Batten, são os fotógrafos representados. Eu não vou poder lá estar, fica o convite a quem puder fazê-lo.
















quarta-feira, 16 de maio de 2007

Jorge de Sena

Carta a Meus Filhos
Sobre os fuzilamentos de Goya

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de urna classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadela de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém
está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão. Confesso que
multas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

Vencedores e Vencida

Há dois dias, já não sei se na SIC se na TVI, vi umas imagens chocantes, quem ambos os canais passaram. Era pela hora do jantar, crianças acordadas, portanto. No Iraque, uma mulher curda era apedrejada até à morte por homens selvagens, arautos da moral e dos bons costumes que (lhes) ditam (às suas mentes atrofiadas) não poder uma mulher curda apaixonar-se por uma homem de uma qualquer outra étnia. Em suma, ela ama e é morta, eles matam e vivem. Para piorar o caso, as nossas brilhantes cabeças pensantes das direcções de informação das televisões supracitadas resolveram passar as imagens; lá foram dizendo que eram chocantes, que não se recomendavam a pessoas sensíveis, etc. As balelas costumeiras e vezeiras em gente que só tem em mente a captação de audiências a qualquer custo. E de nada serviu ter-se dito, nos últimos meses, o quão nefastas foram as imagens que as mesmas cadeias televisivas de todo o mundo passaram mostrando quer o enforcamento de Saddam Hussein, quer os preparativos insanos do jovem estudante universitário que há poucas semanas disparou a torto e a direito matando mais de trinta pessoas. Interessa à TVI e à SIC que haja criancinhas acordadas àquela hora eventualmente em frente das televisões? Não, não interessa nada, interessa-lhes apenas o sangue. Depois vêm, muito preocupados, exibir reportagens sobre a violência infantil. Depois, preocupam-se imenso com a pequena Madeleine e os Rui Pedros do mundo. Porque para eles mostrar aquelas imagens aviltantes àquela hora não é uma violência infantil, deverá ser antes entendido como pedagogia, certamente... Para piorar, na edição de ontem do «Diário de Notícias» (leram bem), numa «breve» não assinada, o diário vangloriava-se de ter mostrado as imagens do facto aos seus leitores muito antes daquelas duas televisões as terem passado em horário nobre (que mais parecia o horário Nobre, tal o apetite voraz pelo sangue e pela carne...). Não sei, meus filhos, que mundo é este que será o vosso, como diria Jorge de Sena, mas às vezes tenho vergonha desta gente que se diz jornalista.

Micro Filmes 1

Sleeping Beauty